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06 junho 2010

FRAGMENTÁLIA PARA H.HILST: UM MC ERÓTICO,OUTRO-METAFÍSICO

'Eu sento, se você deitar"

Por Andréa del Fuego

***

'Sussurrou-lhe: São tuas perdas; fora o adicional, e coisas somadas'

Por Marco A. de Araújo Bueno

{A obra histiana oscila entre o sacro e o obsceno; nada se pulveriza, no entanto}

30 maio 2010

Resultado do 1º Concurso de Microcontos

E o 1º Concurso de Microcontos De Chaleira chega ao fim, com uma semana de atraso e mudanças.

Desde o começo a coisa não tinha intenção de ser burocrática mesmo.

Não há um vencedor. Com o apoio de Wilson Gorj, conseguimos abrir a possibilidade de três vencedores, são eles: Alcir Pereira, Isabel Furini e Israel Teles.

Leia abaixo os microcontos dos vencedores, seguidos de um breve comentário d'algum colunista:

***

ALCIR PEREIRA

Rejeitado

Saia, diziam os pais, trancando a porta. Retire-se, falava a professora. Afaste-se, proferia a namorada. Desapareça, gritava a esposa.
Agora sumi mesmo! Contentes?
Na plúmbea mão, o bilhete e a faca.

Rafael Noris - a escrita telegráfica cria um clima rápido e, pela rejeição de todos em volta do personagem, surge uma expectativa muito grande quanto ao final. satisfaz quem lê, adorei, lembra os micros do Dalton.

***

ISABEL FURINI

Olhar

Os olhos de Maria contemplam as borboletas coloridas do quadro de Dalí, enquanto as borboletas coloridas do quadro de Dalí invadem os olhos de Maria.

Marco Araújo Bueno - Espelhamento; nada original. Mas o abuso de caracteres / palavras, num Mc, confere-lhe intensidade. Reificação radical.

***

ISRAEL TELES

Inferno

Achei que haveria fogo ou enxofre. Gritos. Súplicas. Sangue. Morte.
Mas não há nada daquilo que tanto nos fizeram acreditar durante toda a vida.
Nada.
Só há um imenso vazio, um horizonte tão infinito quanto o silêncio que o preenche.
E a eternidade, para relembrar todos os meus pecados nesse inferno.

Luciano Garcez - Poema em prosa, ambos enumerativos no começo, “Gritos. Sangue” e ecos “vida/nada”, de “horizonte tão infinito quanto o silêncio”, boa e bela imagem, central no conto. O tema dantesco poderia ser mais “condensado”, no sentido poundiano, como, por exemplo, “o silêncio que o preenche de eternidade para relembrar etc.”

Parabéns a todos os envolvidos por nos mandarem suas obras, todas elas serão apagadas de nossos arquivos e poderão ser usadas por vocês com o mesmo ineditismo que possuíam quando nos mandaram.

Abraços e até a próxima!

23 maio 2010

GENITÁLIA CERVANTINA

EL MIGUELITO
Recomenda-se para este especialíssimo domingo outonal, um dos mais harmoniosos e surpreendentes conjuntos de micronarrativas no qual enredamos o nascimento, hoje,do

Miguel Noris, filho da Francine e Rafael, um dos autores desta coluna. Ele, o primeiro

rebento não virtual nem literário na vigência do De Chaleira, descrito pelo acanhado pai

como 'robusto e pintudo', evoca-nos a epifania de um 'Dom Quixote', pois não? E garanto

que concisão e alumbramento aos futuros haikais do nosso colunista.

Vida longa, Miguelito! De resto, é tudo brevidade.

09 maio 2010

SOB A PORRA DO CONCURSO DE MICROCONTOS

O título desta coluna dominical é Fragmentália; o sub-título - A Genitália do Fragmento. O recorte teórico dela, portanto, alude à gênese da micronarrativa, tanto quanto esta remeta à estética do fragmento que a modernidade tardia consolidou, seja nas artes, seja no imaginário da hipermodernidade. Trouxemos elementos, categorias analíticas e subsidios metodológicos visando suscitar idéias e prover ferramental mínimo que nos permitisse ferventar o Primeiro Concurso de Microcontos do blogue coletivo De Chaleira, cujo prazo de incrição expira hoje. Mas a iniciativa espirrou (identificamos os alergógenos...) e o prazo ficará estendido sine die. A idéia era singela - jogar uma sementinha! Disseminar essa controversa e apaixonante modalidade de escrita ficcional - sêmem, porra! Ah, os alergógenos...Endêmicos, na blogosfera literária, beiram o anedótico, neste caso. O 'prêmio' ao melhor microconto desse nosso concurso? Pois bem, entremos de cara com um a priori da micronarrativa - a habilidade de exercitar a compreensão do não dito, do que ficou embutido na carpintaria da concisão. Então, o prêmio seria o livro gentilmente oferecido pelo amigo (meu e do blogue)Wilson Gorj, ou - a porra do sêmem, ou seja - a oportunidade, concedida ao nosso leitor-escritor-hipócrita, de ter seus microcontos contemplados pela ótica de doze colunistas com diferentes perspectivas da estética minimalista? Um livro, objeto fetiche (que muitos, inclusive, sorteiam...)ou a sensação robusta de pertença a uma reflexão mais abrangente, mais processual, hein? De Chaleira e seus vapores de sutileza, que nunca confunde quatorze caracteres com micronarrativa. Que nunca substituiria suas fervidas inquitações literárias por engodos faustianos; pelo lançamento aleatório de dados.De Augusto dos Anjos a Murilo Rubião, notem - leva-se um bom tempo para que se possa produzir escrita diminuta. De resto, é contagem regressiva, essa mania ianque; e pirotecnia...E, a propósito de ter um micro meu indicado para coletãnea de uma editora, aproveito para, respeitosamente declinar e sanar o equívocado título dele, daí:

“Imagens da Resistência”

Postou-se nu diante do tanque – protesto! Então lavou suas cuecas.

Nada mais caro e complexo aos jurados deste blogue que preservar a prudente distância entre o liliputiano reducionismo e a bomba atômica que Barthes já preconizava para a brevidade.

