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10 setembro 2013

3 CANÇÃO PRA UM DIA VÃO

por Vítor Queiroz


1.PRÉ-HISTÓRIA

Australopitecos Afarensis, querido avô
peludo, desprovido
de toda
linguagem articulada!

Vejo no oco
no toco, um osso torto. Vejo a charneca
da sua descendência
encher do hemisfério todo arrabalde.

Vejo na oposição
de seus polegares uma verdadeira hecatombe
de privilégios simiescos.



2.ESCALPE

Fio de navalha cortante:
à flor da epiderme gordurosa
jaz a verve moribunda.

Para que servem os dias vãos
e a vida é escalpelada em versiprosa?



3.TATURANA
Ária di Bravura

Recitativo

Pajé
taturana chacoalhando
o mbaracá
emplumado cantava
todavida:

- Panambi açú!

chamando a primavera

- Panambi açú!

Ária

Taturana-
brabuleta. Borboletodas.
Borbolequantas?

Uma canoa quebrada?

Taturana-
brabuleta. Na beira do rio
sombrio...

... flores raras de plástico bolha.

Taturana-
brabuleta. Borboletodas.
Borbolequantas?

Uma tabuleta afincada
na terceira margem do rio

Taturana-
brabuleta. Borboletantas... tantas...
todasvivas
no coração obscuro do desejo.

Asas de cascavéis
translúcidas,
cor-de-caju transcendental.




27 agosto 2013

O ULTIMO POST DO INVERNO

por Vítor Queiroz

MALDITO FRIO

1.

ANTI-HAICAI

Café frio, vento sorrateiro,
rio sombrio
e o fantasma sonolento dum pastor de cabras

coçando o cu
no oco no toco de uma paisagem de inverno.

2.

LIQUIDAÇÃO de inverno
artigos PARA VENDA

um terremoto............................. no Japão
uma motocicleta......................... velha
a inutilidade............................... de um cupido de gesso

cascas de canela........................ sem olor
uma lagarta................................ num jardim de inverno
o próprio jardim........................ de inverno

uma balança.............................. claudicante
e esse buquê roxo..................... de tanta inexistência
um cacho de bananas................. maranhão

3.

BALADA dos mendigos
da cidade DE CAMPINAS

[ .. 2pt.] é que
, féladapu[ .............. 14pt.]ta!


30 julho 2013

3 CANÇÕES NOVAS PRA TUDO QUE É CATÓLICO ABENÇOADO DO MEU BRASIL

por Vítor Queiroz



I

O PAPA


Lá fora, no vento bravo, na insistência 

da muriçoca
no ronco do motor o truque do papa
vive dando xabú.




II
O PERDÃO


Na sua cabeleira, Diomira, 
Fulano, 
Sicrano e Beltrano

Seu Manoel que veio do Sertão
carregadim 
de rama de algodão.

Seu Manoel que veio do Açú
carregadim 
de folha de caju.

Ninguém, enfim,
jamais encontrou o perdão.




III
O PECADO


Lá longe, no pardieiro, na brancura 
de um pé de algodão,
durante o banho dos felinos 

o pecado, o pecado onipresente, 
já tomou Doril 
pra não tomar no cu.

16 julho 2013

GROSSA IRONIA - miniconto

LA DOLCE VITA

Por Vitor Queiroz


A pessoa assovia a música que acabou de postar enquanto desabotoa as calças distraidamente einexplicavelmente faz xixi no seu próprio cinto. Daí, é claro, tem um momento chafarizinho de La Dolce Vita, Momentinho completamente involuntário e indesejado, vamo combinar. A pessoa entra no chuveiro, é claro. Auto-humilhada, talvez. A pessoa é normal?

02 julho 2013

PARADAS MÍSTICAS


Por Vítor Queiroz

DA POESIA INVOLUNTÁRIA.

1.EMPÉDOCLES
DE ACRAGAS (c.495 - c.430 a.C.)

