29 junho 2011

DEZ TERCETOS



DEZ TERCETOS

Noite de inverno
Um chopinho bem gelado
é servido no inferno

Não cresceu com fermento
Para o pão ficar grande
usei lentes de aumento

Acabei de chegar no bar
Se o fim do mundo for hoje
então vai ter de esperar

Noite do espanto
Fui baixar um arquivo
baixou-me um santo

Não tenho a mesma imagem
O espelho se espatifou
só de sacanagem

Tive um dia farto
Ao apagar a luz, minha sombra
tomou conta do quarto

Preso qualquer cachorro late
Se eu fizer o mesmo
então vai dar empate

Inteligência não me falta
Veja como é elevado
meu Q. I. em caixa alta

Cuecas e calcinhas
Estendidas no varal
Festa de São João

Entre arranhões e lambidas
para cuidar de tanto gato
precisarei de sete vidas

28 junho 2011

INTERVALO COMERCIAL

por Vitor Queiroz


Balada Folclórica

Ivaporunduva, SP


Bojo de ferro. Roda a roda. Já tem farinha na capova. O mandiocal bravo. Roda a roda. Folha de flandres

um caneco, um vestido

e uma rosa

atrás da porta os cupim não frincha mais nada, atrás de madeira e ferro velho, a camisa do namorado branca alumia. Bojo de ombros e joelhos. O mandiocal bravo. Bananeiras na encosta a gente namorava em cima das folhas escuras da mandioca.

Roda a rosa na orelha roda o borco da canoa a mão espalmada um barco frouxo o remo flores à tona um grito no pé do ouvido um grito já tem farinha na capova.

Nada feito, apague o holofote. Nem camisa nenhuma namorada no mandiocal bravo nadie nerusca quéde o Ribeira ensolarado no brejal? néris nobody nenhum cadáver balseiro, nem remos presos no lodo pálido.

Antes da linha ai, bruta agulha que fura bolos e polegares, antes da sacanagem e do enredo solfas de ouro o Cupido gorjeará:



BALADA FOLCLÓRICA


Anjo barroco lenho fortefraco

tambú mexeriqueiro fecha

tudo rasga o pano vende troca

e aluga paixões, bochechas


de fino talhe, à granel. A glote

de um tubarão tire de um banjo

a sua angústia. Para o ano

volto pra cantar melhor, valei-me


Nossa Senhora, bendita Virgem

Santa das Sílabas Tortas. Ondas

e conchinhas partidas, volta já,

para o alvor da areia fina,


tartaruga amorosa. As tábuas

do palco rangem, batem os ferros na capova. Bojo de ferro. No capinzal nas folhas da mandioca brava. Beijos e abraços. Namorado canoeiro? nem cupim, nem pássaro rói o oco da noite fatídica. Quéde o peito arfante? o mato escondido a areia fina a curva de rio adonde barrento não vai ninguém


Rio Ribeira


quede, Nossa Senhora, a canoa virada? Rosaroda. No one, uma madrugada de rãs no pardacento lodaçal. Bate a farinha torra água no caneco. Anos atrás da porta, a cadeira ainda está num canto do quarto e na cadeira uma camisa rasgada na camisa uma mancha d´água e n´água uma rosa nobody a rosa.

Borco de canoa.


* * *


Rá! Glu glu. Broquei, Maria Amélia. Quebrei a cara dos bufos, a glote dos histriões fechei. Folhetim, Maria Anélia? [ .................17pt.] ahá, vai estourar a porra toda. No dia 12 de julho. Fogos, traques e pipocas.

Joseph Hart Vaudeville apresenta [ ................................ 32pt. ] o espetáculo vai feder a pólvora, aplausos e flores. No dia 12 de julho. Pode gastar a poupança toda, Maria Amélia, torrando ingresso pra família. Parente e aderente.

No dia 12 de julho.






26 junho 2011

ÚLTIMA SESSÂO

Por Luana Maccain

Murilo não havia levado companhia e ali permanece agarrado em sua poltrona, dividindo a atenção com o copo de refrigerante de tamanho médio. Suas mãos suam. Vez e outra é tomado por arrepios. Seu coração fica acelerado. Raramente seus olhos se desviam da tela.