Por Marco A. de Araújo Bueno

02 maio 2010

PANORÂMICA SOBRE MCs PRÉ-CONCURSO DE CHALEIRA

(clique na imagem para ampliar)

“Sopros de literatura”

{Elementos para uma avaliação do que se configure como MICROCONTO, a propósito do concurso da ABL e com vistas ao PRIMEIRO CONCURSO DE MICROCONTOS DE CHALEIRA}




TRIBUNA DE MINAS
Leonardo Toledo
Repórter

Com quantas palavras conta-se uma história? Há quem defenda a concisão como um exercício fundamental para se adaptar aos meios de comunicação atuais e à vida social contemporânea. Ao lançar um concurso de microcontos no Twitter, a Academia Brasileira de Letras (ABL) marca presença em uma mídia que foi alvo de severas críticas da ala mais conservadora. Ao mesmo tempo, a entidade dá um passo importante na legitimação de um tipo de literatura pouco prestigiada nas universidades. Uma modalidade que nasceu bem antes das mídias eletrônicas, mas que incorpora, como poucas, a agilidade e a concisão necessárias nessa linguagem.
Território de experimentações, o microconto mantém abertas algumas arestas conceituais. O número máximo de caracteres permitidos em cada texto, por exemplo, costuma variar conforme a proposta de cada projeto ou coletânea. Algumas coleções permitem até 50 palavras, outras limitam a apenas dez. No concurso da ABL, a fronteira são os 140 toques do Twitter.
Autor da tese "Brevidade e epifania na micronarrativa contemporânea", defendida há dois anos na Unicamp, o pesquisador Marco Antônio de Araújo Bueno ressalta que nem tudo o que é postado nessa rede social pode ser considerado um microconto. Conforme o escritor, a literariedade seria o elemento crucial para distinguir essa modalidade de outros textos literários minimalistas. Sendo assim, anedotas, sentenças, máximas e aforismos, muito comuns na internet, estariam fora dessa categoria. "O que perpassa toda definição de microconto é a idéia de narratividade, ou seja, a propriedade de uma narrativa breve, de contar um história completa valendo-se da idéia de menos é mais. Para tal, deve haver personagem, recorte espaço-temporal, ação e uma certa abertura às diferentes interpretações", esclarece.
"Se não existe uma história por trás daquelas palavras, não é microconto. Mas, para contar essa história você pode recorrer a recursos de humor, ironia e lirismo. Como é algo sem definição, não há nada a que se prender", complementa o escritor Samir Mesquita, autor do livro "Dois palitos", reunião de 50 micronarrativas convenientemente acomodadas em uma caixa de fósforo.
Samir conheceu esse tipo de literatura minimalista em uma oficina literária ministrada por um grande entusiasta do gênero, o escritor pernambucano Marcelino Freire, organizador da coletânea "Os cem menores contos brasileiros do século" (2004). No livro, estão presentes narrativas em até 50 letras de autores famosos, como Lygia Fagundes Telles, Millôr Fernandes e Moacyr Scliar.

{...}

A difícil arte de cortar palavras
"Parece fácil, mas não é", é o que diz a voz unânime de escritores e estudiosos das micronarrativas. "Os microcontos exigem do leitor uma grande interação, pois o que está escrito é apenas 10% da história, o resto acontece na cabeça de quem lê. Cabe ao escritor escolher as palavras e a melhor forma de explorar essa narrativa. Por outro lado, são textos muito rápidos, que podem ser lidos a qualquer momento, em qualquer lugar, o que ajuda a levar a literatura para o dia a dia das pessoas", explicita Samir Mesquita.
Anderson Pires, entretanto, pondera as limitações do gênero, que opera sempre sob a guilhotina da extrema concisão. Na opinião do professor, a grande qualidade dos microcontos não estaria no conteúdo dos textos, mas na experimentação da forma literária. Nesse sentido, Pires chama atenção para os assuntos abordados. "É curioso como os autores escolhem temas polêmicos, embora o tratamento dado seja, por vezes, superficial."
Apesar de ter ganhado maior visibilidade recentemente, não é de hoje que os escritores buscam formas literárias minimalistas. Publicado postumamente, o livro "Pequenos poemas em prosa" traz pequenos textos do poeta Charles Baudelaire. Segundo Marco Antônio Bueno, o francês foi discípulo fervoroso de Edgar Allan Poe, que se indignava com o critério da extensão como índice para se julgar o valor de uma obra literária, ainda no século XIX.
O pesquisador, no entanto, situa a origem da micronarrativa na "Poética" de Aristóteles, quando o filósofo reduz a "Odisséia", de Homero, a núcleos de ação que cabem em um único parágrafo. Edgar Allan Poe e norteamericano Ernest Hemingway também são citados como importantes colaboradores da redução formal da narrativa. Contudo, o texto "Dinossauro", do guatemalteco Augusto Monterroso, costuma ser apontado como o marco inaugural do microconto propriamente dito: "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá". No Brasil, Dalton Trevisan, Luiz Eduardo Degrazia e João Gilberto Noll são considerados referências em histórias curtas.


{RECORTE DA MATÉRIA PUBLICADA NA TRIBUNA DE MINAS}

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“Resistência Estética”


"Vamos deslindar este drama?" Não, bradou ao analista-“Perecerá lindo".

[Mc monofrásico de dez palavras, 72 caracteres.]

25 abril 2010

SOBRE O MINICONTO

"O miniconto é um gênero difícil, todos os que até agora escreveram sobre ele o dizem. E é verdade. Nada mais aparentemente fácil quanto meia dúzia de linhas, alguns caracteres, um enredo sucinto, um personagem com características marcantes, e eis um miniconto. Nada mais longe da verdade. E os bons escritores que se dedicam a ele, e já são tantos, o sabem a duras penas. Nada pior do que a aparente facilidade. Nada mais distante do fácil e do fóssil, como dizia Drummond, do que o miniconto.
Pois o miniconto é um híbrido de conto e de poesia. Tem do primeiro a história, o fato, o personagem, e, do segundo, o imprevisto, o trabalho de linguagem, a síntese e a metáfora. Tem mais, da poesia, o fecho como o verso de ouro de um soneto. Não acerta um miniconto quem não sabe terminá-lo. Mesmo que inicie o mais comum dos relatos, o miniconto termina sempre de uma maneira insólita e impactante, ou não termina, o que vem a dar no mesmo.
Mas quem escreve minicontos sabe que o leitor precisa de pontos de apoio, que não pode prescindir de um enredo para entreter-se com as coisas da vida, matérias do cotidiano, pequenas vidas de outros que são como as nossas, às vezes piegas, outras fantásticas, de qualquer modo realistas, pois no mundo e no miniconto tudo é possível."

Luiz Eduardo Degrazia

***


“Acabamento”

Por Marco A. de Araújo Bueno

Despediu-se em definitivo; pedra em cima, tomou-se de rumo.Voltou apenas para dizer do relativo do gesto, da insuficiência da linguagem e que, sobre a lapidação da pedra, a propósito, mudara de provedor e etc.; ah, também que o etecétera era provisório e que o contrário de "rumo" poderia ser “amor” mas era "omur" mesmo.


***

Na próxima quarta, 28, o link para a matéria de Leonardo Toledo para o jornal Tribuna de Minas (a propósito do concurso de microcontos da ABL) e o edital para o concurso deste blogue. A Parte II do Ensaio de Almeida sobre micronarrativa, dada sua extensão, encontra-se no blogue “O Muro”, do colega e colaborador do De Chaleira Wilson Gorj, microcontista que compilou a Biblioteca cuja terça parte já publicamos aqui.

