13 novembro 2011

PRELÚDIO

Por Rafa Carvalho

É uma vez uma vila. Casinhas simples, singelas e únicas se avizinham... uma a uma. Há paz... E sossego. Há cores e flores nas casas. E calma, passeando pela rua. Há uma brisa leve, vespertina, soprando o Sol ao oeste. E há ali, nesse momento, um único homem: um senhor, negro e grisalho, com chapéu e com viola, sentado em uma pedra confortável, bem à frente de seu lar.

Há uma rua que traz o mundo até a vila. E, na vila, uma única rua, de terra, que passa na frente de todas as casas. Sim, a vila é circular. A rua que passa na vila também. E há, no centro de todas essas coisas, casas e rua, uma praça... Uma linda e vasta praça, verde e plana, onde vivem borboletas, vaga-lumes, beija-flores e arco-íris... e também joões-de-barro e marias-sem-vergonha... em que tantas vezes brincam crianças de tantas as idades pelos dias... e pronde, às vezes, descem estrelas... em noites de poesia.

E... bem no meinho dessas coisas todas, casas, rua e praça... há uma árvore. Uma amoreira imensa... Grandiosa e carregadíssima de amoras. Tanto que ela chega a ser mais roxa do que verde, em toda a sua copa. Tanto que, à sua sombra, a grama já desaparece inteira, coberta por uma grande e densa manta púrpura de frutas maduras. Tanto que, até no céu da vila, os tons se deixam transformar... às luzes que tocam os frutos e voltam cheias de novidade, trazendo índigo, lilás e bordô às alvoradas, pores de Sol e madrugadas de lá.

O senhor caboclo de pés descalços toca a sua viola e canta a sua voz, assim atemporalmente... Até que pára; parecendo antever o que viria. E é assim que, pouco depois, chega ali, vinda da rua de acesso, essa senhora... Uma mulher de meia idade e salto alto, com traje e jeito alheios àquele lugar. Vê-se já que é estrangeira. Seus olhos se perdem em desdém e como que medem, ligeiros, cada desgraça daquele “pedaço de nada”. Passam também e de pressa pelo velho, a ponto de nem mesmo vê-lo. O senhor sorri sereno e re-pára. Está perdida e é claro que não era ali que esperava chegar. Mas há que se perder, às vezes, para se encontrar nessa vida...

E enfim, de repente, a mulher se depara com a árvore...

Não, ela não costumava reparar nas coisas. Não costumava dar atenção às árvores. Não via vida nas plantas... como também não a via nas pessoas; no espelho... Não via. Mas aquela amoreira era assim imponente na sua vastidão, assim impávida em sua magnificência, que aquela mulher, sem defesas e já re-feita, criança, nada pôde querer, além de entregar-se.

Nesse momento o senhor soube ser tempo. Já outra vez sorri e, de um sorriso, convida a senhora a chegar-se e aconchegar-se por ali, perto dele, que ele, com a sua permissão, lhe cantaria a história daquela amoreira... que em certa maneira é também a história daquela vila e de cada pessoa que vive ali...

E a mulher, que já parece uma menina, então o olha... e dessa vez o vê. Seus olhos agora são lentos... Atentos. Num instante, desce de seus sapatos, que restarão ali. Dá-se os passos necessários todos, um a um, até estar bem perto do velho senhor, que lhe dá um abraço e um sorriso com os olhos. Ela, correspondendo, fascinada, confusa e ansiosa, se acomoda em outra pedra. Não sabe exatamente por que está ali. Na verdade, muitas coisas dentro dela a querem mesmo bem longe de lá. Há ainda um medo, qualquer coisa de antagônico, que incomoda, que inquieta. Mas ainda assim, ela permanece. Não sabe mesmo por quê. Mas também já não sabe querer outra coisa com igual ou mais força. E assim, o velho senhor, sustentando os abraços e sorrisos no olhar, com uma leve firmeza nas suas bochechas e boca, de uma forte e calmíssima respiração, começa um lhano dedilhado em C maior...




*feito com desejos de coisas boas a essa chaleira, que borbulha já há 1 ano e dez meses!

4 comentários:

Anônimo disse...

de uma forte e calmíssima respiração, começa um lhano dedilhado em C maior...[Diz a que veio esta visada no sentido do verso que, aqui, canta. Bravos!]

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Torço o nariz para o povo e a pova da Educação Física,seres que se prevalecem de instrumentos ressoantes(aqui, p.ex.)ou, infiltrados no LABJOR/Unicamp,valem-se de pilates deleuzianos como Marina VI(cogita-se,à boca pequena.Prefiro uns Gonçalos Tavares que passeiam de Sêneca a Borges resvalando Foucault etc.E nada tem que ver com desportos.No Curso que proferiu em São Paulo,porém, reparei n'alguns errantes; é.

Nilza Amaral disse...
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Nilza Amaral disse...

Bloguinho dificil de entrar,apesar de convidada.Acho que pego a chaleira na hora errada, fervendo,ou ainda pra esquentar.Enfim, mereço uma chaleira com timer.

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