24 maio 2013

JACQUES PRÉVERT e IMAGINAIRES(1970)


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JACQUES PRÉVERT e IMAGINAIRES(1970)


Albert Skira Editeur]
Dando uma comparada mais ou menos simplista, pode-se dizer que Prévert representou para a França o que Drummond ou Bandeira  foram para nós brasileiros. Isto é, traduziu a alma de seu povo em versos.
 Mas ele também foi ligado ao surrealismo; vejam aqui as colagens surreais que fez, e o Albert Skira enfeixou neste livro. Skira foi o sofisticado editor da arte moderna européia. 

Neste volume que possuo há uma tradução à lápis, feita pelo dono anterior.


 Curtam o Prévert, que é pouco conhecido no Brasil, inda mais como artista plástico. No Brasil há uma tradução de Silviano Santiago,publicada em livro,  para a Nova Fronteira(2000).


23 maio 2013

APENAS SEU CORPO


Apenas seu corpo



Permaneceu atônita por algum tempo, sem que pudesse pronunciar nenhuma palavra, era como se todo o corpo dissesse para parar, estar ali, ensimesmado, numa volúpia de encantamento. O diálogo tornou-se monólogo, o olhar somente parecia atento, a boca ficou calada, sem resposta, sem o dizer. Ninguém percebeu nada, será? Para ela era como se tudo aquilo fosse transparente, demasiadamente transparente. Mas não, nada percebeu nada. Apenas seu corpo num por vir.

A boca foi, aos poucos, voltando a ter palavras para dizer. Não que elas fizessem muito sentido. Então, caminharam na direção do... não há lembrança. Os pés seguiam outros pés para não ter de fazer o caminho. O olhar procurava outra coisa, o olhar queria embasbacar-se novamente. O corpo queria que aquele instante tomasse-o por um tempo indeterminado.

Prosseguiu. Era preciso. O gosto do ar que lhe tocara a pele deixou um cheiro de quero mais. Disfarçou. Fechou os olhos e, num suspiro, continuou com as palavras, as pessoas, o chão, as paredes, a porta, os móveis, o respirar, o viver. Apenas seu corpo num por vir.



22 maio 2013

STAND BY

                                          RETRATO DE VAVÁ QUANDO MOLEQUE

 Stand by*

Por Alvaro Posselt


Ninguém me liga
nem desliga
Ando meio stand by

* Do livro Tão breve quanto o agora


21 maio 2013

RETRÔ D'UM TRATO RETRÔ"

