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14 outubro 2012

OS NÚMEROS DA SALVAÇÃO

OS NÚMEROS DA SALVAÇÃO

Por Cecilia Prada


Cinco padre-nossos. Cinco avemarias. Dez padre-nossos, dez avemarias. E uma salve-rainha. Creio-em-deus-padre? – não, nunca vi ninguém fazer promessa com creio-em-deus-padre que é comprido demais. Nunca vi. Acho que não dá. Precisa mais. Vinte padre-nossos, vinte avemarias... ufa. Será que não dá quinze?

Sou preguiçosa, preguiçosa, preguiçosa. Além de todos os outros pecados. Por castigo vou rezar um terço inteiro. Prometo.

Promessa pra quê? Prá tudo. Promessa de culpa, promessa de apagar a culpa, para ser perdoada, para não ir para o inferno, porque mesmo com seis anos era possível, Santa Teresa não tinha tido uma visão do inferno com uma criança de quatro anos lá dentro? Menina má ruminando meus ódios. E prometendo rezar de noite antes de dormir – um terço. Dois terços. Um rosário inteiro. O bom cristão não deixava de rezar seu terço por dia. Melhor mesmo um rosário.

– É o mínimo que se pode fazer. O mínimo, a menor coisa. Para pedir perdão a Deus pelos nossos pecados. E para agradecer a Sua Infinita Bondade.

O mínimo. E ir à missa uma vez por semana. O mínimo, ouviu?

Mas é claro que aquele que ama verdadeiramente a Nosso Senhor vai à missa todos os dias.Veja seu pai, comunga todos os dias. Um santo.

O que a Santa Madre Igreja exige é fazer a Páscoa, confessar e comungar pelo menos uma vez por ano. Mas ninguém faz o mínimo. Faz o máximo, por Nosso Senhor.

Na prece arrastada, no sono que chega, na língua que se enrola e esquece, pecado, pecado, pecado, Santa Maria mãe de Deus orai por nós... onde mesmo eu estava não posso dormir sem rezar meu Deus não vai dar tempo, unha enterrada na palma da mão, nem adianta, o olho que fecha, que vai pesando, por nós pecadores, tá bom o resto eu deixo para amanhã não agüento mais...

Somei: estava devendo três rosários, mais dois terços de quebra, catorze salve-rainhas. Não faz mal, sábado de tarde vai dar tempo eu rezo tudo de uma vez só. Passava a limpo a conta da salvação. Mas no sábado acabei não rezando porque fiquei brincando de amarelinha na rua com as outras meninas.

– Quem faz promessa e não cumpre, o diabo vem buscar.

No domingo deu tempestade. O terror na garganta, o diabo que tinha vindo me buscar, avemaria cheia de graça ai que horror este raio me pega meu-deus-do-céu eu pecador me confesso a Deus todo poderoso ai este foi perto bem em cima de minha cabeça agora me pega... eu prometo meu Deus mas é verdade mesmo eu prometo não me castiga eu não quero morrer vou rezar dez rosários, quantos... acho que uns trinta terços, mais dez avemarias. Cinqüenta é melhor. E cem jaculatórias. E um creio-em-deus-padre. Pode? Não sei. Nunca vi ninguém fazer promessa com creio-em-deus-padre.

Um dia, a soma transbordou, vazou, não dava mais nem para saber direito o que eu estava devendo para Deus, devia ser algumas centenas de rosários, cada qual formado por três terços meu Deus e cada terço de cinco mistérios, dolorosos, gozosos, gloriosos, e cada mistério de seis avemarias e um padre-nosso.

Comecei a chorar. Me perguntaram o que era e eu pecadora confessei, afogada, o mar de pecados e de dívidas. Me mandaram pedir para o padre trocar a promessa. Trocar a promessa? Isso era possível? Então o que valia a promessa que a gente fazia?

Num bocejo e armando a mão da absolvição com o latinório engrolado, o velho vigário me trocou toda a dívida por três padre-nossos e três avemarias.

Saí humilhada.

No dia seguinte choveu de novo, chuva forte de raios e trovões. Eu fiquei com muito medo. Se eu morresse com um só pecado mortal, um só, ouviu? ficava no inferno por toda a eternidade. Prometi cinco rosários, num ato de coragem. Não cumpri. Dobrei. Não cumpri novamente. A culpa, a ansiedade, montavam em fúria recrescida na minha alma pecadora.

Então um dia, de repente, perdi a fé.

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( Do livro Estudos de Interiores para uma arquitetura da solidão- Editora DBA Books & Arts- São Paulo-2004)


29 agosto 2012

CHÁ DE SUMIÇO


CHÁ DE SUMIÇO



Me mandaram um pacote, verdinho, até bonito. Coloquei-o em cima da mesa, acendi uma vela, fiquei olhando para ele e pensando: “sumiço” não é coisa de mágico desaparecimento, não. Ele não é “nada”, não se esvai no ar, não é vazio : é material complexo, de pegajosa e muita humanidade  - e umidade. É perigoso, sei. Por isso não quero abri-lo, temo seu embutido poder de Pandora – espalhará mais sombras, algum morcego talvez, pelo meu ninho forrado de preocupações?
           É um presente o que ele contém? – uma armadilha, talvez? Em matéria de presente, confesso, preferia um maço de rosas – sem espinhos, claro. Em matéria de armadilhas, já conheci e provei tantas, vida afora, que o hábito de sofrê-las matou-me a curiosidade, de vez.
           Em matéria de chá, preferia um daqueles bem elaborados da Romana com mil coisices gostosas, com alentado papo e risadinhas de contentamento – à falta absoluta do quê, na cidade absolutamente morta, defunta já, nestes feriadões....só me resta a gastura.
         O chá de Sumiço – que venha.Que seja.

15 agosto 2012

TEMPO DE HOMENS PARTIDOS



Por Cecilia Prada

Na letrinha redonda das meninas-família eu escrevia que quem era o presidente da República era o Doutor Getúlio Dornelles Vargas, continuava a ser o doutor Getúlio Dornelles Vargas, cuja continuidade no poder ninguém parecia estranhar. Vagas memórias de comícios em que eu ficava lá embaixo, esfregando o nariz nas pernas dos adultos. De comitês no Centro do Professorado Paulista, onde senhoras de tailleur e chapéu de feltro – década de 30– faziam longos discursos inflamados enquanto eu, única criança nesses lugares, dormia a sono solto, só acordando estremunhada na hora dos aplausos. No ar, dispersas frases,em blocos, “Revolução de 32”, “legalidade”, “Constituição” – que seria aquilo? Nas casas, capacetes e obuses enferrujados escondidos no armário, retrato de algum sobrinho jovem e morto, uma bandeira amortalhada em um gavetão. Perguntei o que era, me disseram, em devoto sussurro: “A bandeira paulista que o Getúlio mandou queimar.”

