31 maio 2011

ACABAMENTO


Acabamento

Por Marco A. de Araújo Bueno

Despediu-se em definitivo; pedra em cima, tomou-se de rumo.Voltou apenas para dizer do relativo do gesto, da insuficiência da linguagem e que, sobre a lapidação da pedra, a propósito, mudara de provedor e etc.; ah, também que o etecétera era provisório e que o contrário de "rumo" poderia ser “amor” mas era "omur" mesmo.


30 maio 2011

CONCURSO DE INDRISOS -CATEGORIA ESTRANGEIROS

ENTREVISTADO ISIDRO ITURAT. POR ISABEL FURINI. DE CHALEIRA, BLOGUE COLETIVO DE CRIAÇÃO LITERÁRIA. BRASIL. MAYO DE 2011 (IDIOMA ORIGINAL: PORTUGUÉS).


Nuestro entrevistado es el poeta y educador español Isidro Iturat, creador de la modalidad poética indriso. Nuestro interés está en saber un poco más sobre el indriso, objeto de concurso literario aquí, en De Chaleira.


1°) ¿Cuándo y cómo nació el indriso?

La idea del indriso nació en el 2001, cuando yo aún vivía en Madrid. Se dio en un momento en que estaba meditando sobre el soneto, cuando visualicé mentalmente las estrofas de la figura clásica condensándose desde el patrón 4-4-3-3 al 3-3-1-1. Y poco tiempo después ya escribí el primer poema, Luna menguante.

2°) ¿Cuáles son las características del indriso?

En su definición básica, el indriso es un poema compuesto de dos tercetos y dos estrofas de verso único (3-3-1-1), que admite cualquier tipo de rima y medida en sus versos, incluyendo el verso libre y el verso blanco. Después, presenta una serie de variantes basadas en las diferentes posibilidades de combinación entre las estrofas. Así, el total de éstas sería:
3-3-1-1: Indriso o indriso en sístole.
1-1-3-3: Indriso en diástole.
3-1-3-1: Indriso de dos sístoles.
1-3-1-3: Indriso de dos diástoles.
3-1-1-3: Indriso en sístole interna.
1-3-3-1: Indriso en diástole interna.


3º) ¿Cómo distinguir los movimientos internos del indriso, la diástole y la sístole?

La idea de “sístole” viene asociada a un movimiento de contracción y “diástole” a un movimiento de expansión (la terminología es la misma que describe los dos movimientos del corazón). Estas palabras, entonces, describen los movimientos del discurso producidos por las transiciones entre tercetos y estrofas de verso único. Así, la transición del terceto para la estrofa de verso único se interpreta como “sístole”, contracción del discurso, y la de la estrofa de verso único para el terceto como “diástole”, expansión del discurso.


4º) La antología de indrisos que estás organizando con motivo del décimo aniversario de la nueva modalidad poética, ¿tendrá indrisos en cuántas lenguas?

Por ahora en nueve, entre ellas el portugués.


5°) ¿Cuál fue tu propósito a la hora de crear el indriso?

Lo cierto es que propósito no hubo, porque se trató una operación espontánea producida por la imaginación. No hubo una voluntad consciente de innovar o de crear nada, fue más como cuando un botánico descubre una nueva planta. Pero algunos propósitos conscientes vinieron, sí, después del descubrimiento: explorar las posibilidades expresivas de la nueva “herramienta” de creación, ejercitar ritmos, recursos, conceptos, o divertirme simplemente.


6º) ¿Cuáles son las características más importantes para que un indriso sea considerado técnicamente correcto?

Apenas estar formado por dos tercetos y dos estrofas de verso único, con la colocación de las estrofas que el autor desee.




29 maio 2011

A DAMA AZUL

A DAMA AZUL

Por
Talita Oliveira


Dama Azul
reze uma prece
um Pai Nosso distante
uma Ave Maria cansada

Aqui sua sombra se esquece
e na lembrança, permanece.

28 maio 2011

CORRA-CORRA.CON [PORRA!]

R.Magritte


CONCURSOS LITERARIOS:

Por Marco A.de Araújo Bueno


FONTE:
http://www.gargantadaserpente.com/encanta/concursos.shtml


31.05 - Premio LeYa 2011

01.06 - 12º Concurso Nacional de Contos Josue Guimaraes
01.07 - Concurso FC do B - Ficcao Cientifica Brasileira
08.07 - 10º Concurso Brasileiro de Haicai Infanto-juvenil 2011
30.09 - XVIII Concurso Nacional de Poesias 2011
30.11 - VII Premio Literario Valdeck Almeida de Jesus - Cronicas

{CONCURSO DE INDRISOS DO DE CHALEIRA -VIDE EDITAIS}


27 maio 2011

ISIDRO, PAI DO INDRISO - BREVE ENTREVISTA

FOTO - Alexandre Toresan

ENTREVISTANDO ISIDRO ITURAT

Por Isabel Furuni

Nosso entrevistado é o poeta e educador espanhol Isidro Iturat, criador da modalidade poética indriso. O nosso interesse é conhecer um pouco mais do indriso, objeto de Concurso literário aqui no De Chaleira.

1°) Quando e como nasceu o “indriso”?

A ideia do indriso nasceu em 2001, quando eu ainda morava em Madri. Foi em um momento em que meditava sobre o soneto, quando visualizei mentalmente as estrofes da figura clássica condensando-se desde o padrão 4-4-3-3 para o 3-3-1-1 e pouco tempo depois já escrevi o primeiro poema, Luna menguante.

