10 julho 2011

FÓSSEIS

Por: Talita Oliveira

Toda a dor guarda
o prazer nos olhos do outro
toda a felicidade
confia as lágrimas nas mãos
do futuro guardadas

Os fósseis de sonhos amamentam a bile
e agarramos o bote
antes de zarpar o inexorável navio inexistente

o que amamos
somos
vemos
a implacável procura

Entre estilhaços e espaços
areia e tempo nos perdemos
etereos e separados
expiramos

09 julho 2011

VESTÍGIOS SOZINHOS DE UMA SEXTA

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Crônica de Paola Benevides

Atrasei-me para a sessão das cinco no cinema. O trânsito me forçou a espera pela próxima exibição, não por acaso. Até que o filme começasse, pude assistir ao ocaso da calçada, ver gente abstrata entre os carros passando, movimentos fora da tela, em 2D a olhos desnudos. Não resisti à solidão por tanto tempo e quis compartilhar esse momento com um amigo. Peguei o telefone, conversa ligeira, percebendo que deveria ficar mesmo a sós comigo, deixando encontros para outra ocasião. Tinha toda a sexta-feira para mim, afinal! Para refazer-me como há muito não fazia...

Meu ser começou a estabelecer contato mais profundo através de um sonho, no qual minha mãe desencarnava e eu vislumbrava a silhueta alaranjada de um Buda sentado em posição de lótus envolta numa bola de luz branca, elevando-se até não poder mais alcançá-la com a vista. Ficou só a sensação no peito. Despertei chorosa, meio angustiada. Havia me permitido dormir até mais tarde, após uma semana repleta de trabalhos. Além de um painel com colagens e pinturas em uma parede inteira de biblioteca daqui. Ninguém em casa, preparei meu almoço instantâneo, enquanto baixava mais um episódio da série The Big C, que tenho acompanhado com bastante inspiração. Trata-se de uma tragicomédia envolvendo uma mulher diagnosticada com melanoma, fato que a força viver sua vida adulta da forma mais intensa possível, entretanto, deixa de revelar seu estado terminal à família.

Assim, passei minha tarde esfuziante, correndo para um ônibus que demorou mais que devia. Tanto, que resolvi me recostar numa grade da parada, recém-pintada de branco, e sujei minha bolsa de branco. Fui assim mesmo, desafrescurada. Nessa de me encostar, sem querer telefonei outra vez para aquele amigo citado no início. O teclado não estava travado e com meu peso, acionou a tecla de discagem rápida. Ele me retornou dizendo que eu era freak mesmo, por ter ficado calada do outro lado. Pensou que eu tivesse posto o som de uma serra elétrica para ele ouvir. Era a avenida, em obras. 

Enfim, ao chegar, comprei meu ingresso para as sete da noite e fui errar pelo Centro Cultural. Por lá, as mesas vermelhas de um bar me convidaram a um chope solitário. Como complemento, pedi uma porção de bolinhas de camarão e me pus a registrar parte desses pensamentos em guardanapos bem finos, a tinda azul da caneta transparecendo no verso. Libertadora a brisa vinda do mar de Iracema bem no meu rosto, balouçando as coloridas bandeirinhas de festa junina ainda a enfeitar os caminhos daquele lugar. No chão, uma gata preta me observava enquanto tomava banho na minha frente. Resolvi esticar as pernas sobre uma cadeira, adotando um quê daquele ar felino desprendido de tudo. Vejo um homem de chapéu coco e bengala ao longe, sentado no banco da praça próxima, a maquiar-se de Carlitos meio gordo, ar cansado. Ao meu lado, passa outro palhaço cantando alto, figura bem menos melancólica, para meu desagrado, e que me irritaria profundamente caso me abordasse para de tecer alguma piada com sua voz tiriricada. Alívio. Eu parecia invisível ante quem eu rezava para não encontrar. Mas bastou isso, para que uma moça passasse com seu zoadento grupo de amigos turistas a falar a mesma palavra que eu grafava naquela hora: rezava-rezava. Surreal! Contudo, meu sossego se desfazia com o transcorrer das horas, o movimento dos que iriam curtir o fim de semana só aumentava, já a paciência minava.

