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01 setembro 2013
19 agosto 2013
Pequeno Conselho
Por Rafael Nascimento
Não toma o amor por
coisa:
tesouro segredado
na primeira infância
ponte a ligar duas
criaturas prontas
lugarejo onde pecas
sã.
Não toma o amor por
tempo:
o que foi ontem
calou de vez
o que será um dia
não possui voz
e o que é não sabe
sê-lo.
“Amor sublime selo”
que aos poucos se
sedimenta em nós
e nos tira o sono
de prazer e dúvida.
Peste sem raiz!
Gozo sem pele.
Não toma o amor
como medida:
muito pouco
pequeno grande
findo infindo
a tudo lhe escapa o
quantitativo
volta cega ao teu
início.
Não toma o amor por
esperança:
se fosse fácil não
escreverias
se fosse impossível
não terias filhos
e se fosse eterno
não amarias.
04 agosto 2013
NOTA SOBRE UM DOMINGO
Por Rafael Nascimento
a
bebida estanca
a
febre tanta
que
por horas
tonto
pensei
ser dança
de
um velho tango
e
a janela aberta
não
era sonho
que
sobre a mesa
maldisse
eu tanto
era
só sono
(ou
espanto)
de
um conselho tântrico
que
meu vento leve
soprou
teu rosto
e
assim
voando
deixou
na casa
todo
o encanto.
21 julho 2013
LER SE APRENDE LENTO
Por Rafael Nascimento
AMAR SE APRENDE AMANDO
AMAR SE APRENDE A MANDO
ARMAR SE APRENDE ARMANDO
A MÁRCIA PRENDE ARMANDO.
30 junho 2013
ALFARROBA
não
provei o gosto das coisas.
consumi-lhes
apenas a ideia
de
um possível gosto
que
não era paladar:
era
só a pressa de fazê-las desaparecer.
e
depois de satisfeito
o
corpo não retinha nem o doce,
nem
o sal
nem
o mel do nódulo que há pouco
cintilava
em minha língua
minha
memória era de estar só
contemplando
um vazio que vibrava
nas
extremidades das minhas extremidades
e
então veio o seu gosto
e
seu inconsumível desconforto
que
era um chamado da ânsia
de
engolir-lhe os olhos
a
pele
os
pêlos
para
somente então se fazer apelo
e
pedir que viesse manso
com
a disciplina que conduz seu dia
com
a ambigüidade que a faz mentir
e
a habilidade de tornar o difícil fácil
e
o fácil elegante.
para
enfim envolvê-la num abraço cândido
e
nutri-la com a ternura
desse
arremedo que chamamos desejo.
02 junho 2013
NATURAL DE CAMPINAS
cadê teus poetas?
teus suicidas?
teu desapego à família?
tua sujeira?
será que eles se tocam
nas encruzilhadas
febris que descrevem tuas ruas?
será que eles se notam
entre as estátuas
feitas às pressas de tua débil história?
será que eles sabem
o quanto te trocaram
por menos e mais
do que de ti receberam?
de ti emerge uma
pergunta
tal qual a água podre
que me envolve
mansa
naquele abraço que
senti quando criança
sem reclamar
com o mutismo amável de
um corpo atávico
e uma boca de tímidos
dentinhos.
cadê tua fome?
teu silêncio?
teu infanticídio?
teu adultério?
quando traíste minha
mãe?
quando mataste meu pai?
quando me ungiste com teu
escárnio
e me legaste teus erres
e tua morosidade?
no gorjeio dos teus
carros
e auto-falantes
há só uma caricatura
mesquinha
desse passado deletério
e ela é rude
abrupta
provinciana
paroquial
é uma contradição dos
termos
descolonização dos
ermos
é redutível de seus
pioneiros
são meus avós em mangas
de camisa
cadê teus velhos?
tuas putas?
tuas travestis?
tua escória?
invisíveis que estão
pela higiene míope
e caduca
da tua ambígua
municipalidade
cadê a fuligem?
o cheiro de esperma na
saia da filha?
a paga no sinaleiro?
o acidente na rodovia?
a parada cardíaca na
casa dos pais?
o desatino na
madrugada?
porque no intrafegável
do teu cotidiano
há só o reflexo sem
espelhos
da homogeneidade que
teus filhos
limpos
lindos
mesmos
ostentam por dentro.
18 maio 2013
SÓ EM QUALQUER FESTA
Só em qualquer festa
Por Rafael Nascimento*
rente aos meus pés
estão outros pés
evitando a dor dos pisões
e da falta de assunto.
rente aos meus ombros
no contíguo do vácuo que faz meu corpo
mexem-se outros corpos
na incontinência de um prurido
manifesto em riso
que é acaso
e na soma do som
que é ruído.
tanto que no hábito vital
de ver por dentro das garrafas
o fundo
logo eu me sinto pronto
e a noite, pronta
a ver tudo como se fosse
o mundo
pra no fim caminhar lento
e sentir na nuca o afago
daquela Gomorra de pedra
na iminência de despertar.
*Esta é a estreia da coluna História da Noite que posto hoje excepcionalmente. Ficará nos domingos.
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