2°) Quais são as características do indriso?

Em sua definição básica, o indriso é um poema composto de dois tercetos e dois monósticos (3-3-1-1), que admite qualquer tipo de rima e medida nos seus versos, inclusive o verso livre e o verso branco. Depois, apresenta uma série de variantes baseadas nas diferentes possibilidades de combinação entre as estrofes. Assim, o total delas seria:

3-3-1-1: Indriso ou indriso em sístole.

1-1-3-3: Indriso em diástole.

3-1-3-1: Indriso de duas sístoles.

1-3-1-3: Indriso de duas diástoles.

3-1-1-3: Indriso em sístole interna.

1-3-3-1: Indriso em diástole interna.

3º) Como distinguir os movimentos internos do indriso, a diástole e a sístole?

“Sístole” vem associada a um movimento de contração e “diástole” a um movimento de expansão (a terminologia é a mesma que descreve os dois movimentos do coração). Estas palavras, então, descrevem os movimentos do discurso produzidos pelas transições entre tercetos e monósticos. Assim, a transição do terceto para o monóstico é interpretado como “sístole”, contração do discurso, e a do monóstico para o terceto como “diástole”, expansão do discurso.

4º) O livro de indrisos que você está organizando com motivo dos 10 anos da nova modalidade poética, terá indrisos em quantas línguas?

Por enquanto, em nove línguas, dentre elas o português.

5°) Qual foi o seu propósito ao criar o indriso?

Na verdade, não houve propósito, porque foi uma operação espontânea produzida pela imaginação. Não houve uma vontade consciente de inovar ou de criar nada. Foi como quando um botânico descobre uma nova planta. Mas alguns propósitos conscientes vieram depois do descobrimento: explorar as possibilidades expressivas da nova “ferramenta” de criação, exercitar ritmos, recursos, conceitos ou simplesmente me divertir.

6º) Quais são as características mais importantes para que um indriso seja considerado tecnicamente correto?

Apenas estar composto por dois tercetos e dois monósticos, com a distribuição estrófica dos mesmos que o autor desejar.




26 maio 2011

O ESCRITOR, ESSE ESTRANHO -ROTOSCÓPIO


ROTOSCÓPIO

Por Antônio d'Alemar

{ PREENCHA OS ESPAÇOS ABAIXO COM ESCRITORES }

O ESCRITOR, ESSE ESTRANHO

http://3.bp.blogspot.com/-_beqOqGRY7Q/Td7EoWFp2SI/AAAAAAAAATQ/XAiOjZl852U/s320/Kafka3.jpg
http://4.bp.blogspot.com/-soBjm1uNsWA/Td7HpTfe1QI/AAAAAAAAATw/A0o4uw1QmfY/s320/Ran%2BCharan%2B1.jpghttp://4.bp.blogspot.com/-XNzU5vhGGnw/Td7EV_4YFUI/AAAAAAAAATI/asefuBBdmNc/s320/Adelia0005.JPGhttp://4.bp.blogspot.com/-J3vx40P9PhU/Td7HxC_7tUI/AAAAAAAAAT4/Q3P3reWetv8/s320/garcia.jpg





http://1.bp.blogspot.com/-8B5PjDk3OnA/Td7G6hGa33I/AAAAAAAAATo/bE_t5wdICrY/s320/Miguel.JPG


http://2.bp.blogspot.com/-ZqBOVjPZB_w/Td7E8W40RlI/AAAAAAAAATY/o9mJj3SyJUU/s320/Claudio%2BDaniel.jpghttp://3.bp.blogspot.com/-WXGDCjm9Dds/Td7FLZYNfdI/AAAAAAAAATg/735H2RGe0Q0/s320/Marco%2B2.JPG
http://3.bp.blogspot.com/-P-AJpXWdGl0/Td7H3FrmJPI/AAAAAAAAAUA/iuRg1jyBRb4/s320/Clarice.jpg











O ESCRITOR, ESSE ESTRANHO





























Alguns acham que escritores são seres estranhos. Solitários, reflexivos, diferentes... O talento é inato. A natureza outorga ou não. Como as velhas fórmulas mágicas que as bruxas utilizavam em seus caldeirões - o dom e a técnica são os componentes primordiais que necessitam amalgamar-se para dar nascimento a esse estranho ser chamado escritor. Esse ser que tem um pouco de anjo e um pouco de demônio. Porque os escritores, todos eles, não importa seu tamanho, nem sua estatura - física e mental - são perigosos.

Um escritor é visto sempre como alguém diferente, como um inovador, um criador de casos, um questionador, um desobediente, um sonhador, um louco com idéias perigosas.Aos olhos do público, até o menor dos escritores - até um liliputiense - tem a coragem de querer deixar suas pegadas no mundo. Parafraseando Platão, podemos afirmar que o escritor "quer ser mais ser".

(Crônica de Isabel Furini publicada no Bonde).



25 maio 2011

OS FIOS SOLTOS DA NOSSA MALDADE



OS FIOS SOLTOS DA NOSSA MALDADE

Por Cecilia Prada

“Cada um está só no coração da terra/ Transpassado por um raio de sol./ E de repente é noite.”- Salvatore Quasímodo

Capinzal. Palavras ditas a meio, não ditas – malditas. Algumas, as que seriam bem-ditas, riscadas para sempre em irrupção de medo. A maldição da incompletude, pela vida afora – no final da existência o inventário de coisas iniciadas, abortadas, as coisas que poderiam ter sido. E que só ficaram no uivo do lamento irremediável. E sobre as quais lançamos, assustados, o manto do silenciamento. Morremos: de silêncio. De palavras engasgadas, de gestos não-feitos, das pequeninas covardias de nosso cotidiano encardido.

