Mostrando postagens com marcador NOTAS ÀS MOSCAS - Por Vivian Marina. Mostrar todas as postagens
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27 junho 2013

UM POUCO MENOS


Um pouco menos

Nem tanto para direita, nem tanto para esquerda. Há algo no meio disso que destoa. O corpo pede um pouco menos na bagunça de seus movimentos. Na iminência do errar o caminho, no instante do desvio, no titubear do salto, no improviso do gesto, no piscar de olhos – o espetáculo não pode parar para que o corpo se ajeite. A janela que dá para o lado de lá flerta com as linhas, mistura a luz que por ela entra com as luzes dos holofotes. Linha e luz que adentram corpo e jogam com a cena.

Lá fora, nem as tintas, nem as borrachas fazem com que o corpo pare. As câmeras desfocadas querem captar paixões. Lá dentro, as cortinas, ainda fechadas, encerram o momento, esperam que o corpo lhe peça abrigo, mas não sabem que há muito o corpo despiu-se.

As nudezes do grito e do giro se atracam e enroscam no meio fio. E por que ele se chama assim? Meio fio? Onde está o fio todo? Talvez esteja perdido no meio dos fios do público e da multidão que, dentro e fora, querem ver o corpo mostrar seus ensaios. Mas o corpo cansou de ensaiar, ele quer mais que o diabo o carregue para bem longe de tanto ordenamento.


Já cansados os olhos, então, avistaram a parede, pela janela. Nela estava escrito: “Sou aos poucos”.

23 maio 2013

APENAS SEU CORPO


Apenas seu corpo



Permaneceu atônita por algum tempo, sem que pudesse pronunciar nenhuma palavra, era como se todo o corpo dissesse para parar, estar ali, ensimesmado, numa volúpia de encantamento. O diálogo tornou-se monólogo, o olhar somente parecia atento, a boca ficou calada, sem resposta, sem o dizer. Ninguém percebeu nada, será? Para ela era como se tudo aquilo fosse transparente, demasiadamente transparente. Mas não, nada percebeu nada. Apenas seu corpo num por vir.

A boca foi, aos poucos, voltando a ter palavras para dizer. Não que elas fizessem muito sentido. Então, caminharam na direção do... não há lembrança. Os pés seguiam outros pés para não ter de fazer o caminho. O olhar procurava outra coisa, o olhar queria embasbacar-se novamente. O corpo queria que aquele instante tomasse-o por um tempo indeterminado.

Prosseguiu. Era preciso. O gosto do ar que lhe tocara a pele deixou um cheiro de quero mais. Disfarçou. Fechou os olhos e, num suspiro, continuou com as palavras, as pessoas, o chão, as paredes, a porta, os móveis, o respirar, o viver. Apenas seu corpo num por vir.



21 março 2013

GIZES



Gizes



Demoro-me em minhas próprias palavras, passo por elas, apago, permaneço, rearranjo, descanso. Instantes e pessoas que estão em mim e me inscrevem, escrevem, expectoram. Sinto em minha pele esses efeitos, à flor da pele. Já não sei e nem quero saber do que me lembro e esqueço, fato e ficção criados por mim mesma. Tudo mistura-se numa indiscernibilidade que convém ao agora.

Cheiro de canela, gosto de amora, não os sinto, apenas desperto-os pela poesia. O suspiro que encaracola sua doçura e chama um devaneio. A trama tecida pela aranha em sua teia, aquela outra toda açucarada enfeitando e dourando o doce e essa feita de palavras que estão embaralhadas em meu corpo.

O pássaro que leva e traz lembranças, voa espalhando o que não aconteceu, rememorando um futuro incerto. Os tempos fazem-se pelo pensamento, as pessoas fazem-se pelos encontros. E nessa versão, o amor e a vida são um desenho de giz no quadro negro já todo manchado desse mesmo giz – nítido e esfumaçado que embriagam, dilaceram e continuam a ser queridos.




21 fevereiro 2013

RASGOS

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Rasgos


Guardou a folha de papel com esmero, apesar de alguns rabiscos e borrões. Havia espaço para outras tantas escritas, outros rascunhos, outros desenhos em suas bordas e rodapés. Aquilo que lá estava, já impresso, não podia ser apagado, não se prestava ao esquecimento. O que, de quando em vez, acontecia eram rasuras. Os riscos eram uma tentativa de anulação, passando por cima para, então, tornar omisso. De nada adiantava, o encoberto só precisava de um pouco mais de atenção para descobrir-se. Tampouco a borracha foi capaz de exercer a função retroativa, tudo que tentava apagar permanecia em baixo relevo, feito pegada na areia, gravado no papel.