18 abril 2010

(DES)FRAGMENTÁLIA & MEMÓRIA



REFORMACRÓSTICA
Por Marco A. de Araújo Bueno
Abril, de Carajás.




Rebenta o sol na terra adormecida
Enquanto ainda dormem seus senhores;
Fingindo-se de homem pela vida
Omite a dor num manto de labores.

Rasteja-se no campo qual ferida
(Mais há no campo a cana do que flores)
Até que chegue a hora da comida,
Aguada e fria em perda de sabores.

Graceja e canta, pois que a vida é linda,
Rogando aos céus apenas por saúde
Até que a morte o venha, enfim, colher...

Retoma a sua cruz num gesto rude,
Inerte, pois que desconhece ainda
A hora em que nem saberá comer.


[E pra não dizer que não falei dos Mcs:

INFANTICÍDIO

Por Marco A. de Araújo Bueno

Ração matinal; foi-se. Golpe-1 da foice.imensidão canavial do dia...

11 abril 2010

FRAGMENTÁLIA DE ANIVERSÁRIO TRIMESTRAL

ENSAIO E REFERÊNCIAS SOBRE MICRONARRATIVA –PARTE I

Márcio Almeida*
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Em Portugal, a Coleção O bairro, projeto minimalista muito original criado por Gonçalo Tavares, faz o maior sucesso. No Brasil, o pioneiro do miniconto Elias José (Prêmio Jabuti em 1974) publicou, entre outros, Fantasia do olhar, inspirado nas obras plásticas de Aldemir Martins; os jovens Max Machado, Kaluã e Ian Leite criaram um espaço virtual, no twitter e nos muros para provocar estranhamento com microcontos em sticker colados nas esquinas paulistanas, metrô, placas de ruas e orelhões; veículo de comunicação e cultura da maior importância como a Folha de São Paulo publica matérias sobre antologias dedicadas à micronarrativa produzida no Brasil, além de fazer recente homenagem especial no “Mais” ao artista multimídia Nuno Ramos. A cada dia, novas editoras põem no mercado novos autores, que também se lançam em edições independentes responsáveis pela amplitude do leitorado. Com uma variedade considerável de nomes, o miniconto já é ,hoje, considerado academicamente como gênero. Além da El cuento, por décadas editada por Edmundo Valadés, a cada ano novas revistas especializadas aparecem, impressas e eletrônicas, dentre as quais The Atlantic, Talk of the town (da The New Yorker) El cuento en red (talvez a principal referência em espanhol), Ekuóreo (colombiana, a primeira da América Latina dedicada exclusivamente à minificção) The Rose Metal Press Field Guide to Flash Fiction (considerada uma das melhores em inglês), Flash y Súbita, New Sudden Fiction e, no Brasil, a ex Phuraphroidy, de Jardinópolis, SP. O movimento da minificção já chegou ao rádio e ao teatro universitário. Universidade como a de Austin, no Texas, já oferece curso de pós-graduação sobre escritura minificcional e as classes de graduação mostram-se cada vez mais abertas à experimentação através de oficinas. Ganhadora do Prêmio Nobel, Nadine Gordimer afirmou que a consciência moderna, com seus ”clarões de terríveis revelações”, se vê melhor representada pela ficção breve. Pesquisa atualíssima produzida pelo National Endowment for the Arts para apurar sobre a diminuição da leitura nos Estados Unidos concluiu que o público que assiste a eventos desportivos lê mais literatura, o que vem justificando haver uma inundação de intentos literários via internet e, por conseguinte, de novos leitores. O minicontista Leonardo Brasiliense ganhou, em 2006, o Prêmio Jabuti. No Brasil, a microficção tem sido amplamente utilizada nos cursos de criação literária. Já são comuns, em diversas partes do mundo, eventos como simpósios, seminários, encontros internacionais e similares realizados com um sempre crescente número de participantes heterogêneos contribuindo para a discussão de questões do multiculturalismo. A minificção é analisada por um dos mais proeminentes especialistas do assunto, Lauro Zavala, como “o gênero mais didático, lúdico, irônico e fronteiriço da literatura”, cujo aparecimento, embora ocorrido nos princípios do século XX, coincide em sua expansão mundial com a prática da escrita digital, como forma de releitura dos demais gêneros. Segundo também Zavala, a minificção é “o antivírus da literatura”, e apresenta muitas razões para tal afirmação: “incita as crianças e outros leitores aprendizes a tornarem-se viciados em literatura; corrige os problemas daqueles que estão agarrados a um único gênero; permite a aproximação a obras monumentais a partir da acessibilidade do fragmento; facilita o reconhecimento da dimensão literária em diversas formas de narrativa, como o cinema, as séries audiovisuais e a narrativa gráfica; cria a possibilidade de reconhecer de maneira didática as formas mais complexas da escrita, ou seja, humor, ironia, paródia, alusão, alegoria e indeterminação; dissolve a distinção entre leitores de textos e criadores de interpretações; propicia que um estudante/leitor descubra a vocação do seu projeto de leitura; estimula o leitor mais sistemático a orientar sua investigação para terrenos inexplorados, não necessariamente associados à minificção, ajudando, enfim, a resolver problemas crônicos dos hábitos de leitura, agilizando as vias críticas e facilitando a livre circulação de convenções genéricas e da possível reformulação lúdica em cada releitura.”

***

"Tietê"

Podia nadar, fazer regata. Hoje posso não jogar lixo nele.


.
{ Publicado na Minguante [“Fado”] com o título “Tejo” – enviado em 14/Out./08 com remissão ao fragmento teórico da minha tese de doutorado, não publicado na seção “Microteorias” em edição anterior}

04 abril 2010

Чекловиски

Fragmentália também é 'ontraniênie", que é 'estranhamento' em língua eslava.
Boa Páscoa, que é 'passagem' em hebraico. Passar bem!


(...) Domingo eu quero ver,
O domingo passar.
Domingo eu quero ver
O domingo acabar!"

(Titãs)

Até o próximo domingo, porque hoje não é dia de Biblioteca.

***

"Piscar d'olhos"

Por Marco A. de A. Bueno

- Como viu a implosão da rodoviária?
- Quando vi, num vi!

28 março 2010

MICRONARRATIVA E O NÃO-SABER - DROPS TEÓRICOS + Mcs

"(...)Como dice Luisa Valenzuela: el escribir no es exorcismo o catarsis, es más bien una confrontación con los abismos. Un texto brevísimo debe ser un abismo, un despeñadero iluminado por la palabra, un golpe tremendo para el lector, más fuerte que el famoso knock-out de Cortázar cuando se refería al cuento. Y ese abismo que es el microrrelato debe ser ancho y profundo, para que el lector o lectora introduzca sus manos, su cabeza, y toque, mire y huela otras historias que nacen, quiebran su cáscara y se abren como puertas mágicas. Historias que hablan de una historia: los relatos enmarcados que se agarran la cola, al modo de los elefantes. O historias que no dicen nada de tan clásicas que son: Ella fue al edificio de correos a dejarle una carta. Ella escupió tinta. Ella creyó que… O historias donde la venganza se traduce en otros relatos, de otras personas, donde suceden hechos similares. O historias de la espera donde uno de los dos se entrega amordazado al misterio de nunca saber."

