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25 janeiro 2011

Obituário

Por: Bia Pupin

Renata Zuppern, 35 anos, será sepultada nesta terça, 16 horas, no cemitério das Andorinhas. Ela morreu na madrugada deste domingo, no Hospital São Paulo. Deixa uma filha e marido.

11 janeiro 2011

MORDIDA

MORDIDA


Por Bia Pupin


Dar cabo de tudo isso foi necessário; um exorcismo o que viveu. Durante esse período da sua vida, sem critério de tempo, vivendo de sonho, que acaba.
Renata apenas se cansou daquilo tudo. Era necessário embeber, como música que finaliza o prelúdio da desconfiança criada.
Renata apenas voltou a se sentir uma. Foi sua solidão o que a tirou de todos os lugares e a jogou nela.
Ao som de divas cantarolando seus desamores, tão intensos e fatídicos. Morre como efeito de mulher de botequim carioca. Infarto fulminante - as unhas rasgam a pele da mão, depois de súbitos espasmos. Sozinha na cama.
Assim como se morre amor rompido. Sem nada que se possa fazer. Talvez um gole da garrafa de Rip Van Winkle fosse suficiente para apenas desaparecer.
Como música que desafina, mulher como todas as outras, assim como é porque é. Vivendo o futuro de todos, mas pra ela passado enterrado.
A porta trancada e o cigarro queimando conferem o tom dramático. A feia mordida no lábio sangra a morte amarga.

28 dezembro 2010

NA MESMA MOEDA

Na Mesma Moeda


Acordou, sozinha e assustada, no meio da noite com o temporal. Tudo escuro, ascendeu o isqueiro, procurou a vela. Otavio não estava e segundo o bilhete iria apenas comprar cigarros...
Aborrecida, se arrumou e saiu, teve que desviar um quarteirão, já que a árvore ocupava comodamente toda a rua. Freou a tempo. Teria sido ridículo, bater o carro , assim como o que estava vivendo. Otavio que como um adolescente, foge as escondidas, e ainda com a desculpa de comprar cigarros...
Fez o possível para não cruzar com ele.
Dessa vez, foi fundo, uísque, conversas estimulantes, alguns tragos.
Quando chegou em casa não respondeu nenhuma pergunta, mas também não fez nenhuma, estavam quites.

14 dezembro 2010

Vibrações

VIBRAÇÕES


Renata e Otavio apresentam-se como um casal à beira do abismo. Na esperança de conseguir a mais difícil das satisfações humanas: o amor. Porém, por causa dessa busca pulsante dos dois, se tornaram alvo fácil da curiosidade alheia.
Renata tinha saído sozinha, e encontrou o repórter fotográfico, amigo de Otavio. Sabia que teria de dar satisfações antes que ele à Otavio, mas não fez isso e arriscou. Ganhou a aposta, o comentário dissimulado veio, assim como ela esperava.
Otavio achou graça e Renata teve a certeza do desejo e cobiça da mulher alheia. Pecado? Inveja...não importa.
Não é necessário se esforçar para entender, que a tentativa de preenchimento pode causar espanto.
Afinal, há muitos cadáveres no amor. E apesar de tudo eles faziam o possível para vibrar e vibrar...

30 novembro 2010

LOGO DEPOIS

LOGO DEPOIS


Por Bia Pupin


Há lugares aos quais nunca mais se retorna.
Renata remoia, reacomodava, murmurava, desfiava. Encolhida sob o edredom, tentando submergir em seu próprio mundo. Repleto de loucura e raiva. Era levada para lá, embalada pelo rio profundo que se movia em reflexos e corria segundo sua vontade.
Renata não admitia regras, normas. Era ali que ela conseguia ser selva, ser pássaro, ser tarde, ser dia...
Foi o lugar que sobrou depois da ilusão.

16 novembro 2010

Aposta

Aquele que aposta pode ter como prêmio uma cicatriz.
A cicatriz é uma marca, está colada ao corpo prestando serviço para a memória, será o sinal que ficou da dor.
Renata sempre apostou e jogava toda a sorte em um mesmo palpite até que se cansou.
Sua mania em apostar não foi deixada de lado, mas agora seus palpites eram jogados nos dados, era calculada a probabilidade com frieza estratégica.
A partir de agora, Renata busca a medida do êxito. O prazer em seu futuro triunfo é o sua única motivação.
Ela decidiu que não poderia mais permanecer onde estava.
Com sutileza prepara cuidadosamente duas doses de uísque sem gelo. Oferece a Otavio - brindam.
Renata avisa sua decisão, toma tranquilamente sua dose. Explica que já cuidou de tudo, retira a chave de casa do seu molho de chaves deixa sobre a mesa.
Não espera para ouvir a resposta de Otavio.

