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11 março 2012

NINA'S NINAR SONG



nana, nina, nana, nina
o mundo é todo seu
nana em cima da barriga
do bicho papão

nana, nina, nana, nina
na na ni na não
ele não é mau, o mal
é falta de imaginação

nana, nina e imagina
fadinhas a lhe rodear
e se a perninha dói, é pra crescer
calminha, já vai passar

pois é, menina, poesia, menina
crescer, às vezes, dói
mas, todos temos que crescer
até mesmo o super-herói

nana, nina, tintintando
na língua do "t"

toto tatateto ta totê...

           todo alto é teto pra você...

                         todo mar aberto pra você...

                                       todo marte é perto pra você...

                                                       todo há de afeto pra você... mas... ... ...

calma, nina, cama, nina
agora é hora de ninar




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26 fevereiro 2012

CLUBE DA PALAVRA

Por Rafa Carvalho

"... a língua é quem a trabalha"



programa 'clube da palavra', do canal q, de portugal... um dos locais de lirincantos que achei pelo mundo!

nesse, uma canção: 'nina's ninar song', composta numa viagem recente, numa passagem pela dinamarca... estória que ainda liriconto por aqui... ... ...


 
dedicada à nina... ... ...

... de nina, na vila madalena; de princesinhas dinamarquesas, como aia e julie, lá na longínqua escandinávia; de flores como maria, afilhada, lá na vila mariana; de seres da grandeza do pequeno mateus, que costuma brincar de beatles com o poeta, cá na calçada em frente ao boteco; de nós mesmos... e também de nossos bichos papões...

com gratidões imensas ao amigo paulo vinícios, pela companhia e pelo lindo arranjo; ao querido luiz grabriel lopes, que vem junto, passando portas; aos estimados inês eva, joão pacheco e a todos da equipe do canal q e do 'clube da palavra'... e a tanta gente mais, que têm partilhado dessa viagem...

evoé, também, viton araújo, carmen souza e theo pas'cal, álvaro de campos, noiserv e luís costa, mais francisco rosa, que, outrossim, com-partilham suas artes nesse vídeo.

e... ainda de 'nina's ninar song'... sempre que tocar, essa canção é também dedicada a quem se sentir tocado...


carinhos, bocejos e sonecas de cá,



rafa




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12 fevereiro 2012

ENSAIOS QUE LI' SOBRE I'R IN CANTOS

Por Rafa Carvalho


a idéia destes lirincantos, desde sempre, é namorar a música com a literatura...



coisa que, no início, pareceu fácil. e, de fácil que, de fato, é... veio a ser difícil!

difícil no sentido de perceber o formato que daria postura a essa coluna... uma vez que, música e literatura, para mim, são coisas tão já juntas, que juntá-las mais, numa intenção de pretendê-las mais distintas, seria quase como comer rapadura com melaço de cana. no máximo,  uma questão de textura...

uma legítima questão de textura! mas que trouxe a essa coluna, muito mais que uma mobilidade mórbida e engessada, uma tremenda habilidade flauta-vertebral – dando aqui um carinhoso abraço em maiakovski... tendo em si o sustento firme da palavra, mas com suaves porosidades de silêncio e, flauteiramente, capaz de soprar aonde se quer. uma coluna flexível o bastante pra dançar livremente – dando aqui outro abraço carinhoso, dessa vez em nietzsche... como uma flauta doce, que não tem compromisso nem com a própria doçura...

