11 agosto 2011

SONETO AOS VENTOS!



Só a tormenta do mar forma bons marinheiros.

Ondas vem, ondas vão pelo meu pensamento,
Penso longe demais pois enxergo distante.
Distancio-me sempre incoerente e inconstante...
Inconstante, insistente arrostando o momento.

Ondas vem, ondas vão pelo meu sofrimento,
Sofro pouco portanto inaltero o semblante,
Meu semblante é inocente, atraente, de infante;
Infantil, sonhador, brincalhão e birrento.

Ondas vem, ondas vão pelo meu argumento,
Argumento c'o vento: (Ó momento brilhante!)
Brilha o sol, brilha o mar gira o mundo bem lento.

Ondas vem, ondas vão pelo meu vil contento,
A contento do vento ofereço este instante,
Este instante de infante aloprado, sangrento!


10 agosto 2011

09 agosto 2011

Joseph Hart Vaudeville - 12

por Vítor Queiroz


NOS CAPÍTULOS ANTERIORES a embromação tinha acabado, tiramos a cera do chão. O fim está próximo. Jesus vai voltar em três vias, traduzido e juramentado e etc e etc e etc.

Os holofotes estão acesos, o show de horrores vai começar:


Capítulo XX

Na Boquinha da Madrugada


Na boquinha da madrugada. O pó do picadeiro fresta o charque da ribalta. Laranja madura. Hoje tem espetáculo? Laranja podre. Hoje tem goiabada? Sovaco de bailarina, perna de anão, o abraço dos gêmeos siameses.

Na boquinha da madrugada... esse traste presta ou não presta? Peruca empoada, Chast Aldrich já botou a o nariz pras-fora. Barbitúrico público... não, hã... bublicável estúpido. Piadas e mais piadas.

Na boquinha da madrugada, laranja madura, as bochechas vermelhas, a peruca empoada para fora da cortina [ ............ 12pt. ] e o estrépito das palmas? Laranja de-vez. Risos frouxos. Boatos do outro lado do cortinê grená. O do aveso. Laranja podre. O do fosco. Laranja bichada. Veia cava, artéria aorta, ventrículo infiltrado. Laranja verde. O do ódio cagado e cuspido.

Na boquinha da madrugada, cavidades cavilosas? o avesso do avesso do avesso: uma laranja esfaqueada. Hoje tem macacada? ui, a bomba dos corações frevia, Maria Amélia! O ó do Orco.

... esse traste... frincha nas tábuas das arquibancadas uma tosse nervosa um presságio um juramento a carta errada do baralho torto os pé do bode expiatório virado pra trás o calundu o veneno da maldade troncos penhas montes vales e a triaga da virtude a cafungada da macumbeira no cu de Satanás a pemba de Scheherazade o cigarro da Pomba Gira espantando os mosquito no oco da lona.

... presta ou não presta? a plateia veio abaixo. Boquiaberta a criançada vai pular nest´hora de aflição. Pipoca, guri, pipoca taboca espapoca nos gritinhos. Ai, ui! a bomba dos corações.

Na boquinha da madrugada, na boquinha da madrugada rugas de preocupação nos bastidores. Volta, Aldrich! Porra, que é que esse anão tá falando? Número novo? Achtung! Cadê o pianista. Hoje tem marmelada? Gregor, cadê você, Gregor? Joseph Hart empertigado estala o chicote, um macaco em trajos de gala abrupta, arrota, apupa, gira a manivela.

Prontofudeu, a cortina escancarou tudo... quem abriu esta merda? quem tesourou os sacos de areia? O anão gargalhava, estralou os dedinhos grossos.


Capítulo XXI

Evidência


O caixote outrora oculto pelo pano grená bem visível nas suas dobradiças chama a atenção,

couro surrado

fivela de prata, da plateia endiabrada, da primitiva turba furiosa, entre os joelhos do pérfido Aldrich.


Capítulo XXII

O tiro


Na boquinha da madrugada, na boquinha da madrugada, na boquinha da madrugada!

O anão tira o último charuto do bolso e... ai, ui!... toma um tiro bem no nó da nuca.