                                                       PANORÂMICA DE CURITIBA




Um trato retrô

    Por Marco A. de Araújo Bueno


Nas semanas depois do acidente tudo estava confuso, sobretudo a identidade dela, sua auto-imagem. Cirurgias seguidas, rotinas alteradas e intoxicação medicamentosa – dessa geléia plasmada na pressa, na dor e na urgência, precisava extrair uma nova matriz identitária, urgente, na pressa; com dor e tudo. Tempo lhe sobrara, um tempo flácido de esperar o tempo passar entre as pontualidades dos remédios, das consultas. E foi nessa oficina do capeta que surgiu a idéia de juntar suas fotos três por quatro e organizá-las numa tomada de vista única. O efeito foi arrebatador. Tudo lá, simultâneo e chancelado pelo olhar oficial de fotógrafos profissionais lidando com o que chamavam de “o cu da profissão”. Ei-la, em fotogramas manchados por marcas de carimbo, distribuída pelo tempo linear; comovente – retratos, só.
Só? Uma constelação de achados sobre si mesma. Ela, uma pedra Roseta a lhe propor uma espécie de arqueologia do próprio rosto; a convocá-la à descoberta de recorrências e revelações tão sutis sob a lupa da maturidade. Sim, o retrato oficial é um tipo de seqüestro da imagem, constatou. O negativo entregava, pelo afã do bem-parecer, os desastres todos que, foto a foto, repetiam-se na captura de um rosto angustiado aqui, outro tão amargo mais adiante, tão falso-relaxado por vezes. Tão pouco e muito – ela, sempre. Sempre o desafio de contornar a precariedade do registro com algum artifício improvisado. Sorriria? Posaria solene conforme o destino institucional do retrato – um RG, uma CNH, uma matrícula. E sempre só mais tarde a idéia de que aqueles retratos que a precederiam em inscrições e situações protocolares, numa surpresa perpétua ou quase, fariam a reedição de sua pertença por um rosto que já pouco lhe pertencia.
Mas a visada agora era diferente. Tratava-se de lançar mão do que fosse a potência de alguns traços, de reeditá-los mentalmente e construir um compósito de rosto certo, autêntico e quase heróico por ter sobrepujado a aflição dos momentos alinhavados, com vistas a moldar um rosto leal a si mesma, abstraída a linha do tempo.
Com tantas restrições de movimento, de ações mínimas do rosto, vinha notando um empobrecimento da gestuária e da expressão facial. Reduzido a deslocamentos estereotipados, o rosto que emergia do colar cervical levou-a a perceber-se como uma tartaruga ou com uma pomba de anel no pescoço. Os olhos, olhos apassivados, acomodando-se à passividade, oscilavam entre a máscara da dor e a contemplação resignada dos momentos de trégua. Assim, somado à construção do compósito redentor, ocorreu-lhe eleger uma dentre as fotos para identificar-se com ela, imitar-lhe o semblante e recriar alguma vivacidade, alguma expansão a partir do que jazia capturado ali, eivado de vida. Parecer-se consigo, imitar as ações correspondentes, injetar-se vida. Mas vida lastreada, avalizada por uma biografia retrospectiva. Ideal e fiel ao que fora, um dia, a máscara que melhor podia representá-la para o olhar do mundo administrado que lhe exigira os retratos desidratados de vida. Vida seca? Ora, vida...
Estava há horas no editor de fotos, olhos secos, pernas dormentes e completamente magnetizada. É este! E no exato momento em que proferiu a escolha percebeu-se impregnada pelo repertório completo subjacente ao retrato. Agora chega, Vilma – a voz firme e benevolente do marido – Faça algum alongamento, você está impregnada de remédios opíóides, do campo eletromagnético do computador, de inércia! Vilma, chamada pelo nome, sem apelidos, diminutivos, girou a cabeça na direção da voz e, plena de seu repertório resgatado, ergueu a cabeleira com as duas mãos, lançou-a para trás, sorriu mordendo o cantinho da boca e, sedutora como aos dezessete, elevou os olhos para o teto em busca de um vazio prontinho para ser colonizado por uma fala nova. Original porque a origem era ela; original pela ruptura com as falagens mornas com que vinha recobrindo sua convalescença:
-Impregnada, ual! Opióides, é? Já acabei aqui, vou passar um protetor e tomar um sol; fodam-se os edemas. E mais, uma cervejinha ou duas não vão me matar.
 Na tela, a vestibulanda audaciosa, cheia de verdades indizíveis e congelada no tempo, emanava vibrações e hormônios tempestuosos e...vida, direto para essa nova Vilma, já publicitária interrompida , libido em concordata e um calvário por rotina aos trinta e oito, incompletos. Na tela, a Vilma poderia secar, diria um Oscar Wilde. Um trato; belo trato dionisíaco em plena vigência do tratamento apolíneo. Vida chama vida, ora. E ecos de leituras juvenis ocupavam seus devidos espaços na parte de dentro da cabeça, em cujo rosto pálido, os olhos agora cintilavam.





18 maio 2013

SÓ EM QUALQUER FESTA


 Só em qualquer festa

Por Rafael Nascimento*

rente aos meus pés
estão outros pés
evitando a dor dos pisões
e da falta de assunto.

rente aos meus ombros
no contíguo do vácuo que faz meu corpo
mexem-se outros corpos
na incontinência de um prurido
manifesto em riso
                             que é acaso
e na soma do som
                             que é ruído.

tanto que no hábito vital
de ver por dentro das garrafas
o fundo
logo eu me sinto pronto
e a noite, pronta
a ver tudo como se fosse
o mundo

pra no fim caminhar lento
e sentir na nuca o afago
daquela Gomorra de pedra
na iminência de despertar.


*Esta é a estreia da coluna História da Noite que posto hoje excepcionalmente. Ficará nos domingos.


17 maio 2013

AUSÊNCIA


Ausência


Quero partir
Pouco importa
Onde

Conselheiro de Alice estava errado
Adestradopositivamente

Partindo daqui
Sem mim
Topo daqui
Qualquer descaminho

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