Depois do cansaço, tudo que lhe restava era guardar a folha. Mas isso já havia acontecido antes, só que a falta de esmero fez com que a folha voltasse depressa demais para a escrivaninha.

Dessa vez, o movimento de abrigar acompanhou a desistência de esquecer. Nada ali se esfacelaria. Colocou, com todo o cuidado, a folha dentro do armário, na prateleira de cima, escondida embaixo dos livros.

As lembranças costumam lhe assaltar e os desejos lhe surpreender, surgem vontades. E a folha, mesmo parecendo-lhe ter sido arrancado um pedaço, em sua inteireza, dá o tom para melodia que se quer tocar.


20 dezembro 2012

PALAVRAS E SILÊNCIOS

 
Palavras e silêncios


 
Havia um amontoado de palavras guardadas na estante. Ao primeiro olhar, pareciam todas quietas, inertes, adormecidas – e estavam. Esperavam, pois, apenas serem recolhidas por alguém que lhes desse vida. Esse tal alguém poderia arranjá-las de maneiras muito peculiares. E o que o silêncio daquelas palavras desejava era que fossem tratadas com delicadeza, que fossem escolhidas uma a uma numa composição suave, cheirando alecrim.

Silêncio ambicioso, mas, por que não desejar algo tão sincero? Ele, o silêncio, gostaria que as palavras fossem lidas com paixão, que aguçassem outras combinações, que fossem pintadas com grifa textos, circuladas, marcadas, (ab)usadas...

Enfim, alguém não apareceu. E as palavras, bem como seus silêncios, permaneceram ali, amontoadas na estante. Nenhuma frase fora formada, nenhum balbucio ousou soar, nenhum toque para lhes embaralhar, nem mesmo um vento, uma brisa, para tirar-lhes da estagnação.

Já desacreditadas, as palavras e seus silêncios olharam com o canto dos olhos e viram ninguém aparecer. Era franzino, silhueta delgada, quase quebradiço – será que se deixariam escrever por tamanha miséria? Foi quando ninguém lhes tateou com todo o cuidado, rearranjando-lhes os sentidos, dando-lhes, pois, aquilo que tanto desejaram – um pouco de zelo, para que, então, pudessem não mais estarem amontoadas na estante e sim enfeitadas e adornadas por ninguém!

22 novembro 2012

AOS PEDAÇOS



Aos pedaços


As flores estavam derramadas aos pedaços sem que fosse possível reconhecer suas vivas cores. Coberto, o chão respirava por pequenos clarões abertos pelo soprar do vento. Nada permanecia imóvel, nem os pedaços de flores, nem os pedaços de respiro. Ambos moviam-se como se estivessem dançando, numa coreografia que respondia ao sabor da brisa leve.

Barulhinho bom do arrastar das plantas naquilo que as (des)abrigava. Liberdade de balançar sem que as frestas lhes desviassem, sem que os becos lhes acumulassem, sem que os buracos lhes fizessem cair umas por cima das outras, sem que os desníveis lhes oscilassem a horizontalidade.

De repente, não mais que de repente, as nuvens começaram a chorar seus prantos, numa chuva macia que inundava e arrefecia aquela paisagem de pedaços. Aos poucos, as lacunas respirantes foram aumentando e os vãos entre as flores se alargando. Desnudado, o chão foi sentindo falta da delicadeza dos carinhos daquele floreio, cadenciado entre os movimentos dançantes e o som suave de seu balançado.

Guardadas as sensações sem ressentimentos, logo elas tornar-se-ão outras, abrindo o inesperado para cada parte dessa composição.

13 setembro 2012

MENINICES


Meninices


Era uma vez um menino que queria um pirulito. Aquela circunferência colorida de roxo, creme, verde, azul, laranja e amarelo o fascinava como nenhum doce o fizera. Outro atrativo era poder segurá-lo por um pauzinho enroladinho de branco e vermelho. Como aqueles homens faziam essa explosão de cores, todas juntas, ao mesmo tempo separadas a ponto de identificarmos cada uma delas? Cores enroladas que lhe davam tanto prazer, quanto questões.

