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01 setembro 2013

Existe um claro motivo,

para vivermos de espera
de sobreaviso
de incompletude.

Algo de uma razão sublime e última
como o resultado de um cálculo
cujos termos conhecemos só
o desgaste
escassez
o entrevamento.

Tempo de menos é bom
porque demais é excruciante.
é como a sanção mais dietética
do primeiro tédio
e das primeiras tardes tornadas noites
noites sem brilho
sem riso
só o entrevamento

Existe mesmo um motivo palpável
que, de injustos, talvez dele façamos mal juízo,
para que nas cidades enlouqueçamos
e sangremos o tempo através da camisa

É alguém, cujo rosto não revelaria nunca,
dizendo-nos que se tivéssemos,
afinal,
este tempo
ele apodreceria como frutas num hotel vazio.
Gastá-lo com o quê?
Quem?
Por quê?

A falta dele nos sentencia a uma posição
de confortável resiliência,
confortável porque não requer nada,
não move ninguém,
não destrói nem constrói
quando muito permite um suspiro
que logo se desmantela na concretude
do não-tempo

Temos mais é que viver com pressa
e em crescente velocidade
e fazermos tudo pela metade
para que em nossa esquizofrenia
de habitar entre lugares o intervalo
possa haver, enfim,
simultaneidade.



19 agosto 2013

Pequeno Conselho

Por Rafael Nascimento

Não toma o amor por coisa:
tesouro segredado na primeira infância
ponte a ligar duas criaturas prontas
lugarejo onde pecas sã.

Não toma o amor por tempo:
o que foi ontem calou de vez
o que será um dia não possui voz
e o que é não sabe sê-lo.

“Amor sublime selo”
que aos poucos se sedimenta em nós
e nos tira o sono de prazer e dúvida.
Peste sem raiz!
Gozo sem pele.

Não toma o amor como medida:
muito pouco
pequeno grande
findo infindo
a tudo lhe escapa o quantitativo
volta cega ao teu início.

Não toma o amor por esperança:
se fosse fácil não escreverias
se fosse impossível não terias filhos
e se fosse eterno não amarias. 



04 agosto 2013

NOTA SOBRE UM DOMINGO

Por Rafael Nascimento


a bebida estanca
a febre tanta
que por horas
tonto
pensei ser dança
de um velho tango

e a janela aberta
não era sonho
que sobre a mesa
maldisse eu tanto

era só sono
(ou espanto)
de um conselho tântrico

que meu vento leve
soprou teu rosto
e assim
voando
deixou na casa
todo o encanto.

21 julho 2013

30 junho 2013

ALFARROBA




não provei o gosto das coisas.
consumi-lhes apenas a ideia
de um possível gosto
que não era paladar:
era só a pressa de fazê-las desaparecer.


e depois de satisfeito
o corpo não retinha nem o doce,
nem o sal
nem o mel do nódulo que há pouco
cintilava em minha língua


minha memória era de estar só
contemplando um vazio que vibrava
nas extremidades das minhas extremidades


e então veio o seu gosto
e seu inconsumível desconforto
que era um chamado da ânsia
de engolir-lhe os olhos
a pele
os pêlos


para somente então se fazer apelo
e pedir que viesse manso
com a disciplina que conduz seu dia
com a ambigüidade que a faz mentir
e a habilidade de tornar o difícil fácil
e o fácil elegante.


para enfim envolvê-la num abraço cândido
e nutri-la com a ternura
desse arremedo que chamamos desejo.


02 junho 2013

NATURAL DE CAMPINAS


cadê teus poetas?
teus suicidas?
teu desapego à família?
tua sujeira?

será que eles se tocam
nas encruzilhadas febris que descrevem tuas ruas?
será que eles se notam
entre as estátuas feitas às pressas de tua débil história?
será que eles sabem
o quanto te trocaram por menos e mais
do que de ti receberam?

de ti emerge uma pergunta
tal qual a água podre que me envolve
mansa
naquele abraço que senti quando criança
sem reclamar
com o mutismo amável de um corpo atávico
e uma boca de tímidos dentinhos.

cadê tua fome?
teu silêncio?
teu infanticídio?
teu adultério?

quando traíste minha mãe?
quando mataste meu pai?
quando me ungiste com teu escárnio
e me legaste teus erres
e tua morosidade?

no gorjeio dos teus carros
e auto-falantes
há só uma caricatura mesquinha
desse passado deletério

e ela é rude
abrupta
provinciana
paroquial

é uma contradição dos termos
descolonização dos ermos
é redutível de seus pioneiros
são meus avós em mangas de camisa

cadê teus velhos?
tuas putas?
tuas travestis?
tua escória?
invisíveis que estão pela higiene míope
e caduca
da tua ambígua municipalidade

cadê a fuligem?
o cheiro de esperma na saia da filha?
a paga no sinaleiro?
o acidente na rodovia?
a parada cardíaca na casa dos pais?
o desatino na madrugada?

porque no intrafegável do teu cotidiano
há só o reflexo sem espelhos
da homogeneidade que teus filhos
limpos
lindos
mesmos
ostentam por dentro.
  




18 maio 2013

SÓ EM QUALQUER FESTA


 Só em qualquer festa

Por Rafael Nascimento*

rente aos meus pés
estão outros pés
evitando a dor dos pisões
e da falta de assunto.

rente aos meus ombros
no contíguo do vácuo que faz meu corpo
mexem-se outros corpos
na incontinência de um prurido
manifesto em riso
                             que é acaso
e na soma do som
                             que é ruído.

tanto que no hábito vital
de ver por dentro das garrafas
o fundo
logo eu me sinto pronto
e a noite, pronta
a ver tudo como se fosse
o mundo

pra no fim caminhar lento
e sentir na nuca o afago
daquela Gomorra de pedra
na iminência de despertar.


*Esta é a estreia da coluna História da Noite que posto hoje excepcionalmente. Ficará nos domingos.


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