Nos bosquejos, tristes pegadas deixaremos (Diários? Sim, é claro. E nós todos, homens ou mulheres, embrulhando na madrugada insone nosso despedaçado ser) – o testemunho de toda nossa abjeta covardia. Onde encontraremos escritas, anos muito mais tarde, palavras que por comodidade –ou defensiva esperteza? – tiramos de uma canção de Elton John e lançamos ao éter, para que no sem-mais se inscrevessem, esperando ser entendidas – redescobertas,talvez, no fundo trevoso de alguma garrafa lançada ao oceano (tarde demais!) : “Parece que sempre falta um detalhe, uma palavra, uma nota, para acabar o que nem começou...”

Viramos as costas a nós mesmos. De medo de ver nosso próprio rosto sem a máscara – mas há sempre um poeta de plantão, vivo ou morto, como aquele que é uma Pessoa, e que partilha em fervor muito humano nossa desolação: “...Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à cara./ Quando a tirei e me vi ao espelho,/ Já tinha envelhecido./ Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado”.


24 maio 2011

JOSEPH HART VAUDEVILLE - 9


por Vítor Queiroz


NOS CAPÍTULOS ANTERIORES choveu torrencialmente. Ódios e fofocas mancham o asfalto da estrada.

Percalços e boatos a parte, a trupe do so called Joseph Hart Vaudeville procurava um posto de gasolina para proteger-se do aguaceiro. Bia Havel e Renata O ´Brien Hart preparavam-se para cantar juntas e esclarecer as tramas de muitos nós.


Capítulo XIII

FALSAS ESPERANÇAS


Nada feito, a chuva acabou. Mas vamos cantar mesmo assim, Bia. Pra que, ninguém precisa mais proteger as casacas. Nós estamos ensopadas. Você tem razão. Quando a gente chegar. Virando aquela esquina. Você tem razão.

Bom, vamos cantar mesmo assim. Vamos. Para ajudar os bufos a secarem as meias e baterem os martelos. Joseph não quer mais saber Gregor e Chast, não. Vamos, O ´Brien. Pra que gastar parágrafos com mesquinharinhas. Bricabraques tão velhos, Bia. Mesquinharia. Vamos ensaiar. Vamos.


Capítulo XIV

LA PREGUNTA


Roda a carroça, as lonas foram amarradas outra vez. Merda a merda a merda. – Quanto falta daqui pro posto? – uma bailarina. Quer la respuesta.


Capítulo XV

LA RESPUESTA


a

Posto de gasolina – um frentista gordo. Bola de Sebo numa encadernação vagabunda. Bomba, falasfalto e, Maria Amélia, um fio álacre, pardacento da gasolina olorosa.

Vocês já viram as portas de um dos banheiros, não? Pra que gastar rodagem, então? Pó de carroceria. [ ........................ 24 pt. ] Chegamos. Já faliram as respostas. Quietos



chegamos.


b

Bia Havel, sobrancelha arqueada para fora da lona. Mãos na cintura. Num posto. Beira de estrada. Calorão. Puta calor, rapá. Revólver. O falasfalto todo enfumaçado. Calorão.

Não adiantou. O frentista balofo esfrega a graxa das mãos. Choveu pra que nesse bagaço de curva? Ora bolas. Bia Havel volta, vai, revira uns trapos na carroça. Abram as jaulas dos leões.

Palhaços e anões, um caboclo sentado numa boléia e o frentista boquiaberto. O Vaudeville chegou. Lona para cá, uma corda estirada. Macacos amestrados mostram gengivas e o pianista, Gregor Simonsen, fecha as suas mãos tremendas num cabo de martelo.

Ai, ôi [ ....... 7pt. ] puxa, pull, disguise, entorta para a direita. Joseph Hart dá as ordens. Pisa fundo a grama esturricada. O tacão das botas. Ninguém sabe para que choveu.

Bom, de qualquer maneira hoje haverá espetáculo. O patrão resmunga. Aldrich cospe no chão frestado. Poças de chuva. Bora, trupe [ .............. 14pt. ] enquanto, enquanto., Bora abastecer já esses tanques que a gente ainda tem chão pela frente.


c

Quando, entretanto. Bia Hart e Rebata O´Brien Havel já estufaram o peito e...



NÃO PERCA, NA TERÇA-FEIRA, DIA 07/06 VIRE O MÊS E ABRA E TIRE TODA A CERA DO OUVIDO. A PRIMA DONA, AS BÍGAMAS, O GOGÓ DA GLÓRIA CANTARÃO SOLFAS DE OURO NO PRÓXIMO CAPÍTULO DO NOSSO FOLHETIM.

AGUARDE E CONFIE.




23 maio 2011

DESEQUILÍBRIO



O uso do espaço é inadequado, desordenado.
Quase nunca
O uso do espaço é planejado, calculado.
Nem sempre
O espaço é suficiente para o poema parar
Em pé.



.

22 maio 2011

PEDRO PEITO PEDRUGULHO

Por Rafa Carvalho


Seu relógio era de ouro. A corrente em seu pescoço era de ouro. Os detalhes de sua caneta hipócrita, eram de ouro. Seus acessórios, de ouro. A série de seu cartão de crédito; ouro. As facas e tesouras que esquecia nos corações dos outros; todas de ouro. A aliança no dedo da esposa traída... Ouro.

