12 junho 2011
11 junho 2011
TURISMO
Um Porto seguro a conhecer pessoas fernandas novas.
Um morto é duro feito pão amanhecido no inferno.
Uma fuga para Londres com frio de viver.
Uma ruga não esconde as tuas longicidades.
Suma já daqui para eu poder sentir saudades.
Ruma para a linda Berlim e pixa o resto do muro.
Arruma a bagagem antes de entrar na berlinda.
Faça um furo no cartão postal do céu em cinzas.
Fumo enquanto Paris se incendeia entre minhas pernas.
Entro na favela sem tantos calos nos pés.
Calo a boca para que não haja língua nenhuma.
Falo babelês com tradução subcutânea.
Injeção de gás nos balões tão altos agora.
Colisão de automóveis nunca impediu de partir.
Avião atrasa pelo bando de pássaros frente à cabine.
Melhor levar a bicicleta sem marchas.
Asas do desejo me fazem espirrar na biblioteca.
Há um anjo próximo a sussurrar vertigem.
Linguagem dos mapas coloridos nos livros.
Litros de mensagens na garrafa só de araque.
Emborca gargalo do vinho e não paga taxa de embarque.
Desemboca no Chuí insustentável chão de cachoeira.
Comeu poeira na estrada de sal paradise lost.
Maus andarilhos detestam trocadilhos assim.
Mas no sim apanham caronas sem trocados.
Dedo polegar ao lado e pernas à mostra.
Mochila nas costas.
Qual será o novo fim?
Passagem.
A sorte passou pela fronteira.
O passaporte agora foi cancelado.

10 junho 2011
Joseph Hart Vaudeville - 10
por Vítor Queiroz
NOS CAPÍTULOS ANTERIORES choveram pontos e vírgulas. Raiva, boatos e tacões de bota.
O Sr. Joseph Hart, o dono, a hora e a vez do Joseph Hart Vaudeville chateou-se. Palhaços esculhambavam o patrão.
Léguas e léguas de uma rodovia fumegante – bruto calor e uma puta chuva – os bufos arranchariam num posto de gasolina ou seguiram para o próximo espetáculo? Não sei.
Bia O ´Brien Hart e Renata Havel preparavam-se para soltar o gogó juntas enquanto os histriões secavam suas roupas, afagavam jumentos cachorros e leões amestrados, davam nós em suas tramas de muitas cordas, estendiam lonas no quequé.
Capítulo XVI
SUNSET GUN
Bomba de gás, ferrugem – cal viva, um casal de pombos arrulhando, paredes brancas – caducava a tarde.
Revólver [ ......................................38pt. ] RUDOLPH SCHMIDT COLT ALVO PONTARIA SMITH&WESSON. Asfalto enfumaçado.
Capítulo XVII
O GOGÓ DA GLÓRIA
Bia Havel, a garganta, a glote firme. Arfava, soluços, faúlas, peito alto, já trouxe a voz para a tarde. O Gogó da Glória. O Quando, entretanto. Semíramis Semíramis estrelas.
Renata O ´Brien coça o punho, aperta os lábios. Já trouxe as sílabas tortas da solfa para a tarde, para o posto de gasolina. Beira de estrada [ ............... 15pt. ].
Renata Havel braços dados, sobrancelha apontada. Alvo certeiro faz brilharem versos fulgurantes, talha dourada, anjos barrocos under cordas paupérrimas. Nos vagões humildes de um vaudeville qualquer achtung!
Blues anéis d´oiro under nacht die bru der nacht uma voz. Mulher, garganta fendida, cantando rios obscuros na beira da estrada. Bia O ´Brien Hart vai chorar? Palavras estreladas. Appoggiaturas cruéis.
Já trouxeram, as madames, as esposas de Joseph Hart, uma própria, uma mesma, uma única. Mulher . Vai [vão] chorar?
Quando, entretanto.
O GOGÓ DA GLÓRIA
sotto voce
Sete estrelas, sete cabritinhos
sete vestidos
pastoreiam o gogó da glória
na beira da estrada.
Mamãe remendava
seus paninhos
bordados: Filha, quando
bem velhinha estiver
essa agulha torta
na tapera vazia
que linhas torcerei?
Sete pérolas, sete cabritinhos
sete estrelas
pastoreavam o gogó da glória
numa tarde de verão.
Que botões finos
apontarão para mim
o caminho da feira,
o travesseiro, o jardim,
as pedras, as facas
a volta do parafuso,
as cacimbas e as romãs?
Sete pérolas, sete cabritinhos
sete estrelas
pastoreiam o gogó da glória
na beira da cova.
Papai tirava coelhos
da cartola
surrada: Filha, quando
bem velhinha estiver
essa garganta rouca
no picadeiro vazio
quais truques balbuciarei?
