
25 abril 2010
17 fevereiro 2010
PEQUENAS DOSES
PEQUENAS DOSES
por Rafael Noris
tão cansado
tão farto
tão disforme
verdades
num gole
engulo-as
todas de um trago
como se trouxessem
algo mais
a gula por respostas
e então: - krsh!
(engasgo)
no copo vazio
regurgito umas
ou duas dúvidas
três quatro
e não para
esta porra!
o copo transborda
gordas revoltas
e poucas linhas tortas
deu errado
o alívio se foi
- foda-se
quando acaba
desfaleço
e esqueço
ando zonzo
como onda
sonsa
a cabeça empapada
de suor e vômito
então, parto.
(a vida precisa continuar)
09 fevereiro 2010
ODISSEU
Odisseu
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Ele estava imbuído de um estilo Chacal.
(Confeitos de cânhamo embebidos em mate);
Vestiu rigoroso traje anti-suspeição e o retocou.
Ganhou a rua, solene, dobrou a echarpe; café!
Acenou ao táxi que não parou, seguiu a pé.
Economia de atos, beirava o trivial, rito e rigor.
Transeuntes pelo museu, ele em transe, trivial.
Pés e mãos gelados em pleno local calafetado.
O cânhamo dilatou a escultura do Canhão. Acenou:
"Leve a peça até a moto, lado a lado, comigo, espeto-lhe!"
Na saída, desarmado da caneta Picasso que nada espetou,
Só via o Canhão reposto ao pilar, soar de sirene e camburão.
Em cana, em fim, apenas uma beatitude e cabeça oca.
Suspeitou: há xixi no traje todo; irretocável. E sorriu.
Depois chorou, exausto. Pediu um mate, alguém gargalhou.
03 fevereiro 2010
A FILA - CONTO LIDO POR F.All'Golen [grato] no GENGIBRE
Ilustração: Alan Carline
Ah, a prosódia! Como é mágica; o que pode um relevo fônico quando se trata de ficção. Este conto pode ser inserto num subgênero denominado 'estranho'. Houve quem dissesse que, lido assim, com os erres retroflexos do F.Ficomeno All'Golen (Literatura Comparada; Cambridge Universyti), o efeito 'ostraniênie" fica dilatado e a estranheza potencializada. O meu conto ganhou camadas de significação. All'Golen esteve na Flip que homenageou Nelson Rodrigues, brindou-me com a gentileza de sua pródiga leitura. Depois publicou um poema estranhíssimo e tornou-se estranhamente inachável. No departamento dele, no Reino Unido, alguém cochicha em off que teria pedido um semestre sabádico para reler os 'breves' do Kafka...
“A FILA”
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Não lhe causou estranhamento algum quando, já na entrada daquele pátio, topou de cara com a tabuleta bem postada, solene, onde se lia: “A FILA”. Em caixa alta, sem serifas, preto sobre o branco e bem à altura da vista. A lucidez com que se impunha excluía e conclamava a presença de uma crase, isso sim, seria de se estranhar? Ao contrário, era quase uma condição, uma essência mesmo da placa, essa simultaneidade. A caminho, no entanto, lembrou-se ter lido “FUNERÁRIA” onde seria mais crível que, pelo recorte urbano do local, pela vizinhança típica, lá estivesse escrito “FUNILARIA”. Mas este petisco caprichoso, já o reservara ao analista, até por uma questão de comodidade, ou de resistência. Não era o caso desta placa. O máximo que ela permitia era conjecturar se teria faltado um ponto de exclamação ou, algo mais sutil – se, por decoro de se evitar um imperativo grosseiro, autoritário, suprimiram elegantemente um “RESPEITE A FILA!”. E era essa condição que impunha respeito.