02 novembro 2010

VISITA

No quarto tudo parece que está à sua espera.

Há anos que não mora ali, mas seus objetos moram, suas lembranças e momentos de saudades também.

O encontro entre mãe filha, não escondem confidências e carinhos. Mas dessa vez, mostram novos rumos da matrona, que pretende agora que criou os filhos, cuidar de si. Morar perto do mar, brincar de irresponsável e o que mais imaginar.

Não haverá mais o refúgio de outros tempos.

Renata reflete sobre a demora de acontecer um momento na vida das pessoas de apenas se preocuparem em fazer as coisas como quiserem, é um tempo de demora e delicadeza. Que acompanham pitadas de coragem e hesitação.


19 outubro 2010

IMAGINAÇÃO DEPOIS DE UM BREVE ENCONTRO

Renata morde um pão de queijo e um pingado na padaria apreensiva pelo horário, não percebe que sua rotina seria impossível sem esses recorrentes atrasos.

Repara nos comentários enfadonhos de alguns clientes , deixa o pão de queijo de lado, pede um suco de laranja sem açúcar e com gelo. Quando é surpreendida por alguém que lhe sorri e pela intimidade demonstrada, se espanta:

-Sim, claro Léo!

-Renatinha!

Por um momento, ela se sente paralisada. Ele demonstra como sempre alguma coisa bastante profunda no olhar, segredos.

Sentar e conversar seriam coisas normais para dois velhos amigos, mas não para Renata e Léo. Afinal isso seria a declaração leviana de um amor inconfesso.

O encontro dura menos de um minuto, em que ambos não se permitem a troca de olhares, mas Léo arranca da bolsa um livro.

-É meu! Leia e me telefone dizendo o que achou.

Ela recebe o presente, admirada, pois para Renata isso sempre foi uma hipótese remota.

A conversa quase monossilábica termina assim. E cada um percorre seu caminho, mas isso não é tudo.


05 outubro 2010

SAPATOS VERMELHOS

SAPATOS VERMELHOS

Por Bia Pupin


Vestiu os sapatos vermelhos, esperando que no caminho encontrasse algo de especial. Preocupou-se demasiado consigo mesma, já que crescia em segredo, um temor que a distendia, quebrava e deformada. Não da morte, e nem de sofrimentos tinha medo, mas sim, daquilo que não conhecia.
Talvez quisesse chegar a algum lugar, mas sem perceber ficou por ali, e sem entender como chegou.


PS.: Renata anda meio perdida, mas nosso blog está no caminho certo....Por isso, contamos com o apoio dos nossos leitores:

Amanhã acaba o 1º turno do prêmio TopBlog 2010, e o blog De Chaleira está concorrendo. Por isso, pedimos os votos de vocês para que, não só o blog, mas esta forma coletiva de se produzir arte, ganhe visibilidade na blogosfera.

Para votar, é muito rápido. Basta clicar no link abaixo, depois no botão "Votar". Você, então, digita seu nome e o seu email, para que eles enviem uma confirmação. Cheque sua caixa de entrada (ou de spams) e confirme seu voto através do email que o pessoal do Top Blog enviará.


http://www.topblog.com.br/2010/index.php?pg=busca&c_b=2114924

Os colunistas, gratos, não tem palavras...

21 setembro 2010

MINERVA

Ilustração: Alan Carline

Um dia uma pessoa acorda e acredita que o mundo tem que ser como ela quer, mas esse mundo não existe!
“É exibindo uma natureza infantil perversa que o “fruto verde” se defende contra o homem” disse Beauvoir.
Renata encarava o olhar de Otavio que não permitia que ela fosse mais o que foi até o presente momento.
Seu comportamento ao lado da deusa Minerva seria pitorescamente definido como feminino?
A originalidade de Minerva deveria ser objeto de conquista dos frutos verdes- arte, sabedoria e guerra. Se usados nos momentos certos sempe serão golpes certeiros, golpes de prudência que o fruto verde deve aprender a usar. Já que, reformar e moldar são tarefas masculinas. Nenhum homem aceita ser dominado, um dia ele simplesmente acorda, percebe alguma fragilidade e revolta-se.
O fruto verde é a mulher inocente, que pouco a pouco descobre o mundo, e vai assim caminhando e deixando de lado sua ingenuidade, mas carrega com ela o peso da figura masculina desejada.
Peso, porque nem sempre o homem aceitará ser o obeto de suas expectativas. Principalmente em pitorescos rompantes de sua ingenuidade que ainda agoniza.
E assim espera-se a morte do fruto verde e o nascimento súbito de um fruto pronto e adulto.

