10 julho 2011
FÓSSEIS
Toda a dor guarda
o prazer nos olhos do outro
toda a felicidade
confia as lágrimas nas mãos
do futuro guardadas
Os fósseis de sonhos amamentam a bile
e agarramos o bote
antes de zarpar o inexorável navio inexistente
o que amamos
somos
vemos
a implacável procura
Entre estilhaços e espaços
areia e tempo nos perdemos
etereos e separados
expiramos
09 julho 2011
VESTÍGIOS SOZINHOS DE UMA SEXTA


06 julho 2011
O MUNDO VISTO ATRAVÉS DO PRISMA DE UM LUSTRE
O MUNDO VISTO ATRAVÉS DO PRISMA DE UM LUSTRE
Por Cecília Prada
Hoje preciso escrever sobre minha padroeira, Cecília Meireles, para lembrar que neste ano ela faria 110 anos (1901-1964). Que bela mulher, que bela escritora - que belo espírito. Consagrada dos dois lados do Atlântico desde os anos 1930 - no Brasil e em Portugal, reconhecida como "um dos maiores expoentes da poesia lírica em língua portuguesa".
No trabalho profissional como no círculo íntimo dos amigos e da família, foi uma pessoa querida, serena. Mas não que a vida lhe tivesse sido fácil. Pelo contrário, foi marcada sempre pela tragédia - ela não conheceu o pai, morto aos 26 anos, três meses antes do seu nascimento. Aos três anos perdeu também a mãe. Foi acolhida e criada pela única parenta que tinha, a avó materna Jacinta Garcia Benevides, senhora culta, de origem açoriana, que lhe "cantava rimances e ensinava parlendas"- assim embalada na tradição galáico-portuguesa desde o berço, fundamentava-se no seu espírito a música essencial da poesia lírica que seria seu principal instrumento.
Na idade adulta, sofreu duas perdas terríveis - a dessa avó, e a do seu primeiro marido, o artista plástico português Fernando Correia Dias, que se suicidou , devido a uma profunda depressão, em 1935 - deixando Cecília com três filhas pequenas. Reconheceria a poeta que a intimidade precoce com a morte lhe permitira "aprender docemente essas relações entre o Eterrno e o Efêmero que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência". O tema da fugacidade da vida, o barroco ubi sunt de conteúdo melancólico, quevedesco, é dominante em sua obra, fazendo-a ver o mundo, a princípio, como "...vaga e inábil aparência,/ que se perde nas lápides escritas, / sem qualquer consistência ou consequência".
Guardava, porém, no seu íntimo, como tesouro, lembranças multicoloridas de uma infância que apesar de tudo lhe parecera "mágica", e da qual diria, em uma entrevista a Manchete :“Tudo quanto naquele tempo vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intensidade poética inextinguível....céus estrelados, tempestades, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre....”
E com esse tesouro soube plasmar em tarefa constante, permanente, seu mundo encantado da poesia - no qual era possível transcender o sofrimento, as circunstâncias penosas, por meio de uma expressão personalizada, uma filosofia própria feita de grande espiritualidade, embora sem ligação religiosa, na busca pelo eterno do ser e da arte. Contando seu esforço em Tempo Viajado: "Dos meus retratos rasgados/ me levanto./ E acho-me toda em pedaços/ e assim mesmo vou cantando", ou "Quando o tempo em seu abraço / quebra meu corpo e tem pena,/ quanto mais me despedaço/ mais fico inteira e serena". Até chegar a se definir plenamente: "Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa./ Não sou nem alegre nem triste: /sou poeta."
Seu poder introspectivo não a levava, porém, ao fechamento para a realidade social do país, e do mundo. Pelo contrário, seu trabalho como educadora , como jornalista, levou-a a viagens não somente a países da América e da Europa, mas a lugares distantes - Índia, Goa , Israel - em um amplo esforço de difusão cultural e intercâmbio literário, que lhe valeu até ser honrada com títulos de universidades estrangeiras. Tanto ela como o marido estabeleceram também uma ponte entre o mundo literário português e o brasileiro e desempenharam um importante papel na acolhida em solo pátrio a intelectuais perseguidos pela ditadura salazarista. Depois da morte de Fernando, e tendo cinco anos depois reconstituído sua família casando-se com um professor universitário, Heitor Grillo, Cecília foi ao mesmo tempo responsável pela difusão em Portugal dos escritores modernistas brasileiros e por fazer conhecer no Brasil os expoentes literários portugueses - a começar por Fernando Pessoa. Sua antologia Poetas novos de Portugal , publicada no Rio de Janeiro em 1944, foi obra capital, nesse sentido.
O Romanceiro da Inconfidência, de 1953 - uma de suas últimas obras - é a apoteose da poesia social , de origem histórica. No dizer de outro poeta, Murilo Mendes, "um livro que tem cabeça, tronco e pés, e que, posto a andar, sustenta sua rigorosa unidade", uma "obra de alta importância para as letras brasileiras" .