Mas a primeira coisa de ouro que teve foi o berço. Na faculdade ainda comprava as suas drogas e pagava o motel pr’as menininhas da Biologia com o dinheiro do “lanchinho”.

Fez uma especialização na Alemanha pra aproveitar a Copa. Mas não só; obviamente... aproveitou também as cervejas, as alemãs e a ausência de limite de velocidade na esquerda das vias rápidas.

Perdeu a conta de quantas garotas sucumbiram a seus carros. Jamais beijou uma boca, cujas orelhas não tivessem escutado, antes, qualquer coisa que fosse, a respeito da quantidade de grana que tinha.

Casar foi muito bom para se livrar da lavanderia e dos contatos semanais com diaristas pobres e desdentadas. E ainda lhe servia para a sua – apenas a sua – satisfação sexual, quando a rua o cansava. Belo negócio!

Sua vida de plantões facilitava todas as desculpas. Era um mau cirurgião; mas tinha um pai. Mais que um pai, tinha um nome. O sobrenome alemão era um tanto quanto impronunciável. Mas mesmo quem não o sabia dizer, desconfiava, ao menos, de sua estima.

Tinha alguns processos travados na justiça e nos conselhos médicos, um advogado que vinha balançando a bundinha sempre que lhe estalava os dedos, e algumas funcionárias do hospital que tentavam se engravidar do homem. E que homem! Um doutor, grisalho, com personal trainer, carro importado, voz grave, dentes levemente amarelados por charutos especiais, hálito pseudo-disfarçado de uísques-muitos-anos, cantadas baratas, mas presentes caríssimos... Não exatamente desses, de fazerem cair o queixo, mas dos que fazem pernas se abrirem. O que suas donas sequer desconfiavam, é que o doutor as violava às pressas, pelos becos hospitalares esterilizados, com toda a tranquilidade da vasectomia. Mas, bem... ainda restavam os presentes.

Sua 'bola da vez' era uma enfermeira das boas. Ah, as enfermeiras! E foi num dia, saindo do apartamento da loiraça, às 10 da manhã, que flagrou o absurdo! Um guarda de trânsito multando-o naquele exato instante, só por estacionar sua 4x4 off-road turbo diesel, em local proibido por 25 minutinhos – o tempo de gozar e ajudar a moça com o gás e o telefone.

Quem aquele funcionariozinho público pensava que era? Foi logo abordando o oficial, que, entendendo tudo, se desculpou insistentemente e saiu contente por ter garantido o happy hour daquela quarta-feira. Mentiroso, o médico ainda soltou um de seus sorrisos éticos, de uísque com charuto, lançando:

__ Se algum dia seu coração parar, passe lá!

Disparou uma risada áspera. O guarda lhe sorria como lhe sorriam algumas putas.


Enquanto isso, Seu Agenor, mendigo antigo do bairro, de lá do outro lado da rua, em meio a seus restos e papelões, escorado nas portas cerradas do ex-cinema que se reformava para ser futura igreja, via, ali, a sua cena derradeira... ao (a)passo que seu coração; parado; ia, finalmente, ecoando justiça a cada um de seus poros invisíveis.

21 maio 2011

OPOSTOS



Dispostos à mesinha da cabine do trem com alguns licores, não imaginavam os horrores que podiam causar suas diferenças um ao outro. Ele, lógico e rotineiro, incomodava-se com a expressão dela, abstrata e variável. Ele conversava na métrica das falas comuns de macho, porém sensível (à sua maneira). Já ela, poetizava, meio que fora dos trilhos. Ele não apreciava em nada repetir as mesmas frases para ela, perdia as estribeiras fartas (sem querer dá-la às tapas concretas). O entendimento era outro. Ela fazia as mesmas perguntas no seu grego hábil, não porque desacreditava suas respostas, mas porque queria ecoar dentro dela a bem-querença, queria assimilar todas as verdades e achava pouco o que ele a oferecia (pouquíssimo). Ela, inconformada, perdeu-se com a boca, ameaçou bater seu coração no rosto dele, no entanto, tentou manter barbas de molho no licor, que acentuava qualquer letra mal posta, piorava o rancor. Nada de violência, era só bate-boca, sem beijo com beijo cravado em batom, do jeito que ela mais detestava. Ele era duro, entretanto magoável. Ela não sabia a mágoa que causava. Quando descobria, era a que mais se machucava.

Não mais se falaram por um tempo. Tempo imenso para ela: uma semana. A espera foi tanta que, então, trocaram cartas. Primeiro, ela dispôs em versos a sua versão, entremeando declarações de amor com empáfias, anexando uma gravura colorida, tudo isso na síntese de duas folhas amarelas de lágrima. Ele não gostava de ler. Na vez d'ele responder, enumerou parágrafo após parágrafo, como quem trabalha no escritório mais burocrático da alma, estendendo sua problemática em cinco páginas. Foi prolixo, reclamando a falta da fala dela nessas horas. Isto porque, de todas as incompreensões passadas, ela sempre vinha com uma escrita doce e, depois quando passava à voz, engasgava, confundia gestos e apedrejava com a língua. Histeria mal interpretada. Excesso de vísceras. Pouca experiência com os experientes da brutalidade real, era incotidiana. Ela se arrependeu, só não se conformou. Seu canal mais fluente não havia comunicado como queria. Sua voz calava porque ele não abria mais o mesmo espaço para ouvi-la, abria mão. Emocionaram-se naquele vagão, calados, juntos, por horas. Os dois transbordaram, saíram do plano verbal de si, perderam a linha, já estavam noutra estação. Haviam adormecido no mesmo sonho. Amavam-se, apesar das turbulências. O amor era sua única linguagem.


