01 fevereiro 2010

AS TEIAS, AS VEIAS, OS FIOS




  Ilustração: Alan Carline


Feito cacho de aranhas pulsa o coração,
nem os morcegos cegos escapam-lhe da teia.
A agulha se afunda nos pelos, o sedativo
bambeia as patas e atrapalha a rota dos cães.

As mulheres chamam-gritam.
Diga a elas sobre o vento,
que se não fossem os pinheiros
nada disto estaria, hoje, aqui.

Mas, assim enredado de teias,
veias do poste encordoando
a caixa de força, relógio de luz,
perguntam: como se faz para ler
a luz? – Luz? Luz não se mede!




2 comentários:

Luciano Garcez disse...

Belo apagão de luz de Guilherme, numa condensação imagética de " Feito cacho de aranhas pulsa o coração/ Nem os morcegos cegos escapam-lhe da teia", de um brutalismo urbano, por isso dócil (no sentido de familiar e à mão do olhar) de "A agulha se afunda nos pelos, o sedativo/ bambeia as patas e atrapalha a rota dos cães", resumindo ao que se vê, de diuturnamente vulgar, na rua, a imagem do inferno aracnídeo que abriu o primeiro verso.
Há cores veramente expressionistas aqui, me lembrou Strämm, Heym e Iwan Goll, que por coincidência andei lendo no tédio do domingo de hj, no de "Löwen langweilen sich/ Bäche altern", mal traduzido aqui por mim em "Leões se acham entediados/ riachos envelhecem", do Der neue Orpheus, como em Guilherme, mais "compacto", há "As mulheres chamam-gritam./ Diga a elas sobre o vento,/ que se não fossem os pinheiros/ nada disto estaria, hoje, aqui.

O tom peçonhento que caminha conduzindo os fios do discurso pelos subterrâneos do poema põe os venenos-caninos-caninanas de fora no último quarteto "Mas, assim enredado de teias,/Veias do poste encordoando/ a caixa de força, relógio de luz,", perfazendo o percuso de subjetividade-mundo, coração-poste, a figura transladada da aranha e sua confusão de enredos posta pra fora. Mas o golpe de misercórdia vem da constatação prosaica, que criaria, se não fosse usada como uma coda em tom pastel, um hiperbolismo de veias abertas: "perguntam: como se faz para ler/ a luz? – Luz? Luz não se mede!"

Quem pergunta? Guilherme não diz. E ele mesmo, seu Das Es, é o "quem" insinua que a Luz não tem tempo-espaço: luz é aranha que tece de fora para dentro e vice-verso.

Como me dá gosto de dizer: Bravo !

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Esta estimilante sincronia Alan-Salla, no primeiro de fevereiro, prenuncia a coluna INTERINTRA - o pulso diferencial do "coletivo' no blogue, seu marcador precisamente 'aracnídio'. Nela, a potência da quebra de fronteiras dirá a que veio, como novidade. Pelo fôlego, haveremos de ter até uma Hilda Hilst traduzida para o finlandês no seio de uma obra híbrida castiço-trovadoresca, ilustrada por expressionismos popart. Com as águas de março...

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