é assim que, até aqui, já sopramos, em prelúdio, pelas raízes místicas de amoreiro... até emergirem ventos nas folhas, as amoras caírem e mancharem de mantra a canção... e é assim que, também, já sobrevoamos o jardim do fabuloso fim de semana de amélias, amoras e eus – onde até paramos prum café... é assim que, de lá, chegamos a bach, num sol maior vibrante, em meio a lindas suítes para violoncelo... para em seguida, ainda, passarmos pruma cerveja – ou duas – com o carteiro e o poetante,  lá... no mesmo bar do seo manoel, onde tanto samba já se fez. e é também assim que, de repente, chovia na avenida goiás... e corpos apaixonados se dançavam, todos, ao som de jorge ben... ... ...

enfim, é assim que, com o tempo, essa coluna quis ir sendo texto, som, imagem... cor, movimento, melodia... gosto, agosto, eternidades... ... ...

e é assim que quer seguir, a coluna... a soprar pólengamia... lirincantos... pra que esse namoro floresça sempre mais... e seja da música com a literatura... e com a dança... com a arquitetura, o cinema, o teatro, o circo, a pintura... com o lavar a louça, o ir a feira, o deitar na rede... o se olhar no espelho, olhar pro outro, pros lados; pra dentro... a paquera, dessas coisas todas, com o ser... humano... ... ... 





ps.: ...algo como rapadura com melaço e garapa, flambada na cachaça, caramelizada com açúcar refinado e polvilhada com mascavo e cristal... ... ...
 ... ... ... tudo isso, mas sem compromisso com própria doçura





29 janeiro 2012

QUE MARAVILHA! (SEMPRE A GIRAR...)

Por Rafa Carvalho


Era nossa primeira vez em Goiânia. Na verdade, era nossa plena primeira vez. Como se a vida, refeita, nos dissesse: reapaixonem-se!

Era também primavera. Dela e, por coincidência, chegávamos perto do fim de outro inverno. Como se a natureza nos quebrasse o gelo, como se germinassem sementes, como se pétalas enfeitassem aqueles passos e fosse tempo de reanimar.

Era ainda lua cheia. Uma brisa leve acarinhava nossa caminhada, como se a noite nos soprasse segredos e sonhos de reencanto.

Passeávamos pela calçada da Goiás como crianças renascidas.

Ainda crianças chegamos até o hotel; hall de entrada, elevador, quarto... E, muito mais crianças ainda, fizemos todo o inverso logo depois.

De volta à Goiás, fizemos a travessia até o canteiro. Havia ali árvores de jenipapo – penso que eram de jenipapo. Ela nunca havia visto morcegos. A árvore que achamos estar caída e que salvaríamos, não era uma muda, mas um galho quebrado. Nunca quis mesmo saber de galhos tortos que nunca se endireitam; mas soube ali um pouco mais sobre "com quantos paus se faz uma magia"... dessas, que entortam a vida todinha.

Demos àquele galho um solo mais gostoso pra se deitar e reintegrar-se à Terra. E a nós, demos a chance de reler o destino.

Metaforicamente estávamos no centro distante. Ironicamente, habitar aquela distância nos trazia um gosto bom de volta pra casa. Podem até dizer que a vida é mesmo metáfora e ironia quase sempre, mas, naquele instante, a vida era apenas nós dois.

Confesso que não pensei nas baladinhas do Elvis que sonhei dançarmos tantas vezes. Pensei naquela primavera e talvez na dança que teríamos dançado, como presente, não fosse a saudável curiosidade de experimentar o tal "arroz com pequi". Mas aí (re)pensei apenas naquele momento e na eternidade que havia ali.

De um abraço vieram os primeiros passos, juntinhos. Sem combinações, sem desajeitos e sem que meu dedão do pé direito, luxado, sofresse qualquer topada, entramos em sintonia e fomos... Pelas notas daquela melodia que só as nossas almas ouviam e que, já havia muito, ouviam.

Naquele momento a brisa era já vento, nuvens brincavam de esconder a lua, sacolas plásticas voavam pelos ares e pessoas passavam por ali, muitas correndo da chuva que vinha iminente.

E eu pensava: "meu Deus, quem nos dera chovesse!".

Conversávamos, ríamos, silenciávamos, ríamos. Dançávamos. Essa é a valsa de nosso novo tempo – eu lhe disse. Perguntou-me se o que dançávamos era mesmo valsa e não, não era. Mas lhe disse que seria a nossa valsa, se assim quiséssemos... e quisemos... ... ...
 

...