19 maio 2011

DIVAGAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA


Tema: Oratória.


Falou tanto nas aulas para calar-se frente às provas.
Emudecida durante a prova, percebeu o quanto falou nas aulas.
Fez arder ouvidos alheios, logo na prova os próprios arderam.
Nas aulas tagarelou em demasia; nos exames, provou do vácuo.
Falastrões silenciam-se quando exames em branco refletem seus pensamentos.
Matraqueou durante as aulas, no exame teve a língua paralisada.
Nas aulas tagarelou, nada ouviu; nos exames, quis virar psicógrafo.
Nas aulas doutorou-se em oratória, nos exames em pensador.
...nas aulas, verbalizava em vão, para depois alvejar a prova.
Provas em branco nem sempre são eficazes para emudecer matracas.
Matracas jamais amadurecem. Matracas maduras estão bem além das utopias.

17 maio 2011

INDRISO AO AMOR PARENTAL

{FESTINA LENTE}

Indriso ao Amor Parental


Por Marco A. de Araújo Bueno


Baixou o bonezinho e os olhos
Depois calou-se, em desapego;
Suspendeu contato e identidade.

Então um rio agitado passou entre nós.

De que matéria é feita a origem...a matriz...
Voz solenezinha - 'Não sabemos se você é o meu pai'.
Subiu uns olhos; amarrotou o boné. Suspirou...

Então o rio estagnado virou espelho d'água.

16 maio 2011

PRIMEIRO CONCURSO DE POEMAS DE CHALEIRA


2º CONCURSO "POETIZAR O MUNDO"
E PRIMEIRO CONCURSO DE INDRISOS* De Chaleira

EDITAIS : 05/Maio/2011


– Modalidade:
Indriso. {Variante formal do soneto concebida pelo escritor espanhol Isidro Iturat

Organizadora: escritora e colunista do De Chaleira - Isabel F. Furini, autora d'O Livro do Escritor'.


MODIFICAÇÕES: Informamos que Isabel F.Furini, organizadora do concurso, não será jurada do mesmo. A comissão julgadora será composta pelo escritor e psicanalista Marco Antônio Araújo Bueno, editor do blog De Chaleira, e parte da equipe de colunistas, entre os quais - Vitor Queiroz e quem mais se habilite.

O indriso ganhador (1º lugar) será publicado gratuitamente na
1ª Antologia Internacional de Indrisos, em edição multilíngue, organizada por Isidro Iturat. (*Vide comunidade no Facebook)



1) O Concurso de Poemas tem como objetivo estimular a produção literária e é destinado a todas as pessoas maiores de 18 anos que apresentam um poema INDRISO inédito escrito em português.

2) O tema é livre e a inscrição é gratuita e poderá ser feita até 10 de junho/2011.

3) Cada concorrente poderá participar com apenas um Indriso inédito (ou seja, ainda não impresso nem publicado na internet), que não tenha sido premiado em outro concurso.

4) Consideram-se inscritas as obras enviadas pelo e-mail à: isabelfurini@hotmail.com Concurso de Poesia: "Poetizar o Mundo", no corpo do e-mail, sem anexo, escrito em língua portuguesa, digitado em espaço 2 (dois), com fonte Arial, tamanho 12 (doze).

6) Deverá constar no final: o título do poema, nome completo do autor, seu endereço, telefone, RG, e 4 ou 5 linhas de currículo.

7) A comissão julgadora será composta pelo escritor e psicanalista Marco Antônio Araújo Bueno, editor do blog De Chaleira, e a equipe do blog.

8) Premiação: O primeiro lugar receberá troféu e diploma, o segundo e terceiro lugares receberão diplomas, e poderão ser escolhidas até três Menções Honrosas que também receberão diplomas.

9)O resultado do concurso será divulgado em site literários da Internet, e blog: http://www.isabelfurini.blogspot.com/ no blog Falando de Literatura do Bonde News e De Chaleira, http://e-chaleira.blogspot.com


10) O resultado será divulgado até 1º de Agosto/11. Na ocasião, também será homenageado com placa comemorativa o poeta Isidro Iturat, criador da modalidade poética Indriso. O INDRISO é formado por 2 tercetos e 2 monósticos, num total, portanto, de 08 versos, com métrica e rimas livres. Mais informações sobre o indriso no site: http://www.indrisos.com/

11) O encaminhamento dos trabalhos na forma prevista neste regulamento implica concordância com as disposições nele consignadas.


15 maio 2011

LENTES


Lentes



Espelho remoto revela o caos
objeto baço que
não reconhece em si

Ele, que atrasou o tempo
anula o externo
a mão forte
invisível às suas verdes lentes vazias
aponta a imperfeição
desdenha o que nunca será preenchido

Engulo o mar e cubro a tempestade
com nuvens de vidro
e ele, parado
desenha com tinta na areia

tudo cessa ...

O nada cheio de si
ecoa
a tinta na areia que vento ignora
e este verde espelho que não me reflete
vou-me
presente e
invisível ...

14 maio 2011

DO INSACIÁVEL


Do Insaciável



Conta-me contaminado pelos teus lençóis
O que aconteceu naquele instante de noite
Beijaste quantas bocas num quarto a sós?
Tiraste quantas roupas num único açoite?