Além de muito colorido, era de uma doçura incomparável. Nenhuma bala, essa completamente sem graça por sua monocromia, alcançava seu sabor. E olha que já fizera até um teste, colocando várias balinhas coloridas de uma vez só na boca... não era a mesma coisa. Nem o sabor, nem a possibilidade de segurá-las todas, uma vez mais em suas mãos, afinal nenhuma bala possui um pauzinho enroladinho de vermelho e branco.

Quando pode então ter aquele doce tão desejado em suas mãos, nem pestanejou, abriu-o com todo cuidado e lhe deu a primeira lambida. E lambeu, lambeu, lambeu... Olhou-o, pois, outra vez, para saber se suas lambidas fariam com que as cores se misturassem e, dessa mistura, qual, então, lhe restaria. Para sua surpresa, elas permaneciam intactas, continuando com suas particularidades incríveis e com seu brilho todo especial.

Continuou com suas lambidas para saber qual era a cor que sobraria no final e sua alegria não cabia em si, quando percebeu que nunca ficaria com uma única cor, já que até mesmo o pauzinho, com o qual faria o trapézio de seu circo, possuía duas cores – branco e vermelho!

16 agosto 2012

A MI ME GUSTA


A mi me gusta



Nada do que é você em mim se desfaz”. Tudo permanece em mim sem que nada aconteça. Amontoado de coisa nenhuma e todas as coisas que se enclausuram em mim por nada me pegar de assalto. Esse nada de você, que é também algo de você, fica, para que eu possa lembrar e esquecer. Lembrar subitamente quando a lembrança saltar aos meus olhos e esquecer, às vezes devagar para manter o gosto, às vezes rapidamente para deixar passar.

Pintei um arco-íris em meu pensamento ao lado daquilo que há de você em mim. Leveza e beleza que o arco-íris carrega consigo e espalha nesse lugar em que persiste sumindo. Aquelas cores todas juntas que incitam a contemplação. Encontro entre os raios do sol e as gotas de chuva desenhando no céu arcos coloridos. Sensação de uma mistura entre o esfalecimento e o intocável.

Esfalecimento que convive com aquilo que não se desfaz. Intocável íntimo ao completamente tangível. Fiz isso de propósito para sempre manter o paradoxo entre o que irá ou não esfalecer, desfazer, refazer, in-tocar, tanger, manter, apagar...

Assim, nada e tudo do que é você toca em mim com a mesma intensidade com que se desmancha. Atravessa me trazendo para mim e macula o que eu sou, o que você é, o que somos nós para nós mesmos.

Nada do que é você em mim se desfaz”. Tudo se refaz, inclusive eu e você.

05 julho 2012

O CHÁ


O chá



A água fervia feito um turbilhão e xícara, pires, saquinho de infusão esperavam ansiosos pela quentura que lhes sobem vertiginosamente a temperatura. Ela caia vagarosa carregando borbulhas que explodiam a cada toque com a porcelana. O saquinho cheio de ervas deixava-se desprender sabor e cor na água que lhe inundava. O pires escondia uma colher minúscula que serviria para misturar o chá. Dois torrões de açúcar adentraram na xícara logo depois que o saquinho fizera sua parte. O açúcar dissolvera rapidamente, sem ter nenhuma chance de manter-se torrão naquela liquidez aconchegantemente quente. A colher agora remexia água, sabor, cor e doçura não distinguindo nenhum deles e todos ao mesmo tempo.

O chá estava pronto e a xícara feliz sabia que iria transferir tudo aquilo que sentira à boca que lhe esperava. A quentura da água, o sabor e cor das ervas do saquinho de infusão e a doçura dos torrões de açúcar, tudo devidamente misturado pela colherinha. Mal sabia o que estava por vir.

A boca não podia distinguir todas essas sensações tão ritualisticamente sentidas por aquela xícara de porcelana. As lágrimas que caiam dos olhos que lhe avizinhava confundiam-se com quente, salgado-doce e dissolviam a cor que fora minuciosamente desprendida das ervas do saquinho. Lágrimas que invadiam a boca, tal como o chá e nada permanecia o mesmo.

Nem xícara, nem boca, nenhuma estava satisfeita. A xícara por querer fazer sentir chá e a boca por não sentir ou sentir demasiadamente o sabor da lagrima-chá. As expectativas de que as sensações aflorassem, fazendo sentir quente-cor-doce não foram atendidas, tampouco o acalento do chá para o choro dos olhos marejados.