Tudo isso lhe infundia uma espécie de esperança vaga, de crença em valores substantivos, de confiança pela confiança; acelerou a marcha e perfilou-se aos demais. Não eram muitos, os demais. Silhuetas discretas, deslocamento proporcional aos espaços sucessivamente desocupados pelo atendimento. Pessoas, como ele, ali, na fila. Dispunha de um dispositivo contra o enfado, conversa mole, mas, sobretudo, contra a timidez incorrigível. Era um livrinho em formato seis por cinco que cabia em qualquer canto de bolso, paginação confortável e à prova de olhares bisbilhoteiros. “Padre Antônio Vieira”, uma antologia...viria a calhar; apalpou e, pela espessura percebeu o engano; era um Hamlet cuja impressão, de tão nítida, dava para ler até nos vagões do metrô e, até por isso, ele o reservara para o crepúsculo.
Decepcionado, enfiou as mãos pelo bolso e resignou-se a sua corporeidade perfilada aos demais. Foi então que se instalou um certo caos no recato daquela espera ordenada. Um homem deixou a fila e, ajeitando pasta e capacete pelos braços aproximou-se, agachou-se e ergueu do chão um retângulo de plástico cinza.- “Esta senha é sua, não?” Sim, era dele, escapou do bolso onde guardava o William Shakespeare das horas crepusculares. – “Melhor ficar esperto pra quando a fila bifurcar”, asseverou, num tom de voz sinistro, em baixo profundo e olhando furtivamente para os lados e para cima, em direção ao começo da fila. – “Obrigado, mas que bifurcação é essa?” Olhou para o edifício à frente, era térreo, não havia razão para olhar para cima.
O caos instalou-se por uma razão singela e contra cuja obviedade, a menor inobservância parecia implicar em afronta grave. Tinha alguma relação com as senhas e aceitar que a cor da senha determinasse a bifurcação parecia tão consensual aos demais, que apenas uma leve indagação sobre sua razão de ser, soava como um libelo. E tornava o perfilado um contraventor.
- “A minha, senhor, eu sei que é branca. Quando bifurcar lá na frente eu sei pra onde devo me dirigir. E a sua que eu vi que é cinza vai tomar outro destino. Fica mais atento que ninguém aqui é ingênuo nem palhaço!”.
- “Bom, já que” branco “não é cor, deve ter senha preta também...”.
- “Tem sim senhor, mas ninguém viu cair de bolso nenhum!”.
- “Deve ser porque não tem destino nenhum!”
{in Portal Neuromancer, 2008; LGE Editora-esgotado}
01 fevereiro 2010
AS TEIAS, AS VEIAS, OS FIOS
Feito cacho de aranhas pulsa o coração,nem os morcegos cegos escapam-lhe da teia.A agulha se afunda nos pelos, o sedativobambeia as patas e atrapalha a rota dos cães.
As mulheres chamam-gritam.Diga a elas sobre o vento,que se não fossem os pinheirosnada disto estaria, hoje, aqui.
Mas, assim enredado de teias,veias do poste encordoandoa caixa de força, relógio de luz,perguntam: como se faz para lera luz? – Luz? Luz não se mede!
28 janeiro 2010
27 janeiro 2010
SOBRE A EXPLOSÃO NA 'E.H.M.' - DESDOBRAMENTOS
Ilustração: Alan Carline
“Sobre a Explosão na 'E.H.M.'– Desdobramentos”
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Chamarem de 'requentado' esse assunto do acidente ocorrido na “Escola Hibris Mundial”, sinceramente, pouco me importa. Certo ímpeto de humor negro, ao contrário, já me impele a qualificá-lo de “chamuscado” – isso sim –, e me explico: houve, tem havido e é de se esperar que se alastrem desdobramentos tão funestos, que fariam corar toda a corja de “notáveis”, cuja honorabilidade canhestra, hoje, é matéria para carvoeiros: as labaredas destroçaram o arcabouço físico do campus, mas – capricho dos deuses - pouparam a alminha sacana que animava seu extemporâneo prestígio mundial. Toneladas de gigabytes sobreviveram junto aos detritos e eu, envolvido que me achava na ocasião e na condição de vítima sobrevivente, transformá-las-ei em caprichosa história recente valendo-me (que me chamem de posmodernista, pouco se me dá) até dos arcaísmos, das obsolescências mesoclíticas e de todo ferro velho vernacular que lhes provoquem “espécie”.
