03 fevereiro 2010

A FILA - CONTO LIDO POR F.All'Golen [grato] no GENGIBRE


Ilustração: Alan Carline

Ah, a prosódia! Como é mágica; o que pode um relevo fônico quando se trata de ficção. Este conto pode ser inserto num subgênero denominado 'estranho'. Houve quem dissesse que, lido assim, com os erres retroflexos do F.Ficomeno All'Golen (Literatura Comparada; Cambridge Universyti), o efeito 'ostraniênie" fica dilatado e a estranheza potencializada. O meu conto ganhou camadas de significação. All'Golen esteve na Flip que homenageou Nelson Rodrigues, brindou-me com a gentileza de sua pródiga leitura. Depois publicou um poema estranhíssimo e tornou-se estranhamente inachável. No departamento dele, no Reino Unido, alguém cochicha em off que teria pedido um semestre sabádico para reler os 'breves' do Kafka...


“A FILA”
Por Marco Antônio de Araújo Bueno


Não lhe causou estranhamento algum quando, já na entrada daquele pátio, topou de cara com a tabuleta bem postada, solene, onde se lia: “A FILA”. Em caixa alta, sem serifas, preto sobre o branco e bem à altura da vista. A lucidez com que se impunha excluía e conclamava a presença de uma crase, isso sim, seria de se estranhar? Ao contrário, era quase uma condição, uma essência mesmo da placa, essa simultaneidade. A caminho, no entanto, lembrou-se ter lido “FUNERÁRIA” onde seria mais crível que, pelo recorte urbano do local, pela vizinhança típica, lá estivesse escrito “FUNILARIA”. Mas este petisco caprichoso, já o reservara ao analista, até por uma questão de comodidade, ou de resistência. Não era o caso desta placa. O máximo que ela permitia era conjecturar se teria faltado um ponto de exclamação ou, algo mais sutil – se, por decoro de se evitar um imperativo grosseiro, autoritário, suprimiram elegantemente um “RESPEITE A FILA!”. E era essa condição que impunha respeito.

Tudo isso lhe infundia uma espécie de esperança vaga, de crença em valores substantivos, de confiança pela confiança; acelerou a marcha e perfilou-se aos demais. Não eram muitos, os demais. Silhuetas discretas, deslocamento proporcional aos espaços sucessivamente desocupados pelo atendimento. Pessoas, como ele, ali, na fila. Dispunha de um dispositivo contra o enfado, conversa mole, mas, sobretudo, contra a timidez incorrigível. Era um livrinho em formato seis por cinco que cabia em qualquer canto de bolso, paginação confortável e à prova de olhares bisbilhoteiros. “Padre Antônio Vieira”, uma antologia...viria a calhar; apalpou e, pela espessura percebeu o engano; era um Hamlet cuja impressão, de tão nítida, dava para ler até nos vagões do metrô e, até por isso, ele o reservara para o crepúsculo.

Decepcionado, enfiou as mãos pelo bolso e resignou-se a sua corporeidade perfilada aos demais. Foi então que se instalou um certo caos no recato daquela espera ordenada. Um homem deixou a fila e, ajeitando pasta e capacete pelos braços aproximou-se, agachou-se e ergueu do chão um retângulo de plástico cinza.- “Esta senha é sua, não?” Sim, era dele, escapou do bolso onde guardava o William Shakespeare das horas crepusculares. – “Melhor ficar esperto pra quando a fila bifurcar”, asseverou, num tom de voz sinistro, em baixo profundo e olhando furtivamente para os lados e para cima, em direção ao começo da fila. – “Obrigado, mas que bifurcação é essa?” Olhou para o edifício à frente, era térreo, não havia razão para olhar para cima.

O caos instalou-se por uma razão singela e contra cuja obviedade, a menor inobservância parecia implicar em afronta grave. Tinha alguma relação com as senhas e aceitar que a cor da senha determinasse a bifurcação parecia tão consensual aos demais, que apenas uma leve indagação sobre sua razão de ser, soava como um libelo. E tornava o perfilado um contraventor.

- “A minha, senhor, eu sei que é branca. Quando bifurcar lá na frente eu sei pra onde devo me dirigir. E a sua que eu vi que é cinza vai tomar outro destino. Fica mais atento que ninguém aqui é ingênuo nem palhaço!”.

- “Bom, já que” branco “não é cor, deve ter senha preta também...”.

- “Tem sim senhor, mas ninguém viu cair de bolso nenhum!”.

- “Deve ser porque não tem destino nenhum!”

{in Portal Neuromancer, 2008; LGE Editora-esgotado}

5 comentários:

Rafael Noris disse...

Um kafkiano mais detalhista, não perseguido pela família ou pelo governo, mas pelo medo. Ao leitor, resta o desconforto. Abraço!

Paola Benevides disse...

Apreciei ouvir este grito tão calmo narrado. Por demais se aproxima da gente. Bem que podíamos ouvir a todos os colunistas, sair um pouco das vistas e cativar mais os ouvidos! Quem topa?

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Fica consignada a sugestão - arquivos de áudio nas postagens.Há muita música latente no blogue. Wagner de Souza é músico, Luciano Garêz, maestro, e já ouço a gravidade do cello sinfônico do Finholdt na trilha de trovas medievo-contemporâneas. Que Tao!?

Marco A.de Araújo Bueno disse...

"Meu caro Marco
Estive por lá, dando uma olhada. Do que vi, gostei. Parabéns.
Cícero, ou alguém do ramo, é que dizia: com o passar do tenpo, ficam só os amigos.
Grande abraço, tudo de bom,
Assis Brasil"

{Prof.PUC de Porto Alegre-RS, pro-oficineiro, amigo!}

Luciano Garcez disse...

Alan ilustra as mãos azuis, vistas pelas cortinas dos olhos diluídos em mais azul.

Estamparia de de Alan, e o zigue-zague Marco - mas tb de outro Alan vem o ar sem oxigênio deste conto, o CO2 de Poe, pois o fluxo é contido e se rebate, e os personagens disparam diálogos alla Usher, em meio ao íntimo. Só que Marco parece sempre mais humano que Poe - este último, por princípio poético "doentio", e por isso mesmo, bem afeito e aceito por nosotros pós-modernos prozarcaicos. Marco não deixa nunca de divisar, porém, o Humano por trás do homem - eis aí, talvez, revelada na literatura, a sua vocação-profissão de psicólogo (eu diria "psilósofo"). E Psiquê, lembremos, o radical da palavra, foi a amada de Amor (Eros).

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