Já se ia uma eternidade inteira e sequer lembrávamos de qualquer outra coisa pr'além daqueles passos. E estávamos assim, até que escutou-se... longe:

"Valsa vai dar casamento, hem!"

Primeiro, abriram-se ainda mais os sorrisos. Depois, os olhos. Daí, o longe fez-se perto e o que pareceu anunciação divina, benção de Santo Antônio casamenteiro, era já brincadeira daquele cara na calçada de lá.

Fecharam-se os olhos de novo. E o meu sorriso foi-se, de pouco em pouco, refazendo-se em som...

Segredava-lhe meu melhor Jorge Ben.

Diverti-me em reparar que ela era sempre descabelada.

Adverti-me de que essa era mesmo uma das coisas que eu mais gostava nela... E de que ela era sempre linda, assim...

Naquele momento, a chuva era já também eminente. E aí...


"Que maravilha!"

Choveu... ... ...


Como se o toque dos sorrisos fosse mesmo inédito, vivemos aquele outro primeiro beijo. Pedi-a em casamento. Ela disse sim. A chuva chovia mansa. E permanecemos ali... A girar.




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15 janeiro 2012

O CARTEIRO E O POETANTE




há um poeta... ou não... que, todo dia... ou quase... bebe uma cerveja... ou duas... num boteco de seu bairro...

esse boteco é o bar do manoel. e o poeta fica ali, sentado... à mesa, balcão, calçada... escrevendo, fazendo nada... ou tudo... todo... o poeta fica ali... fazendo estar...

e há dias em que o poeta ainda aproveita e fica pra almoçar. o prato feito... daqueles que se costuma chamar 'de pedreiro'... vem bem a calhar com a fome de sua vida em obras.

há muita gente que também passa por ali, nessas horas de poesia... o bicheiro, o entregador de gás, as testemunhas de jeová – embora estas nunca entrem –, o mendigo, o advogado, a moça que compra chicletes antes de voltar pro trabalho, o joão de deus... com seus sapatos engraxados, seus chapéus sazonais, seus noventa e tantos anos nas costas – ainda muito bem postas –, e suas medalhinhas de santo e de bocha no peito, cheio de fé e orgulho... a elisa... que é batizada eliseu, mas... a vida se faz mesmo vivendo... o bica... com sua esquizofrenia simpática, seu coturno, seu colete e suas letras muito doidas de rap – que o poeta adora –, o tio bahia, com suas mãos sempre sujas de graxa, a dona antônia, que vem cobrar o aluguel... e paparicar o carlinhos – que, sem saber, a fez redescobrir o gostinho bom e angustiante da paixão... os filhos da cleide, que amam paçoca, cocada e sorvete de milho... e o carteiro.

o carteiro sempre passa por lá. gosta de suco de caju gelado... ou bem gelado... depende do calor. pede sempre também pra deixar ali, uma parte das cartas – aquelas que apenas serão entregues depois –, e assim, vai mais leve pelos arredores do bar...

entra e manoel vai logo enchendo o copão de suco... bom dia, seo manoel! bom dia! tá quente hoje, né? – enche o copo de gelo. custa um real, mas manoel nunca deixa o carteiro pagar...
 

o carteiro e manoel cultivaram já uma boa coleguice! o carteiro, como muitos ali, quer muito bem a esse simpático dono de bar! e manoel, por sua vez, respeita muito o ofício do carteiro! tudo bem que hoje quase tudo é conta, dívida e propaganda. mas guarda ainda os encantos da infância, no sertão da bahia... quando o mundo chegava ali, chegava mesmo era pelas mãos dele, o carteiro. era ele quem, valente e bondoso, surgia do meio da poeira e das distorções no ar, causadas pelo sol implacável a castigar a caatinga, trazendo notícias das pessoas queridas e das coisas de lá...

o poeta também ama ao carteiro. ele não tem nem endereço... é um errante giramundo. e não tem mesmo nada em seu nome... não recebe contas, nem dívidas, nem propagandas... mas guarda caixas e caixas de cartas trocadas desde a infância! cartas que traziam mundos inteiros pra dentro do seu... mundos que vinham parar na sua casa! e que traziam pessoas queridas e coisas de lá, de todos os cantos, pra si! ...lembra mesmo dos dias em que esperava ansioso pelo carteiro, sentado no passeio, bem em frente ao portão...