Já fui macho, já fui uma moça.
Fui um arbusto espinhoso e um caco de louça,
um chinelo velho esquecido,
um passarinho, um bisão da Califórnia
abatido, uma sopa de ervilhas,
cianureto, um batuque africano.
Já fui um peixe, um peixe fresco fora d´água
vivo e cego. Surdo e mudo.













2.GIAMBATTISTA
VICO (1668-1744)

Seres humanos ou fatos famosos
materializados
em sonhos, no pé direito
dos seus pensamentos novos. Determinados
em certos tempos ou lugares

(e todos esses seres humanos
ou fatos famosos talvez
não tenham existido realmente).


Homens insignes e fatos importantes,
pelos quais e com os quais
ocorreram muitos momentos da existência humana,
surgiram, impensáveis, do interior,
da memória, do tutano dos seus próprios ossos,
das longas e densas selvas, em que jaziam sepultados.

Tudo isso ficará demonstrado
na medula destes versos.

Para fazer entender  o quanto a humanidade das nações
tem os seus princípios incertos e indecorosos,
defeituosos ou vãos.






18 junho 2013

REVOLTOSO

Por Vítor Queiroz

I

PANEGÍRICO
À MEMORIA DO MEDO
(PARA REGINA
DUARTE, A NAMORADINHA
DO BRASIL)

Meu filho, suje as mãos antes de surtar
de cal viva e pura.

II

ESTARDALHAÇO

Turvo é o pedregulho
- não fale nem cale, não reze nem trabalhe -
e Exu já abriu as rua!


III
DO CUIDADO
MAIS ÍNTIMO

Tome um copo d´água.



04 junho 2013

DOIS FRAGMENTOS NEOCLÁSSICOS

Por Vítor Queiroz 

I
IDÍLIO VIRGILIANO

Veja só, 
Aristeu, as cabras não trotam
Em paz? Beira d´água 
O arrozal não assoreou trevoso o leito tranquilo 
Do riacho firme?

Dorme, Aristeu, dorme logo 
Enquanto Amor não vem cá. 
Ele te roubará, Aristeu, 
Vinte cabeças do teu gado manso, 
Admirável.



II

ODE GRECO-SERTANEJA

Fiamos, a velha caduca
a femme fatale a psicanalista
e a puta na ponta do fuso,
na agulha da roca, nonada,
no gorgulho do feijão, debaixo
da escada o nó

escabroso, o caroço bruto
que imaginou um dia
a via láctea, a carreira de Tróia
e o polegar

opositor de todos
os mocinhos bonitos das fitas de faroeste,
do fino carpaccio das fábulas.

Fiamos, casamos
e descansamos tirando leite
de pedra, fazendo da mó e dos martelos
corações.



28 maio 2013

NANOROMANCE

Por Vítor Queiroz

GELO SECO

No dia em que eu espremia o limão cravo, lembrança de arquetípicos samburás... no dia em que eu espremia o limão da antiga fazenda, minha irmã, você fazia aquela cara. A boca torta, um muxoxo. Nunca fui embora, Tatá. Hoje na sala vazia, vendida para a fábrica de gelo junto com o restante da propriedade, não existe mais aquele fruto agridoce. Travoso. Mas atrás da porta eu espero por você. Para sempre? Não, Tatá, essa não é a pergunta certa, a verdadeira. O amor, Tatá, o amor é um menino todo queimado.

14 maio 2013

UM POEMINHA SUFI




O JARDIM 
DO REAL


à moda, no gogó, de Abu Said (967-1049)

Meu jardim é o que há, por Alá! 
no meio de suas flores
um amigo descobre outro amigo e o amor encontra o amor.

Meu jardim é o que há, por Alá!
Cadê a tristeza? Murchou.
Cadê a alegria? Preciso responder? Chega de bla bla blá...






27 abril 2013

A ILUMINAÇÃO DE HILDA HILST


A ILUMINAÇÃO DE HILDA HILST,
EM BARÃO GERALDO, NA BEIRA DO RIACHO
CHAMADO DE RIO DAS PEDRAS.

Por Vitor Queioz

I
DO MITO

Partiu da velha o fêmur
Em pedaços em lascas em estrelas
Partiu o fêmur da velha

E para o fundo foi tudo
Até cair na areia do riacho de águas
Escuras. Cada fragmento

Sumia na barrela. Ossos partidos entretanto

De possibilidades vivem cheios.