Mas o principal medo, na família, era o dos comunistas. Eles sim, viriam, matando criancinhas, invadindo as casas, enfeiando as moças, condenando-nos a passar fome, colocando-nos diante de pelotões de fuzilamento. O caldo da fervura dos anos 30 engrossava-se com a Guerra Civil espanhola – que na família católica repercutia como o horror dos horrores porque os padres e freiras eram obrigados a fugir da Espanha.

- Sim, e fogem levando seu ouro escondido nos santos!

A voz, indignada, era de Dona Anita, espanhola e mulher do seu Muñós, que era aos meus olhos de medo o único monstro comunista que eu conhecia – terrível, falava alto, dava murros na mesa enquanto discutia com meu pai, que era católico fanático de comunhão diária e que partilhava com meu tio Egídio, seu irmão, a opinião de que todos os comunistas deveriam sim, morrer na cadeira elétrica ou fuzilados. Então, naquela noite de discussão, eu sentadinha no degrau da cozinha da casa do seu Muñós, morria de medo porque ele decerto ia matar meu pai. E queria ir embora logo, e acho que fomos mesmo, e nunca mais voltamos. E seu Muñós tinha um filho que era muito gordo e andava de motocicleta, uma coisa potentíssima e barulhenta que me fazia também muito medo. Francisco, se chamava ele, e morreu moço, do coração, e eu pensava “bem feito, quem mandou ser comunista”.

Mas um comício em particular me deu um medo muito maior. Pude presenciá-lo melhor, não mais “lá embaixo”, vendo pernas de pessoas e amassada entre elas, mas do balcão de uma sala nobre do Colégio São Bento, onde me levara meu pai.

- Por que todos estão vestidos de preto?

Devo ter perguntado meio alto e meu pai fez sinal para ficar quieta. Eu continuei, de olhão arregalado, observando aquelas pessoas estranhas, de porte rígido, inteiramente vestidas de luto, por que seria? até camisa preta fechada, e os padres beneditinos em seus hábitos também negros, e depois, no fim, por uma porta lateral entraram rígidos portadores das bandeiras inteiramente negras do Fascio, recebidas com aplausos entusiásticos. Empinadas, as bandeiras se vangloriaram um instante, se pavonearam satisfeitas, para depois, num gesto teatral ensaiado, baixarem-se todas ao mesmo tempo. De tanto susto, quase gritei. E escondi o rosto na calça de meu pai - que também parecia ser negra.

Frases que captava na conversa dos mais velhos. Minha mãe, contando:“...Então nós fomos ver o comício da Praça da Sé, com a menina, e saiu tiroteio, e só tivemos tempo de subir num bonde que estava passando e fugir”. Li, em um dia de janeiro de 1994, a notícia da morte de Fúlvio Abramo, o qual, diziam, “tivera o poder de deter, organizando um comício, a marcha do integralismo entre nós”. Teria sido esse o comício aludido por minha mãe como o “comício do bonde”?

Toda quinta-feira realizavam-se na Cúria Metropolitana, na rua de Santa Teresa, palestras de Apologética. Fui levada a muitas, dormia num banco enquanto meus pais faziam pós-graduação espiritual. Mas devíamos, na ida e na volta do Largo São Bento (onde tomávamos o bonde para casa), atravessar a Maior Praça do Mundo – havia sempre carros, rodando em fila ou aos magotes, ameaçadores, levava um tempão para se poder atravessar correndo, em tempo sem semáforos.Uma praça que nos comícios criava vozeirões terríveis ecoando nos alto-falantes. Até uma, grossa, enérgica, muito máscula, conclamando:

- Mulheres de São Paulo!

Era Dona Carolina Ribeiro, a diretora da Escola Normal Caetano de Campos. É homem, mãe? – a única mulher a discursar lá em cima, com os homens. Que todos, pareciam sempre estar muito zangados, brigando, esgoelando, e eu achava que de repente iam começar a se matar.

Não devia estar errada. O “comício do bonde” acabou em tiroteio e mortes, mas a família cristã salvou-se a tempo.

( Do livro “Entre o itinerário e o desejo”, Editora Scortecci, SP-
2012)




01 agosto 2012

LIMITES






LIMITES


O poeta é ser de coisas certinhas: linhas.

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Tenho ódio do poeta:
preguiçoso e lascivo,
avarento, ainda por cima -
economiza palavras,
lápis e papel,
arrima versos na parede da esquerda
(como se fosse modesto, low-profile) ,
só para mascarar ambição que o faz projetar-se despudoradamente até o fim da aléia almiscarada do jardim das palavras tortas,
e ir se banqueteando, no escuro, de emoções requintadas
(e roubadas - e roubadas! ).




18 julho 2012

SOMBRA (LIGEIRA) DE MULHER ASSASSINADA

Por Cecília Prada

Ver a si próprio como uma personagem pode ser um dom. Ou um castigo que esperneia em nossos contornos -- noturnos/soturnos -- com força de feto que exige nascimento, sob pena máxima de morte. Expulsa-me ou te mato, arrebento tua angústia de dentro, sim eu te coloco ( me coloco), assim com esta compulsão, no extremo -- o escritor é sempre uma pessoa in extremis. Uma pessoa que acontece a si própria, que se vê acontecer --diferente, solitária, nunca completamente aderente. "Del sentimiento de no estar de todo", diz Cortazar. Um voyeur primeiro dos outros, objetos primevos, na infância -- mãe afastada? intranquilizadora, a luta desde sempre pela aceitação, pela sobrevivência, desde o início desesperada.

E depois, incansavelmente, amaldiçoadamente, voyeur de si próprio .

Como uma marca extrema, esta angústia dilacerante no conflito ser/escrever, ver-me aderida às pessoas, à minha própria vida cotidiana, com seus objetos familiares afetivos, e saber que tenho o dom ou a maldição de ter de me afastar deles -- talvez destruí-los? A vida cotidiana não é mais do que uma contemporização. A única paixão é escrever - a vida é uma sombra, os objetos de amor são fantasmas, são metáforas do cotidiano, metáforas do fogo interior, labaredas que brilham um momento, depois se extinguem, reaparecem em outros lugares. Um dia é preciso ultrapassar a barreira, deixar de pedir compreensão e aceitação às pessoas. Fechar as comportas do Ser, aceitar-se prisioneira da própria angústia, prestar um ouvido atento às vozes interiores que ressoam no casarão da mente. Entregar-se completamente às Fúrias - que em grego, menos descaradas, se disfarçavam em Erínias.

Aceitar-se como mataborrão da angústia própria - e dos outros.Isso é a literatura : mataborrão da angústia. E do desejo. Aceitar os tentáculos desse monstro devorante que vive em nós. Aceitar o destino do escritor.

Parece então que as coisas todas só acontecem, aconteceram, para ser escritas.E só te aconteceram daquela determinada forma, no tal ponto extremado da angústia, para que sejam exemplos.

