22 agosto 2011

CAMPINAS, VINTE DE AGOSTO DE 2011

FOTO - Por Ju Ramasini


CAMPINAS, 20 de Agosto de 2011


Hoje esta novela acaba: saberemos qual bandido tomará a Prefeitura.

[Microconto monofrásico de dez palavras; contributo cínico, digo - cívico do De Chaleira ao dia histórico e continuado]



21 agosto 2011

ÚLTIMA PARADA : MUSEU DO ESQUELETO


Última Parada: Museu do Esqueleto:


- Saia da frente, Ingedore! - gritou Shelly, dando um encontrão violento em mim. Tudo para chegar ao ao corredor conhecido como "Park Jurassic III" - que mala.

- Uaaaaaaaaau! - tinha um esqueleto de tiranossauro rex bem à minha frente.

- É-É ma-maneiro... - completou Murilinho, ao meu lado.

- Ahhhhhhhhhh!

- O que foi, Pâmela? - perguntei.

- Diga! - disse Murilinho.

Putz grilo! Pâmela estava branca igual o gasparzinho. O que tem de errado?

- O ti-ti-ti-tiranossauro se-se me-me-mexeu!! - ela gritou. Esse tiranossauro era o maior desse corredor.

- M-Mentira! - eu bati de frente. Olhava ela por sobre os ombros.

- É-É-É-É a-a p-p-pura ve-verdade! - ela não parava de apontar o dedo para o fim do corredor.

Eu e Murilinho seguimos a Pâmela com o olhar. Quase caímos pra trás ao topar com todos os esqueletos vivos, com muita fome.


20 agosto 2011

A ÁRVORE DA VIDA

A gente nunca pode desistir de encontrar sentido no aparente absurdo de nossa existência.

    

Moacyr Scliar (★1937 - †2011)


Quando já se tem e não é pouco, surge o mais, tão atraente que excita o corpo, ao superexcitar a mente. Passa-se a mentir para o que, de fato, é sentido. Uma ganância quer lhe esganar até o gozo, então você se envaidece, mas teme apostar na sorte do novo, por receio de perder o todo e reconstituir-se do zero. Ciclos. Natural expirar e existir várias eternidades numa mesma vida, só não sabemos até quando, nem onde ou qual será a intensidade. Revigora o sangue e também gera a pira. Cabe aos nós se desfazerem com esse fogo que gira, separando em brasa um fio de outro, feito o filho do ventre da mãe, parido para o mundo, por mais que ela demore a descobrir que nada, nem ninguém, pertence às nossas expectativas. O que não se pode desenlaçar é o tempo. Certo que a memória se desmancha quando queremos, mas há algo que nos força a reter, mesmo porque já bem existe em nós. E o que há? Passagens. Possuímos vários orifícios na carne e cada um deles conecta o exterior à alma, vice-versa. O olhar é limitado de visão, porém vemos o que ela alcança, um horizonte, assim como quando cegamos. Fica mais claro para o lado de dentro e os outros sentidos mais aguçados geram o plano de fundo. 

Há de se querer ficar mouco para não perceber os excessos de fala no humano vizinho, porque a escuta é mais astuta para apreciar o cantar da passarada ou a voz de outra música que bem nos faça. A boca é múltipla, fala e degusta, beija e cospe na cara, ofende e rasga seda, vaia e até escreve, tudo pela transmissão da gente, pela transfusão de genes a desmantelar qualquer equilíbrio. Dos buracos que são mais em baixo, intrometemos, mas logo excretamos. Se paira no prazer, transcende, sêmen vira ser vivente, perpetua o que perderemos ao envelhecer. Portanto, eu prefiro a morte anunciada do medo, que as delongas da saudade. Esse vento não volta igual, modifica a maré, crateriza o satélite, movimenta o planeta, cavuca a terra, reanima os mortos. Os poros existem para o nosso espírito poder saltar, em queda ou ascensão - livres. Tudo respira. Basta atentar.