Pois até do século II ªh. (e que a própria hecatombe não fez submergir) extraí uma expressão belezera que bem qualifica a condição de indigência ética da Escola – “tempos do onça”. Que não me perquiram sobre a etimologia, mas é certo que alude ao anedótico como registro da velha cultura de massas. A “E.H.M” com seus campi espalhados pelo mundo reformado é uma instituição dos tempos do onça, uma ágora estéril e sem estilo, convalescendo de agorafobia (termo que tomo à “P^p” – psiquiatrizações classificatórias pós-cartolagem laboratorial, também do referido século II) e osteoporose pragmática (ossatura conceitual carcomida pela porosidade das investidas multidisciplinares da época). Pois bem, que me inquiram, agora sim - e o que fazia um profissional de linguagem geral perambulando por aquelas bucólicas pastagens no momento em que houve a tal explosão? “Macacos me mordam!”, exclamaria qualquer daqueles ascetas pálidos – Quem é que cora, agora? Onde estavam minhas fidelidades?
Muito se obrou no período e não havia cisterna bacteriologicamente funcional que operasse como um biodigestor de toda PLOBOWNNMMMMMMnnnnnuffffffffBLAHHH (a explosão!) AQUELA M ERDA-----MERDA, TEM GENTE FERIDA AQUI TEM GENTE MORTA QUE MERDA É ESSA SEM TUMULTO POR AQUI SEM PASSAGEM ESSA PORRA É CALCÁRIO E GESSO SÓ E MAIS AS VIGAS E TRELIÇAS DESPENCANDO MERDA FOI FAÍSCA IRÔNICA QUE CAUSOU PROTEJAM SUAS CABEÇAS AS CABEÇAS MERDA PROTEJAM PROTEJAM SUAS CABEÇAS TODO MUNDO NO SOLO PROTEJAM OLHOS SEUS OLHOS E CABEÇAS TODO MUNDO CALADO PRA OUVIR FERIDOS GENTE MORTA AQUI ESTE AQUI MORREU{...}Protejam cabeças olhos no solo sem pisar cabeças sem massacrar merda merdaVOU RASGAR AQUI..Desdobramentos? Explico depois...
20 janeiro 2010
"O PRETO"

Por Marco Antônio de Araújo Bueno
Sim, evito mesmo contar o que se passou com aquele humano que, por causa da Síndrome do Ultravioleta, ficou conhecido como “o Preto”. Trago ainda nítidas as sensações de horror que me provocaram os detalhes horripilantes da história de suas últimas horas de vida na Terra. Alguns, inclusive, registrados, em seus detalhes escabrosos, pelo dispositivo sensório que portava como condição para prestar serviços naqueles antigos complexos de escambo de mescadorias-refugo, de resíduos arcaicos da tecnologia da época da convergência de meios digitais.E nada tinha que ver com a pigmentação da pele, da produção de melanina dele, mas com o GPS; não aquelas engenhocas também antigas de localização, e sim com a sigla que remetia a fenômenos relacionados ao Gradiente de Pressão Social , se é que se recorda dessas tentativas ingênuas de compreender-se a velha desigualdade social. O Preto habitava regiões esquecidas pelas reformas mais comezinhas, falava num dialeto alheio à linguagem universal e deslocava-se até o Complexo Sigma por infectos veículos de superfície, sujeito à chuva ácida e às aberrações climáticas de então. Consta que agia como um desafiador dos protocolos vigentes e era dono de uma coragem quase proverbial.