VÊ? -- te diz uma voz, e um dedo te vai apontando, desvelando. ( e desde precoce idade, desde os primeiros anos).

Porque há muitas mulheres assassinadas, clamando dentro de mim.


04 julho 2012

EU E JACK KEROUAC

Por Cecilia Prada

Não. Nunca encontrei pessoalmente Kerouac, apesar de ter vivido quase seis anos nos States e ter me apaixonado pelos seus livros. Vivi grudada na Costa Leste (Washington D.C e depois Nova York) de 1959 ao finalzinho de 1964, enquanto ele vivia lá na Costa Oeste, bebendo até morrer, sem aproveitar a fama e o dinheiro que ganhara escrevendo. Um rapaz que vivia com a mãe, e cuja única ambição era poder ganhar com o que escrevia dinheiro para comprar uma nova geladeira para ela. Eu, engessada no protocolo diplomático, good girl, casada, tendo filhos –foram três em cinco anos e meio, em um período incrivel de criatividade em todos os sentidos. Escrevi meu primeiro livro importante de ficção, o Caos na Sala de Jantar, também comecei a escrever para teatro, pertenci a um grupo profissional que ficou na história teatral americana, The Open Theater, tive peça produzida em Nova York. E convivi , morando no Greenwich Village, com outros beatiniks...Belos tempos – que o golpe militar brasileiro de 1964 estraçalhou – como já contei em artigos publicados, mas que voltarei a esmiuçar mais tarde.

Mas o que eu queria mesmo era fugir com Kerouac, ir viver com os beatniks, renegando o meio diplomático de pastoso tédio. Eu dizia para Sergio Paulo, meu marido: “ E se a gente largasse tudo e fosse viver como eles? “ Foi quando devorei The Subterraneans, depois do sagrado impacto recebido de On The Road, The Dharma Bums.... Repetia , sem saber – só depois me contaram- uma cena que se passara há um meio século ou mais, entre minha avó Ana Thereza Pinheiro do Amaral e meu avô Marciano Jorge do Amaral, na escala modestíssima de Piracaia, interior do Estado de São Paulo, onde meu avô era tabelião: um circo passara por lá e Nhãna (que se casara aos 16 anos), insistia com o marido: “Por que a gente não deixa tudo e foge com esse pessoal do circo?”

Kerouac, Faulkner, Henry James – só depois de conhecer essa trindade, de ter a graça de poder lê-los na língua original, de estudar sua obra, é que senti vir se formando dentro de mim a “voz literária” que hoje ainda dialoga comigo.

20 junho 2012

A UM LIVRO QUE NÃO SE DEIXA ESCREVER

Por Cecília Prada

Vem, Livro, senta aqui ao lado da minha cama, pega na minha mão, vem, eu não posso dormir de tanta tensão - tenho de te parir. Afaga a minha cabeça, me põe no colo - ou sou eu ‚ que te devo pôr no meu? Eu sou tua escriba. Você me usa para se expressar, impiedoso, ambíguo, quando quer, teu bel-prazer , se escorregando nas pontas - peixe ensebado , se negando, sem se entregar.Eu estou exausta.Você não podia vir se derramando sem mais frescuras, todo fluência e se contando?

Não. Você tinha de ser feito de pedra, como tudo. Livro-pedra no sapato. Queria te pensar gostoso, livro-sorvete, se derretendo no céu da boca, sorvete de limão no calor, chazinho quente no inverno. É assim que os livros bem comportados se comportam.Vai.Senta a¡ ao lado da cama,na minha madrugada insone. Vai me contando uma história, Livro. Pode ser a tua. Ou a minha, melhor. Sou toda ouvidos. (ah! isto o que eu queria ser, não mais a menina faladeira, a que fala pelos quatro cotovelos literários, mas a menina que escuta histórias imemoriais...)

E aí, depois de um breve silêncio, ouviu-se o rascar de um pigarro leve, depois, tímida, uma vozinha que parecia sair da estante (possível?) e que disse "...se não fosse Édipo e o casamento, o que haveria para se contar?" – era ninguém menos do que Roland Barthes, tentando ajudar a escritora a resolver um Ponto de Nó do seu relato autobiográfico.

23 maio 2012

INVENTÁRIO: A SOMBRA DA ESCRITA

Por Cecília Prada

Estou sentada aqui, na margem deste caderno – não está me vendo? Essa senhora estafada, língua de fora, veio correndo, coitada, pelos prados (e desfiladeiros) literários. Ela se deixa cair à margem da estrada.

Desacorçoada (que é palavra antiga, de avó, com gosto de cará, caroço e batata-doce.)

A mão em pala no sobrolho, procuro divisar o que vim reunindo nestas páginas, entre suspiros, miçangas, grades, arrebóis e sonhos – bem vividos ou desfeitos. O material que escolhi dentre as pilhas de pastas, cadernos, arquivos de computador – de mim, minhas histórias, pedaços.

O que tenho nas gavetas da escrivaninha da memória e do Ser, mais de mil páginas assombradas que farão dentro de alguns anos o desespero das arrumadeiras. Ou o júbilo de algum possível descendente interessado em fósseis literários, avós que gastavam o tempo em escoimar lembranças e fazer rabiscos.

- Deixa eu ter perguntar: de-sa-cor-ço-a-da (risos) por quê?

- Ham. Quanto mais se escreve, mais se pode ver o que não se escreveu. A sombra da escrita, os fantasmas que se esgueiram pelos vãos da escada, desvãos, dejetos, resíduos que depois...

- Direto aos fatos. Não se embrome em palavras.

- A intensidade. Não os fatos. Não se trata de relatar mais fatos. Mas sim de empapá-los com seu verdadeiro molho. Digo, por exemplo, quero dizer: da condição da mulher da minha geração extrair um detalhe que me faz pensar – a absoluta falta de exemplos de mulheres profissionais bem sucedidas, na minha infância.

Visito, na penumbra da memória, cenas da infância, lugares públicos, eventos – detecto neles, com a mesma estranheza de outros tempos, que eram cenas de convívio entre homens, só. Visitem-se as fotos que todas as famílias guardam, em álbuns poeirentos...minha cidade, São Paulo, que já era “o maior centro industrial da América do Sul” naqueles anos 1940, como se assemelhava então a esses ambientes urbanos de países ainda bem atrasados, muçulmanos, onde a ausência da mulher está ostensivamente exposta – ainda.

Lá, eles ainda decapitam, apedrejam, enforcam mulheres, enquanto, entornando canecões de cerveja, governantes de outros países sacodem os ombros dizendo “não temos nada que ver com isso, cada povo tem seus costumes, é uma questão de soberania nacional”...

09 maio 2012

UMA PERSONAGEM CHAMADA PALAVRA


UMA PERSONAGEM CHAMADA PALAVRA



Linguagem, é consciência das coisas.
Estranhamento do mundo, rabisco fino de esferográfica
pinçando a bruma da realidade.
Extraindo a alma da palavra – o espelho do discurso.