respeita muito o carteiro... sabe que ele não tem por ofício entregar apenas contas e dívidas e propagandas... o carteiro, antes, tem o labor de vínculo... a sina de ponte... dos fazeres mais lindos que há! – pelo menos, para o olhar do poeta. tanto, que é a isso que esse se dedica. e sonha mesmo com o dia em que o carteiro entregará bem menos contas, dívidas e propagandas às pessoas... que fetiches, encantos, brincadeiras, caprichos e surpresas... em muitas mais cartas de amor, de amizade, viagens e saudades...

o carteiro também já sabe do poeta. reparava nele sempre... sua pessoa em si, até que lh’era bem discreta, mas... e aquele cabelo, cada vez outro e invariavelmente despenteado? e aquela barba, às vezes imensa, às vezes apenas cheia, rarissimamente feita, tantas vezes por fazer e por vezes, ainda, em formas nada nada corriqueiras? e aquelas calças, que muitos juram ser pijamas? e aquela outra, que parece uma saia? ah! mas, e aquela... que é mesmo uma saia? e seus chinelos, tênis, sandálias? e quando vem mesmo descalço? e essas camisetas coloridas todas? essas flores... estampas... listras e xadrezes em tudo?
 
... mas, o que mais o intrigava era: e afinal, por que ele escreve tanto?

seriam aquelas coisas todas cartas? tinha mesmo uma imensa curiosidade em saber... e foi assim que um dia, quando já saía, leve e refrescado do bar, parou e perguntou. isso aí, são cartas? não... sorriso ...é só poesia! ah! o senhor, então, é poeta? não... sorrisos ...não sou senhor, não senhor! nem sou poeta... é só poesia! o carteiro sorriu... e o que faz com toda essa poesia? vivo. vivo-a comigo... e com-vivo-a com quem quiser... outras pessoas? sim! outras pessoas, outras árvores, outros pássaros... o poeta parou um pouco – a cara de estranhamento do carteiro se intensificava rapidamente: ...mas, é... em síntese: pessoas! e como? por cartas? às vezes... menos até que eu gostaria... o senhor tem livro? não. não sou senhor... sorriso ...e também não tenho livro. ué... mas então, como é que a poesia vai pras pessoas? o poeta sabia que não sabia responder àquela pergunta... aliás, linda pergunta... mas, dissimulou... internet! sabe? ah, sei! cê tem e-mail, né!? tenho! mas a poesia não vai por ele... não? bem, até vai... às vezes... como com as cartas... mas... bem... olhe... é assim: eu tenho lá, na internet, um espaço, um cantinho, que tem um endereço, como as casas daqui, e quem estiver pela internet e quiser, sabendo do endereço, por acaso ou de repente, pode ir pra lá! ...e é lá que também está a poesia! o carteiro ainda não sabe se está entendendo... ...e qualquer pessoa pode ir lá? qualquer uma! que estiver na internet! mesmo que for uma internet de longe? sim... sorriso... até se for uma internet de outro país? risos ...até se for! e... vem muita gente? vem gente! algumas me escrevem de volta, deixam recados, às vezes... volta e meia alguém vem e diz que veio... e, assim, a partilha segue. já outras, vêm e vão sem dizer nada... mas a partilha também pode acontecer... assim mesmo. mas como dá pra saber? ...talvez não dê... mas parece que essas idas e vindas na internet deixam marcas... e, por causa delas, dá pra se ir atrás de pistas e dicas sobre as visitas que acontecem por lá... é mesmo? é mesmo! ...cê tem pistas de muita gente! sorrisos ...de algumas! é famoso? risos ...não! vem gente de longe? vem sim! de outro país? sim! do paraná? muitos risos ...é... às vezes vem gente até do paraná! nossa! e demora? pra quê? pra ir, pra chegar... aonde? na poesia! o poeta sabia que essa era outra pergunta linda e sem resposta... mas outra vez, dissimulou... não, não! a internet pra algumas pessoas é mais rápida, pra outras, mais lenta... mas não costuma demorar pra chegar lá! ...eu chamo lá de 'vida em obras'! ...'obras' de construção? essa mesmo! ...e, às vezes, de desconstrução também! ...como assim?
é quase como se uma palavra às vezes fosse um tijolinho, às vezes fosse cimento...e às vezes fosse marreta! silêncio ...qual o lugar mais longe? do mundo? ou de onde já veio visita? visita. do japão! o lugar mais longe do mundo! ...pra gente aqui no brasil! outro silêncio. o carteiro parecia estar agora em uma longuíssima viagem... ...o senhor já entregou alguma carta vinda do japão? ...eu também não sou senhor, não, seo poeta! e nunca entreguei, não! deve vir pouca, né? deve demorar muito também! e hoje já tem essa internet, esse e-mail aí, né? sorrisos... e silêncio ...mas ó, desculpa incomodar, viu? vô lá, que tem bastante carta pra entregar hoje! incômodo nenhum, visse? no próximo encontro a gente toma um suco de caju, juntos, lá no balcão, c'o mané! ah, já viu, né? nesse calorão! pois, é! vai bem, não vai!? vai sim! e assim, a gente aproveita e segue com essa conversa boa! opa! beleza! sorriso ...então tá, seo poeta... boa poesia aí, heim! e té mais! sorrisos ...eita! pra você também!... aliás, pra nós todos... . e gratidões de cá, seo carteiro! até...!
 