Assim foi que não se intimidou com a valentia robótica de seu parceiro de bancada naquele Box-37/anexo - 15, o tal que fazia fundo com toda a tubulação e a capilaridade da planta baixa do complexo, onde agonizou em cenas que fundiram a escatologia do drama pessoal dele, com o escoamento dos dejetos todos, mais a amônia que vazava, fora de controle.Às vezes viajo no tempo e imagino que ele tenha sido um emblema extemporâneo do tipo de estigma racista ancestral dos tempos em que nos restava alguma fatia da camada de ozônio; delírio de pesquisador melancólico. É que essa história, além de repugnância e náusea, causa-me tristeza, também extemporânea.
O Preto ficou para mim como o signo de uma resistência ao que me estremece pelo obscurantismo, ao que me assusta pela dilatação da experiência diante do insólito, da coisa cotidiana que se transforma num pesadelo, numa monstruosa combinação de infortúnios. A luta visceral dele resultou na crueza da exposição de suas próprias vísceras aos olhos e às narinas de uma escória mercantilista, robotizada, oriunda da imundície atolada nas práticas mais abjetas. Não por acaso ele retorna sempre à fantasmagoria desses submundos, como massa disforme de sangue pisado ou como um guerreiro nobre, em estado eterno de putrefação. Pois ele, conta-se, não se intimidou nem com o GPS que o desfavorecia de forma truculenta, muito menos com as ameaças de agressão de seu parceiro de Box, no Sigma. Enfrentava o primeiro perseverando no incômodo com certo cinismo, até. O outro, ele enlouqueceu de pavor, com a renitência da presença insuspeita de seu próprio cadáver insepulto por dias intermináveis de angústia, suspense e coexistência com a sensorialidade do repugnante, do asqueroso.
O martírio dele foi uma vingança requintada, ele era durão, você pode pensar; não foi bem assim. A princípio ele era maleável, dócil até, quando o parceiro explicava-lhe as regras tácitas que regiam as transações no local, advertindo-o que ele até poderia atingir alguma cota nas operações, desde que não atravessasse o limite. Que limite?
Ele próprio não sabia, nunca saberia. As transações já chegavam pré-agenciadas e o local físico servia apenas para inspeção visual e tátil da mercadoria. Isso mudava o rumo da negociação, às vezes. Aí entrava o carisma do Preto, que falava baixinho, macio, quase que integrando sua corporeidade às muambas, dando-lhes significação adicional, vida própria. Uma prática milenar, aperfeiçoada pela cultura oral; comum aos sobreviventes que chegavam a mimetizar a geografia mais áspera e a ambiência mais hostil conferindo-lhes alguma simpatia, infundindo-lhes algo de mágico. A sossegada magia dos distraídos, daqueles que vivem de domar o susto de viver rente à vida, ao vão das coisas. O Preto não se sabia assim. Sabia que não era daquela estirpe e que morava longe. Também sabia que não tinha medo de trombar com a vida. Não teria medo de ameaças torpes, insinuadas. Vivia sob pressão – mão estendida para o afago, punho cerrado para o soco – continuava a viver, continuava sempre. Continuou ouvindo que, continuando assim, catapultavam-lhe para outro satélite, para mais longe. Ouviu pela tarde toda que morreria de porrada, que lhe quebrariam os ossos e lhe vazariam os olhos. Quando sorria de medo vago, o parceiro gozava ao contar-lhe como o faria mastigar os próprios dentes, depois que lhe extirpasse os testículos em tração lenta e meticulosa. Então desviava o rosto pro longe e o parceiro mirava a sua jugular e lhe falava de sangue espirrando lentamente e regando seus úmeros retorcidos, como um chafariz. O parceiro era mestre em luta com seres intergalácticos e gostava de anatomia.