Soou o alarme interno para eu partir ao cinema, paguei a conta e adentrei o hall da sala. Cavuquei alguns jornais lá dispostos e, como o tempo era curto para ler o caderno de artes, meu favorito, surrupiei uma página sutilmente, enfiando na bolsa. Era algo sobre ser escritor, coluna de João Ubaldo Ribeiro. Blá-blá-blás. Gente tirando foto com flash antes de rodarem a película. Pronto. Luzes apagadas, ufa! Assisti Meia-noite em Paris com toda a graça do mundo, viajando na pele do Gil, protagonista, quando este se encontrava com o Hemingway, os Fitzgerald, o Cole Porter, o Dalí... Quanto ao resto, não atacarei mais de Spoiler até aqui, deixando a todos minha recomendação apaixonada por este maravilhoso feito de Woody Allen. Voltei para casa sob uma chuva danada, viva viva e morrendo de felicidade. Agora é hora de dormir, dar um rolé pela França enfronhada e ver o que me aguarda, ao acordar.


06 julho 2011

O MUNDO VISTO ATRAVÉS DO PRISMA DE UM LUSTRE

O MUNDO VISTO ATRAVÉS DO PRISMA DE UM LUSTRE

Por Cecília Prada

Hoje preciso escrever sobre minha padroeira, Cecília Meireles, para lembrar que neste ano ela faria 110 anos (1901-1964). Que bela mulher, que bela escritora - que belo espírito. Consagrada dos dois lados do Atlântico desde os anos 1930 - no Brasil e em Portugal, reconhecida como "um dos maiores expoentes da poesia lírica em língua portuguesa".

No trabalho profissional como no círculo íntimo dos amigos e da família, foi uma pessoa querida, serena. Mas não que a vida lhe tivesse sido fácil. Pelo contrário, foi marcada sempre pela tragédia - ela não conheceu o pai, morto aos 26 anos, três meses antes do seu nascimento. Aos três anos perdeu também a mãe. Foi acolhida e criada pela única parenta que tinha, a avó materna Jacinta Garcia Benevides, senhora culta, de origem açoriana, que lhe "cantava rimances e ensinava parlendas"- assim embalada na tradição galáico-portuguesa desde o berço, fundamentava-se no seu espírito a música essencial da poesia lírica que seria seu principal instrumento.

Na idade adulta, sofreu duas perdas terríveis - a dessa avó, e a do seu primeiro marido, o artista plástico português Fernando Correia Dias, que se suicidou , devido a uma profunda depressão, em 1935 - deixando Cecília com três filhas pequenas. Reconheceria a poeta que a intimidade precoce com a morte lhe permitira "aprender docemente essas relações entre o Eterrno e o Efêmero que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência". O tema da fugacidade da vida, o barroco ubi sunt de conteúdo melancólico, quevedesco, é dominante em sua obra, fazendo-a ver o mundo, a princípio, como "...vaga e inábil aparência,/ que se perde nas lápides escritas, / sem qualquer consistência ou consequência".

Guardava, porém, no seu íntimo, como tesouro, lembranças multicoloridas de uma infância que apesar de tudo lhe parecera "mágica", e da qual diria, em uma entrevista a Manchete :“Tudo quanto naquele tempo vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível....céus estrelados, tempestades, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre....”