É caderno aberto em cima da mesa, permanente
                              – na madrugada.
É poder de penetração.
É desejo de ver o fundo.

Agreste, no descampado, a palavra.
Dissimulada atrás das cortinas do Tempo.
     Sobrepesante no que se exige, em demasia.
     A palavra: é a liberação.

     Palavra: esta é a minha personagem.

     É a única personagem que importa.
     Deve ser levada, destravada, dentro do escritor,
                             - pronta para o disparo,
     mais pronta ainda para a pescagem
     - é arpão, é persistente, insidioso instrumento de
                                             pesca ou caça.  

     As pessoas que não sabem, dizem:escreva, escreva sempre.     
     Não dizem o essencial: pense, sempre.
     É o pensamento que arma a palavra.

     Eu preciso de silêncio.
     É no silêncio que as palavras acontecem.
     Desovam, céleres, animadas. 
                              



25 abril 2012

RIFANDO MEU UMBIGO


RIFANDO MEU UMBIGO


Decididamente: de tanto contemplá-lo, enjoei. Ele já me disse coisas demais. Que eu, sabida, transformei em palavras - e ganhei com elas. Nos últimos anos, então, tendo sido forçada a guardar território emprestado e precário (o porãozinho que restou de meu castelo avoengo), sem ter muita companhia, não tive outro remédio senão concentrar-me nessa parte útil, sem dúvida, mas pouco imaginativa, do meu ser. E ouvi-lo de noite e de dia/ padre-nosso ave-maria.
E o que extraí dele...Ciscos e mariscos, memórias e lorotas, solilóquios e circunlóquios (principalmente estes), coisas de somenos e coisas só demais - enquanto o mundo vasto mundo continuava a rolar e a roncar cada vez mais alto, lá fora.
              Mas agora enjoei. Deve haver mais coisas  para se fazer, ó Senhor, do que passar a vida toda e mais três meses a contemplar um mero buraquinho insosso que fizeram quando nascemos, para nos marcar – para que não nos perdêssemos? Para que nos reconhecêssemos como filhos de Adão e Eva?
             Do umbilical domínio já saindo, mais inteligente me pergunto: como podemos descender desse senhor e dessa senhora, se justamente eles é que não tinham umbigo?...
        Onde, em que altura da criação, de qual genitor afinal herdamos esta marca de nosso ser vivente?

A história não está bem contada. Não. Essa história, a da nossa criação, não está nada contada, ainda.
Só nos resta inventá-la.




28 março 2012

O AMOR DE LINDALVA

O AMOR DE LINDALVA

                           O amor de Lindalva
                                     lhe dominava
                                                a alma
                                                 - alva.    






O professor ia pelos oitenta e lá vai alguma pedrada. Seco e arcado, magro, de olho cinza esmaecido e uma tossinha renitente. Vinha devagar, penando, ladeira acima – mansa ladeira, a da Academia de Letras, para não desanimar os de provecta idade vindos para o chá com bolo e alguns discursos soniferantes.  Distração parca, ritual, de quem tem teimas interioranas na tarde e na velhice, ambas calmas. Vivia – sim, como vivia, afinal o homem? Sozinho, em uma pensão. Diziam. Mas como depois se verificou, não era bem assim : sozinho, sim, mas em apartamento próprio, dois quartos e sala, e até área de serviço com inúteis dependências de empregada. Comia em restaurantes de quilo, mas só nos do centro, mais baratos, na montoeira da Rua do Comércio. 
        Pobre do professor – que nunca se casou, que só teve um emprego, o de professor de Geografia em uma escola particular da parte abastada da cidade, houve tempos em que até morava no colégio, em um quarto dos fundos, feito caseiro, parecia. Excêntrico, talvez. Pobre, com certeza. De camisa tinha pelo que parecia duas, uma de listinhas rosa, outra branca para solenidades. Engravatado, sempre. Até de paletó, o mais das vezes.
Na hora do chá – que na Academia interiorana era com vantagem substituído por café de garrafa térmica, refrigerantes de garrafa tamanho-família, sanduíches de patê de presunto e bolo de chocolate, o professor se fartava. Com a cumplicidade educada dos colegas, que fingiam não ver o tamanho, a quantidade das fatias de bolo que engolia concentrado, em um canto. Coitado, deixa ele comer, o professor, não quer mais um pedaço, um sanduichinho, eu embrulho e o senhor leva – dizia, baixinho Dona Noemia, a mulher do Dr.Olavo, presidente da academia, boa senhora cuja participação no literário sodalício garantia o bem-estar estomacal dos sócios.
De outros aspectos também solícita, Dona Noêmia um dia sussurrou no ouvido do marido: “Sei não, qualquer dia o professor...está tão acabadinho...” . Profetizou. Três dias mais tarde o porteiro do prédio onde ele morava telefonou – o professor fora encontrado morto, sentado no sofá diante da televisão. Ninguém conhecia pessoas de sua família, alguém lembrara da Academia, será que ...