Houve algum daqueles recorrentes descontroles horários e o poente demorava a chegar. Os demais agentes foram deixando o Box -37 e os dois ficaram insuportavelmente silentes; um respirava pelo diafragma, o outro, pelo nariz até que o sentisse fraturado num golpe seco. Penso que, neste momento, o sensor acusou alteração no batimento cardíaco do Preto. O que se seguiu é indescritível no que tange aos sons que um humano pode emitir em circunstâncias de dor apenas imaginadas. A pressão arterial despencou e uma música eletrônica pulsante mal abafava estrondos impressionantes. Seguidas fraturas de galho seco, atestou um perito, pela escuta. O corpo parecia arremessado seguidamente contra parede a uns três metros, com uma fúria incontrolável, mecânica. Então, rangido de escada em caracol, pesado e, apenas dois dias depois, pelo vão da escada, alguém notou a massa amorfa, a bola de sangue pisado pelo vão da escada. Mesmo com as perfurações, os olhos pareciam esgazeados.
Sim, a Segurança recebera uma denúncia anônima dois dias antes, um gradil da área externa comum aos boxes fora arrombado. Mas não havia testemunhas. Não consta que o agressor tenha acessado os bastidores do Box nesses dois dias. Nada consta quanto aos operadores da Segurança do Sigma que desapareceram desde então. Nenhum filete de expressão na face estertorada de quem descobriu a bola humana em que se transformou o Preto. Tal como o parceiro, que, por dois dias, manteve-se sentado diante de seu monitor, catatônico como sempre, quem viu o Preto nunca mais viu mais nada.
Inverossímil, porém, é forma como descreveram seu desaparecimento, dois dias depois, num outro poente irregular – dirigiu-se à área externa e ricocheteou desbussolado como uma bexiga de gás até sumir da vista. Estranho isso...
19 janeiro 2010
SOBRE A FOME E OUTRAS DORES

Ilustração: Alan Carline
Não perguntou o preço, mandou-a entrar para darem uma volta. A roupa e a maquiagem nunca mentem sobre a personalidade nem sobre a idade. Era velha como uma roupa que se esfarela ao lavar, a cor de seus lábios, péssima ideia, estética da pobreza, rosa choque sobre a pele morena. Mas ainda assim, uma delícia de corpo.
13 janeiro 2010
SEM NOME
Por Marco Antônio de Araújo Bueno
- Aconteceu de novo, Téo, noite dessas; os mesmos calafrios, sudorese, pavor. Parecia pesadelo, mas eu via tudo, congelada de pavor e...
- E você contatou os cientistas de Itibaia, eu sei.
- Sabe como? Com sua proverbial intuição?
- Pelo meu auricular. Posso ser orelhudo, mas meu disco-cóclea é sensível como uma pastilha de silício; salva e memoriza os sinais todos. Só vocês fisicalistas para inventar um nome tão feio assim – cóclea...
- Não é fisicalista, orelhudo, é medicina que fazemos. Nove ciclos juntos e você ainda não registrou, Téo! Aliás, seu nome soa tão antigo. E essa bizarrice de só ficarmos nus neste telhado, pra ter privacidade...
- Privacidade? Você não enxerga essas galáxias orelhudas, olhudas...
- Mas elas não me enxergam, Teocênio.
- Como pode ter certeza? Mas soube que foi até os ufólogos. Isto sim é que soa arcaico. O único extraterrestre em sua vida sou eu.
- Não brinque com isso. Eu ando descompensada e estou investigando isso. Você me ofende quando banaliza minha aflição; não confia no que descrevo?
- Claro que confio, tantas evidências e polissonografias por pósitrons, diagnósticos diferenciais. Você não tem percepções delirantes. Confio sim, mas sua aflição é um excesso, um desgaste, um desgaste sem sentido. Sou o único extraterrestre que você percebe, que toca na sua pele e faz você vibrar. Sou orelhudo, não pavoroso.
- Meus exames estão bem sim e eu não gosto que fique tergiversando...
- Fique o quê? É jargão fisicalista novo?
- Não, orelha, mas temos um fato novo sim. Pronto, contei.
- ...