E com esse tesouro soube plasmar em tarefa constante, permanente, seu mundo encantado da poesia - no qual era possível transcender o sofrimento, as circunstâncias penosas, por meio de uma expressão personalizada, uma filosofia própria feita de grande espiritualidade, embora sem ligação religiosa, na busca pelo eterno do ser e da arte. Contando seu esforço em Tempo Viajado: "Dos meus retratos rasgados/ me levanto./ E acho-me toda em pedaços/ e assim mesmo vou cantando", ou "Quando o tempo em seu abraço / quebra meu corpo e tem pena,/ quanto mais me despedaço/ mais fico inteira e serena". Até chegar a se definir plenamente: "Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa./ Não sou nem alegre nem triste: /sou poeta."

Seu poder introspectivo não a levava, porém, ao fechamento para a realidade social do país, e do mundo. Pelo contrário, seu trabalho como educadora , como jornalista, levou-a a viagens não somente a países da América e da Europa, mas a lugares distantes - Índia, Goa , Israel - em um amplo esforço de difusão cultural e intercâmbio literário, que lhe valeu até ser honrada com títulos de universidades estrangeiras. Tanto ela como o marido estabeleceram também uma ponte entre o mundo literário português e o brasileiro e desempenharam um importante papel na acolhida em solo pátrio a intelectuais perseguidos pela ditadura salazarista. Depois da morte de Fernando, e tendo cinco anos depois reconstituído sua família casando-se com um professor universitário, Heitor Grillo, Cecília foi ao mesmo tempo responsável pela difusão em Portugal dos escritores modernistas brasileiros e por fazer conhecer no Brasil os expoentes literários portugueses - a começar por Fernando Pessoa. Sua antologia Poetas novos de Portugal , publicada no Rio de Janeiro em 1944, foi obra capital, nesse sentido.

O Romanceiro da Inconfidência, de 1953 - uma de suas últimas obras - é a apoteose da poesia social , de origem histórica. No dizer de outro poeta, Murilo Mendes, "um livro que tem cabeça, tronco e pés, e que, posto a andar, sustenta sua rigorosa unidade", uma "obra de alta importância para as letras brasileiras" .

Cecília Meireles, nascida no dia 7 de novembro de 1901 na cidade do Rio de Janeiro, ali também faleceu, no dia 9 de novembro de 1964, rodeada do carinho dos seus. E nos deixou uma grande lição de vida, de talento bem aproveitado, cumprindo o que se propunha como missão, “acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo, e mostrar-lhe a vida em profundidade”. Ela queria que, nos seus livros todos vissem “que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas, e mergulhada em solidão e silêncio, tanto quanto possível”.


05 julho 2011

TREVISITANDO UM CONTO SCI-FI [CONJURANDO FANTASIAS]

“Nonsensal”