***

"Para Clarice"

[Da série "Metafísica Temprana"]

Por Marco A. de Araújo Bueno

- Posso comer esse ovo, mãe? Ou ele está grávido,ainda?

{Mc monofrásico de dez palavras, inédito, a propósito do apreço que Clarice Lispector tinha pelo seu conto "O Ovo e a Galinha", aquele que pretendia ler em um congresso de bruxaria na Colômbia, caso não lhe permitissem o silêncio}

***

ARRITMIA

Por Rafael Noris

o músico bêbado
leva à noite
emoções violadas.

21 março 2010

FRAGMENTÁLIA VII - DROPS TEÓRICOS + Mcs + Haikai

" ¿Cómo podría diferenciarse el micro-relato del minicuento? En el minicuento los hechos narrados, más o menos realistas, llegan a una situación que se resuelve por medio de un acontecimiento o acción concreta. Por el contrario, el verdadero desenlace del micro-relato no se basa en una acción sino en una idea, un pensamiento. Esto es, el desenlace de un minicuento depende de algo que ocurre en el mundo narrativo, mientras que en el micro-relato el desenlace depende de algo que se le ocurre al autor. Esta distinción no es siempre fácil. Otra característica esencial del micro-relato es la fusión de géneros. Algunos elementos narrativos lo acercan al cuento convencional, pero el micro-relato se aleja de los parámetros del cuento y del minicuento porque participa de algunas de las características del ensayo y del poema en prosa."

[Koch,M.Dolores in "Diez Recursos para Lograr la Brevidad en el Micro-relato]

***

MICRO-DIVAGAÇÕES
por Rafael Noris

"um mosquito gordo

na janela, a luz da manhã
trespaça meu sangue."
George Swede


"Do último verão, no tronco da árvore, a casca vazia de uma cigarra: ouça o canto."
Dalton Trevisan



O que há de comum neste haicai e microconto? Ambos contam histórias, apresentam conflitos, são epifânicos. Ambos se distinguem na forma, mas são transgêneros no conteúdo. Imagine:

"Na janela, o mosquito gordo e a luz da manhã que trespassa meu sangue."

"Do último verão:
a casca vazia da cigarra
no tronco da árvore."


O conteúdo não diz muito, não te diz o que sentir: mas você sente! Algo tão pessoal... Há casos que os microtextos se correlacionam, te iluminam...

Bons haicais e bons microcontos são epifânicos e têm o mesmo alvo, objetivo: teu espírito (razão e emoção, caso queiram). Ou não?

***

EQUALIZANDO A RELAÇÃO
por Marco Araújo Bueno


Ela quer: "Sinta saudade; liga sempre! "Ele fantasia...cinta-liga!

14 março 2010

FRAGMENTÁLIA VI -


FRAGMENTO TEÓRICO VI

Aqui, e antes de prosseguir arrolando pontualmente elementos propostos por um ou outro teórico, a partir da idéia do conto como arranjo cuja eficácia dependa de sua intensidade como acontecimento puro, ou seja – autônomo, proponho, abstraída de seu datado contexto estruturalista, uma definição para a narrativa breve ou brevíssima (como a de tipo monofrásico) que, de todas quantas vicejaram em complexidade e extensão no auge do estruturalismo, sempre me pareceu a mais econômica e funcional, até pela sua impermeabilidade às concepções ideológicas mais dogmáticas, a noção de estrutura tomada ao lingüista dinamarquês Louis Hjeumzlev, brevíssima, para definir operacionalmente o microconto, acrescendo a ela apenas dois elementos fundamentais. Já recorri a esta definição quando se tratava de esclarecer (em cursos, congressos, etc.), o parentesco da teoria lacaniana (do inconsciente estruturado como linguagem) com a de Lévi-Strauss na antropologia (mitos), Saussure na lingüística (sistema da langue) e Barthes na semiologia. Daí minha escolha conceitual, informada tanto pela questão epistemológica quanto empírica recair sobre o atual objeto de estudo nestes termos: microconto é uma entidade autônoma de interdependências internas [até aqui, a estrutura de Hjeumzlev] investida de narratividade e literariedade, cuja eficácia funcional é inversamente proporcional à extensão de seu enunciado sintagmático. Em que pese a arrogância de aparência notadamente cientificista, tal definição parece-me apropriada a um entorno de natureza aurática (o efeito epifânico que produziria no leitor) e à atmosfera metalingüística em que se insere o desafio da tessitura do objeto que tento definir. Resulta tão provocadora e quase tão polimorfa como a própria definição de conto. De fato, quando José Castello (2007) recorre à etimologia da palavra (do latim, “computus ”, também no sentido de cálculo) ressalta na competência lingüística (no mínimo) em que consiste este esforço rigoroso, atento e preciso do autor de contos, sua perícia, no desafio da luta contra o que seja excessivo, supérfluo. Esta última idéia é controversa (vide o Barthes de S/Z), mas definir microconto sob a égide canônica da definição do conto como uma narrativa breve e concisa, que apresenta unidade dramática [recordemos Aristóteles] e tem a ação concentrada em um único ponto de interesse, significaria recair na vagueza, na superstição (vide Poe e suas obsessões) ou pior, num pseudo antidogmatismo dispersivo ou tautológico, como a clássica definição de Mário de Andrade (e outros...) segundo a qual, ”conto é tudo aquilo que chamamos de conto” que viria a estender-se para a crônica, etc, etc. Castello sustenta que cada escritor deve criar e fixar sua própria definição de conto e Giardinelle, escritor argentino que publicou o conhecido Assim se escreve um conto, sustenta que o conto é “indefinível”. Tal herança certamente chega a impregnar a noção de microconto, precisamente naquilo que tange às incontáveis prescrições hodiernas sobre o número de letras, de caracteres, de linhas, páginas.O ponto de estrangulamento é atinente a extensão. Mas, se assentarmos alguns termos da definição que proponho aqui, (até para que seja superada) de forma mais ou menos inequívoca, dentro de contornos conceituais que recobrem a noção de narratividade, não terá sido em vão que a tenha estabelecido da forma como o fiz.Assim, a propósito, no “mosaico” com que lança algumas bases para o estudo narratológico dos microtextos, Spalding Perez, retomando como essencial o elemento ação no texto narrativo e a afirmação de Barthes, segundo a qual, não existiria uma só narrativa desprovida de personagens, tomando C. Bremond (1973), acrescenta a sucessão e integração como elementos essenciais à narratividade: onde não há sucessão não há narrativa (e sim deduções e descrições estanques) e: onde não há integração não há narrativa (e sim cronologia e arrolamento de fatos não relacionados entre si). Acrescentará a essas quatro condições à narratividade, um quinto elemento, tomado a Greimas: a totalidade da ação. E, se entendermos por literariedade a propriedade que distingue o discurso literário dos demais, teremos fechado o círculo no qual inscrevi os termos da definição de microconto que aqui propus. Quanto à circularidade, a questão do título dos, doravante, abreviados como Mcs e um ou outro elemento periférico à teorização principal, serão retomados no desenvolvimento melhor escandido deste meu condensado de fragmentos da tese de doutorado (UNICAMP/2008).Dentre eles, a questão do movimento, quando equacionado junto à rapidez (I.Calvino) e o deslocamento (tal como o descreve Freud (Die Traumdeutung/1900), ligado ás metonímias, essenciais á brevidade.