Sete estrelas, sete cabritinhos
sete vestidos
pastoreavam o gogó da glória
numa noite de verão.
Jesusmariajosé! Bia Havel e Renata O ´Brien ( e vice-versa? ) é tudo uma mulher só, apenas. Prontofudeu. Quatro pulmões que juntos respiram, ó voltas translúcidas de uma canção, dois corações entediados [ .... 4pt. ] Na beira da estrada.
Joseph Hart, então, mes amis, é bígamo ou não é? Responda rápido!
JOSEPH HART ENTÃO, MES AMIS, É BIGAMO OU NÃO É? RESPONDA RÁPDO!
NÃO PERCA! NA TERÇA-FEIRA, DIA 28/06, OS OUTROS HISTRIÕES E, ATÉ MESMO, O PRÓPRIO DONO DO VAUDEVILLE PRONUNCIAR-SE-ÃO A RESPEITO DESTA GRAVÍSSIMA OCORRÊNCIA.
PODE, AFINAL, UMA MULHERES SER DUAS MULHER? VOCÊ NÃO PERDE POR ESPERAR.
08 junho 2011
DE LIVROS E DE GENTE
DE LIVROS E DE GENTE
Por Cecília Prada
De madrugada, acesa,
Apascento meus livros.
Frio, tempo nublado e ventoso. Enrolada em um cobertor, no sofá - mas não tenho lareira nem cão labrador aos pés, para completar o quadro. O quadro que um dia pintei para mim, para quando ficasse mais velha : e a perversão hoje se realiza, o cultivo destes meus camaradas de silêncio e reflexão , camaradas fiéis e constantes - que não me falham nunca. Eles me olham irônicos, uns equilibrando óculos no nariz empoeirado, do alto da última estante ( instante?) : não era isso o que você queria , um cômodo de paredes brancas, revestido de estantes, estantes, e todos os livros do mundo, de todas as cores jeitos tamanhos à tua disposição?....
Uma biblioteca salva a custo das inundações da vida- enfim, o que sobrou dela. A maioria desses veteranos já atravessou até oceanos, já morou em tantas casas, no Brasil, na Itália, na Suíça,nos Estados Unidos...e agora, o que restou da tropa comigo à frente, aconchegados , apertados uns contra os outros estamos todos neste pequeno apartamento do Bosque, em Campinas - eles se animam, sinto um frêmito de vida , querem decerto que eu fale deles, que eu os retire do esquecimento, me dizem...enquanto lá fora o vento , aquele vento uivante da charneca inglesa de Emily Brönte, sacode os desvairados cabelos - de uma palmeira brasileira? Ora...
Eu me lembro bem do Wuthering heights ("O morro dos ventos uivantes") - eu o lia na cama, no longo período de repouso que fui obrigada a fazer quando esperava o Marcelo, em Washington. Mas na hora de ir para a maternidade, lembro bem, era de Walter Scott o livro que teve sua leitura interrompida , nunca retomada...Ivanhoe, lembrei.
E este, pequeno grande livro que descobri em um sebo...Ninguém, penso, deve ter escrito sobre ele. Sobrenome do autor: Malraux. Alguém conhece ? Não, não se trata do André Malraux que foi romancista famoso e ministro da Cultura da França..- aliás, por que não são mais lidos seus livros? Mas este "Malraux" é outra, a mulher de André, Clara, de preciosos livros de memórias, sim, traduzidos em português, alguns, como Nossos vinte anos - no qual, nestas tardas horas , pesco esta citação: "Amar uma mulher, para um homem, é talvez querê-la parecida com a imagem que ele tem dela. Amar, para uma mulher, é querer que o homem escolhido pareça-se com a imagem que ele tem de si próprio, e, muitas vezes, mais simplesmente ainda, que ele seja o que é."
Uma coisa que se poderia discutir- se tivéssemos com quem, é claro.
Livros antigos - memórias românticas. Outra mulher, Anais Nin, uma aventureira da vida e da beleza, que desfrutou amores gloriosos com vários parceiros, a começar pelo incestuoso : com seu pai, um belo e louco pianista espanhol. Depois, com Henry Miller e outros. E que deixou uma obra grande, diários, romances, poesia - foi psicanalizada por Otto Rank, que parece ter sido também seu amante. Depois, foi ela própria psicanalista. Uma citação vai aqui, uma só, preciosa: " A introspecção é um monstro devorador. É preciso alimentá-lo com abundante material, muitas experiências, muitas pessoas, muitos lugares, muitos amores, muitas criações, e então ele cessa de se alimentar de nós."
E por hoje, chega de romantismos e ventos uivantes. Ou antes, para finalizar só mais uma pequena citação: " A escrita é o mataborrão do desejo". O autor? Ora, é mais uma autora : Cecilia Prada.
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