19 agosto 2011

CHRÔNICAS DO ANNO BOM - II



Chrônicas do Anno Bom - Augmentadas e Revistas P´los Preconceitos do Século.





25 de Octubro de 2005


Eu já o adivinhava: o ofício das chrônicas, d´entre todos os que impendem a um homem de letras, será talvez o mais infausto, o mais árduo. Daí resulta a intermitência com que as escrevo. Os anais que importam registar aos sucessos ordinários estarão entre os mais insusceptíveis à penna. Dar-lhes forma adequada aos usos da literatura importa n´um tão extraordinário esforço que quase sucumbo sob o imponderável peso d´esta malfadada empresa. Reporta-los tal como se nos apresentam, na crueza de seus efeitos, insipidez de suas intenções, na banalidade de seus meios, exige-nos uma abstenção impossível.

É óbvio que não recusamos a eventualidade d´uma pecha em nossa tíbia visão. Os nossos olhos, avezados ao “maravilhoso”, quiçá estão ineptos para o vulgar, para o consuetudinário, na justa singeleza de sua verdade. Sim!... Talvez. Mas de que nos há servir uma verdade que nos não entusiasmasse co´as múltiplas projeções de suas possibilidades, co´as infinitas cambiantes de suas promessas? De que nos há servir uma verdade que nos não atirasse para além de toda a verdade? Daí resulta que o insignificante inventário das misérias ordinárias, ou antes, a exaustiva apuração das jogralices cotidianas, exaltando o espírito fatigado, não faz a chrônica. A chrônica é a digressão, é a exegese. Entanto, faltando-lhe o adminínculo salutar do cinismo clarividente dos que analisam, vai a chrônica avizinhando-se da pachorrice cuscuvilheira do jornal. O jornal, que a boçalidade nihilista fez de aparelho propalador das insignificâncias, dos mais ínfimos incidentes que se nos tem adergado na azáfama de nossas existências liliputianas.

Meditemos...

Que importa a nós outros que o macrobismo avozinho do Sr. Paulo lamente a impertinente intimidação dos machatins do cânhamo, pilhando o seu caro empório co´a exigência de ½ caixa de cerveja? Este incidente, anódino, mesmo insípido na sua nudez, tem interesse algum para a chrônica. Mas se lhe ajuntarmos a glosa ponderada d´uma fina exegese veremos resultar uma bela página de prosa. O Sr. Paulo acedendo aos caprichos do crime é o eco roufenho da tacanhez que a todos nos oprime o ânimo, da impotência que a todos nos abate e acanalha. A sua temeridade, castrada p´la omnipresença imponderável dos abantesmas da hora (a Polícia, que é a crítica funesta da ousadia, da coragem) – a sua temeridade, dizia, assim castrada é que faz a consternação do espírito e a congestão das faces nas projeções phisionômicas da melancholia, que os cuidados de D. Thereza vão acariciar nas silentes tertúlias da alcova empós a faina diuturna do empório.

Não é, pois como inquiríamos? Que importa a nós outros todas as minúcias d´este incidente quando o relatamos apenas telegraphicamente, a modo dos jornais? Será apenas uma ordinária página de “chrônica policial”, vazada n´uma prosa inda mais ordinária, que a chatice ambiente rumina co´a boca hiante de tédio no rancho aborrecido das redações.

A chrônica almeja não o facto, que é pífio, porém o que d´elle resulta, isto é, a subtil alternativa dos pendores do espírito no entrós imperscrutável das paixões. A chrônica quer o orgulho escoriado no recontro feroz dos egoísmos e não o transuto de uma contenda. A chrônica quer a desolação do espírito na derrocada das paixões e não uma página forense copiando as circunstâncias atrozes do crime.

Mas horas há em que foge-me a chrônica... E ella vai-se co´a chegada de minha mulher. Dezoito annos... Deus, que é sábio, guardou a chrônica para a maturidade e... para os homens.

Ave!