“Ao Céu, no mar”.

Padre subiu, alçado por mil bexigas. Glória? Adeus, nas alturas...

[Mc monofrásico de dez palavras, do corpus de trinta micros que ilustram a tese “Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea”/2008]

***


Na ponta dos pés: sonha que é bailarina, rindo bêbado ao entrar em casa.

07 março 2010

FRAGMENTÁLIA V - DROPS TEÓRICOS + Mcs


"Uma gaiola saiu à procura de um pássaro"
Anotação (microconto, praticamente) e ilustração de Franz Kafka

FRAGMENTO TEÓRICO V
Por Marco A. de Araújo Bueno

Concernente à intensidade a que se denomina epifania, aquela que nos chega via postulações que James Joyce anuncia em “Stephen Hero”, a respeito do que se espera de um “homem de letras”, qual seja, “uma súbita manifestação espiritual que surge tanto no meio dos mais ordinários discursos ou gestos, quanto na mais memorável das situações intelectuais” e que, porquanto representem, as epifanias, “os instantes mais delicados e mais fugidios”, (ou “evanescentes”, conforme a tradução) caberia ao homem de letras observá-las com extremo cuidado. Era, afirma Umberto Eco (“Sobre uma Noção Joyceana”, in “Joyce e o romance moderno”, 1969) de Walter Pater a concepção estética que descrevia a natureza desses instantes fugidios, excitações intelectuais ou dos sentidos que, “(...) iluminando um certo horizonte, por um momento parece entregar ao espírito a sua liberdade”. Poder-se-ia atribuir à formação jesuítica de Joyce a inspiração advinda do que Eco considera, aparentado ao claritas de São Tomás de Aquino, como um “epifenômeno” para o tomista Maurice de Wulf(1895) - uma apropriação, pelo jovem Joyce, de uma “escolástica de segunda mão”. Pois contentemo-nos com a etimologia, por um lado (“epiphaino” - fazer aparecer, mostrar, fazer conhecer), momento da aparição de uma realidade que se revela, (apropriável por ou já plasmada como imagem poética) e, por outro, com a idéia de uma herança do decadentismo europeu em Joyce, demonstrada também por Eco, cotejando a teoria do momento da epifania no Stephen Hero com o romance “il fueco” (o fogo) de Gabriele D’Annunzio publicado na virada do século XIX, cuja parte primeira relata os êxtases estéticos do poeta Stelio Effrena e se chama exatamente “Epifania do Fogo”, segundo R. Ellmann, biógrafo de Joyce.De fato, neste livro-embrião (do subseqüente “Retrato do Artista Quando Jovem”, pelo menos), aqui onde assinalo a noção laica, secularizada de epifania, literalmente salvo (cerca de 500p) do fogo por Nora Joyce (!), seu marido afirma que, ao captar o momento exato no qual essa aparição acontece [e Joyce colecionava fragmentos disto pelas ruas de Dublin], “ele acaba de sondar intensamente, em toda a sua verdade, o ser do mundo visível (...) a beleza, esplendor do verdadeiro, acaba de nascer”. Assinaladas algumas pistas genealógicas e contornadas considerações que subjazem toda a experimentação formal dos modernistas (inclusas aquelas que remetem ao grande legado do movimento romântico, qual seja, o de questionar e dissolver a própria aplicabilidade do conceito de gênero, já aludida aqui, questão enriquecida tanto pelo formalismo russo quanto pelo círculo bakthiniano) estabeleçamos, para efeito da natureza do efeito que nos importa, o que, relacionado à epifania, constitui categoria neste estudo e isso demanda alguma operacionalidade como a que busco, junto a Miguel Cardoso, quando afirma ser a epifania “(...) um instrumento de revelação que suspende o devir e se destaca dele (...) momento efêmero [que] registrado – prende a atenção –(...) prolonga seu significado(...)e fornece nós privilegiados de significado ao leitor”. A idéia topológica de “nós” remeter-nos-á a Lacan, isso é certo, à categoria do que denomina registro do real, por definição – inapreensível (equivalente à coisa em si postulada por Kant) -, sobre cuja propriedade essencial, afirmava Lacan, “(o Real) não tem fissuras”. Afirmava até chegar a Joyce no seminário de 2004 – “Sinthome”, no qual dedica um capítulo à idéia de um furo no real, pela proposta topológica de uma outra urdidura de nó, para dar conta da epifania. Observe-se que, de extração freudiana (“das ding”), esse real, para Lacan – a coisidade da coisa, cuja materialidade falta na linguagem, ainda que não examinemos aqui o teor do referido seminário, interessar-nos-á no exato momento em que, para a noção de epifania como efeito no leitor de um microconto, efeito este que parece atado ao registro do simbólico, que é coextensivo à ordem da linguagem segundo o próprio Lacan, tentarei estabelecer a diferença entre a singularidade da experiência suscitada no leitor de narrativa condensada ao extremo, e algumas das tantas formas de arrebatamento que a leitura de uma obra de arte provoca, em sentido amplo. Quando não, pelo menos, que se observe o quão recente é o escopo de todo esse conjunto de postulações teóricas!



“Denegação”

Ausentei-me ao funeral de meu esposo; vê-lo tão sem vida...


***

Por Rafael Noris

Era noite, o samba rolava solto no bar. Um velho, pela décima segunda vez: - Mais uma dose! e com que alegria sambava depois.