No dia seguinte os olhos já não estavam mais marejados e sim doloridos pelo ressecamento e a xícara vazia e fria sem ter como proporcionar nada àquela boca. E se você espera que eu lhe dê um final feliz ou alguma explicação, caro leitor, engana-se, não o farei hoje. E isso nada tem que ver com lágrima, chá ou comigo – mas sim com sua expectativa que não poderá ser atendida, não nesse pequeno texto de hoje.

07 junho 2012

TILINTARES


Tilintares



Uma corda perguntou a outra como era possível viverem tanto tempo juntas sem nunca, nem ao menos uma vez, dizerem a mesma palavra? A outra corda respondeu que não eram as palavras o material com o qual faziam sua arte, sua vida. Os tons são o que entoavam essa melodiosa forma de viver.

Uma corda agora que soube dar nome aquilo que se transforma em seu verbo – viver, artear, paralelar, ressoar, desprender, dispender … – e quase como uma convocação, indagou novamente para outra: comprometeremo-nos, pois, tonificar lado a lado?

Outra corda respondeu: não são com-promessas que faremos nossos verbos tornarem-se tons. Mas con-ação, com-posição e con-sideração que entoaremos, mesmo que desafinadamente, as canções que embalam nossos tilintares. Exatamente porque não temos um mesmo tom para oferecer, com-binaremos os nossos e os que virem a posteriori, no dedilhado movimento de nossas vidas.

24 maio 2012

AU CLAIR DE LUNE


Au clair de lune



À luz da Lua, peço que Pierrot me empreste sua caneta para que eu possa escrever uma palavra, só que não posso escrevê-la, porque não sei traduzi-la ao certo. Pierrot, generoso, empresta-me caneta e palavra. Agradeço, pois, Merci Pierrot! Não satisfeita, aflita por não saber me ler, peço ainda que Pierrot, au clair de lune, apprends-moi!

A luz da Lua deve mesmo ser muito perspicaz, afinal, ensinar como escrever nas entranhas do afetar e ser afetado não é uma tarefa fácil. Uma lágrima escorre no rosto daquele que empresta a caneta, saberá, ele, traduzir? O que se traduz na tradução? A palavra, a escrita, o escritor?

Na verdade, não é a tradução propriamente dita, enquanto procedimento linguageiro que atrai, tal processo é capaz de trair aquilo que o texto guarda consigo. Mas qual é a fidelidade buscada? Ela se remete à palavra, à escrita, ao escritor?

Que Pierrot me desculpe imensamente, não preciso de suas palavras emprestadas, devolver-te-ei todas. Para que realmente consiga me ler e escrever de forma apaixonada, eu, Colombina, preciso do Arlequim.

12 abril 2012

REFRÃO

Refrão







Os pés seguiam lentos e claudicantes como se, num vacilo, pedissem ao chão que lhes indicasse o caminho, que lhes evidenciassem a superfície. Que besteira essa estória de manter os pés firmes no chão, afinal de quem é mesmo a firmeza?
Seguidos uns dos outros, os passos lembram a repetição de um gesto. Lembram, por que, na verdade, eles são mesmo repetidos? As diferenças que eles podem engendrar são tão significativas quanto as mesmices.
Nem repetição, nem diferença. Ou repetição e diferença num mesmo patamar de possibilidade. O claudicar não cessara, tampouco pediu perdão à superfície por não saber, quiçá duvidar, da firmeza. Também não parou para reclamar informações, essas recordam-lhe palavras de ordem e não sugestões bem-vindas. Resistiu a repetir, diferenciar, cessar, se informar... criou pelo tilintar das asas de uma borboleta certa música chamada Badaladas.

29 março 2012

REPETIR

Repetir

Por Vivian Marina

Por que há tanta repetição? Ou melhor, por que há tanta tentativa de se repetir algo? Há uma intenção, um almejar de que da repetição possa brotar, nascer o perfeito, a perfeição, a verdade. Mas para quê?

O atleta, a bailarina, o dançarino, o amante e tantos outros repetem seus atos e isso faz aumentar a possibilidade de êxito, de o espetáculo ser esplêndido, de o amor perdurar... Mas há garantias? E o público? O lindo salto? O dia chuvoso? O osso quebrado? A bicicleta? A vista cansada? A dor? O gol contra? A desconfiança? O medo?... enfim, o que fazer com o acaso que parece rondar os atos repetidos?