II
DO MILAGRE

Estrelas, conchas de cálcio. Noites escuras, velhas:
suavidade e madrepérola.

III
DO MÍNIMO EXPRESSIVO

Ô, felicidade!

16 abril 2013

A SERVIDÃO DE UMA IDEIA FIXA

Por Vítor Queiroz

arrocha

3 anos
3 meses
e 3 dias

e no dia seguinte o Amor
voltou


3 anos
3 meses
e 3 dias


e esse Amor voltou com tudo
tive febre taquicardia enjôo
dispinéia


3 anos
3 meses
e 3 dias


ouviram de longe uns tiques
um batuque um estrondo mas eu só
só eu abri porta e apaguei
a luz


3 anos
3 meses
e 3 dias

e no dia seguinte o Amor pôde afinal
dormir tranquilo


3 anos
3 meses
e 3 dias



02 abril 2013

DA MORTE

Por Vítor Queiroz


toda a vil cobiça é abandonada,
e cadê a iluminação?

cadê a foto do primeiro Buda
no fundo do poço?

cadê o espelho do Buda
que salvou a aranha e sua teia a samambaia e o revólver?

o tédio o morro a taquicardia
os ventos uivantes e o óbvio ululante?

cadê o fundo do poço, aliás? 

uma das pedras musguentas
do tanque
perorava tentando encobrir o zumbido inquieto da libélula,
toda surda e transparente:

"- Vamos, não fique a vontade na casa
desse Buda!

Passe voando, criatura,
pelo deserto chamado "Aqui Não Mora Nenhum Buda"."

mas cadê a rã a pedra o musgo e a transparência
cadê o número um?
"Aqui Não Mora Nenhum Buda"

um a foto da primeira iluminação
uma cantiga
uma estação que favorece a instrospecção
e certo hermetismo
uma balada elizabetana
uma dor de dentes

cadê?
cadê?
cadê?
cadê?
cadê?
cadê?
cadê?
cadê?
cadê?

19 março 2013

CAIPIRA DE FATO

                                          Divã da Vergasse,19 - "Tão deita, sô"

Caipira de fato

Por Vitor Queiroz

Por Vítor Queiroz

Sou um malandro da Ribeira
e as água do Paraguaçu
até as vista me atrapáia
quando cai do chuveiro
e sobe o cano da descarga.

Sou o mulato temido, Jacaré
famanado de língua enfeitada
e lágrima que desce ferindo
a dureza do couro sintético
as macheza inútil da naváia.

Sou filho de pai sem mãe
sem eira nem beira, sem pó
nem rabiola e quando desata
a chover, quando as parabólica
de minha aldeia finalmente

Arrebenta pego na viola sonsa,
que nunca gemeu direito,
que não é mais farrista e choro
das mágoa as mais rampeira,
e choro as mentira verdadeira

Na frente do psicanalista:
Sou um malandro da Ribeira...


19 fevereiro 2013

PLAYLIST DO FUNK PASTORIL

Playlist do Funk Pasatoril

Por Vitor Queiroz

I

CHEGADA PASTORIL DAS PIRIGUÉTIS

Estando as pastorinhas
Aqui neste lugar
Meus senhores todos
Queiram desculpar

É pedra, é pau, é osso
Saravá bendito, rimance fabuloso.

Senhoras e senhores
Queiram desculpar
Que a batida assombrosa
Já vai começar.

É pedra, é pau, é osso
Saravá bendito, rimance fabuloso.

II

APRESENTAÇÃO DOS CORDÕES BARROCOS

Boa noite a todos ............................... A estrela Obesa é chegada!
E a nossa Diana esculpida................... Boceja desencarnada.

Anabela Odaléia Havana
Belas elas são
O resto do bloco
Venha no cordão. (Fu-di-dão!)

Boa noite a todos ............................... A estrela Obesa é chegada!
A nossa Diana cuspida ........................ Suspira desencontrada.