De repente, a imagem do telão some. Uma a uma, as luzes de emergência vão se apagando. Murilo se arrasta, totalmente às cegas, em direção à saída que, até então, está livre. Antes que pudesse olhar para trás, algo o segura pelos pés, ficando de cabeça para baixo.

Uma voz densa e cavernosa dança pelo ar, repetindo sons ininteligíveis; ela vem de uma silhueta mal iluminada pela luz tênue do projetor, suas feições ocultas exceto por uma cicatriz no pescoço.

– Não me mate, por favor! – implora Murilo, debatendo-se no ar.

Murilo demorou algum tempo para descobrir o motivo da sua paralisia, mas no final era bem mais simples do que pensava. Simplesmente foi cortado ao meio, na altura do peito. Um funcionário do cinema chega ao local para guiar os espectadores à saída, porém a cena de massacre sumira. É como se nada tivesse acontecido. Murilo desperta. Seu semblante não é mais o mesmo. Cismado, talvez. Um alívio por tudo isso ter sido somente um sonho.

Nem tudo o que se quer é o que se tem. Enquanto as pessoas se ajeitam para deixar a sala, Murilo nota algo de estranho no funcionário. Antes que pudesse ter a sensação de que aquela marca no pescoço já foi vista por ele, o terror começa de novo.


25 junho 2011

SALA DAS ALMAS


Como vida, ela se comove. Movimenta o corpo entre os incômodos da casa de armas. Sem televisão ou janela, já lhe bastam as portas. As batidas do peito vão à cara. Está presa. No canto, um colchão. Vazio povoado por um poço de pólvora sem colete à prova de balas. Pele alva, alvo de cinzas. A menor explosão carregava ilusão de existência. Com o mais fino barulho dos rifles na parede, ansiava minar seus dias de festim. Mas quando seria a próxima guerra? Já estaria nela, chave perdida dentro da própria gaveta, aquela de criado-mudo a esconder o revólver da família. Sem munição de ânimo, era uma ilha de coisas mortas. O enxofre no ar antecipava todo o olor do inferno, triste e amargo. Poderia ser o seu renascimento, pensava. Outra alma lhe caberia mais alegre. A vontade de fumar chamava a de ferver sua alma naquele caldeirão dos diabos imediatamente. Atônita, procurava a melhor maneira de desmantelar a bomba atômica, só não admitia que a dinamite era ela, imprópria a si mesma. Erma dos outros. Pavio curto que destrói em labaredas. Sem. Ao fim.

23 junho 2011

O ESTORVO DA TROVA!


Por Marcelo Finholdt

Nos estouros das bexigas,
Nas cervejas, raparigas,
Ensambando e arrefercendo.

Agostar demais a vida,
Na Bahia... intrigante,
Ensambando e arrefecendo.

Arrefecendo e ensambando,
Mais amante nos amores,
Ensambando e arrefecendo.

Refazendo, recordando,
Nos amores desta vida
Ensambando e arrefecendo.

Sambando sempre sambante,
Inconstante, inconsequente,
Ensambando e arrefecendo.

Vivente, morrente o bastante,
Nesta vida refrescante:
Ensambando e arrefecendo!

22 junho 2011

A GRANDE CERIMÔNIA DO CINEMA


A GRANDE CERIMÔNIA DO CINEMA

Por Cecilia Prada

Início, filme antigo, daqueles projetados em casa com projetor barulhento, filmes em pedaços, alugados por meu tio Antonio, o maior encantamento. A grande cerimônia do cinema. Em casa. Para as mulheres - minha avó, minha tia Emília, eu, minha mãe, as mulheres reclusas. Sepultadas vivas. Meu tio Antonio era o dono da mágica. A gente se acomodava na copa. Eu no meu banquinho, casaquinho de flanela estampada sobre o vestidinho, aguçado prazer. Coisa tão importante, filme de cinema, em casa. Estendiam um lençol na parede. Depois vinha o ranger do projetor, nhen-nhen, e a fita – se dizia assim, fita - que vinha chegando, se anunciando, primeiro marcas de enquadramento, números de rolos, o primeiro quadro, que era sempre o título do filme, custava a chegar, parido entre aqueles estertores cinematográficos. Começava. Filmes mudos, todo mundo andando depressa, era muito engraçado, aquelas mulheres de chapéu dentro de casa, aqueles homens também de chapéu, colete, gravata e paletó. Ou então que fumavam fumavam fumavam tudo depressa soltando rolos pesados de fumaça. Pareciam estar sempre furiosos. Ou então, cena: homem entrando em casa, tirando o chapéu, atirando-o sobre um móvel, e fumando, fumando, fumando, olhando com indignação a mulher, nervosa, toda gritinhos e tremeliques -- o que teria feito? Parecia surpresa, com medo, havia uma cena mesmo em que suplicava ao homem, de mãos juntas, depois se ajoelhava, e o homem (sempre de chapéu), o homem a ameaçava...Depois atirava?