...

e assim o poeta teve a idéia de deixar em seu endereço, lá no cantinho que tem, na internet, o endereço desse mesmo bar do manoel... pra, quem sabe, virem cartas e postais... do mundo todo... com mensagens e imagens, das pessoas queridas e das coisas de lá... cartas e postas que, talvez, até tragam pessoas dizendo das coisas que o poeta não soube responder... nem ao carteiro, nem a si mesmo... coisas como: até onde vai a poesia... como é que a poesia chega pras pessoas... como é que ela volta... e, nesses casos, por quê é que ela tem vontade de voltar...


bar do manoel

av. lafayte arruda camargo, 767 jardim santana
cep 13088-540 campinas - sp brasil


pra que o carteiro... que deixa as cartas de outras vizinhanças por lá, pra aliviar a jornada... e toma suco de caju gelado, pra refrescar do calor... tenha, quiçá, uma primeira postagem do japão, para entregar por aqui! cartas e postais que tragam fetiches, encantos, brincadeiras, caprichos e surpresas de diferentes partes do mundo! cartas e postais que tragam mundos... talvez, de partes antes jamais ouvidas e escutadas! postagens que venham de todas as partes, lonjuras e distâncias... quem sabe até... alguma do paraná!


se remetidas ao poeta, basta, em uma notinha, pedir ao manoel que as entregue!


... e ele certamente transmitirá cada recado! ao carteiro, ao manoel, ao joão de deus, ao bica, aos filhos da cleide, à elisa e ao pessoal todo... até por que... o poeta... vive... mesmo... da e à partilha... ... ...





the and...





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01 janeiro 2012

SUÍTE EM SOL MAIOR PARA VIOLONCELO


 
à Erica Beatriz Navarro, pelos arco-íris que vieram...
e pelos que virão


Hoje eu vim pra esse café... étnico. Uma viola, como em mágica, emerge de comas orientais. Sou como o violão de sete cordas a acompanhar essa melodia – às vezes melancolia – que é viver. Tal qual essa voz latina que confunde os ouvintes... canto, pranto, louvor... seja o que for, co-move.

E hoje chove, pra completar. A vida faz mesmo pinturas lindíssimas dessas incompletudes...

Pinturas... no café, elas são de origem aborígene. Esferas de toda sorte de cores e dimensões; ou simplesmente bolinhas coloridas de vários tamanhos que se unem e formam coisas, bonitas coisas.