- Não sei como classificar a experiência. E algo, ou ela própria talvez, acabou me levando a outros contatos, além do grupo de Atibaia. É impressionante e estou muito só e apavorada. Foi como a sensação de sair do corpo, de não ter comando enquanto dirige seu próprio velOx-3. Tem aquela bifurcação na rodovia para a clínica – para a esquerda, vou para a clínica como sempre...
- Para a direita, a universidade...
- Como sabe?
- Ora, doutora, quem não sabe que à esquerda se vai para a refinaria de petróleo, cheia de agentes e seguranças, e à direita se chega à universidade e seus departamentos. Alguns, cheios de gente muito bizarra... desculpe. Eu sei.
- Sabe que estive no Departamento de Física! Como sabe?
- O que contou a eles? Não sei sobre o seu velOx-3, só acho uma temeridade dirigi-lo em rodovias...
- Exatamente o que conto a você há nove ciclos, ora. Acontece sempre do mesmo jeito – sou despertada pelo toque das mãos de um vulto luminoso como neon...
- Desde que está comigo, há nove ciclos exatos, não acontece mais o que você quase chama de tentativa de abdução, de contatos imediatos, não é?
II
Era! E este diálogo é um tanto ficcional? Sim. Eu o recriei a partir do que me foi relatado; fonte fidedigna. Como dizia um grande amigo, o L.F.Burnier, - “Tal como apanhei no pé”. O que se segue não é menos ficcional, nesse sentido do recriar, etc. Porém, o que nele haja de espantoso (não para mim, é claro) não haverá de turvar o grão do plausível, de coerência discursiva que andei checando em outras fontes. Pois se passou que, depois daquele encontro erótico salpicado de questionamentos sensíveis, marcados pela aflição dela contraposta à fleuma de Téo, e sobre o telhado do que ele chamava de gabinete, sob um tecido de estrelas, como suponho, mesmo em face da sujeira gasosa superior a duas mil ppm (partes por milhão), depois de um orgasmo povoado de ruídos perturbadores, ela adormeceu. Pela primeira vez lhe ocorrera a hipótese de que algo teria mudado, não só quanto à experiência em si, mas quanto à relação com Téo. Diálogos recentes terminavam em ressentimentos abafados, ele mais distante a cada pouco e ela perplexa com as coisas mais triviais que notava nele.Chegou a chamá-lo de extemporâneo, alienado, saído de um dicionário para estrangeiros e, o que parecia o pior – sem nenhum humor nisso tudo. A sensação nova que lhe assaltara com o veículo não tinha precedentes, nem biográficos nem na literatura médica disponível. O veículo parecia investido de inteligência própria! Não obedecia aos comandos dela de fazer a conversão à esquerda, rumo ao consultório, e, numa obstinação mecânica – estanha e suave – traçava seu próprio itinerário, rumo ao departamento de física da universidade. Lá, pesquisadores soturnos, ainda que polidos e solidários (solidários?), pareciam estar à espera dela, em prontidão, disponibilidade total nas agendas lotadas face à visita, de cuja finalidade, pareciam informados antes e melhor que ela própria. E como contar ao Téo sobre o clima insólito daquela conversa meio canhestra, meio fatalista... A ele, um autônomo que vivia de expedientes demasiado práticos dentro do que chamava de gabinete, cercado de interfaces despojadas e amigáveis; envolto num fog de evidências e rotinas banais. Alienado, longe dela, muito longe... Ao despertar daquele sonho no telhadinho, nua, a coisa aconteceu de novo, desta vez, em contornos nada oniróides, nada alucinatórios. A crueza insofismável e apavorante de uma realidade em si, infiltrada de uma sensação familiar de desamparo. No olhar daquele ser que tocava os braços dela, a expressão familiar e distante do próprio Téo.
Foi a última vez que o viu. Depois de algumas semanas de choque, só pensava em que gabinete teria ele se escondido, entre olhos de estrelas orelhudas, em galáxias nem tão distantes...Teocênio – um nome, pulverizado; um vulto-neon, intruso.



