19 julho 2010

TUDO QUE SEI SOBRE O NADA

por Rafael Noris


Há um vazio
em tudo que há.

Há um vazio
que está entre o seu olhar
e o olhar meu.

Há um vazio
no copo do bar
que a ninguém preencheu.

Há um vazio
para completar,
um grito que doeu
pra cicatrizar.
Há um vazio

que parece estar
em todo lugar.

18 julho 2010

Vampiragens Literaudiovisuais

Por Daniel Matos



Trova Rubra
por Marcelo Finholdt

Só quem ama não se culpa,
Sente bem com coração:
Sofre, fica, goza e chupa
Sangue de menstruação!

***

por Rafael Noris

I


à Bela Lugosi

Enterrado como um drácula
numa atuação filme Bê;
sorte sua não ver a mácula:
vampiros de matinê.

II




à Edward Cullen

Brilha, brilha vampirinho
Brilha, brilha em seu papel
Vou pegar nesse soninho
Pra esperar Papai Noel

***

O SOL DA MEIA NOITE
Por Guilherme Salla

Há saga que não sangre?

Adagas singram corpos,
caninos cravejam colos,
pasta al dente de sabre.

Hoje, já não se sabe.
Sanguessugas de sungas
chupam cocos nos quiosques.

No crepúsculo,
toma sol um vampiro nu.

O único lugar onde o sol ainda não bate é o cu.

***

Júbilo da Jugular
Por Marco A. de Araújo Bueno

Na Transilvânia, adolescentes não adornam pescoço com piercings. De prata...(suspira o Conde, com fratura nos caninos; sangrando no curativo.)

17 julho 2010

CONDE POP

Sangue, sexo e aventuras. O velho conde Drácula desde sempre foi tema para atingir o coração de jovens entediadas de classe média, sem nada melhor o que fazer. Uma lição de moral para lhes ensinar os perigos do sexo enquanto as deixa excitadas ao mesmo tempo. Amanhã, o velho sexy symbol fara sua visita à chaleira!

14 julho 2010

AS ÚLTIMAS PALAVRAS DE VOVÔ

Por Eustáquio Gomes

    Vovô correu o dedo ossudo pelas lombadas de meus livros, arrumadinhos na estante, e saiu-se com esta:
    - Por que você coleciona tantos livros sobre velhos?
    Estranhei. Vovô tinha cada uma. Talvez não apreciasse sua própria condição de nonagenário. Ou talvez pensasse que era de mau gosto escrever sobre a velhice. Livros sobre velhos? Mencionasse um.
    - Este aqui, ó, "Veneno na Véia". E ainda por cima escrito errado.
    Não pude deixar de rir. Tratava-se de um romance de José Nêumanne Pinto, também poeta, jornalista, e pior, amigo meu. Expliquei-lhe que o título era Veneno na Veia, e não "na véia". Sempre achei vovô um tremendo gozador, mas por um momento pareceu-me que falava a sério.
    Diante da televisão, via um jogo de futebol atrás do outro, não diferenciando teipe de transmissão ao vivo. As partidas se sucediam e ele achava que eram os mesmos jogadores que entravam em campo. Protestava:
    - Vão matar esses coitados. Alguém devia denunciar isso ao Ibama.
    Não se passaram nem duas horas e lá vinha ele outra vez.
    - Como é, continua lendo seus livros sobre velhos?
    Resolvi entrar na dele:
    - Fazer o quê, não é, vovô?
    Com dedos nodosos retirou um volume da estante:
    - Este autor também é seu amigo?
    - Quem?
    - Este tal de Ignácio de Loyola Brandão. (Ele fala Ignácio).
    - Não exatamente. Já vi ele numa bienal, mas não creio que se lembre de mim.
    - Já sei. Não foi ele que escreveu a biografia daquela bailarina de idade avançada? Veja lá se isso é possível. Uma velha saltitando num tablado que nem maricota. Este seu quase amigo é muito imaginativo.
    - Não estou sabendo disso. Biografia de bailarina?
    Bateu na testa:
    - Ah, me lembrei. O título é este: "A Véia Bailarina". Escrito errado também. Devia se chamar Ig-naro em vez de Ig-nácio. Esses autores de hoje são todos uns ignorantes.
    Tratava-se, na verdade, do relato pessoal de Loyola sobre sua hospitalização para uma cirurgia de urgência. Nada a ver com senhoras idosas. Durante os preparativos da cirurgia, que tinha lá seus riscos, uma enfermeira teve dificuldade para lhe encontrar a veia da anestesia. A veia, caprichosa, se escondia e mudava de lugar a cada tentativa, como se não quisesse ser picada. Então a enfermeira explicou a Loyola que quando uma veia se comporta dessa maneira é chamada de "bailarina". Daí o título do livro: Veia Bailarina.
    Expliquei isso a vovô, que estava mais preocupado em reunir evidências de minha estranha obsessão. Apanhou um livro de Ascendino Leite, autor paraibano, cujo nome já é em si uma ambiguidade, e leu: A Velha Chama. O que deveria ser um título poético, evocativo do lirismo da chama de uma vela, para vovô se transformou em outra coisa: na evocação de uma senhora idosa que chamasse insistentemente por alguém.
    - Mas por que é que a velha chama? E quem diabo ela chama? – interrogava, sarcástico. – Ao menos este escreve corretamente.
    Tive de concordar: o livro até que era bom, mas o título era pra lá de infeliz. Vovô triunfava. Receei que ele localizasse na seção das peças teatrais o Antígona de Sófocles e resolvesse suprimir o acento agudo. Seria o máximo do achincalhe. O drama grego convertido na comédia de uma solteirona. Jurei ameaçá-lo com o asilo, se isso acontecesse.
    Uma semana depois me apanhou folheando um dos volumes da História Natural de Caius Plinius Secundus, o naturalista latino – desgraçadamente apelidado de Plínio, o Velho – que morreu durante uma erupção do Vesúvio no ano de 79 d.C.
    - O que está lendo? – perguntou.
    - Plínio, o Velho – respondi.
    - Bom?
    - Interessante.
    Depois de fazer um reparo mordaz sobre o assunto de "minha predileção", perguntou:
    - Quem é o autor?
    E em seguida:
    - Sabe, você parece mais velho do que eu.
    Creio que foram as últimas palavras que ouvi dele.


{A crônica acima foi publicada na revista Metrópole. Encontrada graças aos Arquivos Incríveis de João Antonio Büher de Almeida}


13 julho 2010

AGENDA


AGENDA

Por Marco A. de Araújo Bueno

Para Eustáquio Gomes,colunista das quartas, colega neste De Chaleira que completa sete meses hoje, sem prosa fiada.


Depressão é a quarta da semana
Espremida entre uma segunda terça
E outra quinta que profana
A sexta em que a precipita.

Vem de pressão em pressão, decaída.
E cai, despenca; rebenta balaio consumido.
Precipitação de um fora para o fundo
Liquefeito na evasão insana. Um Sancho
De Quixote prescindido.

E emenda vazios com vazio não cerzido.
E no frio, respinga ainda suor na agenda,
Comprimindo risco, cuspe e fato
Num garrancho esquartejado.
Compreensão? Coisas da vida? Não!
Depressão é a letra tremida.

11 julho 2010

As crianças da Praça da Sé

por Cássia Janeiro

Naquele banco há uma
Mancha.
Disforme, em meio à inocência e à cola,
Ela ri
O riso dos famintos,
O riso sujo
Nosso de cada dia.

Crianças criadas
Pela rua,
Crianças crescidas,
Não nascidas,
Crianças mortas
No ventre nosso.
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