Sem poupar detalhe, diga-me o que fazes,
Quantos ases escondes na tua manga? Fale!

Soube por alto que, por baixo dos panos,
Rolou Dioniso fazendo um culto a Baco,
Trouxe uvas e depois te chupou os bagos
Sem luvas; nas costas uns rasgos insanos

Isso é sangue? Ah, vinho fora do cálice...
Carregas um redemoinho à cabeça, males
Todo o sentimento do mundo espraiado no gozo
Sem espanto, num antro novo que te embales.

Senão a malícia, o que nos porá aquém?
E há quem duvide desta verdade sedutora
Pois fé na santidade castradora muitos têm

Se fores te ajoelhar, esfola-te logo,
Mas de prazer!

13 maio 2011

PRESENTE AO DE CHALEIRA NO DIA TREZE

Por Marco A. de Araújo Bueno


http://www.youtube.com/watch?v=16mQ-jHdEqo&playnext=1&list=PLAD973D4FBF74C2AD

O exercício compartilhado da literodiversidade em perspectiva trans-gênero e de dissolução de fronteiras de cânones, de espaço etc. Eis a reflexão do Eduardo Galeano sobre "Muros", para mais um aniversário do blogue coletivo. Abaixo,
a transcrição da fala do escritor uruguaio Eduardo Galeano, traz alguns elementos que, realojados, indagam:
El Muro de Berlín era la noticia de cada día. De la mañana a la noche leíamos, veíamos, escuchábamos: el Muro de la Vergüenza, el Muro de la Infamia, la Cortina de Hierro...
Por fin, ese muro, que merecía caer, cayó. Pero otros muros han brotado, siguen brotando, en el mundo, y aunque son mucho más grandes que el de Berlín, de ellos se habla poco o nada.

Poco se habla del muro que Estados Unidos está alzando en la frontera mexicana, y poco se habla de las alambradas de Ceuta y Melilla.

Casi nada se habla del Muro de Cisjordania, que perpetúa la ocupación israelí de tierras palestinas y de aquí a poco será 15 veces más largo que el Muro de Berlín.

Y nada, nada de nada, se habla del Muro de Marruecos, que desde hace 20 años perpetúa la ocupación marroquí del Sáhara occidental. Este muro, minado de punta a punta y de punta a punta vigilado por miles de soldados, mide 60 veces más que el Muro de Berlín.

¿Por qué será que hay muros tan altisonantes y muros tan mudos? ¿Será por los muros de la incomunicación, que los grandes medios de comunicación construyen cada día?

En julio de 2004, la Corte Internacional de Justicia de La Haya sentenció que el Muro de Cisjordania violaba el derecho internacional y mandó que se demoliera. Hasta ahora, Israel no se ha enterado.

En octubre de 1975, la misma Corte había dictaminado: "No se establece la existencia de vínculo alguno de soberanía entre el Sahara Occidental y Marruecos". Nos quedamos cortos si decimos que Marruecos fue sordo. Fue peor: al día siguiente de esta resolución desató la invasión, la llamada Marcha verde, y poco después se apoderó a sangre y fuego de esas vastas tierras ajenas y expulsó a la mayoría de la población.

Y ahí sigue.
Mil y una resoluciones de las Naciones Unidas han confirmado el derecho a la autodeterminación del pueblo saharaui.

¿De qué han servido esas resoluciones? Se iba a hacer un plesbiscito, para que la población decidiera su destino. Para asegurarse la victoria, el monarca de Marruecos llenó de marroquíes el territorio invadido. Pero al poco tiempo, ni siquiera los marroquíes fueron dignos de su confianza. Y el rey, que había dicho sí, dijo que quién sabe. Y después dijo no, y ahora su hijo, heredero del trono, también dice no. La negativa equivale a una confesión. Negando el derecho de voto, Marruecos confiesa que ha robado un país. ¿Lo seguiremos aceptando, como si tal cosa? ¿Aceptando que en la democracia universal los súbditos sólo podemos ejercer el derecho de obediencia?

¿De qué han servido las mil y una resoluciones de las Naciones Unidas contra la ocupación israelí de los territorios palestinos? ¿Y las mil y una resoluciones contra el bloqueo de Cuba?

El viejo proverbio enseña: La hipocresía es el impuesto que el vicio paga a la virtud.
El patriotismo es, hoy por hoy, un privilegio de las naciones dominantes.

Continúa escuchando...

"


11 maio 2011

A MÃE

A MÃE

Por Cecilia Prada

Dessa avó, posso dizer que a sinto tronco e nó. Que nos meus cabelos encontro suas raízes. Quando me penteio, lembro dos dela, grisalhos e que nunca foram cortados, caindo-lhe pelos joelhos, para espanto da meninazinha de seis anos que assim, numa revelação, via uma avó diferente, quase moça – antes que a cabeleira voltasse inexoravelmente a amarrar-se no coque do alto da cabeça.

Dessa avó, nasceu-me uma curiosidade, pelo meio da vida. Nos meus inquietos membros, nas noites insones, na vontade de fuga, minha avó – achei-a em mim. Uma vez ela me contou: “Depois de casada, uma vez passou um circo em Ribeirão das Velas, eu perguntei para o Jorge porque a gente não ia embora com eles”.