A luz hoje parece especialmente baixa... como se reservasse reluzentes surpresas. Como se guardasse segredos a sete claves.

Claves de Sol, pra essa noite chuvosa, naturalmente... Mas agora: silêncio. Esse silêncio sempre também musical, nesse momento com jeito de prelúdio faz meu eu-violão serenar, corda-a-corda.

Súbito, ecoa pelo espaço o som de saltos, descendo as escadas, como em passos de flamenco. Balada de encontro: chuva e Sol.

No céu desse café, vejo o lustre como a volta de vinte planetas pródigos para a casa. Ansiosos e calmos. Sábios e esperançosos. Uma assembléia cósmica reunida para testemunhar um quê de beleza terrena... Nela.


Ela era como o Sol. Como o Sol daquela suíte de Bach. Simultaneamente, ela era tão parte daquilo tudo, que me fazia crer, às vezes, que aquele violoncelo, como em milagre, movia-se na verdade por si só, entre os tons e vibrações daquele momento.

Ela era a essência daquela beleza de Terra. Mas era mesmo e também a alma daquele toque. E eu, que sempre amei o som de violoncelos, amei mais ver aqueles olhos cantarem cada detalhe de vida naquela musicalidade bachiana.

Era como uma mandala saltada da parede iluminada, encarnada em movimentos tenros, suaves, tocantes... Linda!

Fiz a pausa em minha coreografia de palavras, assim que seu arco tirou a minha alma pra dançar...


Despertei ao som de aplausos e sequer tive meios de me levantar para aplaudir em pé. A voz em mim que diria, às minhas pernas: “movam-se”, ainda estava na viagem de volta pra lá, depois de passeios lindos naquela sonoridade toda, sincrônica e harmoniosa, a lugares nunca antes visitados das maneiras como os visitei naquele instante.

A chuva logo passou e, fora do café, era noite. Lembrei de como tudo começou e agradeci à vida pela sabedoria de ser mesmo completa, afinal.




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11 dezembro 2011

O FABULOSO FIM DE SEMANA DE AMÉLIAS, AMORAS E EUS



um casaco de lã, pele de porcelana

sonhos de amelie poulain... bacana

uma toalha roxa, um beijo de amora

e conversa sem hora pra acabar



a cor do sutiã, a folga do pijama

aquele chá de hortelã e cama

e pra manchar a colcha, mil beijos de amora

e namorar sem hora pra recomeçar



raiar de outra manhã, brindar outra semana

passeio, parque, raiban, caldo-de-cana

uma sombrinha boa, pés do pé de amora

a gente deita e rola naquele chão...



lua em vez de tupã, brisa na persiana

um vinho tinto bom, safra sul-africana

estar na sala à toa, mais beijos de amora

e a noite vai-se embora pra além da canção...







agradecendo e festejando...

nas fotografias e na filmagem surpresa, projeto dezpenteado; na companhia, diogo nazareth; nos apoios, coletivo ajuntaê e fora do eixo...

no aconchego desse quintal virtual, de chaleira

... e nas xícaras, café solúvel extra-forte com amarula!





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27 novembro 2011

AMOREIRO




vou lhe contar do pé de amora
senhora, preste atenção 
bem onde há quem pinte a sola 
corou ali seu coração 

esse que amava a primavera 
arco-íris, imensidão, 
foi-se embora pra quimera 
mas deixou ali seu coração 

e a mocinha tinha cisma de limpinha 
e não quis sujar sua mão 
hoje mora nessa casa bem vizinha 
trouxe enfim seu coração 

e hoje o moço, que vê tudo de uma estrela 
sua mocinha, seu coração 
de lembranças enche toda a primavera 
chora amoras pelo chão. 

essa era a minha história, 
senhora, e se prestou atenção 
saberá que o agora é a hora 
pro coração... 




Assim “terminava” a canção. Em um acorde simples e consistente, que ressoava para a eternidade...