28 fevereiro 2010

FRAGMENTÁLIA IV - DROPS TEÓRICOS + Mcs+ILUSTRAÇÂO

FRAGMENTO TEÓRICO III
Por Marco A. de Araújo Bueno

"...Microcontos, minicontos, paira sobre a extensão/nomenclatura de narrativas do gênero (e a própria questão de afirmar que se trata de um gênero será, aqui, pouco importante, em que pese o fato de Graça Paulino, em livro didático de 2001, abrir um capítulo para o “miniconto” enquanto gênero) alguma dispersão teórica, seria o emblemático conto monterrosiano, de fato e de direito, o mais curto? Há que se considerar, a propósito, a pouca literatura teórica a respeito, rarefação que torna fundamental, neste ponto, o livro “Microrrelato”, de 2003, em que David Lagmanovich enfatiza, optando por “microrrelato” (não o seria para nós, brasileiros, para cuja palavra reservamos entendimento algo científico, de “relatório”, p.ex.) ou “microconto” (tal como denomino minhas “tessituras” e considero as que virei a citar nesse contexto), a importância da propriedade que uma narrativa deveria ter, que, segundo ele, a tornaria legível, plena e satisfatoriamente, em si mesma, diferentemente do fragmento, da máxima, da anedota ou alusão. Importa que seja curta e que haja narratividade nela, tal como a esclarecerei cotejando estudos pioneiros no Brasil, como a dissertação de mestrado de Marcelo Spalding na UFRGS, neste ano de 2008. Formas breves aparentadas de efusão lírica, de capturas contemplativas da natureza observável (no caso dos haicais), deduções sob forma de sentenças (tais como surgem no romantismo alemão do final do século XIX, com os filosofemas de Schlegel [“Toda prosa é poética”] e Novalis [“Tudo deve ser poético”]), aforísticas, etc., posto não passarem pelo crivo da narratividade, por razões que porei em relevo, não serão contempladas enquanto Microcontos, minicontos etc., etc.

***

NOTA IMPORTANTE SOBRE MICROCONTOS – Mcs :

El microcuento poseería características estructurales propias, según el ensayo de David Lagmanovich “Hacia una teoría del microrrelato hispanoamericano”:

“El microrrelato no puede entenderse sino dentro de un proceso de evolución del género 'cuento' que, como ya dije, para nuestra literatura comienza en el Modernismo. Esto no quiere decir que cuentos y microcuentos sean la misma cosa. Surgen como parte del impulso creador de nuestros escritores; pero, mientras que el cuento es ya una forma establecida desde el siglo XIX y tiene, como diría Horacio Quiroga, su propia retórica, el microrrelato va encontrando la suya a medida que sus autores prueban diversas vías de enfoque. Las minificciones son parte del continuo narrativo, que contiene también ciclos novelísticos, novelas individuales, nouvelles y cuentos: pero —repito— no son la misma cosa cuentos y microcuentos, de la misma manera que la novela y la nouvelle (como lo advirtió Goethe en sus conversaciones con Eckermann) tampoco son la misma cosa.” (Lagmanovich.1996:23).

***

“Patrulhas & Matilhas”
Por Marco A. de Araújo Bueno

Novalis apareceu-me em sonho-"'Crime e Castigo'- vociferava, extemporâneo - voa!"

[Mc monofrásico de dez palavras que fecha o recorte dos trinta com que ilustro o condensado teórico, cujos fragmentos tenho publicado nesta coluna. A referência é absolutamente intratextual em relação à tese de doutorado 'Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea';Unicamp-2008. Vide considerações estéticas sobre Novalis na coluna do Luciano Garçez desta sexta última, dia 26]

***
Por Rafael Noris




O cheiro de sopa no velho caído: ninguém sentiu.


***

A Parte II da BIBLIOTECA DE BREVIDADES ficará para a FRAGMENTÁLIA V; até o próximo domingo!

21 fevereiro 2010

FRAGMETÁLIA III - BIBLIOTECA+HAIBUN+MICROCONTOS

1) Expresso 600 - vários autores - Editora Andross.
2) Curta-metragem - Edson Rossatto - idem.
3) Folhas ao Vento - vários autores - idem.
4) Entre Duas Mortes - Instantâneos Literários - vários autores. Livro organizado por Frederico Alberti.
5) Os opostos de distraem - Rogério Ivano.
6) Pagando Micros - Trio Los Tres. Organizado por Cairo Trindade.
7) Tentando entender Monterroso - Luiz Cláudio Arraes.
8) Anotações para um livro de baixo-ajuda – Idem.
9) O Remetente (contos e minicontos) – Idem.
10) Lugar comum - Idem.
11) OS CEM MENORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO - Organização Marcelino Freire, 2004, 2ª edição, Ateliê Editorial, Cotia, SP.
12) CONTOS DE BOLSO - Organização Laís Chaffe. 2005, Editora Casa Verde, Porto Alegre, RS.
13) CONTOS DE BOLSA – idem.
14) CONTOS DE ALGIBEIRA - (antologia que reúne 107 autores - brasileiros e portugueses) - idem.
15) CONTOS DO GIN-TONIC - Mário-Henrique Leiria.
16) NOVOS CONTOS DO GIN - idem.
17) A Terra Sem Males – José Eduardo Degrazia.
18) O Atleta Recordista - idem (Editora Movimento).
19) A Orelha do Bugre - idem, ibidem.
20) Os Leões Selvagens da Tanganica - idem, ibidem.
21) Ah, é? – Dalton Trevisan
22) 111 AIS - idem
23) Pico na veia – idem
24) 234 – idem
25) Arara Bêbada – idem.
26) Um beijo é só um beijo – João Batista de Brito.
27) Gaspard de la Nuit - Aloysius Bertrand.
28) O Caçador - Rinaldo de Fernandes.
29) Brevíssimos - antologia orgonizada por Charles Kiefer.
30) Pescoço de Girafa na Poeira (contos e minicontos) - Nilto Maciel.
31) Passaporte - Fernando Bonassi.
32) Sexo, drogas e tralálá - Thiago Picchi, Fábio Frabício F. e Ana Paula Maia.
33) Histórias de 1 minuto - István Örkény.
34) Mil e uma pequenas histórias - Luis Ene.
35) Antologia de páginas íntimas - Franz Kafka.
36) Estórias domésticas - Henrique Manuel Bento Fialho (Aqui uma versão parcial, em pdf .)
37) A MILÉSINA SEGUNDA NOITE - Fausto Wolff .

{ BIBLIOTECA DE BREVIDADES E MICRONARRATIVAS-PARTE I, ATÉ O DIA 37 DO BLOGUE DE CHALEIRA – Por Wilson Gorj,convidado}


*****


HAIBUN

Por Rafael Noris

Esta tarde peguei minha câmera. Estava na chácara de minha tia, todo mundo comendo e eu ali, procurando bichos. Queria insetos, formigas, abelhas, borboletas, mas minha nossa, não paravam quieto nem um minuto. Sentei na grama, olhei para o céu, para o lado, para minha câmera com poucas fotos, nenhuma boa. Fiquei frustrado, mas logo percebi que não valia a pena, me esforcei mais um pouco e encontrei outras belezas, mais fotogênicas.

***

o céu da tarde
parece um reflexo -
flor de quaresmeira.