Então, vai ver que não era uma comédia.

Nunca se entendia, mas também não era para entender. Mesmo porque não se conseguia ver filme algum inteiro, eram sempre velhíssimos celulóides despedaçados, às vezes as seqüências coladas fora de ordem, e a platéia gostando muito mesmo assim, o que interessava era apenas aquilo, as figuras que se mexiam. Mas de repente, a cada dois ou três minutos, o filme parava, se soltava, o projetor ficava rodando bobo, a fita acabada, interrompida, tinha acabado o rolo, onde diabos estaria o número dois? Parece que nunca se achou o número dois de coisa alguma. Com muita sorte achavam um número qualquer, recomeçava a projeção, apaguem a luz, novo deleitamento . Efêmero - essa não é a continuação, pára. Paravam. Meu tio Roberto vinha participar, eram grandes discussões entre os homens, sobre a continuidade dos filmes. Ou da vida. Eu perguntava e o desenho animado? me respondiam sempre que já tinha acabado, que era aquele pouquinho mesmo que eu já tinha visto, também todo interrompido. Então tudo o que eu queria era que aquilo recomeçasse, os personagens na tela, a vida toda depressinha, os gestos, o olhar terrível do vilão, a arma assassina, ou a comédia, o Gordo e o Magro, Carlitos.

Acho que era arte em si. Era isso. É isto : meus fragmentos cinematográficos de hoje, estes inícios sem fim - e para quê fim, para quê um seqüenciamento lógico? A escritora de hoje, ou pelo menos desta manhã de neblina, vai jogando pedacinhos de personagens e de histórias - pelas suas memórias.

Literatura é também isto: é estímulo só, talvez a melhor história seja a que não existe, é literalmente inventada, porque só existe um começo, bem feito, carregado de atmosfera. O resto, é para o leitor completar como quiser; afinal, ele também terá dentro de si manhãs de neblina, memórias de broas de fubá, o cheiro de café da manhã, tios excêntricos - enfim, uma infância.


( Do livro Faróis estrábicos na noite – Bertrand Brasil-2009 )