07 setembro 2010

CERTAS ALEGRIAS

CERTAS ALEGRIAS

Por Bia Pupin

Renata em um passeio pelo shopping em busca de um sapato. Encontrou um lindo na vitrine. Dias de promoção 50% de desconto, um número menor que o seu, comprou.
A vendedora ofereceu mais um e outro. Ela levou o vermelho. Quando tranquilamente provou em casa, sem a pressão da vendedora devidamente treinada para isso, percebeu o evidente, ele a incomodava.
Sucumbiu na tentação masoquista.
O esquema das férias de Renata foi de tédio, espera e decepção.
Sabia o que iria encontrar em casa, um vago mau humor na tentativa de se entreter com algo.
Quanto custa ser feliz? Perguntou-se Renata. E quanto dói não conseguir...
Nada mais fácil do que ficar em casa esperar Otavio, que sem nenhuma pressa volta do trabalho, mesmo sem um presente, sem agrados, por mais que ela negue, havia certa apreensão e um suspiro - hoje ( ainda! ) alguma coisa poderá mudar.
Disso tudo, ela tirou uma alegria masoquista, quando vestiu sua camisola.

17 agosto 2010

Vitrine da lembrança, reinvenção recorrente

Por Bia Pupin

Se o mundo fosse um espetáculo de circo. Essa metáfora poderia certamente distinguir as diferenças entre as pessoas, há aqueles que assistem e aqueles que protagonizam.

O espectador se diverte com o palhaço, assiste as acrobacias, se assusta com o picadeiro. Os protagonistas encantam serpentes, criam atmosferas performáticas, domam leões e ursos. Os lugares não são estáticos é um passe de mágica, e pronto, tudo está fora do lugar. É como se imaginar no carrossel subindo e descendo, se entristece, se alegra, se entristece, se alegra...E na vida não há mestre de cerimônia que seja suficiente.

Nada melhor que pão e circo, que trás lembranças tristes de infância, triste porque ficou só na lembrança, com gosto de maça do amor, com cores caiadas em bege e rosa.

A equilibrista, soturna e angustiada, extravasa o medo humano do precipício, mas linda bem lá no alto.


Renata abriu uma velha caixinha de música e sonhou.

03 agosto 2010

Confusões de terça-feira

Por Bia Pupin


Renata acorda 15h00, ainda sob o efeito do “miosã” ( MIOSAN 5 MG) , tomou 1 comprimido, 2 horas antes de dormir. A dentista lhe orientou para não sair sozinha, não dirigir e não beber enquanto estivesse sobre o efeito do remédio, pois é um forte relaxante e causa sonolência. Os remédios são prescritos, as recomendações dificilmente seguidas.

Ela observa ainda entorpecida a paisagem mostrada pela sua janela. É um dia chuvoso.

Pensa alto, suas confusões:

- Mentira! Eu não estou pronta, disse que estava, mas digo tanta coisa. (Sorri estranhamente, estiramento causado pela sua ATM.)

O que é uma mentira a mais ou a menos? Isso não é o problema, a sinceridade só me
alucina. Contesta.

Devido a dor física causada pela ATM, Renata procurou um neurologista, um psiquiatra, um fisioterapeuta, e por fim, foi parar no consultório de um dentista. Mas seu stress constante fez aumentar a inflamação no nervo. Laser, placa de oclusão, injeção na face, aplicação de botox, tudo parecia inútil-e mordia o canto da boca de forma inconsciente - reflexo nervoso.

20 julho 2010

GAVETAS

Por Bia Pupin


Ficou o vazio. E as paredes ficaram com odor de lembrança esquecida. Será possível?

O que encontramos na gaveta fechada? Encontramos na gaveta aberta?