17 agosto 2011

DEMÔNIOS INSONES NA MADRUGADA

Desenho: Por Felipe Stefani

DEMÔNIOS INSONES NA MADRUGADA

Por Cecilia Prada

Ter demônios tão tardiamente, ora. Mais: gostar deles, redespertos, na manhã inesperada. Saudá-los como a velhos conhecidos, amigos – o diabinho da inquietação na juventude, demon, espírito, eis, está de volta, finalmente: e eu não tenho medo dele. Me ressuscito em chamas: escrevo.Estou cara-a-cara comigo, inevitável este confronto, sei agora quanto o adiei, quantas coisas interpus entre nós dois no percurso longo da vivência, os trancos e barrancos de nossa conversa descontinuada – pelos percalços e contingências, pó dos anos, entulho acumulado, enfim: circunstâncias.

Eu sabia que este momento chegaria – e que novidade, não o desejei sempre? diz a verdade, Cecília, desde aquele momento não-lembrado mas acontecido com certeza, em que fizeste uma escolha - ou, quem sabe, já vim "escolhida" de outras vivências? - pois aos catorze anos eu dizia "eu queria viver em uma casa de paredes caiadas, com estantes enormes cheias de livros, até o teto, escrevendo." E assim estás agora, te restaram – e ainda bem – algumas paredes brancas, as estantes de livros, tua essência, escritora, tua vivência.

Teu demônio das madrugadas.

·

Se a gente não perder o apoio de coisas concretas (pontos, fios...) não se perderá - vê, no teu caos há pequenas marcas, pontos de luz, correntezas de ar para te guiarem, indícios, algas marítimas, gaivotas, se forem, e até: escolhos - a pedra no meio do caminho. É só avançar, pelas trevas, às apalpadelas, mas de olhos, sentidos, todos alertas, espevitados como quando tinhas doze anos, narinas frementes, à procura da vida.

Quem procura, acha.

Então, ser escritor é isso mesmo: o que percebe todas as espinhas e espinhos, os carocinhos, as pintinhas e os espirros, da realidade - e sabe descrevê-los. O homem comum só tem a “realidade” que lhe foi dada, ou imposta - não se preocupa em pensá-la, em interrogá-la. O escritor é o guia, aquele que avisa, “cuidado, não vá tropeçar na pedra” – embora viva, ele próprio, tropeçando.

Essa, a nossa missão.


16 agosto 2011

O DIA DUM CÃO

O DIA DUM CÃO

Por Marco A. de Araújo Bueno

O cão da arma tensionado reluzindo na testa da moça – falou, morreu! Na saidinha do banco, sol de almoço, desengatilhar demora mais. No qual cantinho de zíper lá dentro estava o cheque de trezentos? Ali, artérias rufavam em pontas de dedo com bastonetes metálicos, canetelhas e chaves mais alicatezinhos com dipirona, abafados por cotonetes e protetores de calçinha – Reia tudo no chão, retardada!

O cão está solto no feirão de seminovos. Parachoques na cor, direção e ar, tunada essa bichinha!E ela pode ser sua hoje mesmo que tu passou no vestibular da unicoisa e tal. Sol de almoço, pensar demora mais. O ronco do acelerador? Quer ver, escuta! Terninho pra foto 3X4, bronze da piscina do clube, cabelo de máquina três. Pensô.. de noite, no esquenta do posto, a vodiquinha trincando, o pinto engomado. E amanhã é sabadão, cabeça!

Mas ela, sobrevivida, trabalhava e tinha pressa. A fera (domingão tem Mônaco, circuito de rua; sol de almoço) só com pressa de arrancar. Faixa de pedestre é que nem servidor que cai – arabescos horizontais, maçaroca de gentes-; sempre tem uma retardada! Sunga por baixo, sonzera de rodeio e o tunado tinindo. Tudo ainda por acontecer num já-acontecido estatístico de gaveta funda. E tu, leitor – não tira o olho dessa bunda!


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