Talvez fosse melhor não vê-los como repetidos, mas como maneiras de experimentar o novo e esse novo não possui de antemão o julgamento de bom ou mau. Possui, pois, a potência de criação como aliada.

Continua...

15 março 2012

ALIMENTO

Alimento

Por Vivian Marina

O mosquito entrou na sala, a televisão estava ligada num canal qualquer, havia também alguém deitado no sofá que o testemunhava, almofadas jogadas, o tic tac de um relógio sobre a mesinha, a cortina branca que permitia a luz do sol adentrar e aquecer. O mosquito não veio buscar comida, talvez a companhia de outro mosquito, ou outro inseto amistoso, talvez buscasse uma janela na qual ganharia novamente a liberdade, só que a cortina escondia a janela fechada. Pousou então sobre a cortina, na esperança de que houvesse uma fresta pela qual o vento soprasse e a cortina acalentasse-o, daí, então, prazenteira abrisse seu caminho rumo a outros (en)cantos. Isso não aconteceu. Tentou ele mesmo fazer com que a cortina desgrudasse da parede e nesse entre encontrar um vão para o lado de lá. Mas isso também não aconteceu.

Cansado de esperar pelo pequeno buraco não encontrado, retornou pelo caminho que havia entrado naquela sala, ali sim poderia avistar uma possibilidade outra. Foi então que avistou uma flor no jardim dos fundos. Ela também não o alimentaria. Será?

Sua busca realmente não era a saciedade orgânica, era o encantamento. Permitiu-se avistar, pousar, contemplar aquela flor, naquele jardim. Isso o alimentaria de outras formas. O faria querer estar no mundo repleto de belezas e tristezas, as primeiras incitando coisas acesas por dentro e as últimas apagando belezas pelo sofrimento.


01 março 2012

VONTADE

Vontade

Por Vivian Marina


Num certo dia errado, as folhas se mexiam como se quisessem permanecer paradas, as gotas de água pingavam da torneira almejando cair num recipiente qualquer para novamente enclausurarem-se, o sol brilhava simplesmente porque do céu nunca havia saído e o vento soprava quase como se fosse obrigado a tal. A inércia era a palavra da vez, sem impedições e interdições, mas com um movimento que lograva-se contínuo.


Não sabendo direito a razão, o pássaro observou aquele balbucio tedioso. Nem a chuva do final da tarde escapou, de tanto relampejar e do vento obrigar-se a ventar, as nuvens afastaram-se para que nada fosse precipitado.


O pássaro, então, com sua perspicácia, ao invés de imaginar aquele cenário como um vazio de vontade, incitou seu pensamento a torná-lo uma vontade de permanência, desmanchando continuar e parar, fazendo funcionar a espera e a possibilidade do acaso.


16 fevereiro 2012

ARTISTA

Artista

Despertador, cama, escada, cabelos, dentes, rosto, café, mesa, pães, frutas, geléia, manteiga, danone, pratos, copos, xícaras, roupas, privadas, chãos, cozinha, almoço, janta, ida, volta, listas, telefone, TV, computador, livros, ventilador, cama, ama...

O cotidiano tem sua beleza. É veloz como rajada de vento, frágil como dente de leão. Se permite pulos, atrasos, borrões, mas não necessariamente os quer. Os desvios surpreendem com o desplanejado e, vez em quando, lhe apagam com luzes foscas. Nada do que lhe preenche possui garantia. Há, pois, esforços para seus cumprimentos e tanto o que lhe escapa entre os dedos, quanto o previamente previsto conquistam encantos e tropeços.

As fragilidades querem se esconder, ser escondidas, desaparecidas, escamoteadas e em seus labirintos subterrâneos, que até parecem insignificantes, viajam arrepios, lembranças, artes. Do despertador ao amor há mais matérias-primas do que se pode alcançar.

02 fevereiro 2012

AQUELE ZULEJO

Aquele zulejo

Por Vivian Marina


Se acaso anoitecer e o céu perder o azul” encontrá-lo-ei noutros cantos. Num lindo balão que se esconde em nebulosa e vive no mundo Lua. No pedaço de papel em que escrevo um bilhetinho engarranchado quase sussurrando que fui embora. Em tudo o que for nu. Na caneta que grifa minhas partes favoritas. Naquele azul da cor do mar que espalha sais, garrafas, chances. No manto de Iemanjá rainha de pequena imensidão. No amor, que é azulzinho.