Solidarizaram-se os sócios do sodalício.
Se desdobraram em indagação, entre a gente bem antiga da cidade, nos cartórios, no arquivo da matriz, no jornal. Nada – não se conseguiu localizar pessoa alguma . A não ser, bem, um fantasma. Sim, lembrou outro antigo professor, havia aquela história, como era mesmo? ....Consultou dona Hortência,  pianista quase nonagenária de dedos agora enferrujados, depois a Neuma, outra ex-moça, outros ilustres ex-moços, até um antigo pároco que ruminava ainda latim e balas de alfenim. E aos poucos, no de-leve da lembrança, alguém disse um nome: Lindalva. Ainda existiria, a Lindalva? A amada, aquela enfim, que...   
Como um retardado clarão a cidade – quer dizer aquele restrito punhadinho de gente daquele tempo, que ainda vivia – começou a perguntar que fim tinha levado a Lindalva, gente! Não falavam até que estavam de casamento marcado, e ela desmanchou, ou morreu, sabe-se lá, e então ele, desiludido...
 - Foi sim, coitado. Ele até chegou a comprar uma casinha para eles, mobiliou toda, fez enxoval, comprou tudo , panelas, louça, tudinho, e depois...
 Disse um dia a pianista Hortência de dedos enferrujados – em um momento de memória boa.
E aí, o diz-que-disse  se espalhou que nem rastilho de pólvora, ruminaram lembranças, informações. Até que um velho farmacêutico, seu Onofre – que na mocidade fizera poemas às moças e agora desfrutava glória literária na Academia, confirmou : “Pois é, a casa ainda existe, ali no Beco do Beijo, gente.Fechadona. Diz que assombrada....”
(Aos poucos um toque de poesia, essa sim assombrada, ia ao que parece tomando conta da cidade –  Beco do Beijo era o nome antigo da atual Travessa Comandante Aragão, em honra de falecido chefe da Polícia. No escuro breu do Beco escusos casais de tempos mais repressivos...)
Enquanto o corpo não-reclamado permanecia na geladeira do velório municipal, os confrades acadêmicos – subitamente redivivos como bando de meninos curiosos – rumavam ao Beco, descobriam a casinha fechada sob arvoredo meio denso, mas limpinha, arrumada....Surgiu uma vizinha com a chave, o professor vinha uma vez por mês, sempre, pagava pela limpeza. Abriu a porta que rangeu um pouco, reumática, expondo o tesouro do amor por Lindalva: a casa impecavelmente arrumada, mobiliada, museu da década de 50 com móveis pé-de-palito, uma rádio-vitrola, uma geladeira importada Westinghouse, aspirador, liquidificador, e nos armário profusão de lençóis virginalmente dobrados, uma colcha de fustão, uma camisola cor de rosa provida de laçarote branco em uma caixa da Casa Anglo-Brasileira, de São Paulo, em cima da penteadeira frascos fechados de perfumes, Cabochard, Je Reviens, Chanel no.5. Um par de óculos ray-ban, ainda na caixa.
 -  Faz tempo que...
 - Ah, faz muito tempo sim senhor, respondeu a faxineira. Minha mãe já trabalhava para limpar a casa para o Professor. A outra também.
 Que outra? O apartamento? – perguntaram.
 - Não senhor. A outra que é igual a esta, toda mobiliada, nem ninguém nunca morou também, não senhor. Que fica lá do outro lado, depois da estação, sabe?
O espanto caiu sobre os acadêmicos varando toneladas de tédio acumuladas. Anzol de rejuvenescimento - fofocas variadas se estabeleceram.
De repente, todo mundo lembrou pedaços de histórias sobre o professor e seus hábitos. Foram ver a casa de perto da estação. E depois, descoberta ao acaso, outra, em uma ruela atrás da igreja da Boa Morte. E outra...
Pasma, a cidade – que ignorara o professor, sua vida, seu sonho – acabou por descobrir exatamente seis casinhas que pareciam de boneca, espalhadas pela cidade.Todinhas mobiliadas até os mínimos detalhes, roupas de cama e mesa, talheres, sacarrolha, paliteiro, radinho de pilha, tapetinho do banheiro, touca para o vaso sanitário...a Lindalva imaginária residira inteira, incorporada à figura magérrima, de tão distinta sobriedade, do caro professor.
Quem ficou muito feliz – dizem – foi um sobrinho distante e herdeiro,  enfim surgido depois das convocações feitas em vários jornais do interior. E em cuja presença enfim se retirou da sinistra geladeira o corpo do tio,  finalmente despachado para o país dos sonhos eternos com dois discursos rápidos de membros da Academia – era dia de chuva e muito frio.
E mais não se falou,  do caso e do professor.  

                             


14 março 2012

O LUGAR ONDE NASCEM AS HISTÓRIAS

O LUGAR ONDE NASCEM AS HISTÓRIAS



Por Cecília Prada

Sabe o ponto onde nascem as histórias? Venha, vou lhe mostrar. Suba no caixotinho, a janela é meio alta, agora estique o pescoço. Está vendo o matinho cerrado lá longe, bem no final da praia? Pois é. Espere um pouco, com o binóculo é mais fácil. Também, não é coisa assim de todo-dia, não. Nem de toda-noite, melhor dizer. Porque isso todo mundo sabe, que as histórias aparecem mais é de noite, mesmo. Que são tímidas, virginais, às vezes se envergonham – ficam muito tempo sem aparecer. Porque, vou lhe dizer : elas têm de sair nuas, do bosque, e começarem a correr por aí, buscando abrigo, se entremostrando lampejando zunindo às vezes que nem abelhas, se fazendo de doidinhas (na verdade são muito sábias).
Umas, de tão arredias e envergonhadas, correm logo para o mar, se agasalhando de espuma e desaparecendo. Outras, tentadas – pois a paisagem da terra é mais variada – se espalham, exibidas, em corpos que parecem humanos, nos namorando de longe.
De perto, quando as agarramos, o unto de suas carnes etéreas enerva nossas mãos, nos desespera quase. Escorregadias como peixe – constatamos. Frágeis, matéria de sonhos, só. Mas se conseguirmos, só com muita garra e violência, arrastando-as pelos cabelos, trazê-las, mantê-las no nosso abrigo....
Podem se afeiçoar logo,morar anos conosco, impertinentes até, obsessivas, – exigentes , espinhosas, algumas. Algumas, só. Porque é claro : se as procuramos tanto, com tanto esforço e cuidado para trazê-las e guardá-las, é porque valem a pena, as bichinhas, maioria delas. É só ter paciência, muitos pires de leite à disposição, roupagem fina e bonita, isso sim, para vesti-las, fazê-las crescer capazes de conversar conosco a noite toda sem que nos cansemos nem um pouco. Faceiras, multifacetadas, cheias de truques nos seduzindo – até o ato final enfim conseguido, a transposição que fazemos em laborioso parto, delas – tênue material de sonho – para o papel ou a tela do micro, com o conseqüente orgástico gemido prolongado em enlace perfeito até , arfantes, nos darmos por satisfeitos, colocando na linha derradeira o costumeiro

                                                                         FIM



15 fevereiro 2012

DEGRAUS

DEGRAUS

Por Cecília Prada             


A  vida? A gente precisa ter paciência com ela, seu moço. Ir só, cada dia, pisando no degrau – degrauzinho mesmo, seboso, escorregadio – que ela nos concedeu. Para cima, para baixo, quem sabe? Não tem que se pensar muito. Porque todo mundo tem, seus sobes, seus desces, assim vamos. Procurando nossos caminhos nas escadas que muita vez acabam no nada, suspensas no ar ou sobre  abismo, repentinas – como aquelas escadas de Escher.
         Mas se, na bruma em que não vemos mais degrau algum esticarmos a mão... Vai ver deparamos com madeiras, pilar, feitio de porta para alcançar a maçaneta, torcê-la com cuidado – curiosar?
         O cômodo que divisamos –se por sorte alguém que não se sabe quem tiver acendido alguma vela – é vasto? é pequeno?  sem aberturas, lacrado, ou com algum janelão bem aberto para o mar –hein? 
         Há alguém dentro dele? Ninguém, só nosso arfar? Ou multidão? Seremos bem acolhidos? Expulsos a pontapés?

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01 fevereiro 2012

GENESIS

GENESIS



O espírito de Deus planava sobre as águas.

Yavé , que passeava pelo Jardim do Éden aproveitando a brisa da manhã...

