24 fevereiro 2010

ESCREVER

ESCREVER
Por Eustáquio Gomes


Há vinte anos li que Marguerite Duras, então com setenta e quatro, ainda era capaz de “provocar paixões e desejos eróticos incontroláveis”. A própria autora de O Amante relata, numa entrevista, que durante uma festa na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, um jovem sentou-se a seu lado e encostou-se nela. “Tentei sair, mas ele era muito pesado, era como se tivesse desmaiado. Logo compreendi o que estava fazendo. Não me mexi mais, deixei que o fizesse. Ele tinha esse direito, por que não?”.

Duras morreu em 1996 e desde então a lenda em torno de seu nome não pára de crescer. Fez muitos filmes, mas sobretudo escreveu muitos livros. São livros curtos, por vezes estranhos, nem sempre agradáveis, por isso mesmo instigantes. Minha curiosidade nunca arrefeceu a seu respeito. Imagino uma entrevista com ela.

— O que é ser escritor?

— É se achar num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita pode nos salvar. Escrever, essa foi a única coisa que habitou minha vida e a encantou. A escrita não me abandonou nunca.

— Às vezes seus livros parecem arbitrários, não planejados.

— Nunca fiz um livro que não fosse minha razão de ser na hora em que estava sendo escrito, e isso vale para qualquer livro. E em toda parte. E em todas as estações do ano. Aquilo que Lacan disse a meu respeito: “Ela não deve saber que escreve, nem aquilo que escreve, porque ela se perderia; e isso seria uma catástrofe”. Esta frase tornou-se para mim uma espécie de identidade de princípio, um “direito de dizer” totalmente ignorado pelas mulheres.

— Quando escrever é inevitável?

— A partir do momento em que se está perdido e que não se tem mais o que escrever, mais o que perder, aí é que se escreve. O livro está ali, grita, exige ser terminado, exige que se escreva. A pessoa se vê obrigada a se colocar a seu serviço. É impossível escapar de um livro, e sempre se sabe quando não é um livro.

— Como assim? Pode não ser um livro o que se escreve?

— Não sei o que é um livro. Ninguém sabe. Mas dá para saber quando aparece um livro. E quando não há nada, dá para saber, do mesmo modo que se sabe que estamos vivos, que ainda não morremos.

— Por livros “não livros”, a senhora se refere a que espécie de livros?

— O que condeno nos livros, em geral, é o fato de não serem livres. Vê-se isto através da escrita: eles são fabricados, organizados, regulamentados, convenientes, poderíamos dizer. Uma função de revisão que o escritor, muitas vezes, exerce em relação a si mesmo. O escritor, assim, se converte em policial de si mesmo. Entendo desta maneira a busca da boa forma, ou seja, a forma mais corrente, a mais clara e a mais inofensiva. Há ainda gerações de mortos que fazem livros envergonhados. Mesmo os jovens: livros charmosos, sem o menor prolongamento, sem noite. Sem silêncio. Em outras palavras: sem autor verdadeiro.

— A que horas escreve?

— Antigamente eu escrevia pela manhã. Mas sem horário certo. Nunca. Exceto quanto à cozinha. Sabia quando precisava vir porque a panela estava fervendo ou para que a comida não queimasse. Quanto aos livros, também era assim. Juro. Nunca menti em um livro. Nem na vida. Exceto para os homens.

— A senhora levou uma vida fascinante. Nasceu no Vietnã, venceu em Paris, é reconhecida em toda parte. Em 1984, um de seus romances tornou-se best-seller mundial. Conte um momento que, em definitivo, teve importância vital para a senhora.

— Está bem. Foi um dia, faz vinte anos, a casa estava inteiramente silenciosa e de repente vi e ouvi, rente à parede, bem perto de mim, os últimos minutos da vida de uma mosca. Estava sozinha com ela na casa inteira. Nunca tinha pensado nas moscas até então, exceto para rogar pragas contra elas. Fui educada no horror dessa calamidade para o mundo inteiro, que transmite a peste e o cólera. Cheguei perto para vê-la morrer. Ela queria escapar à parede, onde corria o risco de se tornar prisioneira da areia e do cimento que se depositaram sobre a parede, com a umidade do parque. Olhei como uma mosca dessas morria. Foi demorado. Ela se debatia contra a morte. Durou talvez algo entre dez e quinze minutos e depois cessou. A vida precisava cessar. Essa exatidão da hora da morte faria com que a mosca tivesse funerais secretos. Vinte anos depois de sua morte, a prova está aqui mesmo, ainda falamos dela.

*

Das dezenas de livros que Duras escreveu, um em particular me agrada
muito. É um livro delgado, brevíssimo, intitulado Écrire (Escrever, Rocco,
1994). É desse livro que extraio essa entrevista imaginária.

7 comentários:

Nelson de Oliveira disse...

Eustáquio, meu caro, belo projeto de reconstrução de uma voz literária. A partir dos vestígios e das marcas deixados pela autora morta, você ressuscitou seu espírito, sua inteligência… Aproveito pra parabenizar todo o coletivo pelos potentes psicoestimulantes que estão oferecendo aos leitores. Alcalóides de primeira categoria, sem dúvida.

Carlos Abreu disse...

Comentário sobre os quarenta dias de vidinha do blogue:

Um coletivo não se constrói, se configura todos os dias. É assim que ele existe, é deste modo que de chaleira se mistura em nossas vidas.

Paola Benevides disse...

Lindo, Eustáquio, lindo! Dona Marguerite Donnadieu era uma baita autora, teatróloga, diretora de filmes... Inspira-me, foi grande.


"Os homens gostam das mulheres que escrevem. Mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro." M. D.

Marcelo Finholdt disse...

Eustáquio.

Fantástico o texto por ti produzido e confesso que jamais havia pensado sobre esta possibilidade...

Valeu!

Luciano Garcez disse...

Duras tinha o estilo nas mãos, bem entranhado e gotejando das mãos: só há outros dois autores franceses nos quais vejo uma voz tão pessoal entrar o "significante", marcando-o: Stendhal (o meu amado sobre todas as coisas) e Céline. As construções frasais, a noção clara que ela possuía do silêncio - aqueles parágrafos curtos e lancinantes de "O Amante", "A Dor", etc... - dão, de fato, dor no "espírito" (no sentido francês da palavra).

guisalla disse...

Olhe só, Eustáquio. Isso, assim dito, sobre o ofício da escrita, me emocionou muito, mesmo!

Lindo!

Cecília disse...

Leio com encantamento os textos de Eustáquio que a Chaleira reproduz. Conheci-o pouco tempo aqui em Campinas, como sabem ele escreveu sobre mim, eu o convidei para uma mesa redonda na Livraria Cultura (estava também o Nelson de Oliveira), em outubro de 2009. Mas pelo recorte mandado pelo Buhrer verifico, surpresa, o nome dele junto com o de alguns amigos (Arnaldo Xavier, Aristides Kafke)que tive nos anos 70 na roda dos sábados da Liv. Cultura de São Paulo...será que me encontrei com ele também lá? Somos todos parte de uma massa em constante movimento, nos encontramos, nos desencontramos, voltamos a nos encontrar em outros lugares, outras circunstâncias...Que sentido terá tudo isso?
Cecilia Prada

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