Mas a lembrança que me parece mais forte é uma que nunca pude ter, que se formou de um retrato esmaecido, um riso, um olhar. A lembrança que me veio de contada ao pé do braseiro, numa noite fria, a de uma Ana de 1897, com seu cabelo solto e lindo, trepada na mangueira – o gosto da fruta, a casca arrancada com o dente. A da caçula mimada, Ana, Aninha, permitiam-lhe tudo que quisesse, montar em pelo como os irmãos, ir tocar o gado com eles, tourear vacas mansas até que ficassem bravas. Ou banhar-se no riacho de águas claras no frio da manhã, abrindo bem os olhos para ver como era lá embaixo.

E a ordem paterna que selara seu destino, repercutindo no céu claro daquela manhã de abril de 1897, ecoando numa despedida, na água fria, no pasto, na mangueira onde Ana se balançava, Ana de dezesseis anos:

– Ana, desce já dai. Está na hora do casamento.

Mas o marido fora escolha dela, fazia questão de contar: “Quando eu tinha treze anos meu pai me disse que eu ia casar com um conhecido dele, um velho. Eu disse que não, que nunca. Que fugia de casa. Que me matava. Só me casei com Jorge porque quis”.

Na missa de domingo na Matriz, os homens de um lado, as mulheres de outro, Ana olhava para Jorge – bem posto, vinte e seis anos, bigode louro retorcido. Ela ria, mostrando os dentinhos. Desse riso, do deslumbramento de Jorge, um casamento. Uma vida.

– Aninha, desce já daí sua peste. Não vê que tá na hora?

Passou os lábios com vagar e gozo no caroço da fruta. Se lançou no espaço, com a última perdida liberdade de menina, a saia aberta em balão no vento. Entrou na casa da fazenda, a irmã mais velha empurrou-a, anda. No terreiro Chico, o irmão que mais tarde, depois da morte do pai, com direitos de primogenitura venderia a fazenda a retalho prejudicando os irmãos, abriu riso largo:

– Ota noiva demorada, parece que nem tá querendo...

A porta fechada, a cômoda escura abrindo lenta os seus mistérios – a mortalha branca esperando-a. Mãos de tias impingiram-lhe bem forte um espartilho, para que bem contida se sentisse, nunca mais a menina de corpo livre na cachoeira. Os seios miúdos levantados como se enrijecidos devessem se apresentar ao mundo, num atestado de múltiplas maternidades futuras.

Os cabelos levantados e presos, no penteado que se afofava do lado mas que lhes escondia a beleza indisciplinada. Seria de agora em diante: uma mulher casada. Uma senhora. Numa facada espetaram-lhe no cimo do coque um pente espanhol de tartaruga, presente do pai – símbolo de um domínio nunca perdido. Pronto o rígido manequim, as mãos femininas da família derramaram sobre o corpo de Ana o dom supremo, o véu da tradição, amarelado. Que lhe caiu da cabeça aos pés.

– Foi da sua avó.

Naquela clara manhã de abril, sentindo o peso da renda francesa sobre o corpo de menina, Ana estremeceu. Parecia o peso daquele varal de roupas que – diziam – caíra sobre o corpo da avó Mariana, quando estava no resguardo do décimo filho: “Chovia, recolheram as fraldas da criança, estenderam todas no quarto. O varal caiu bem em cima da barriga dela quando estava dormindo. Ela deu um grito e ficou louca. Resguardo é coisa de muito cuidado”.

Contemplada com a cascata de renda envelhecida sobre a cabeça, Ana pensou na figura daquela avó louca, andando suja pela fazenda, não reconhecendo nem os filhos. Estremeceu e se olhou no espelho. Quem era aquela estranha e rija senhora de cabelo alto, cintura tão fina e seios assim empinados?

Levaram-na.

·

Quando a deitaram na cama, já as dores a abriam pelo meio, espantosas. O filho entalado nas entranhas sem querer sair, no corpo de menina que não se alargava. Que se recusava. Jorge olhou-a, tão linda, e Jorge chorava – porque Ana ia morrer. O rosto lívido que se contraía no grito, os olhos baços, olhando longe – via Mariana vagando louca pelo casarão da fazenda, a cabeça batendo no travesseiro. Na fronha essa presença constante de rendas, ainda uma vez, como se as rendas cobrissem o seu sofrimento, como se rendas pudessem ajudar o menino enorme retido no seu ventre.

Amarraram suas mãos na cabeceira da cama, o corpo aberto em cruz, as pernas afastadas, a parteira gorda apoiada sobre sua barriga, apertando. Foram buscar o chapéu do marido. Ajudava. Jogaram o chapéu, grotesco, sobre a cabeleira dispersa de Ana, Aninha que ia morrer, Ana-menina, estreita demais para parir.

Chegaram o padre e o médico que vinha da cidade maior. O padre ia rezando De profundis clamavi ad te Domine, esses óleos da morte sobre o corpo em flor de Ana. O médico de mangas arregaçadas, mergulhando as mãos fundas na pélvis, quase desanimado: “Não tenho recursos”. A cidadezinha não permitia uma cesariana. Não havia mais tempo para removê-la.

– Mas essa criança passa, disse ele de repente surpreso. Ela não é tão estreita.

E olhou sem compreender aquela menina que parecia se fechar. Se recusando a dar vida ao pequeno ser que lhe haviam imposto no ventre. O médico sacudia-a pelo ombro, tentando paralisar o seu rouco grito de animal estripado:

– Dona Ana, faça força. Depende da senhora, deixe a criança vir, Dona Ana. Dona Ana!

Levaram Jorge para fora do quarto, e ele soluçava, como se fosse culpado. A mãe, chorava: “Minha filhinha, Aninha,coitadinha, ela é tão criança”.