No princípio havia um único homem, Yavé. Que se sentia muito entediado e resolveu criar outro homem, Adão, com o qual brincou, bem divertido, durante um bom tempo. Portanto, a criação foi um ato homossexual. A mulher, nasceu muito depois - um afterthought. Nasceu  de uma brincadeira inventada pelos dois homens com um osso de costela – da qual surgiu o ente feminino como peça de uma carnação realmente esplendorosa, muito melhor do que mera carne de costela (por essa eles não esperavam).
            Adão, que fora incumbido do Registro Civil, balbuciou “Ela”, mas sua pronúncia era muito ruim, e assim a mulher acabou se chamando “Eva”. E o ménage à trois ficou completo, viveram assim uns tempos brincando juntos (Eva meio emburrada) até que surgiu a Serpente. Só que a língua de Adão não aprendera a falar em trissílabos, ainda – ele só deu de ombros para aquilo liso, enrolado e escorregadio, que se insinuou logo por um ramo de árvore, trazendo nos dentes uma maçã mais lustrosa e saborosa do que a de Branca de Neve.
            Foi “Ela”, isto é, “Eva” – na língua estropiada de Adão – que prestou atenção na beleza da Serpente (com esse nome feminino...seria um transexual ?), que ouviu seu discursinho mole de sedução, e o resto da história vocês conhecem, ué, esse foi o primeiro adultério da História. E assim, híbridos de um pedaço de costela e de um ser, digamos, pelo menos sui-generis, fomos feitos, complexa humanidade...
         Notaram que nunca existiu uma Mãe? E que os que escreveram a Bíblia nem deram pela sua falta?





18 janeiro 2012

PROCURA-SE UM VAMPIRO

PROCURA-SE UM VAMPIRO




De bom tamanho e peso, e  charme - bons dentes, é claro, não precisa afiar. E de nome estrangeiro: Rimsfy, Utanski, Cornell. Serve Manfredo. Moreno - barba e bigode, pode ser. A idade melhor, já me informei, vai de 400 a 500 anos. Pelo menos 300  -sim, sim, vivências , isso o essencial para o que quero.
         Que seja paciente, com tempo e prontidão, disponível. Pontualidade. Britânica. Ou paulista, que seja. Porque nunca se ouviu falar em pontualidade transilvânica. Ou carioca. Nascido nos Cárpatos - se for, para mais autenticidade educado deverá ter sido em Oxford, sim? - é querer demais?
          Tanto que acordo todas as manhãs estremunhada, e a pergunta já vem acesinha da minha noite - e o meu vampiro? Chegará enfim? Atento o ouvido no interfone, espero o aviso de sua chegada - chegaria disposto e entusiasmado, assim o quero, e assim que eu abrisse a porta me diria:  "Cecília, minha cara, enfim cheguei, recebi teu chamado, transpus selvas e cordilheiras, estepes e mares bravios, enfrentei tsunamis e internéticos blogs e..sim, eu te confesso que quando vi teu anúncio no Times me entusiasmei - sou sincero, nunca , nos últimos 350 anos ..."
           (Não, esse não, me digo – não com essa capa de cetim de cor violeta , ou violenta, sei lá, não com esse perfume cafona de jasmins amassados. Aposto que nem autêntico vampiro é, vai ver foi fabricado em qualquer feira suburbana por aí. Meu verdadeiro vampiro...)
           Meu verdadeiro vampiro seria um senhor distinto e mais lacônico, em terno de gabardine inglesa de corte impecável,  barba aparada e reta e modos refinados.   Então, a British vampire , esse sim educado em Oxford ou Cambridge - mas  com brasão familiar que o ligava diretamente ao Conde Vlad, o Empalador, não houvesse dúvida - e me diria que tinha 800 anos, mas eu acharia um tanto exagerado, dava-lhe no máximo 750. E de todo jeito se mantinha em forma.
           E assim Manfredo e eu – que seja - tomaríamos chá com muffins em xávenas de porcelana que ainda me restam, herdadas de uma avó quatrocentona - ouvindo Bach ou Corelli. Depois,  executados a rigor os prolegômenos de praxe, iríamos diretamente ao trabalho, que seria: me fornecer material abundante e detalhado de suas multistórias de vida, sim, ele teria muitas disponíveis, à minha escolha, contaria como aos sete anos fora seduzido por uma tia-avó, Madraga dos Cárpatos, que lhe cravara a dentadura no tenro pescocinho em uma noite tempestuosa. Como vivera nos duzentos anos seguintes como pajem, amante, seguidor do rei Vladislau de Quatro Pontas que o levara em excursões pelos países do Oriente. De como transpusera cordilheiras e aprendera a voar e se reduzir a morcego e dormir de cabeça para baixo em cavernas transilvosas .De como na mocidade (que para os de sua estirpe situa-se entre os 200 e os 400 anos) fora um grande conquistador e amoroso, ninguém conseguia resistir ao fascínio de seus caninos brilhantes....até que,em uma infeliz sessão do ano de 1230, desastradamente cravara um deles, não no pescoço –desviado em tempo – de um monge cisterciense, mas no crucifico de pedra que traiçoeiramente se escondia nas dobras do seu manto, e de canino quebrado rente tivera de fazer o melhor possível no século seguinte  mas que uma infecção no toco do dente quebrado quase o ia levando para....Mas: situação prontamente resolvida por uma estada na Santa Casa de Gibraltar onde uma freirinha espanhola o cuidara com fervor, recompensada sempre que a Madre Superiora se recolhia pelas suculentas mordidas (do outro canino de Manfredo) em lugares, do corpo da freirinha, que nunca dantes.

Ah! Que histórias! Saborosas, suculentas, imperdíveis e inexcedíveis, ele me contaria durante o que resta deste século, para que eu – a Escritora – tivesse enfim um sucesso editorial adequado ao muito tempo que venho mourejando em literatura, com multidões de adolescentes candidatos a vampiro me seguindo pelas ruas, me aclamando, disputando em fila meus autógrafos, enfim, enfim, enfim.....
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04 janeiro 2012

PEDAÇOS DE ARCO-IRIS EM DESUSO

PEDAÇOS DE ARCO-IRIS EM DESUSO



 (“Talvez todos nós, um dia, tenhamos visto o rosto de Deus e por isso evocamos a beleza.” – Hilda Hilst )







E que faremos nós dos pedaços de arco-iris em desuso descobertos no quarto dos guardados da memória, nesta véspera de Ano Novo? Dos fragmentos de dias felizes que pareciam estar perdidos para sempre no pó do todo-dia de lutas mil e que não conseguimos nunca devidamente encaixar uns nos outros segundo arcaicos desenhos, coerentes, para formar  arco-da-aliança com a outra ponta  - que sempre perseguimos mas que foi cada vez mais se afastando?
       Que faremos nós de nossas reticências, de nossas covardias, de nossas resistências, das palavras que nunca dissemos –sufocadas ficaram, engasgadas na nossa pequenez, trancadas para sempre em um armário que nunca se abrirá, emudecidas, atoladas no charco do pensamento, assim permanecerão?
·          
Mas de repente, após a primeira noite bem dormida, ela, a Escritora, abriu os olhos e viu: a poesia que ainda brincava, serelepe, luminosa, nas coisas do cotidiano, as pequenas coisas, palavras também, palavras que se escondiam – piscando-lhe o olho – nas frestas dos acontecimentos, no rosto dos amigos com quem passara o Réveillon, na alface que comprara na feira, no recado de alguém distante, na face múltipla da vida : no seu multiser.
          (Uma via-láctea de esperanças, possível ainda?)

