11 agosto 2011
SONETO AOS VENTOS!
10 agosto 2011
ENTRADA SECRETA
Por Alvaro Posselt
- Como você entrou aqui? - perguntou-me o diabo.
- O cabo do elevador se rompeu!
09 agosto 2011
Joseph Hart Vaudeville - 12
NOS CAPÍTULOS ANTERIORES a embromação tinha acabado, tiramos a cera do chão. O fim está próximo. Jesus vai voltar em três vias, traduzido e juramentado e etc e etc e etc.
Os holofotes estão acesos, o show de horrores vai começar:
Capítulo XX
Na Boquinha da Madrugada
Na boquinha da madrugada. O pó do picadeiro fresta o charque da ribalta. Laranja madura. Hoje tem espetáculo? Laranja podre. Hoje tem goiabada? Sovaco de bailarina, perna de anão, o abraço dos gêmeos siameses.
Na boquinha da madrugada... esse traste presta ou não presta? Peruca empoada, Chast Aldrich já botou a o nariz pras-fora. Barbitúrico público... não, hã... bublicável estúpido. Piadas e mais piadas.
Na boquinha da madrugada, laranja madura, as bochechas vermelhas, a peruca empoada para fora da cortina [ ............ 12pt. ] e o estrépito das palmas? Laranja de-vez. Risos frouxos. Boatos do outro lado do cortinê grená. O do aveso. Laranja podre. O do fosco. Laranja bichada. Veia cava, artéria aorta, ventrículo infiltrado. Laranja verde. O do ódio cagado e cuspido.
Na boquinha da madrugada, cavidades cavilosas? o avesso do avesso do avesso: uma laranja esfaqueada. Hoje tem macacada? ui, a bomba dos corações frevia, Maria Amélia! O ó do Orco.
... esse traste... frincha nas tábuas das arquibancadas uma tosse nervosa um presságio um juramento a carta errada do baralho torto os pé do bode expiatório virado pra trás o calundu o veneno da maldade troncos penhas montes vales e a triaga da virtude a cafungada da macumbeira no cu de Satanás a pemba de Scheherazade o cigarro da Pomba Gira espantando os mosquito no oco da lona.
... presta ou não presta? a plateia veio abaixo. Boquiaberta a criançada vai pular nest´hora de aflição. Pipoca, guri, pipoca taboca espapoca nos gritinhos. Ai, ui! a bomba dos corações.
Na boquinha da madrugada, na boquinha da madrugada rugas de preocupação nos bastidores. Volta, Aldrich! Porra, que é que esse anão tá falando? Número novo? Achtung! Cadê o pianista. Hoje tem marmelada? Gregor, cadê você, Gregor? Joseph Hart empertigado estala o chicote, um macaco em trajos de gala abrupta, arrota, apupa, gira a manivela.
Prontofudeu, a cortina escancarou tudo... quem abriu esta merda? quem tesourou os sacos de areia? O anão gargalhava, estralou os dedinhos grossos.
Capítulo XXI
Evidência
O caixote outrora oculto pelo pano grená bem visível nas suas dobradiças chama a atenção,
couro surrado
fivela de prata, da plateia endiabrada, da primitiva turba furiosa, entre os joelhos do pérfido Aldrich.
Capítulo XXII
O tiro
Na boquinha da madrugada, na boquinha da madrugada, na boquinha da madrugada!
O anão tira o último charuto do bolso e... ai, ui!... toma um tiro bem no nó da nuca.
NÃO PERCA, NA TERÇA-FEIRA DIA 23/08, TUDO PODE ACONTECER, MARIA AMÉLIA. O ANÃO MORRERÁ? QUEM ATIROU? QUE TRASTE É ESSE QUE PRESTA OU NÃO PRESTA? A CHAPA TÁ QUENTE.
A CHAPA TÁ QUENTE, MARIA AMÉLIA!
06 agosto 2011
AMOR DÁ ALÇADA

03 agosto 2011
O PENSADOR NU
ILUSTRAÇÃO -Por Felipe StefaniO PENSADOR NU
Por Cecília Prada
O pensador nu extravagou-se pela minha sala. Não veio a convite , nem se fez anunciar. Assim: enquanto eu estava debruçada em cima do micro - em hora crepuscular e de chuva - percebi uma sombra que passou ao meu lado, mas longe, a sala é grande e tem pelo menos cinco regiões de sombra profunda. Assim, quando percebi, ele passara -nu, grandão, magro, de costas. Como quem passeia despreocupado - ou vigilante? - mãos atrás das costas, patrão conferindo tarefas ou plantação. Dava para ver que estava de óculos quadrados de armação de tartaruga encarapitados no nariz grande. Portanto: é um homem que quer ver.
Mas dele, mais nada se podia ver (um homem que se apresenta de costas....significa covardia? Ou rejeição? Unilateralidade -pelo menos). Perguntas sem resposta alguma vêm se acumulando - em séculos de poeira cósmica.
O desplante, pensei. O vigilante- isso. O especula: veio conferir o que faço imersa neste salão de sombras. Como quem tem direito incontestável de assim se extravagar. Lá está ele, o homem nu grandão pelado de costas, parado, diante de uma janela, olhando a chuva cair - e eu, pobrezinha de mim, que lhe invente palavras, cascatas de palavras (perguntas, perguntas) que resvalam sobre o pescoço meio curvo, as costas magronas recurvas -terá 1,90, creio - erigidas como paredes me separando - ele finge que eu não tenho importância. Que não existo? Que a sala está vazia e é sua?
-Ora, então por que veio?
Digo meio alto (sou tímida) , para ver se o desperto, talvez seja sonâmbulo, só, um vizinho que perdeu o rumo, enfim.
Medo? Não, não tenho medo. Dar a volta, correr à sua frente, forçá-lo a me encarar? Minha intuição feminina me diz que não. O certo seria ir pé ante pé seguindo-o - o caminho é longo. E então, com bons modos, cutucá-lo de leve no ombro. Então ele viraria o rosto e....
Surge um problema logístico - tão altão ele, aquele ombro ossudo tão longe do alcance do meu menos de 1,60 (espantada, verifico mesmo que a figura parece crescer à medida que se afasta...)
E se afasta, mesmo. O canto da janela para onde se dirige começa a embrumar-se em um chuvisco de filme antigo preto-e-branco que a cada momento ameaça interrupção definitiva.
E a janela, lá muito longe, chuviscada, é uma janela muito antiga também, reparo: quatro retângulos de vidro, esquadrias descoradas, em cruz - um ferrolho descascado, daqueles altos, manipulado agora por mão invisível, que o gira sem ruído.
Resta a janela aberta, a garoa paulistana leve, antiga e pigarrenta, pontuando a cena que ficará para sempre incompleta.


