04 fevereiro 2010

ASSAZ INATO


Por: Paola Benevides (ilustração e texto)

Estou com medo do carro, do espirro, de tudo que me é caro, do tiro e até da bala de chupar. Vão me fazer o quê? Um, barroar; o outro, má influenza em vírus; carteira cheia de indícios, revólver sem cabelo no pente e bombom envenenado. Quem me prova o pó do contra? Nem cheiro otimismo. Não saberei rezar na hora quando a Nossa Senhora brotar toda azul pura à incenso de mirra. Ora, de que adianta o anjo se a guarda anda por fora? Despoliciamento em tudo que me é de canto, isso coça. Mas a praia é mansa. A criança detesta usar filtro solar, só que a mamãe o lambuza bem e lhe diz com toda credibilidade:

- Contra os raios Uvêá e Agaivê!
Daí o miúdo ouve a proteção já rindo, inconscientemente, de todo o absurdo desse agora tão ausente. E como quem está pressentindo um futuro trágico, corre em direção horizontal ao infinito.
(...)
- Pensa em ter filhos?
(longa pausa para um muxôxo)
- Mulheres não deviam ser adeptas à lei do ventre...
- Deus que me livre!
- Então, nem é o seu caso.
- Sou separada, operada e abortiva.
- Por isso que ele te desprezava tanto.

A lágrima se alojava dentro dos óculos escuros da moça. Precisava de cigarros. Não quis pedir ao amigo por ter-se ofendido com ele naquele momento. Ela o amava. Ele a comia. Ela queria e não queria. E ele, então, parava. Até quando?
(...)
Os edifícios padrões novos só atravancam a passagem do ar. Barlaventos. Ficam feios por entre as casas, shoppings, favela, numa heterogeneidade de cidade moderna e pequena. Esses mormaços com cara de chuva... Das crateras deixadas pelo clima seco e úmido, um bom asfalto aqui faz falta. Opa, já vai ficar verde o sinal: esperança de que na volta do trabalho não haja outro engarrafamento. Queria o teletransporte imediato. Era só pôr os pés no escritório, as mãos no café preto e vam'embora! (pneu canta Música Urbana)
(...)
Gosto de abrir o livro assim pelo meio, nas altas horas da cama a me acalmar os tímpanos. Hum, o que temos aqui? (estante suja) Contos chineses! Vamos ver no que dá, passagem heróica, erótica ou suspense de oráculo, quero já cair de sono, sem Tao-matizar o meu domingo de um cinza tão plácido. Depois recomeça tudo: ...Mesmo sendo os meus vizinhos uma cambada de bárbaros e tu te encontrares a milhares de quilómetros distante de mim, reservo sempre duas taças de chá na minha mesa... .

3 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Marteladas no gelo ártico da alma de aflitos, é Nietzsche ou Kafka? É a literatura que explode em palavras-valise como 'tao-matizar'...Não, a dublinense de Fortaleza faz desabar o eixo do paradigma sobre o do sintagma, criando o efeito poético e, a estertoradosa leitores como eu, resta apenas tergiversar porque o verso de matéria plástica está com ela e tê-la num blogue coletivo é um privilégio e uma calção. E atenção - contem glutem; etimologicamente. Não tenho palavras, Paola, mas o afeto transborda.

Rafael Noris disse...

É um fluxo de poesia em prosa ;) pequenas histórias muito vivas, por isso as marteladas. parabéns!

Luciano Garcez disse...

"Ela o amava. Ele a comia. Ela queria e não queria."

Paolelíptica e sangue sem estanque ou porto - e ainda se diz "Benevides"...

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