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21 dezembro 2011

TRILHAS DA MADRUGADA

“Na noite escura da alma são sempre
três horas da manhã.” - Scott Fitzgerald

Por Cecília Prada



Três horas da madrugada era coisa que nem existia,de tão linda. Só numa valsa. Três horas da madru-ga-a-da...que minha mãe tocava naquele piano convencido, alemão, com nome de saponáceo, Sponagel, que ficava guardado na sala de visitas que era outra coisa inexistente de tão linda e tão guardada, coisas só-de-vez-em-quando, esse aprendizado, havia as coisas todo-dia e as coisas só-de-vez-em-quando – que eram as que eu queria, e que não me deixavam. As teclas brilhantes do alemaozão antipático e convencido, que eu não podia tocar, só minha mãe, “só quando você aprender a tocar”, e ela tocava, cabeça inclinada para o lado, as horas da madrugada – que era coisa com gosto de proibido, porque horas da madrugada eram coisa de homem,só os homens saiam de noite, sozinhos, de madrugada, eram senhores da noite e dos mistérios, a rua, era dos homens, as mulheres rezavam iam para a cama dormiam e acordavam para fazer as tarefas da casa e só quando acabavam o trabalho é que podiam também ter seu segredo: abrir a sala de visitas, abrir a tampa do piano esponagado, com cuidado retirar o feltro bordado que cobria as teclas, escolher a partitura, as três horas da madrugada perdiam seu mistério, não eram coisa escura de homens, eram também coisa de mulher, ali, permitidas, parecia, me diziam “há gente que gosta do escuro e do vazio das ruas de madrugada, gente que não tem medo da noite (e o apito do guarda noturno , se enfiando nos ossos da gente, parecia)” –aquelas mulheres entrevistas em um cartaz de cinema de um filme que nunca se veria, que alguma tia contava, a meio, aludia, a atriz francesa, Michelle Morgan, no Cais de sombras...elegante, olhar provocante, encostada em um poste e fumando, uma das pernas levantada e um pedaço de perna aparecendo na fenda da saia, ah!

Os tentadores mistérios do mundo exterior. Em cada partitura, em cada valsa,um mistério. Tardes em Lindoya – onde seria esse lugar tão longe, Lindoya com y, que de tão lindo tinha merecido música também, ah! Mas havia as coisas do medo, também, Os heróis do túnel – a capa da partitura já dava medo, eu não gostava de olhar, o túnel feio, escuro, de boca escancarada para comer gente, e o soldadinho na frente dele, baioneta empunhada, de cara que era um grito de agonia só...Mãe, o que é isso ?, é do tempo da Revolução, uma batalha que houve no Túnel da Mantiqueira, ficou famosa, na divisa de Minas, os mineiros e os getulistas mataram os paulistas. Eu nem pegava na partitura, de tanto medo, era coisa muito feia, eu era paulista e eles podiam vir me matar. Nunca me lembrei de uma só nota dessa música.

São Paulo no final dos anos 30 – mergulhado ainda na Revolução. No ressentimento. Falava-se em sussurros, parecia – frases persistentes nas conversas dos adultos, São Paulo foi traído, mandaram os moços para as trincheiras, os políticos fizeram acordo. A revolução era uma ferida aberta, nas famílias, relíquias,um capacete dependurado na parede na casa da avó materna, um bandeira enrolada numa gaveta, amortalhada, o que está mexendo ai,menina? - a bandeira paulista das treze listas que o Getulio mandara queimar.

Tempo de comitês, de senhoras de tailleur e chapéu de feltro enterrado na cabeça, discursos que se inflamavam enquanto eu, a única criança levada a tais lugares - quais eram esses lugares? um deles, de certeza, era o Centro do Professorado Paulista - arregalava um olhão, não entendia nada, sabia só que devia ser aquela coisa de muito medo, coisa feia, Os heróis do Túnel, o soldadinho de baioneta, o medo quando o trem da Bragantina que soltava brasa por tudo quanto é lado entrava no túnel – então, agora, vinham os mineiros, vinham os cariocas, vinha o Getúlio matar todos os paulistas do trem?

O medo: era cinzento, cor de fumaça, cor de neblina, era uma coisa visguenta vindo,se colando nos ossos da gente.

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(*) (De um romance autobiográfico, inédito)


07 dezembro 2011

TRANCOS E BARRANCOS LITERÁRIOS

Por Cecília Prada

Vem cá, vou te contar uma coisa, aquela noite fria e paulistana, de chuva, e aquela reunião de poucas, tão poucas pessoas, na Oficina Literária, e as escritoras reunidas - no final dos anos 1990. Lygia Fagundes Telles presidia a mesa - e foi aquele o único dia em que a vi mal-humorada e pessimista, em toda a vida que a conheço.

“Era uma noite de chuva e frio”. E se a gente fosse uma escritora antiga pegava todos os reflexos das luzes nas poças d'água, o tec-tec das goteiras nos telhados de zinco, coisas de cobertas acolhedoras, uma xícara de chá, um livro na cabeceira da cama, e.....
Pois te digo: literatura é este espaço de gostosura, de noite de chuva. Xícara de chá de velhas tias solteironas - dizia Proust.

E então é esta imensa distância, esta impossibilidade espessa dentro da qual todos nós, escritores sobreviventes, nos agitamos aparvalhados. Distância da literatura (esgotou-se o estoque de chá?).


Se eu me dependurar nos lustres da lembrança...

Toda manhã saio chamando o texto - que sempre se esquiva embaixo de um móvel, na dobra da cortina, sob a geladeira. Bit, bit, vem cá buscar a tua papinha (humana), bicho antropófago e mimado, esse texto. E meu destino é o de Sísifo inglório, sair nessa busca, a cada manhã recomeçando o mundo.
E tão esgarçada...tão precária, e tão só.

(O tempo escorre como chumbo derretido nos meus ossos - chamam isso de artrose. Seu verdadeiro nome é : solidão.)