Tia Juana Sara Celeste
Belas elas são
E o resto do bloco
Venha no cordão. (Pan-ca-dão!)

III

DESCE A BELEZA DO PARNASO

Tia Juana velha e escalavrada Sara menina doida Celeste rainha tesuda
Beleza afamada!



22 janeiro 2013

Feliz Ano Novo - 2


ÁGUAS
DE
OXALÁ


5.A CABANA DE OXALÁ


Folha verde!
palha de coqueiro um lenço
um laço branco



Folha verde!
tudo muito bom
tudo muito bem amarrado
e a sua cabana
já tá feita, orixá.



Oxalá, meu pai
e minha mãe,
vem morar no meio do povo!


6.IGBIN

Rum rumpi

toque de aguidavi
debaixo do alá:

Os orixás tão chegando!

Aguidavi: varinha, baqueta utilizada para tocar a família de 3 tambores do candomblé Ketu: Rum, Rumpi e Lé
Igbin: Toque de Oxalá; caramujo, "boi de Oxalá", animal consagrado ao orixá.


7.OS ORIXÁS CHEGARAM!

Rum rumpi

caramujo deixa
(e não deixa) rasto no mato.

Epê êeeeee, babá!


8.ALVORADA

Tudo quieto!
O alá, teto de brancura,
tremeu -
um vento, um clarão.

No chão molhado, ainda escuro,
o velho orixá passeia

Epa, epa Babá!

08 janeiro 2013

FELIZ ANO NOVO - 1

ÁGUAS
DE
OXALÁ



1.AJEITAR O ALÁ

Alá, teto de brancura,
abraçado
contra o peito. Vento nas folhas, vento da vida inteira...

Alá: Grande pano branco, pálio ou manto estendido em homenagem à Oxalá...


2.PRIMEIRA VIAGEM

Solo

Fui e voltei,
virei poeira

estrada canoa 
ônibus légua

tirana. Só pra
tirar as nódoas,

encher d´água
sua camisa, Babá!

Côro

Pra lavar
as ferramenta

do pai
de toda gente
de tudo...


3. SEGUNDA VIAGEM

Água
transparente, uma camisa vidro
sem cheiro
nem cor sem forma nem linha
nem gosto
nem pecado
na cabeça
na orelha, nos óculos
no pescoço

Tira tudo nas água, Oxalá, e traz depois tudo de novo.
Epa Babá!


4.TERCEIRA VIAGEM

Folha verde!
já brotou
nos mato de anteontem,

a quartinha santa
agora tá enfeitadinha...


18 dezembro 2012

MOSHE, MOSHE


MOSHE, MOSHE

Por Vitor Queiroz

e esse não saber
que você traz ainda, bebê, numa caixinha de marfim, essa maravilhada tosquice de madeira já tirada, numa data pré-histórica, mastodôntica, da árvore e não-cadeira nem cabo-de-martelo ainda,
essa ignorância. agora, é muito mais brilhante, brunhida, debastada. você deveria saber que a ignorância também pode ser qualificada, que a ignorância cresce em todo quando e em cada entretanto, cada vez que você sabe

que você entende das perguntas
a mais antiga,
qualquer ponto novo pra agulhar. na trama. no entremeio.

04 dezembro 2012

TRADU - ZEN


TRADU-ZEN
ou
TEOFANIA DAS TEOFANIAS
oi
¡LA NADA, CHICO, LA NADA!

Por Vitor Queiroz

toda a vil cobiça é abandonada,
e cadê a iluminação?

vamos, não fique a vontade na casa
desse Buda!

passe voando
pelo deserto chamado "Aqui Não Mora Nenhum Buda"

anon. sec. XII

06 novembro 2012

INTERVALO COMERCIAL #4 - FÁBULA FABULOSA

Por  Vítor Queiroz


moda de viola

Princesa Isabel tinha
dois anéis
um caiu direitinho no boca do sapo,
o outro foi cagado
por um peixe barrigudo

tímidos,
os dous seguem atravessando

a várzea dos charcos
e o vão dos Oceanos


a várzea dos charcos
e o vão dos Oceanos.




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