***

tão perto
e ainda hesito:
galho ou bicho-pau?


********

MICROCONTOS MONOFRÁSICO (Dez palavras – vide Definição Operacional de Mc)
Por Marco A. de Araújo Bueno

“Expedientes Maternos I”

Temendo muito que os filhos caíssem, acolchoava seus porta retratos.

***

“Tempoespaço”

-“Por quê não vai pra p.q.p.?”
- “Demora mó longe, mano!”

***

*A Definição operacional exploratória que ofereço para Microcontos estará no FRAGMENTO TEÓRICO III, que ficará para a próxima FRAGMENTÁLIA.

15 fevereiro 2010

DOMINGUEIRA - SEGUNDA; SEJAMOS BREVES: TEORIA + Mc + HAIBUN

FRAGMENTO TEÓRICO II
Por Marco A. de Araújo Bueno

Ao propor a possibilidade de um arranjo sintagmático de tal brevidade e concisão que descompense, no leitor, certa propensão à preguiça, estou me referindo à relação entre Nietzsche e Schopenhauer, seu educador, e educador do homem moderno, predito por Zaratrusta. Estamos ainda examinando a questão do efeito para, dela, passarmos à escansão dos ingredientes do arranjo micronarrativo.Logo na abertura de sua Terceira Consideração Intempestiva (1888) Nietzsche conta que perguntaram a um homem que percorrera vários continentes, que qualidade houvera encontrado em toda parte no homem (“que sabe muito bem que só vai viver uma vez, que não é um caso único”) e que o viajante respondeu: “certa propensão à preguiça”. Ao desenvolver seu raciocínio, o filósofo pretendia mostrar que apenas os “artistas” ousavam apontar para a rigorosa lógica da unicidade de cada homem como é e só como ele é. Eis aqui, entre outras virtualidades, a resposta da psicanálise à lógica da hipermodernidade – a singularidade do homem que, ao passo que se torna autônomo, inventa-se e faz passar esta inventividade ao olhar do “Outro (A)”, na acepção lacaniana do termo, ou seja, à (já aqui) referida ordem simbólica coextensiva à linguagem. Tentarei refletir sobre outras modalidades de resposta, como a da sociologia de Giddens com seu conceito de reflexividade e das “oportunidades sistêmicas” na monitoração da ação humana, expediente que relativisaria o que venha, em termos de efeito de singularização, a partir de um divã, de uma capa de revista; da leitura de uma peça literária de qualquer natureza ou, (com Giddens) até de um livro de auto-ajuda. E o farei, a serviço de alguma economia teórica aqui também, quando considerar os modos de recepção desse efeito, no bojo das considerações do também sociólogo, contemporâneo de Giddens - Harvey -, sobre cuja teorização do fenômeno da compressão do tempo-espaço buscarei assentar as categorias que modulam a relação interna do binômio micronarratividade/epifania. Por ora sustento que a primeira responderia àquela propensão à preguiça diagnosticada por Nietzsche e o faço em detrimento da própria obviedade da extensão brevíssima com que acena para o leitor. É que se trata de demonstrar aqui, o processo pelo qual, uma vez fisgado por um microconto, o leitor, deste, transforma-se em co-autor. Se tal proposta não traz novidade alguma, posto que já escancarava virtualidades a partir do livro “Obra Aberta” de Umberto Eco, tais como as noções de intertextualidade, da pluralidade de diálogos subsumidos na urdidura de um texto, etc., convém lembrar a convicção de Calvino sobre sua própria predileção pela brevidade, quando o que tomava por breve ainda não era a radicalidade mesma dessa brevidade. Basta notar que, de Baudelaire dos Pequenos poemas em prosa (narrativas curtas, postumamente recolhidas em 1869, mas escritas a partir de 1855!), passando por Cortazar d’O Conto breve e seus arredores no Valise de Cronópio até o “Nada” de Carrero e “O Dinossauro” de Monterroso, muitas “arestas” foram aparadas e a redução formal é vertiginosa. Mas a preguiça a qual me referia aqui não é aquela que acometeria o leitor diante de um romance volumoso como o Em busca do tempo perdido de Proust. É uma preguiça diante da própria co-autoria a que é convocado o leitor de um microconto, imerso no deliberado ocultamento, no que já se denominou gramática do silêncio (vide o que escreve Piglia). Esse movimento inevitável de voltar-se ao que foi lido parece guardar uma semelhança pulsional com o voltar-se para a própria singularidade ocultada na presença “ausente” (um suposto saber) e silente do psicanalista, em todo caso. Se esta premissa reitera a idéia cortazariana de esfericidade, não terá sido um esforço isolado toda aquela obsessão prescritiva de Poe. E reiterando a matriz notadamente nietzschiana que a demarca, voltemos ao “educador” com quem dialoga o filósofo, muito especialmente, no que tange a brevidade, a denotar que concisão não é, por si própria, uma invenção tão recente: “(...) deve-se evitar toda a prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor”, escrevera Schopenhauer, longe do computador pessoal, em meados do século XIX...


{Referêcia teórica para o "DROPS" de 07/02/2010: Lagmanovich, D. 'Microrrelato'}

[MICROCONTO de Rafael Noris]

Eu percebi então: ela não me amava, mas sim outra.

***
[HAIBUN* de Daniel Serrano]

todos em silêncio
ao lado do tênis, morta
uma mariposa


Começo de noite. Com alguns amigos, me divirto tomando cervejas. No chão, ao pé da mesa, os tênis e as meias da corrida matinal. De repente, cessa o burburinho. Uma mariposa aparece morta perto dos tênis. Suas asas marrons estão abertas e levemente cortadas. Por um momento, deixo de sorrir; e penso num haikai.

*Haibun é um haikai acompanhado de breve prosa testemunhal.

07 fevereiro 2010

FRAGMENTÁLIA - A GENITÁLIA DA MICRONARRATIVA

NECESSIDADE
Por Luiz Contro

Ouvia tudo o que ele dizia e participava de suas inquietações mais secretas. Sentavam na mesma carteira da escola. Corriam juntos soltando pipa. Trocavam olhares e sorrisos matreiros quando entre adultos. Consolavam-se também. Determinados dias entristeciam pela separação:

─ Chico, hoje vou lavar teu ursinho.

***

-Sim! Sim! ela suspirava: sono pesado na cama vazia.


