13 janeiro 2010

SEM NOME



Ilustração: Alan Carline


“Sem Nome”

Por Marco Antônio de Araújo Bueno


- Aconteceu de novo, Téo, noite dessas; os mesmos calafrios, sudorese, pavor. Parecia pesadelo, mas eu via tudo, congelada de pavor e...

- E você contatou os cientistas de Itibaia, eu sei.

- Sabe como? Com sua proverbial intuição?

- Pelo meu auricular. Posso ser orelhudo, mas meu disco-cóclea é sensível como uma pastilha de silício; salva e memoriza os sinais todos. Só vocês fisicalistas para inventar um nome tão feio assim – cóclea...

- Não é fisicalista, orelhudo, é medicina que fazemos. Nove ciclos juntos e você ainda não registrou, Téo! Aliás, seu nome soa tão antigo. E essa bizarrice de só ficarmos nus neste telhado, pra ter privacidade...

- Privacidade? Você não enxerga essas galáxias orelhudas, olhudas...

- Mas elas não me enxergam, Teocênio.

- Como pode ter certeza? Mas soube que foi até os ufólogos. Isto sim é que soa arcaico. O único extraterrestre em sua vida sou eu.

- Não brinque com isso. Eu ando descompensada e estou investigando isso. Você me ofende quando banaliza minha aflição; não confia no que descrevo?

- Claro que confio, tantas evidências e polissonografias por pósitrons, diagnósticos diferenciais. Você não tem percepções delirantes. Confio sim, mas sua aflição é um excesso, um desgaste, um desgaste sem sentido. Sou o único extraterrestre que você percebe, que toca na sua pele e faz você vibrar. Sou orelhudo, não pavoroso.

- Meus exames estão bem sim e eu não gosto que fique tergiversando...

- Fique o quê? É jargão fisicalista novo?

- Não, orelha, mas temos um fato novo sim. Pronto, contei.

- ...

- Não sei como classificar a experiência. E algo, ou ela própria talvez, acabou me levando a outros contatos, além do grupo de Atibaia. É impressionante e estou muito só e apavorada. Foi como a sensação de sair do corpo, de não ter comando enquanto dirige seu próprio velOx-3. Tem aquela bifurcação na rodovia para a clínica – para a esquerda, vou para a clínica como sempre...

- Para a direita, a universidade...

- Como sabe?

- Ora, doutora, quem não sabe que à esquerda se vai para a refinaria de petróleo, cheia de agentes e seguranças, e à direita se chega à universidade e seus departamentos. Alguns, cheios de gente muito bizarra... desculpe. Eu sei.

- Sabe que estive no Departamento de Física! Como sabe?

- O que contou a eles? Não sei sobre o seu velOx-3, só acho uma temeridade dirigi-lo em rodovias...

- Exatamente o que conto a você há nove ciclos, ora. Acontece sempre do mesmo jeito – sou despertada pelo toque das mãos de um vulto luminoso como neon...

- Desde que está comigo, há nove ciclos exatos, não acontece mais o que você quase chama de tentativa de abdução, de contatos imediatos, não é?



II


Era! E este diálogo é um tanto ficcional? Sim. Eu o recriei a partir do que me foi relatado; fonte fidedigna. Como dizia um grande amigo, o L.F.Burnier, - “Tal como apanhei no pé”. O que se segue não é menos ficcional, nesse sentido do recriar, etc. Porém, o que nele haja de espantoso (não para mim, é claro) não haverá de turvar o grão do plausível, de coerência discursiva que andei checando em outras fontes. Pois se passou que, depois daquele encontro erótico salpicado de questionamentos sensíveis, marcados pela aflição dela contraposta à fleuma de Téo, e sobre o telhado do que ele chamava de gabinete, sob um tecido de estrelas, como suponho, mesmo em face da sujeira gasosa superior a duas mil ppm (partes por milhão), depois de um orgasmo povoado de ruídos perturbadores, ela adormeceu. Pela primeira vez lhe ocorrera a hipótese de que algo teria mudado, não só quanto à experiência em si, mas quanto à relação com Téo. Diálogos recentes terminavam em ressentimentos abafados, ele mais distante a cada pouco e ela perplexa com as coisas mais triviais que notava nele.Chegou a chamá-lo de extemporâneo, alienado, saído de um dicionário para estrangeiros e, o que parecia o pior – sem nenhum humor nisso tudo. A sensação nova que lhe assaltara com o veículo não tinha precedentes, nem biográficos nem na literatura médica disponível. O veículo parecia investido de inteligência própria! Não obedecia aos comandos dela de fazer a conversão à esquerda, rumo ao consultório, e, numa obstinação mecânica – estanha e suave – traçava seu próprio itinerário, rumo ao departamento de física da universidade. Lá, pesquisadores soturnos, ainda que polidos e solidários (solidários?), pareciam estar à espera dela, em prontidão, disponibilidade total nas agendas lotadas face à visita, de cuja finalidade, pareciam informados antes e melhor que ela própria. E como contar ao Téo sobre o clima insólito daquela conversa meio canhestra, meio fatalista... A ele, um autônomo que vivia de expedientes demasiado práticos dentro do que chamava de gabinete, cercado de interfaces despojadas e amigáveis; envolto num fog de evidências e rotinas banais. Alienado, longe dela, muito longe... Ao despertar daquele sonho no telhadinho, nua, a coisa aconteceu de novo, desta vez, em contornos nada oniróides, nada alucinatórios. A crueza insofismável e apavorante de uma realidade em si, infiltrada de uma sensação familiar de desamparo. No olhar daquele ser que tocava os braços dela, a expressão familiar e distante do próprio Téo.

Foi a última vez que o viu. Depois de algumas semanas de choque, só pensava em que gabinete teria ele se escondido, entre olhos de estrelas orelhudas, em galáxias nem tão distantes...Teocênio – um nome, pulverizado; um vulto-neon, intruso.

2 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Aos leitores que postaram comentários a este conto pela ocasião de minha estreia n'O Bule", em 07/01/10 peço a gentileza de voltarem a consigná-los aqui.E me desculpo pela manobra da retirada de postagens e comentários respectivos que Mauricio de Almeida e eu precisamos realizar no dia 11/01/10
às 17:10.Foi necessária para estabelecer a ruptura dos nossos vínculos autorais com aquele blogue do qual nos retiramos na mesma data.

Rafael Noris disse...

Como havia dito, teoricamente, duvido que o nome "téo" não tenha sido dado ao personagem por mero acaso, algum mistério metafísico desta mente sci-fi nos circunda neste diálogo ex-tranho de suspense. Abraço!

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