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21 janeiro 2013

FAZENDA NOVA

Por Guilherme Salla



Quando cai o pano
do ano que termina, 

sobe a bandeira
branca do novo ano.

O tecido infindo
do tempo costurado
com linha branca,

cobre tudo e todos
sob a tenda de linho.

Alvejar o passado
com água sanitária do futuro.
Almejar o tecido passado,
alisado e sem vinco
cheirando à lavado.




.

27 agosto 2012

ROTAÇÃO

Por Guilherme Salla




O sol no céu
é sinal
que a noite acaba
todo dia.


Bom sinal,
a noite
um dia
acaba no céu.


O sol é um sinal
que no céu
todo dia
acaba noite.



.

30 julho 2012

PREOCUPAR-SE


Por Guilherme Salla



É preciso preencher
o vazio
com mobilha nova
sobre o piso frio,
a terra que cobre a cova
da ocupação e do afazer.

O trabalho que não basta,
o homem, digno e oco, de gravata
veste seu melhor terno para morrer.

É preciso preencher
o vazio
com a pressa nova
sob o corpo frio,
a terra que cai da cova,
na ocupação do cadáver.


.


18 junho 2012

ÁGUA SALGADA

Por Guilherme Salla




Nada, vejo o não.
Aparece, desaparece.
A vista é clara,
límpida, translúcida.


Nada, a paisagem
insípida, incolor,
o vazio preenchido.


Nada, um risco
na retina opaca
reflete em vão
um resto de luz.


Nada, o navio naufraga.
Nada vê o olho aberto
boiando na cara.




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21 maio 2012

LIXO ORGÂNICO

Por Guilherme Salla







Uma caixa cheia
de panos sujos
na churrasqueira.

Cheia de sacos
de lixo cheios.

Os panos
que os cães
roeram eram
um lençol.




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23 abril 2012

CHOVE-SE

Por Guilherme Salla




Tomar chuva
não mata
a sede
nem salva
ninguém.

A água
descontínua
que desaba
de nuvens,
poças,
lagos,
oceanos
e rios,

Equivalem-se.

Molhada,
a natureza
brilha,
água 
e
luz,
gotas
e raios,

Assemelham-se.

A chuva
cai
do céu,
a luz
cai
do sol,
o que tem sede,
o que se afoga,

Igualam-se.





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26 março 2012

PRESENTE PERPÉTUO

Por Guilherme Salla








Tenho uma cadela
ubíqua.

Por que tudo
tem que ser assim,
agora, cadela?

O que seus pelos pretos escondem de mim?

Como é bom
ver seu rabo
abanando 
para tudo
um não.
.



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12 março 2012

ESCOMBRO

Por Guilherme Salla








Todo peso na pena,
toda pluma pesa
chumbo, concreto,
uma laje despenca
soçobra a estrofe.


Só sobra o pó(ema).



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27 fevereiro 2012

ADOÇANTE

Por Guilherme Salla


Felicidade é
gastrite & café.
Não tenho estomago,
não tem açúcar.

Felicidade?
Não de manhã.
Talvez, aspartame,
pão na chapa.



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30 janeiro 2012

A MIOPIA E O OLHO DE VIDRO

Por Guilherme Salla






Meus olhos de molho
no vidro de compota
decompõem imagens,
palavras compostas.


Memórias em caldas
guardadas em potes
molham meus olhos,
melam meu rosto.


Conservar em leite ou soro.




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16 janeiro 2012

POEMA EM TINTA PRETA

por Guilherme Salla






A escrita passa
por debaixo 
do texto.


A palavra vara,
fura o couro
da obra,
o esqueleto
da letra.


Do que fala o poeta,
senão da tinta
que ainda tem na caneta?




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02 janeiro 2012

RIMA INTERNA

por Guilherme Salla




Eu sento,
escrevo,
e o que quero,
e não o que sinto,
é um berro,
é o que não falo,
eu escrevo.


Não é o que eu faço,
é o que tento,
o que forço,
o meu fraco,
eu sento
e escrevo.


Um escravo
da palavra,
eu escrevo,
eu escrevo,
eu escrevo.


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19 dezembro 2011

POETA QUE LADRA

por Guilherme Salla


Um poema me escapou
da coleira e mordeu
o carteiro.

Mas poeta,
onde está a focinheira
dos teus versos,
pensas que poema é borboleta?

Castra tuas estrofes,
mete uma antitetânica,
pois a raiva
é uma rima
que rosna espuma
nos cantos da boca.

Tranca este metro no canil,
sacrifica este poema
antes que ele ataque
o teu leitor.

Poema que late.




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14 novembro 2011

TECIDO

Por Guilherme Salla



E até quando se pode esperar
quando nada de novo acontece?

Fios, aranhas tecem
redes, teias irregulares.
Nada de bom se aproxima
nem há final que enalteça.

E se nós nos alternássemos, nas rendas,
entre o linho e o vime?



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30 outubro 2011

POEMA INSULAR

Por Guilherme Salla






Lá na ilha
tem mar,
tem água,
tem comida,
ao redor.


Lá na ilha
tem pedras,
tem cavernas,
tem montanhas,
no centro.

Lá na ilha
tem vento,
tem tormenta,
tem tempestade,
em volta.

Lá, na ilha,
não tem ninguém.




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26 setembro 2011

HOMERO NO MÍNIMO

Por Guilherme Salla



Sabe aquele
poema longo,
derramado
e caudaloso,
extenso
e demorado,
feito leito
fluvial
encharcado
de alma e coração?
Não.


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12 setembro 2011

TATO É TUDO





Mimeógrafo nos olhos
e nas mãos dedos fotógrafos
das minhas próprias letras.

Repito-me e repito
A vontade de falar
O novo.

Repito-me e repito
e sou o meu próprio ovo
amparado nas mãos que detêm calor,
mas não a paciência de me ver
choco.


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29 agosto 2011

NOTODOAPARTE

por Guilherme Salla




Tomar parte disso,
Tomar de quem?
Quem toma parte disso?
Quem parte,
Quem toma de quem?
Parte quem?
                                                Disso,quem toma parte,
Quem?


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