As bailarinas poderiam trocar o rosa pelo azul esfumaçando transparências com a leveza e técnica apuradíssimas. É prazeroso pensá-lo em inglês e com s, ritmo completamente sensual. Flores também são bem vindas, desde que venham com seus perfumes azulados. Mas o que me intriga mesmo é aquela casinha de janelas e portinha azuis, na qual nunca nem vi um pássaro adentrar.

Me perco em assaz zumbido ultrajante labaredoso. Ausculto zombetante urro límpido. Azuis que de tão azuis me pintam safadamente o corpo. E já toda azul posso então saudar o céu clareado. Saúdo o céu, porque o mar se encontra longínquo, fora do alcance das minhas mãos. Em pensamento, troco o mar pelo céu para me lançar ao azul quase de metileno e, então, lhe escrevê-lo com torrões de açúcar que nublam todo azulejo.


19 janeiro 2012

AREIA E NEVE


Areia e neve


Uns grãos de areia resolveram dar uma volta num amontoado de flocos de neve. Eles não passaram desapercebidos, seus tons amarronzados em meio ao branco cristalino denunciaram-nos. Mas não tem nada não. Pudera manterem-se ali sem que aquela neve fofa se desmanchasse encharcando-lhes as bordas. Quiçá tornarem-se vidro ou pérola para possuírem mais utilidade.
Exasperaram e cessaram os devaneios. Voltaram, então, à praia para manterem-se chão. Mas o que é o chão, afinal? Descrevemo-lo como superfície em que se de pode colocar os pés, a tinta, a estampa, a cor, o relevo... costuma-se contrapô-la à profundidade, ao que está por debaixo.
Escapa, pois, o encontro entre aquilo que há debaixo para se ter em cima, superficialmente. Bem como, o superficial não é meramente fútil, pode-se ter dele o vão entre a profundidade e os efeitos dissonantes.
A superfície “fluxa” profundidade. Se fosse a neve a passear pelos grãos de areia, ela também não passaria desapercebida por um tempo e quando desmanchasse aprofundaria o líquido que guarda consigo nas profundezas daquele chão arenoso.

05 janeiro 2012

ESTAR SENDO

Estar sendo

Derramadas as flores, os flocos, não lhe restava nada mais do que permanecer estampa. Há não ser que um dia lhe manchassem cores. Acho que mesmo assim as marcas flocadas, floridas estariam ali entranhadas na pele, como se fosse a primavera surtindo sortidas estamparias.

A febre primaveril faz-lhe cócegasJustificar entre os dedos. Despede-se dos linhos lisos para entregar-se às venturas colorantes. O que falta, então? Apenas espaços em branco para deixar passar o ar. O ar? Sim, o ar.

Flor-ar buquês que surpreendem, vent-ar palavras aos mandos e desmandos do pensamento, principi-ar vontades, pint-ar para fora dos limites, ach-ar graça, and-ar à toa, funcion-ar mesmo sem pilhas, encontr-ar por acaso, invent-ar uma dança, est-ar seja lá o que estiver sendo...



22 dezembro 2011

INUTILIDADE E ENCANTO

Inutilidade e encanto

Por Vivian Marina

O inútil do encanto e o encanto do inútil. As reciprocidades nem sempre funcionam bem, nesse caso, entre o inútil e o encanto, arrebatam-se composições flutuantes. O que é (in)útil transmuda e aquilo que se pretende adjetivar persiste corda bamba. Os encantamentos são amores-perfeitos que florescem e murcham e pintam como se fossem explosões de cores pelos ares...
Se resolverem perguntar pelas intensidades, sua resposta poderia ser algo bem perto de: "diz que fui por aí" espalhando potências. Por isso a disfunção do ida e volta, do vice e versa. Os vãos do afetar e ser afetado faz com que pululem tais recíprocos. Aquilo que agarra e faz com que haja envolvimento difere daquilo que solta e deixa ir.
Atrações que se atrevem a atravessar corpos de palavras. Travessas que compõem a mesa preenchidas de alimentos variados, passados de mãos em mãos saciando a fome. Travessas crianças que sapecam e traquinam brinquedos brincantes. Travessas escuras que metem medo e claras que convidam a passar entre uma rua e outra.
Feitiços vacilantes de tantos (a)travessamentos. E "Com açúcar, com afeto", passadiços e êxtases perseguem-se as sutilezas que as palavras podem maquinar.

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