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09 novembro 2011

JANTARES CANIBALESCOS

Por Cecília Prada

Acontece às vezes. Sim, já me aconteceu algumas vezes. Jantando, normalmente, na minha própria casa ou na casa de amigos, filhos adolescentes incluídos: de repente, entre a pizza infalível da família unida paulistana no domingo, ou na hora em que se despeja, amável, a cerveja no copo da visita – caem, sangrentos, pedaços de carne humana bem no meio de todos.
As pessoas continuam tranqüilas, lambem um dedo, servem-se do guardanapo, sugam um osso.
–É carne humana, tenho de gritar (como aconteceu hoje).
Mas hoje, como sempre, o meu grito envolve-se num sorriso polido e desaparece, engolido. Senão... eu teria de levantar, ir embora. Vomitar sobre a melhor toalha das pessoas que me convidam? Impossível.
Aceito um pedaço, ou vários. E também como.
– É carne humana.
Horácio, bem sucedido em seus muitos anos de médico, direito a casa na City Pinheiros e carro com motorista, engole um pedaço de pizza dominical e conta passagens:
– Quando trabalhei como médico no Pátio do Colégio... A escada tinha sido apelidada de “escada rolante”, ha! ha! Os presos só conseguiam por o pé no primeiro degrau. O resto da escada desciam aos trambolhões, se arrebentando todos com os pontapés dos tiras.
Presunção legal, todo homem é considerado inocente até que. No filme americano. E a Scala Santa, em Roma, onde Jesus, coitado, foi empurrado, e que até hoje guarda as marcas de seu sacratíssimo sangue, uma escada que só se sobe de joelhos, porque ninguém é digno de pisar naqueles degraus e mesmo o Papa, uma vez por ano sobe-a de joelhos.
– Mais um pedacinho?
Teresa, solícita, perfeita dona-de-casa-mulher-de-médico. Fazem parte dos “encontros de casais” do bairro.
O relógio bate uma hora eterna. E os ossos começam a espalhar-se, tão numerosos, os ossos humanos, vísceras humanas, sangue humano – que não é de Cristo, que pena.
– Tinha uma mocinha que também trabalhava lá, todos os médicos queriam ver se tiravam uma lasquinha. É assim que se dizia naquele tempo. Mocinha frágil, delicada, loirinha. Então um dia ela vinha subindo essa escada e um preso tinha sido empurrado e roçou nela. Ela virou-se e assim de repente, sem que o homem tivesse feito nada, deu um golpe seco na costela dele que o mandou até o patamar lá embaixo. Todo mundo gozou o outro, “ah, essa é que você queria, hein...?”
Passou o guardanapo nos lábios finos:
– Uma vez atendi um cara que estava com a mão machucada, tinha tentado quebrar uma delegacia. O delegado estava na ante-sala, perguntei: “Esse cara aí quebrou uma delegacia?” O delegado entrou – “conheço muito, ah, muito meu amigo, trate bem dele, doutor”. Abraçava-o, “conserte o dedo dele, doutor, depois nós vamos lá embaixo para uma conversinha”. Quando trouxeram de novo o cara para mim não o reconheci, punham ele em pé, ele caía feito uma trouxa.
Eu queria um pouco de doce de cidra da chácara? – ofereceu-me Teresa. Eu disse que estava de regime. A carne humana bastava.
- O pior eram as mulheres. As prostitutas. Marcadas com ferro. Batidas, nuas, enroladas num lençol, eram jogadas no consultório em cima da mesa. Depois de tratadas, também eram mandadas de volta às celas, nuas, tinham jogado fora a roupa delas. Às vezes elas ficavam lá até três meses. Até que alguém lhes jogasse uma roupa. Não tinham feito nada. Obrigadas a beber, nas casas, tinham emborcado em alguma baderna. Se fugiam das casas, os próprios tiras iam procurá-las, por causa da comissão que ganhavam.Nunca vi uma mulher sair desse ambiente. Os homens ainda têm alguma chance. As mulheres, não. Essa é a verdade.
– Mas como você agüentava isso? perguntei de repente, com um osso humano engasgado na boca.
– A gente se acostuma com tudo. Fiquei lá acho que uns dois anos. Ou três, não sei bem. A gente embrutece. Uma vez foram presas três putas (Teresa, escandalizada, olhou para as filhas adolescentes).
–...putas... Eles haviam agarrado elas e metido em camisas de força, e iam puxando pelos cabelos, elas batendo a cabeça em todos os degraus de pedra.
A cerveja acabara. Não havia mais na geladeira? Conteve a custo a indignação.
– Se eu não ponho para gelar, ninguém lembra.


E de dentro do que ele continuava a falar naquele tom pausado, neutro, de quem conta uma história, “a delegacia da Rua dos Gusmões era um pouco melhor do que as outras, mas o presídio do Hipódromo... ninguém conseguia sair de lá sem uma boa tuberculose. As celas não tinham privadas, os presos faziam as necessidades no chão, a água corria sem cessar pelas celas, eles viviam, deitavam, dormiam na água imunda...”
de dentro desse jantar de domingo particularmente – ou banalmente sangrento? – lembrei-me do meu primeiro almoço canibalesco, quando eu tinha onze anos.
– Coma, o que está esperando?
Na hora do almoço, que era às onze e meia em ponto para eu não me atrasar para o colégio, foi-me servida, ainda fumegante, minha primeira refeição preparada com carne humana. Alí, quente, sobre a toalha de xadrezinho que já estava com três dias de uso, espalhadas por meu tio Guaracy – um funcionário da Estrada de Ferro Sorocabana – as vísceras ensangüentadas, os membros mutilados, os três rapazes imprensados contra a parede e que tinham virado só uma pasta.
De gente.
– O maquinista tinha perdido a mãe na véspera e estava com quinze horas de trabalho sem parar.
Desastre. Não se fala de sexo – nem mesmo de partos – diante das crianças. Mas um desastre, da Sorocabana ou da Central, é sempre prato suculento. Servido com detalhes – a mãe, indo e vindo com as travessas, mais atenta ao caldo do feijão que não engrossou do que à pasta humana espalhada alí, diante da menina.
– Mas que está esperando? Coma. Quer perder a hora?


– Não quer mesmo mais um pedaço de pizza?
– Não, obrigada, por hoje estou satisfeita.



(Este conto figura em meus livros O Caos na sala de jantar- (Ed.Moderna-SP-1978) e Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão (Editora DBA-SP-2004) , e em antologias.

26 outubro 2011

ARQUEOLOGIA DO SILÊNCIO

Por Cecília Prada


Silêncio é coisa de cuidado. É de vidro. Se vier acondicionado em uma caixinha é melhor? Pontiagudo como pinça de relojoeiro. Às vezes tem de ser embalado em algodão em rama - como minúsculo bebê prematuro.

Mas silêncio também é peso. É laje. É esmagamento.

O pior é que pode advir de repente, sem aviso, desabando tetos em cima de nós. E durante anos assim permanecendo, até nos darmos conta de como a tragédia se produziu e do porque de estarmos soterrados. Para assim tentarmos , com paciência e astúcia, ir removendo o entulho, até conseguir emergir a cabeça. Podendo até nos ocorrer tomar conhecimento então de que o que julgávamos ser laje, pedra, argamassa pesada, seria apenas papelão corrugado. Que poderíamos até, com algumas sacudidelas tão só, ter sacudido de sobre nós, há muito - poderíamos talvez até rir de sua fraudulenta ameaça.

Se boca intacta para rir nos houvesse sobrado.

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