Tudo muito ligeiro, da emboscada ardilosa, fisgada por uma premonição, ao momento de perceber o quanto estava desorientado. Indisposto, sobretudo; não apenas fisicamente, mas pela horripilante constatação do grau de indisponibilidade... a si próprio. Mais ainda – pela sua indiferença baça àquela condição limite. A forma como se dirigiam a ele trazia embutida nos gestos estereotipados uma espécie de repulsa polida, de gentileza protocolar que não escondia o clima de apreensão. Era grave, disso sabiam. Alardeava-se essa gravidade na razão inversa do silêncio em torno. Estava só.
O celular que, implantado faz tempo no dente vinte e sete, fora desabilitado - não emitia sinais auditivos. O campo colocado entre o queixo e o tronco não lhe permitia qualquer inferência sobre a natureza da intervenção que seu corpo sofria, sofrera ou estava em vias de receber. Aparelhagem que o cercava, revestida pelas prudências de uma presumível assepsia, não lhe dizia nada. Nada lhe dizia nada. Não estava sedado, no entanto, nem mergulhado em estado crepuscular de consciência – ele saberia – mas reduzido, inexoravelmente, à indisponibilidade àquilo que o significasse.
Muito rápida e impessoal minha primeira interação verbal com alguém (que aparecera na mesma premonição), de gênero indefinido, semblante inacessível pelo rigor com que se paramentava para colher meu histórico, nada mais vago...
“-Bem-vindo ao Casulo, Senhor...?
“-Senhor... Bom começo! Senhor quem e em que circunstâncias, pode me dizer?
“-O quadro parece evoluir para Dissociação Episódica Inespecífica. Até breve!”
Perplexo, só lhe ocorria que a tampa de seu crânio fora serrada e o cérebro, exposto, prestava-se à monitoração da reatividade de algumas estruturas. Mas, com que propósito, experimental (de quê?) ou terapêutico (para quê?)... Vacuidade; um tanto faz.
Encarava as coisas do cérebro, no entanto, sem perplexidades. A dor (que eu não sentia, pois, no cérebro não há dor, nem luz), o sentido do tempo (este que se mantinha preservado, até por saber que, o que quer que estivesse acontecendo consigo, a premonição já lhe narrara...) eram parte de um festival particular de discretos aminoácidos, de cujas peripécias era um mero coadjuvante, nada iluminista. Torpor, nenhum, exceto o nome do artista de quem recordo alguns cartuns de humor e a fala de um personagem: “Que direito tem meu cérebro de se chamar de eu?”, perdida no tempo.
Então lhe apresentaram num plasma que se descortinou, do nada, diante de meus olhos, um retângulo, no interior do qual, uma frase e um diagrama, também retangular, com um signo dentro, pareciam dispostos a mensurar ou aferir algo de si: “CONFESSA QUE PRETENDE”, lia, e olhava o signo sem nenhum sentido ao lado. E, fosse lá o que fosse, trazia alguma atração nova àquele festival neuroquímico, com suas substâncias bailando a deriva, à revelia de qualquer evento externo que lhes exigissem algum alvará e se assenhoreasse do meu tempo narrativo, até então, todinho de seu cérebro-música só.
“-Alô! Quanto tempo passou desde que estive fora daqui até agora e este teste?”
“-Exijo meus direitos de paciente desta porra! Ou os direitos dele, de cobaia, é!”
“-Meu tarefário está em dia, impostos idem! Cárcere privado? Ditadura cyber!
Por mais que eu berrasse não lhe retiravam o bizarro teste do plasma nem o próprio plasma de seu campo visual. “Premonitar está proibido pelas neurociências?”, brincou, tentando divertir-se com aquela bizarrice toda, para além do risco de, sei lá...
Se ainda tinha o tempo subjetivo como soberano daquela narrativa pueril, este começava a lhe doer no estômago; sentia o nervo vago. O paciente-cobaia precisava agir e gritei-“Não tenho pretensão de ser confessional!” Até porque cerceada a tensão: Ser-se!


02 julho 2011

X-MEN: ORIGEM - SOBRE DEUSES, MESSIAS E SANTOS

 
Humanos são programados a acreditar em mitologias compostas de diversas figuras, signos, a atenderem suas necessidades psicológicas. Alguns amam Jesus, outros Maomé, outros Luke Skywalker, outros Ronald McDonalds, ou quem sabe uma figura do governo, como o Lula, ou o Obama. Temos os heróis, os vilões, as mocinhas, os escapes cômicos, e tudo é absorvido confortavelmente por nossas psiques devido o processo de evolução de nossos cérebros mamíferos. E todas essas mitologias foram confeccionadas intencionalmente para suprir essas necessidades e nos entregar a uma visão virtual do mundo, seja por romanos, ou comerciantes árabes, ou George Lucas com a ajuda de Joseph Campbell, ou cozinheiros da California, ou banqueiros. Eu, por minha vez, amo a Vampira dos X-Men, quero dar medo como o Wolverine, ter a facilidade e espírito livre do Noturno, e a inteligência do Fera. X-Men é a minha mitologia. E assistindo X-Men Origem (X-Men First Class), tenho a mesma experiência que outros indivíduos teriam com A Paixão de Cristo, ou Thor.