Cecília Meireles, nascida no dia 7 de novembro de 1901 na cidade do Rio de Janeiro, ali também faleceu, no dia 9 de novembro de 1964, rodeada do carinho dos seus. E nos deixou uma grande lição de vida, de talento bem aproveitado, cumprindo o que se propunha como missão, “acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo, e mostrar-lhe a vida em profundidade”. Ela queria que, nos seus livros todos vissem “que não são mais do que o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas, e mergulhada em solidão e silêncio, tanto quanto possível”.
05 julho 2011
TREVISITANDO UM CONTO SCI-FI [CONJURANDO FANTASIAS]
“Nonsensal”
04 julho 2011
02 julho 2011
X-MEN: ORIGEM - SOBRE DEUSES, MESSIAS E SANTOS
O filme certamente é o melhor da franquia até agora, realmente passa a existência de um mundo com mutantes, como nem o primeiro ou o segundo conseguiram (o terceiro considero apócrifo). A relação entre o Professor Xavier e o Magneto realmente nos leva a indagar qual o melhor caminho, se seguir com a humanidade, ou se estabelecer fora dela, de sua decadência vergonhosa. Temos também nesse filme a primeira mulher bem escrita na série, a Mística. Em oposição a Rainha Branca, tão mal escrita quanto a Jean, a Tempestade e a própria Mística foram nos outros filmes, sem sal, sem personalidade, sem motivo de existir. O vilão também se destaca, com Kevin Bacon numa ótima performance. Só sofrendo como nos outros filmes de nanismo em sua organização, com personagens mudos, e sem a capacidade de contratar capangas. Sério, se não querem ler as histórias de origem, vão ver Batman, os vilão tem capangas, eles não precisam fazer tudo, de tentar dominar o mundo, a servir drinks e pilotar barcos. No lado dos X-Men, todos os personagens são bem apresentados, com suas personalidades e poderes. Claro que ainda temos o estranho caso, que parece extremamente intencional em alguns filme hollywoodianos como em Last Airbinder, de termos o único negro do grupo morrer, e a única hispânica se tornar uma vilã. É assim evidente. O fim também aparenta ter sido extremamente apressado, ainda mais considerando que toda uma nova trilogia foi planejada. Quebrando a união entre os protagonistas por demais cedo. Porém, nada disso tira o mérito da experiência do filme e do desenvolvimento da história. Mesmo não tendo ainda os santos que sigo. E falando sobre isso, o que eles fizeram com o Noturno no segundo filme? Uma pessoa escreveu ele como um católico fervoroso nos quadrinhos, uma pessoa e só, todo o resto sempre o retratou como o mulherengo alegre, que tinha casos até com mulheres de outras dimensões, e é essa primeira que eles escolhem para o filme.
01 julho 2011
FORMIGAMENTOS
FORMIGAMENTOS
Por Felipe Modenese
Narcisista em idéias. Imunodeficiente em angústias. Uma lagarta de sebos e bibliotecas. Ensaia a dominação da natureza enquanto bombas no seu peito vêem-se ritmadas pelo descompasso do espírito invadido.
Tal qual uma aldeia doutrinada por sacerdotes seculares, confiante na tradição de tantas gerações, enraizada na história, no arsenal de ideologias, Lurdes é aterrorizada. Qualquer sopro rasga um desequilíbrio em seu corpo suspenso sobre o fio da navalha.
A mesma navalha que demarca o ser do alheio e que raspa a animalidade da face dos hominídeos com polegares opositores.
Mastiga sonetos com seu aparelho bucal triturador. Sorve extratos azedos da civilização urbana e cospe na multidão sem nome do seu bairro. Confiante em seus conhecimentos de porcelana, segue.
Enquanto mergulha o dedo indicador na cuia de urucum e grava as rochas de suas impressões do mundo, Lurdes é açoitada pelos bafos da sua finitude.
Constrói. Manipula. Dedilha. Impulsionada pelo pulsante vazio do peito. Cozinha. Corta legumes. Salga a carne. Frita. Molda o barro sua imagem complementar - sendo, inclusive, o tudo, o complemento do nada. Costura. Pinta. Borda na malha a insígnia de sua paixão. Cestos e balaios de capim ouro. Prole. Gesta no bambu uma escultura de carne e (f)osso:
É parido do quarto colmo do bambu mais viçoso, na lua cheia do mês mais cruel. Chora sua placenta lenhosa, salta, pula e toca.
Qualquer sombra de angustia amaldiçoa a mão negra de Pixinguinha ao bolso vertical no peito. Mete o punho na caixa e rumina com dedos o batimento descompassado. Espreme o músculo cardíaco enquanto escorre a seiva da cultura pela barriga e chão.
Pixinga. Pixinguinha.
Idéias e angústias imersas no formigamento do espaço-tempo.
Choro.