NÃO PERCA, NA TERÇA-FEIRA DIA 23/08, TUDO PODE ACONTECER, MARIA AMÉLIA. O ANÃO MORRERÁ? QUEM ATIROU? QUE TRASTE É ESSE QUE PRESTA OU NÃO PRESTA? A CHAPA TÁ QUENTE.



A CHAPA TÁ QUENTE, MARIA AMÉLIA!




06 agosto 2011

AMOR DÁ ALÇADA



Com o coração ardendo, indo, vou tentar seguir o meu destino. 
Um desatino só esse desalinho com que penteio minha coragem.
É quando afagas meus cabelos que viro Sansão, Sã que não sou.
Dou margem a qualquer vento crespo ou alísio.
Mordendo suave, finco-te os dentes-de-leão.
No sopro que me quer a vida leve.
Se quiser me levar, avise para onde, esconde só todos os mapas.
Vem munido de canção, que eu componho rima aos montes.
Sina de querer melodia toda noite, mel ao centro da lua.
Comer as metades da laranja feito pão amadruguecido.
Há de se vir e de se ver muito ainda: hei de me ter com asas.
Hei de te ter com trevos, pousado no verde desse amadurecer.


03 agosto 2011

O PENSADOR NU

ILUSTRAÇÃO -Por Felipe Stefani

O PENSADOR NU

Por Cecília Prada

O pensador nu extravagou-se pela minha sala. Não veio a convite , nem se fez anunciar. Assim: enquanto eu estava debruçada em cima do micro - em hora crepuscular e de chuva - percebi uma sombra que passou ao meu lado, mas longe, a sala é grande e tem pelo menos cinco regiões de sombra profunda. Assim, quando percebi, ele passara -nu, grandão, magro, de costas. Como quem passeia despreocupado - ou vigilante? - mãos atrás das costas, patrão conferindo tarefas ou plantação. Dava para ver que estava de óculos quadrados de armação de tartaruga encarapitados no nariz grande. Portanto: é um homem que quer ver.

Mas dele, mais nada se podia ver (um homem que se apresenta de costas....significa covardia? Ou rejeição? Unilateralidade -pelo menos). Perguntas sem resposta alguma vêm se acumulando - em séculos de poeira cósmica.

O desplante, pensei. O vigilante- isso. O especula: veio conferir o que faço imersa neste salão de sombras. Como quem tem direito incontestável de assim se extravagar. Lá está ele, o homem nu grandão pelado de costas, parado, diante de uma janela, olhando a chuva cair - e eu, pobrezinha de mim, que lhe invente palavras, cascatas de palavras (perguntas, perguntas) que resvalam sobre o pescoço meio curvo, as costas magronas recurvas -terá 1,90, creio - erigidas como paredes me separando - ele finge que eu não tenho importância. Que não existo? Que a sala está vazia e é sua?

-Ora, então por que veio?

Digo meio alto (sou tímida) , para ver se o desperto, talvez seja sonâmbulo, só, um vizinho que perdeu o rumo, enfim.

Medo? Não, não tenho medo. Dar a volta, correr à sua frente, forçá-lo a me encarar? Minha intuição feminina me diz que não. O certo seria ir pé ante pé seguindo-o - o caminho é longo. E então, com bons modos, cutucá-lo de leve no ombro. Então ele viraria o rosto e....

Surge um problema logístico - tão altão ele, aquele ombro ossudo tão longe do alcance do meu menos de 1,60 (espantada, verifico mesmo que a figura parece crescer à medida que se afasta...)

E se afasta, mesmo. O canto da janela para onde se dirige começa a embrumar-se em um chuvisco de filme antigo preto-e-branco que a cada momento ameaça interrupção definitiva.

E a janela, lá muito longe, chuviscada, é uma janela muito antiga também, reparo: quatro retângulos de vidro, esquadrias descoradas, em cruz - um ferrolho descascado, daqueles altos, manipulado agora por mão invisível, que o gira sem ruído.

Resta a janela aberta, a garoa paulistana leve, antiga e pigarrenta, pontuando a cena que ficará para sempre incompleta.



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