O filme certamente é o melhor da franquia até agora, realmente passa a existência de um mundo com mutantes, como nem o primeiro ou o segundo conseguiram (o terceiro considero apócrifo). A relação entre o Professor Xavier e o Magneto realmente nos leva a indagar qual o melhor caminho, se seguir com a humanidade, ou se estabelecer fora dela, de sua decadência vergonhosa. Temos também nesse filme a primeira mulher bem escrita na série, a Mística. Em oposição a Rainha Branca, tão mal escrita quanto a Jean, a Tempestade e a própria Mística foram nos outros filmes, sem sal, sem personalidade, sem motivo de existir. O vilão também se destaca, com Kevin Bacon numa ótima performance. Só sofrendo como nos outros filmes de nanismo em sua organização, com personagens mudos, e sem a capacidade de contratar capangas. Sério, se não querem ler as histórias de origem, vão ver Batman, os vilão tem capangas, eles não precisam fazer tudo, de tentar dominar o mundo, a servir drinks e pilotar barcos. No lado dos X-Men, todos os personagens são bem apresentados, com suas personalidades e poderes. Claro que ainda temos o estranho caso, que parece extremamente intencional em alguns filme hollywoodianos como em Last Airbinder, de termos o único negro do grupo morrer, e a única hispânica se tornar uma vilã. É assim evidente. O fim também aparenta ter sido extremamente apressado, ainda mais considerando que toda uma nova trilogia foi planejada. Quebrando a união entre os protagonistas por demais cedo. Porém, nada disso tira o mérito da experiência do filme e do desenvolvimento da história. Mesmo não tendo ainda os santos que sigo. E falando sobre isso, o que eles fizeram com o Noturno no segundo filme? Uma pessoa escreveu ele como um católico fervoroso nos quadrinhos, uma pessoa e só, todo o resto sempre o retratou como o mulherengo alegre, que tinha casos até com mulheres de outras dimensões, e é essa primeira que eles escolhem para o filme.

01 julho 2011

FORMIGAMENTOS

FORMIGAMENTOS

Por Felipe Modenese

Narcisista em idéias. Imunodeficiente em angústias. Uma lagarta de sebos e bibliotecas. Ensaia a dominação da natureza enquanto bombas no seu peito vêem-se ritmadas pelo descompasso do espírito invadido.

Tal qual uma aldeia doutrinada por sacerdotes seculares, confiante na tradição de tantas gerações, enraizada na história, no arsenal de ideologias, Lurdes é aterrorizada. Qualquer sopro rasga um desequilíbrio em seu corpo suspenso sobre o fio da navalha.

A mesma navalha que demarca o ser do alheio e que raspa a animalidade da face dos hominídeos com polegares opositores.

Mastiga sonetos com seu aparelho bucal triturador. Sorve extratos azedos da civilização urbana e cospe na multidão sem nome do seu bairro. Confiante em seus conhecimentos de porcelana, segue.

Enquanto mergulha o dedo indicador na cuia de urucum e grava as rochas de suas impressões do mundo, Lurdes é açoitada pelos bafos da sua finitude.

Constrói. Manipula. Dedilha. Impulsionada pelo pulsante vazio do peito. Cozinha. Corta legumes. Salga a carne. Frita. Molda o barro sua imagem complementar - sendo, inclusive, o tudo, o complemento do nada. Costura. Pinta. Borda na malha a insígnia de sua paixão. Cestos e balaios de capim ouro. Prole. Gesta no bambu uma escultura de carne e (f)osso:

É parido do quarto colmo do bambu mais viçoso, na lua cheia do mês mais cruel. Chora sua placenta lenhosa, salta, pula e toca.

Qualquer sombra de angustia amaldiçoa a mão negra de Pixinguinha ao bolso vertical no peito. Mete o punho na caixa e rumina com dedos o batimento descompassado. Espreme o músculo cardíaco enquanto escorre a seiva da cultura pela barriga e chão.

Pixinga. Pixinguinha.

Idéias e angústias imersas no formigamento do espaço-tempo.

Choro.


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