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13 novembro 2011

PRELÚDIO

Por Rafa Carvalho

É uma vez uma vila. Casinhas simples, singelas e únicas se avizinham... uma a uma. Há paz... E sossego. Há cores e flores nas casas. E calma, passeando pela rua. Há uma brisa leve, vespertina, soprando o Sol ao oeste. E há ali, nesse momento, um único homem: um senhor, negro e grisalho, com chapéu e com viola, sentado em uma pedra confortável, bem à frente de seu lar.

Há uma rua que traz o mundo até a vila. E, na vila, uma única rua, de terra, que passa na frente de todas as casas. Sim, a vila é circular. A rua que passa na vila também. E há, no centro de todas essas coisas, casas e rua, uma praça... Uma linda e vasta praça, verde e plana, onde vivem borboletas, vaga-lumes, beija-flores e arco-íris... e também joões-de-barro e marias-sem-vergonha... em que tantas vezes brincam crianças de tantas as idades pelos dias... e pronde, às vezes, descem estrelas... em noites de poesia.

E... bem no meinho dessas coisas todas, casas, rua e praça... há uma árvore. Uma amoreira imensa... Grandiosa e carregadíssima de amoras. Tanto que ela chega a ser mais roxa do que verde, em toda a sua copa. Tanto que, à sua sombra, a grama já desaparece inteira, coberta por uma grande e densa manta púrpura de frutas maduras. Tanto que, até no céu da vila, os tons se deixam transformar... às luzes que tocam os frutos e voltam cheias de novidade, trazendo índigo, lilás e bordô às alvoradas, pores de Sol e madrugadas de lá.

O senhor caboclo de pés descalços toca a sua viola e canta a sua voz, assim atemporalmente... Até que pára; parecendo antever o que viria. E é assim que, pouco depois, chega ali, vinda da rua de acesso, essa senhora... Uma mulher de meia idade e salto alto, com traje e jeito alheios àquele lugar. Vê-se já que é estrangeira. Seus olhos se perdem em desdém e como que medem, ligeiros, cada desgraça daquele “pedaço de nada”. Passam também e de pressa pelo velho, a ponto de nem mesmo vê-lo. O senhor sorri sereno e re-pára. Está perdida e é claro que não era ali que esperava chegar. Mas há que se perder, às vezes, para se encontrar nessa vida...

E enfim, de repente, a mulher se depara com a árvore...

Não, ela não costumava reparar nas coisas. Não costumava dar atenção às árvores. Não via vida nas plantas... como também não a via nas pessoas; no espelho... Não via. Mas aquela amoreira era assim imponente na sua vastidão, assim impávida em sua magnificência, que aquela mulher, sem defesas e já re-feita, criança, nada pôde querer, além de entregar-se.

Nesse momento o senhor soube ser tempo. Já outra vez sorri e, de um sorriso, convida a senhora a chegar-se e aconchegar-se por ali, perto dele, que ele, com a sua permissão, lhe cantaria a história daquela amoreira... que em certa maneira é também a história daquela vila e de cada pessoa que vive ali...

E a mulher, que já parece uma menina, então o olha... e dessa vez o vê. Seus olhos agora são lentos... Atentos. Num instante, desce de seus sapatos, que restarão ali. Dá-se os passos necessários todos, um a um, até estar bem perto do velho senhor, que lhe dá um abraço e um sorriso com os olhos. Ela, correspondendo, fascinada, confusa e ansiosa, se acomoda em outra pedra. Não sabe exatamente por que está ali. Na verdade, muitas coisas dentro dela a querem mesmo bem longe de lá. Há ainda um medo, qualquer coisa de antagônico, que incomoda, que inquieta. Mas ainda assim, ela permanece. Não sabe mesmo por quê. Mas também já não sabe querer outra coisa com igual ou mais força. E assim, o velho senhor, sustentando os abraços e sorrisos no olhar, com uma leve firmeza nas suas bochechas e boca, de uma forte e calmíssima respiração, começa um lhano dedilhado em C maior...




*feito com desejos de coisas boas a essa chaleira, que borbulha já há 1 ano e dez meses!

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