Por Rafael Noris

***

FRAGMENTO TEÓRICO I
Por Marco A. de Araújo Bueno

Prezados Senhores: Universidade Harvard, Camdridge, Mass, conferências Norton, ano letivo de 1985-1986, em meio às considerações sobre a rapidez, Ítalo Calvino refere-se a Borges e Bioy Casares, assim: - “(...) organizaram uma antologia de Histórias breves e extraordinárias. De minha parte, gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou de uma linha apenas, se possível. Mas até agora não encontrei nenhuma que supere a do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí [Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá]”. Eram as “Seis propostas para o novo milênio”, das quais, a última, Calvino levou consigo; sua morte interrompera conjecturas preciosas sobre a narrativa. Um limite, limite que excitaria a imaginação de escritores e leitores, estes seres que protagonizam a angústia da escrita (face às escolhas a que os obriga) ou a ela submetem-se de alguma forma (face à interpelação suscitada) neste peculiar processo de abertura ao infinito das imaginações.Todo este processo, tributário das condições basilares da existência do animal da fala: sua finitude e sua inserção nos “bosques da ficção” no caso e no reino do simbólico, no geral. A propósito, com esta metáfora do bosque, Umberto Eco intitula suas seis conferências de Norton, ano letivo de 1994, recobrindo a “literatura-bosque”, a homenagem ao amigo falecido e a questão, aqui fundamental, da presença do leitor na história narrada. Trata-se, portanto, aqui, de um estudo que tematiza o efeito da escrita, muito especialmente, de uma modalidade de escrita – a interrompida, esta que é deliberadamente sustada para suscitar um efeito no leitor. Epifania - assim tratarei da idéia de efeito; narrativas monofrásicas tecidas com dez palavras - assim consignarei metodologicamente, a guisa de ilustração das possibilidades de tessitura de peças narrativas brevíssimas, o desejo expresso por Calvino, no bojo da hipermodernidade, tal como a descreve o filósofo francês Gilles Lipovetsky; em pleno novo milênio. Calvino dizia que sua obra “(...) se compõe em sua maior parte de short stories”; segundo ele, questão de “temperamento” pessoal. Há, quanto à extensão, evidências de que a prosa literária vem rendendo-se a um processo de redução formal ao longo do tempo. Neste início de milênio o termo usado por Calvino para definir sua predileção pela brevidade não se aplica ao seu próprio “As Cidades Invisíveis”, com a mesma concepção com que se aplica à idéia de conto. E ainda que brotado no século XIX, com certidão de nascimento estadunidense, traz consigo um entusiasta defensor, prescritivo, já em 1847(escrevendo sobre os contos de N. Hawtorne) de cânones que rejeitam o “juízo nefasto de que a simples extensão de uma obra deva pesar na estimação de seus méritos”. Seu nome – Edgar Allan Poe; Suas propostas ponderavam a ‘aparição’ das revistas, dos jornais, a dimensionarem a percepção literária face ao progresso dos novos tempos. O presente estudo o convoca, oportunamente.
Até o próximo domingo;

DROPS TEÓRICOS : "UNO DECÁLOGO"

Por ( pequeno suspense metodológico...)

En el “Decálogo del escritor” de Monterroso, incluido en su libro Lo demás es silencio (1978), se reconoce la referencia metatextual del Decálogo del perfecto cuentista de Horacio Quiroga (1925), y la referencia architextual de los doce mandamientos de la Ley de Dios. A toda esta fábrica de intertextualidades se suman “Los diez mandamientos del escritor”, microcuento del uruguayo Fernando Aínsa. {De livro e autor que oportunamente citerei; sintam um pouco da rarefação teórica sobre o gênero. Menos é mais, mais ralação!}


1.-Te amarás a ti mismo sobre todas las cosas.
(Amarás a si mesmo acima de todas as coisas.)

2.- No mencionarás el nombre de Borges en vano.
(Não mencionarás o nome de Borges em vão.)

3.- Seis días descansarás y uno escribirás.
(Seis dias descansarás e um escreverás.)

4.- Te inventarás tu propia filiación literaria.
(Inventarás sua própria filiação literária.)

5.- Si cometes parricidio generacional, será con pudor y disimulo.
(Se cometer parricídio generacional, será com pudor e disfarse.)

6.- No seducirás a la poetisa en busca de prólogo.
(Não seduzirás a poetisa em busca de prólogo.)

7.- No robarás las metáforas del poeta inédito.
(Não roubarás as metáforas do poeta inédito.)
8.- No llamarás palimpsesto intertextual a la simple copia banal.
(Não chamarás de palimpsesto intertextual a simples cópia banal.)

9.- No desearás el éxito de ventas del prójimo escritor.
(Não desejarás o sucesso de vendas de escritor algum.)

10.- No eliminarás las comillas de las citas ajenas.
(Não eliminarás as aspas das citações alheias.)

31 janeiro 2010

HAIK(C)AIS E MICROCONTOS - COLUNISTAS vs CONVIDADOS

Vida Animal

Por Luiz Contro (colunista)

O atraso, a pressa, o susto, o desvio, o meio fio.
Totó só queria buscar a bola do menino.

***

Nunca assumia os próprios erros.
Sempre transferia a culpa para os outros.
Por essa razão, convertido, adequou-se pefeitamente à fé evangélica.
Agora, para tudo que faz de errado, Satanás é o culpado.

Por Wilson Gorj (convidado)


" 69"
_
_

Por Marcelino Freire (convidado)

{Quatro caracteres, nenhuma palavra}


“Desertor no Deserto”
Por Marco A. de Araújo Bueno (colunista)
{Dez palavras, monofrásico}

PARTE I


Doze anos, palestino fronteiriço, dois de treino. Paramentou-se: explosivos, celular;

PARTE II

Ao toque, sacou dispositivo junto. Sucumbiu; deserto. Tel-Aviv/paraíso - Doze km!


HAIKAI
Por Rafael Noris
noite tão curta -
quando afasto o mosquito
é hora de acordar


HAICAI
Por Carlos Seabra (convidado)
jornal aberto,
café, leite e sangue:
guerra por perto


[Eis uma livre adaptação de haikai de Bashô no qual a expessão "cai pra dentro" e cumpre função de duplicidade de sentidos ao invés de pleonasmo. Não achei haicai com equivalente ousadia polissêmica entre convidados do blogue...

velho lago
o sapo cai pra dentro
barulho d'água.
Basho, tradução de Rafael Noris a partir da expressão de Zina (ele era cult e eu nem sabia).

Boa semana a todos, aniversariantes ou não

24 janeiro 2010

CONVIDADOS, DE CHALEIRA

Nas domingueiras 'intertenidas' pelo futebol, colunistas ou convidados fecham a semana com microcontos e haicais. Esta coluna estreia, nesta ordem, com um micro do Wilson Gorj (in 'Sem Contos Longos') e um haicai do Carlos Seabra (in 'Haicais e Que Tais'), ambos amigos do blogue, a quem agradeço essas jogadas de chaleira:

Era uma vez uma roda-dentada que conseguiu escapar da Grande Engrenagem.
Liberta, pôde, então, observar todo o funcionamento do mecanismo ao qual antes pertencera.
À medida que observava, ia perdendo os dentes...
Wilson Gorj
*****

Haicai sem kigô
É de quem bebe saquê
E pisa na fulo
Carlos Seabra

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