(Besteira deixa pra lá - pensava Renata).

Renata não conseguiu encontrar mais nada. Mesmo que tudo estivesse ordenado, a loucura monótona impedia qualquer acolhimento.

O desamparo acometeu Renata. Ficaram as lembranças vazias de sentido, como aquela: de quando, enfrentou a família por Otávio e sua avó de noventa anos não entendeu nada, ou o dia em que entraram no apartamento, ainda bagunçado, com a menina em seus braços, ambos felizes grudados no berço.

Renata, dispersa, na casa que não pode abrigá-la. Os sonhos humanos moram dentro de uma casa, sem essa ligação tudo vira devaneio.

Estaria jogada no mundo sob a mira de uma tempestade?

A fragmentação intranqüila condenava a errante Renata, já que, não soube dar sentido à sua casa.

Por que não deixar as gavetas gordas, gordas?! Certamente, ela preferiria não ter a certeza, desejava, preferiria o silêncio das gavetas pervertidas e convertidas em palavras entusiasmadas, nada pra ela...

A não ser a lamúria de quem tenta dizer à sua mulher, que ela está deixando de ser a mulher da sua vida.

O clamor das gavetas perturbou Renata que sonhou com um manual, que lhe decretaria uma formula mágica, um caminho confortável: o silêncio daquele homem e não suas lamúrias.

Das cartas que leu a vaga lembrança, meio cega, contaminada, purulenta...

De quem adia em se embebedar de liberdade.

06 julho 2010

CARTA À AMANTE

CARTA À AMANTE

Por Bia Pupin

Quando penso nisso, acredito ser brutalmente imbecil.

Gostaria de saber se nem por um segundo lhe passou pela cabeça a ideia de que nenhuma mulher teria cedido ao charme de um cara jovem e interessante, e deixado embriagar-se da desigualdade que há entre os dois, a não ser na tentativa de alcançar alguma virilidade perdida. E isso não é apenas uma interrogação.

O destino o jogou nos braços de uma ninfomaníaca que vê nele a ocasião de reencontrar sua juventude perdida? Para ele tudo não passa de uma entrega maternal. Ele a comove provoca-lhe uma espécie de pena? Que tola paixão a sua! Quanta inadequação e frustração.

Seu nome, nome de mãe, de pronúncia leve, macia, a mim indizível, tem tons de azul, rosa, mas tudo nele é pastel. Acredita que uma paixão violenta lhes abateu? A tentativa de um milagre...

O que deseja dele? Um rompimento, uma fuga, a busca do “amor verdadeiro”, ora só não deixe que ele perceba que suas conquistas são objeto de ornamento para seu hedonismo, consolo, de uma mulher frustrada e não uma paixão. Não deixe que ele saiba quem é. Que seus cuidados em doses magistrais querem um prêmio de consolação (ele- quanto romance!), afinal ficará bem mais fácil, com tudo aquilo que já sabe com seus 25 anos a mais de bagagem em sua eminente e necessária investida.

Não quero nenhuma resposta sua. Quero seu silêncio em absoluto.

Renata

22 junho 2010

BANHO A BANHO

BANHO A BANHO
Por Bia Pupin

Como é estranho dar se conta de que a realidade é uma invenção.
Dia-a-dia o mundo cobre-se de sujeira para depois retirá-la em um banho.
“Os detalhes, detalhes”* parte da diferença, são eles que nos levam de um banho pra outro. O resultado de cada detalhe quantifica e qualifica uma vida, um filme, uma novela, uma história...
Qual a história?
Renata notara certa vez , que enquanto seu ônibus deslizava pela via expressa as luzes dos postes se ascenderam , acompanhando seu trajeto, poste a poste.
Quantos já notaram isso? Por que justamente enquanto seu ônibus cruzou a via as luzes se ascenderam? Quem já notou isso? Quantos significados a serem interpretados para que um dia integrem o todo, parte do roteiro de uma vida.

* Detalhes: Particularidade, por menor;
Para os interessados nos detalhes explico o que tento fazer. Experimento um estilo thriller que enumera, isola, observa os detalhes - inclusive os mais sórdidos- espetáculo narrado, analisado, vivido pela quase heroína, a personagem Renata. Em última análise uma história contada em seus pormenores.