O fórceps agora mergulhava fundo, uma sonda de aço, impiedosa, ferindo-a, o médico suava, pedindo: “Mais um pouquinho, Dona Ana, faça força. Não grite, Dona Ana, faça força para baixo”.

A parteira trazia uma garrafa. Ergueram Ana semi-cadáver de óleos ungida, faziam-na soprar dentro de uma garrafa. De repente ela abriu os olhos, soprou com uma força que parecia um ódio ( mas disso ninguém nunca soube, nem ela). Soprou sua alma. Aos poucos a cabeça da criança começou a surgir da pélvis violentada, veio vindo num alívio. Algo que se desligava dela para sempre. Algo que nunca mais seria dela. Mas que agora não a fazia sofrer mais. A cabeça de cabelos lindos e soltos caiu no travesseiro, o menino chorou forte e Jorge entrou no quarto, “Aninha, minha querida!”. Mas os olhos de Ana permaneciam fixos.

Deixou pender a cabeça para trás. O médico disse: “É um menino, Dona Ana”. Ela só disse: “Me deixem dormir”.

Jorge chamou o filho de Júlio, em homenagem a seu pai.

·

Alargada à força, sem resistências, como se fosse uma abdicação, a fecunda pélvis de Dona Ana pariu mais nove filhos, entre natimortos, prematuros, alguns quantos mortos na tenra infância, de diarréia, de febre, de pneumonia. Sobreviveram seis. Aos oitenta anos, ela chorava quando falava da morte de Mariquinhas, a segunda filha, aquela tão linda que parecia um anjo, e que começava a falar quando morrera de gastroenterite. Contava: “Eu já estava até prenhe de novo (do terceiro filho, João) mas quando a criança nasceu nem olhei para ela”.

E tudo se seguiu no igual de todas as vidas, de todas as histórias. Na vida pobre, nos invernos duros, na comida parca, na economia, na mão rachada, nos empregos vários de Jorge – até que arranjasse uma segurança mísera como escriturário de um cartório. No parto dos gêmeos, natimortos, ela quase morrera também. “Cheguei a ficar de unha roxa e mestre Marcelino veio me ver, ele olhou para mim de cima a baixo e eu sabia porque, era para medir o tamanho do caixão. Porque iam me enterrar logo, eu estava quase podre”.

Milagre de São Benedito salvara Ana. Que quando se levantou amarrou um pano branco na cabeça, ficou sentada na rede balançando, um ano, sem falar com ninguém. Enquanto a filha Lourdes, de oito anos, tomava conta dos irmãos, pondo um caixote para alcançar o fogão de lenha, queimando-se com óleo fervente. Se iniciando.

Depois de um ano, Ana desamarrou o pano da cabeça, retomou a vida. Teve mais três partos, todos dolorosos, um bem sucedido. Aos trinta e oito anos não tinha mais um dente. “Cada filho um dente”. Mas nunca deixou que lhe cortassem o cabelo. Para surpresa da neta, que um dia o veria todo grisalho, e tão comprido que lhe chegava aos joelhos.

Levantava bem cedinho e antes das lides da casa lia o jornal, soletrando alto. “Quando eu era menina foi um alemão lá na fazenda, me ensinou a ler. E disse para o meu pai que era uma pena, que eu devia estudar. Mas naquele tempo só homem estudava. Meu pai mandou o alemão embora porque punha idéia na minha cabeça. Nunca aprendi a escrever. Só sei assinar o nome”.

O segundo ano do casamento, contava aos netos, tinha sido o ano da passagem do circo pela cidadezinha. Deslumbrada com as moças de vestido brilhante, corpos flexíveis se dependurando do trapézio, Ana tinha perguntado a Jorge se eles não podiam ir embora com o pessoal do circo. Na velhice, Jorge, rodeado da família, caçoava: “Aninha, você lembra de quando queria fugir com o circo?”

A filha Helena, que sempre fora a mais sensata, dizia: “Ainda bem que o senhor não concordou, Pai. Senão nós todos estaríamos hoje pulando do trapézio lá no circo”.

Jorge tinha muito orgulho da família que ia crescendo sempre sem parar. Olhava para os netos: “Não é para falar, mas que meus netos são todos muito bonitos, são. Puxaram pela avó”. Se gostavam ainda, ele, Ana. Vieram as bodas múltiplas, de prata, de ouro. Dois anos antes das de diamante Jorge morreu, numa noite, de repente.

Ana nunca mais falou no marido morto. Começou a ficar de olhar vago, a falar das coisas da fazenda, do fundo claro do ribeirão, uma beleza quando a gente mergulhava com os olhos abertos, via todos aqueles peixes. E falava da vaca malhada, que era tão mansa, e ela brincando de tourada com ela, virara uma fera . Ria olhando para coisas que só ela via.

Os filhos e netos ficaram tristes. “A mãe começou a caducar”.

Num dia de festa, o batizado da primeira bisneta, notaram que Ana misturava os nomes e as pessoas, tratava as netas trintonas como se fossem meninas.

Um dia lhe apontaram o filho mais velho, Júlio, de cabelos brancos, apoiado numa bengala – esse que quase a matara, esse que lhe disputara a vida nas entranhas que se fechavam.

– E esse aí, Mãe, quem é?

Ana olhou com olhos vagos, do alto da mangueira, riu alto:

– Esse velho aí? Sei lá.

{Do livro "Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão"-DBA-SP-2004}


Related Posts with Thumbnails