21 junho 2011

HORA E VEZ DA PARDOCA

ARQUIVO PESSOAL {'BREVIDADES AO PONTO'}


Hora e Vez da Pardoca
Por Marco A. de Araújo Bueno
Do trivial ao pitoresco e, deste, ao fabuloso, vai um passo, no caso aqui, um vôo; de pássaro. Pássaros sempre foram emblemáticos de algo menos cotidiano que eles. Dinossauros eram pássaros. Tenho voado baixo e curto pela vida e hoje me sinto dinossauro, contemplativo do trivial, herbívoro em apetites. Em processo moroso de extinção, minha presença não comove, não molesta. Não pia. Às vezes, enlouqueço, só.
Quando a viuvez dilata o espaço, uma aposentadoria, também precoce, dilata o tempo e quando a geografia urbana, por sua vez, comprime o habitat de um homem, o dinossauro do vinte e dois vira ornitólogo, menos por diletantismo que por sobrevivência psicológica. Jardinagem que não seria, nem filatelia já que gosto de olhar para o fora, para o vasto possível de se ver do meu apto.22. É de onde me resta ser apto para evitar a tortura do ruído mais escandaloso, o do relógio de pulso. Portanto, como bom meirinho que fui, convoco gentilmente o trinado que resiste em volta de meu engradado. Solicito-lhes o piado, o farfalhar e toda a algazarra polifônica que, outrora, vicejava aqui, que era um grande pomar cheio de árvores seculares e veios d’água, hoje, vingados em esquadrilhas de pernilongos e na umidade que causou minha rinite crônica.
Antes de mais nada, o extinto pomar frondoso vingou-se pelo irritante e monocórdio piado do pardal, cujo estilo taquigráfico passou a predominar sobre o das maritacas, saíras e bem-te-vis, seus muito eventuais coadjuvantes. Não me incomoda na escuta, já seletiva, nem no meu esforço de classificação. Mas criou um caso com a senhora da casinha geminada que, isso sim, exigiu-me intervenção vigorosa e, sobretudo, operou a passagem do pitoresco ao fabuloso, fazendo ressurgir o meirinho em mim.
Estranhei que me procurasse tão cedo naquela manhã:-Ah, é com você mesmo, mineirinho, me salva desse problema que estou tendo com uma pardoca, já que estuda os passarinhos. Tem que ter uma solução, um jeito de espantar pardal que fica piando todo santo dia, justo às sete da manhã! Sabe que antes das nove eu não estou nem pra Jesus Cristo em pessoa, que Deus o tenha, e se essa diaba dessa pardoca me pia fininho, na altura do seu apartamento, às sete, e fica lá repetindo um phíiiii agudo, comprido, aí eu acordo e passo o dia insonada! Claro, respondi corrigindo que eu não era “mineirinho” mas já fui meirinho, e se ela precisava de uma intimação que eu, na condição de oficial de justiça e apenas estendendo a mão pelo gradil da varanda lhe fizesse chegar às patinhas, entregá-la-ia, sem constrangimentos, brinquei. Mas, retrucou a quase centenária senhora - A coisa é muito séria! O que sabe sobre pardais?
-Pois saiba que vivem no Brasil há pouco mais de cem anos. Vieram trazidos da França na virada do século dezenove, no começo da República.
-Não tem cabimento, ora! Pássaros cinzentos de cantar enjoativo, sem graça. Pra quê trazer da Europa com tantas rolinhas, patativas, tucanos que a gente tem de sobra aqui mesmo?
-Por causa disso mesmo, pra evitar que pássaros exóticos afugentassem capital estrangeiro. Idéia do Sr. Rodrigues Alves para atrair investidores cosmopolitas. Os pardais dariam um ar, digamos...parisiense, mais familiar ao Rio de Janeiro da época, é!
-E que tal uma atiradeira, quando a pardoca vem me acordar aqui no fio?
Se ela tomou no pessoal, o pior estaria por vir. Sete e pouco( eu levanto às cinco) um apito de festa de criança me interrompe o estudo. Eu tinha uma teoria sobre os barulhos do edifício: quanto mais ruidosos, maior minha privacidade. Mas o mecanismo do relógio de pulso e pequenas alterações de movimento na casinha geminada que sobreviveu à explosão imobiliária, ah não, eu não suportava ouvir! E quando, dias depois, corri à varanda sobressaltado por um estrondo meio arquejante e meio abafado, como de ave de porte maior, alternando-se com um apito insistente, e me deparei com aquela cena insólita...Difícil descrever a soma de sensações: ela abria e fechava uma sombrinha multicolorida apontada para a pardoca atônita, enquanto trinava o apito infantil e socava o pé numa folha de amianto salpicada de pedregulhos. Ato contínuo, municiei-me da velha Remington, papel timbrado e carbono e carimbo, fiz o cabeçalho de praxe e disparei, na linguagem taquigráfica dos pardais minimalistas: ”Conto pouco/canto mais, aliás/E o que conto não conta/Ou conta pouco aos demais//Canta pouco o piado/pontiagudo dos pardais/Ócio percussionado só/Opiácios sazonais/Mas, desumanos somos/Se nos somamos, quintais?” Assinado - Pardoca.
Semanas depois, a senhora lamuriava-se - A pardoquinha se foi! Será que morreu? Esses passarinhos costumam migrar...
Meus poucos colegas ornitólogos não sentiram minha falta quando troquei nossos encontros bimestrais por alguns saraus. Ou seriam...sarais?

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