08 junho 2010

MARIA-MOLE

MARIA-MOLE

Por Bia Pupin

Seu doce favorito. Enquanto batia o creme se lembrava. Refletia que poderia abrir mão de tudo, mas essa certeza só a fez segurar com mais força alguma esperança.

Enquanto batia o creme se lembrava que foi fácil tirar a foda do velho. Havia sido mais fácil do que acertar o ponto da maria-mole. Teve que abrir outra caixa, pois o creme desandou, começou bater novamente prestando mais atenção dessa vez.

Renata não estava confortável. Ele era um homem velho, ela racionalizava seus motivos. Lamentava sua própria fraqueza. Incrédula analisava suas motivações. O espelho refletia seu olho estourado. Podia sentir a lacuna que não se preencheu.

27 abril 2010

A VIZINHA

A vizinha
Por Bia Pupin

Nunca poderemos saber. Nunca.

Antes da criança nascer ainda estavam sem casa. Renata procurou sozinha vasculhando imobiliárias, preços, condições, Otavio não tinha tempo, durante a semana, de auxiliar as decisões. Comentava entre amigos da necessidade de encontrar rapidamente uma casa (eles confortáveis em suas, diziam que havia muita coisa boa no mercado, para Renata aquilo era desdém e mentira). Passava o dia na faculdade na tentativa de terminar o doutorado antes da bolsa romper, e, além disso, encontrar uma casa- a menina nasceu depois de uma semana que haviam se mudado para um apartamento no centro da cidade. O quarto não tinha nem sido montado. O doutorado não tinha sido defendido.

Tudo era muito diferente: ser mãe, oferecer os seios à menina, talvez Renata quisesse um menino, mas estava adorando vivenciar a maternidade. E nada a insultava, Otavio e Renata viviam tempos distantes desde a notícia da gravidez. Era como se ela virasse mãe de sua filha, nada mais. Testemunhavam juntos o crescimento da pequena.

No elevador conheceram a nova vizinha. Renata sentiu dificuldade de ser simpática com a garota, seu sorriso constante impediu, ficou irritada. E em sua primeira noite mostrou a que veio. Gemidos, gritos, por fim, um berro misturado a um choro.

Ela estava sozinha, em seu apartamento e conseguia tudo aquilo - sozinha.

Renata e Otavio ficaram constrangidos, como se aquilo fosse o lembrete da ausência de sexualidade entre os dois. Otavio resolvia isso de uma maneira pouco generosa, se deitava mais cedo, e depois de alguns minutos se escuta a porta do banheiro sendo trancada.

Renata não era convidada para os festins.

13 abril 2010

AS OUTRAS

AS OUTRAS

Renata não deixaria que outra mulher desconfiasse da dor que sentia. Preferia transparecer sua felicidade, não que fosse uma tentativa de esconder algo, exaltava o que vivia com devoção. Instinto de proteção.

Do ponto de vista de Renata, Otavio, desperta nas outras um tipo de admiração espontânea. Por outro lado, as outras sentem o desejo de chamar sua atenção ou provocar nele algum tipo de interesse. As outras, mulheres, são repetitivas em seus truques, que se reduzem em olhares e demonstração de proximidade por valores e gostos.

Ele nega, ela se auto-engana.

Renata prefere lembrar ou comentar dos livros que leu ou faz um tratado a respeito da arte no século XX.

As outras despertam nela a certeza da crueldade dos homens.

Passa pela sua cabeça a lembrança do conto da bela adormecida, quando liam pra ela quando criança, e que sua filha também adora.

Mas Renata não se pergunta: Quem é a Bela adormecida?

É mulher que espera um homem despertá-la e pra quê? Pra dominar suas vontades. Talvez.

Antes disso eles fazem juízos de valores, analisando-as, e por fim, uma entre tantas é a escolhida, precisa de um beijo. Depois de escolhida, a vítima vê em outras uma potencial inimiga.

30 março 2010

RODOVIÁRIA

RODOVIÁRIA

Renata entediada e com dor de cabeça (fígado). Expressão de infelicidade. Conclui: sou má. Aliás, não sabe ao certo, do que esta sofrendo. O cara ao seu lado lhe entregou um bilhete, uma garota fuma, outro lê, outro fala ao telefone, outro acena para o táxi. Ela para, pensa em ligar pro analista, mas prefere não fazer nada. Assiste a vida.

Os lábios se contraíram, cuspiu saliva com sangue, feito veneno; e contraídos ficaram.

(instante sem forma)

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