18 outubro 2011

SMS

Marco, urdindo


SMS - SEM MENSAGEM, SEQUER

Por Marco A. de Araújo Bueno

Ao poeta e microcontista M.Finholdt


Enviar-te-ia 'mensagem de texto'; literária, sem devir-mensagem; sem nenhuma serventia.


[Microconto monofrásico de dez palavras urdido em 16/Outubro/2011 ; inédito]


16 outubro 2011

REPRISE: Joseph Hart Vaudeville - FINAL





Já viu? Quer ver de novo, Maria Amélia? Entonces, tome-lhe epílogo, ordinária! Pega o relógio e adianta aí. Perdeste a sensa, Olavinho? Mandela cá. Perdeste a sabença?

Bora nélson. Mandela aqui, ó:


Epílogo


1


Bla bla bla [ ............. 13pt. ] senhoras e senhores. Rufem os tambores, meu povo e minha pova. O pessoal todo lá do bairro. Beijomeliga, Guilherme de Salla.

Pode aplaudir, borocochô. Chô soy o epílogo. Pra que gastar o lero na s apresentação? Chô no soy, o prólogo, chô soy o epílogo. Batequebate o histrião no bumbo. Na vitrola umas várias vozes martela, martelam, martelo e a peruca da Hebe ainda tá de pé. Viva!


½


Prontofalei, Maria Amélia. Bora? Arruma os traste, cabocla que o picadeiro vai abaixo.

Ajunta os troço,

vamo embora pro Bangu.

Buraco quente, adeus pra sempre meu buraco. Bora se acabar é no buraco do tatu. Quéde o folhetim? Já se acabou, Bia Pupin. Joseph Hart é uma nódoa na página atordoada.

O anão tomou um tiro na nuca.


¾


No verão australiano um peixe de aquário

perde água

no ar atmosférico

dum tapete felpudo. O pianista negro? Foi preso. Porra, aí a merda arrebentou, Valtinho. Maria Amélia, a favela foi abaixo. O respeitável público exigiu de volta a grana o tosco a graça o troco. Marmelada, palhaçada, bufonaria, a traça o toco [ . 1pt. ] um leão de tinta, um elefante de papel, uma mosca enxerida no pé da pagina tão aí no assoalho, ó: rasgados.

O negro encarcerado. Palhaços atarraxando cordas e lonas. A caixa? Foi escancarada. Niente. Pouca merda. No oco da tampa aberta apenas um verso tímido palpitava.

Ai, esposas bicéfalas! Ai, trupe de vasta sensaboria! Ai, platéia esfaimada! Acabou o espetáculo [ . 1pt. ] e agora? e apois? e pá? e hum?

e a chave de vidro?

e o talo do agave?

e a verossimilhança? e o crime? e o revólver?

e o ódio?

e as frestas? e as ripas da arquibancada? e o papel?

e a tarimba?


2


Prontofalei, Valtinho, tá na hora de trocar de enredo. Pular fora, ver a carroça se desconjuntar toda lá na verve do barranco. Salamadunga, mexe com a bunda, blífite, blófite, boom.

Mandinga, mandinga, mandiga. Ai, Maria Amélia, daqui pra frente tudo vai ser diferente [ ............................ 28pt. ] e?


e chave de vidro?............................................................. quebrou-se

e a verossimilhança?........................................................ foi pro brejo

e o papel? .................................................................. molhou-se


apaga o abajur, Believe it or note. Blífite, blófote, boom. Maria Amélia, fecha a porta do barraco. Acende o braseiro, bota aquele vestido justo de chita, louraça Belzebu, louraça, Satanás. Pra gente fazer l´amour.


3


Pode aplaudir, vaquinha bucólica de Vírgilio, o úbere pejado, uma lua na testa. Pode aplaudir, Sr. Análise da Cultura em Sociedades Complexas.

Pode aplaudir, vedete decadente da República Velha. Chegou o epílogo, senhoras e senhores. Pode aplaudir, feiticeiro. Pica a mula, almocreve. Cantarola, Marco Antônio, à bocca chiusa:


Se você disser

que eu desafino amor.


Vai tomar no cu,

por que eu não sou cantor.


3 e ¾


Pronto, os palhaços de seus próprios crimes esquecidos, Israelitas no desterro, vão pintar a cara de novo. Roda a roda na estrada e pronto vai começar tudo de novo. Bora, entonces, abrir os papiros do Nilo, Rafa Noris? Bora?

Profanar túmulo de José,

bafejar a múmia de Jacó?

Chegou o epílogo, triste calle do arrabal. Na vidraça, uma chuva redinha. Friamorna. O rádio transtornado afina a voz. Bota outro disco na agulha. Bora apagar a luz. Bora fazer l´amour:


L´amour toujours.


4


Assim José e a família de seu pai permaneceram no Egito e José viveu cento e dez anos. José viu os filhos de Efraim até a terceira geração e também os filhos de Maquir filho de Manasses nascidos sobre os joelhos de José.

Enfim José disse a seus irmãos, eu vou morrer mas Deus vos visitará e vos fará subir deste país para a terra que ele prometeu com juramento a Abraão Issac e Jacó, e José fez os filhos de Israel jurarem, quando deus vos visitar levareis os meus ossos daqui.

José morreu com a idade de cento e dez anos embalsamaram-no e foi posto num sarcófago no Egito.


5


L´amour toujours.







12 outubro 2011

O PAÍS DOS HOMENS DE GELO

O PAÍS DOS HOMENS DE GELO

Por Cecília Prada

A idéia de que ele existia, esse país, e que não era longe daqui, já é antiga. Mas a gente sempre o quer remoto, por lonjuras de neve e gelo – não entre nós. Mas esta noite eu estive entre eles, esses homens. Vi os limites do seu país – logo ali, atrás da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, uma pessoa me mostrava, ali, veja, uma extensão de terra, ribanceira de rio, matogrosso, paraná? ali estavam, as casas, aquilo tão escondido que nunca se soube como as estranhas coisas aconteciam, essas pessoas todas que desaparecem, as famílias chegam a pôr o retrato no jornal, coisas de gente indo à padaria do bairro, ali, no virar da esquina, e nunca mais aparecendo...

– As crianças? As crianças desaparecidas? Não, não sei, talvez não. Em todo caso não posso afirmar, o que vi eram homens feitos, muito altos, absolutamente iguais – só homens, sim – de pele branca como neve, pele de gelo de quem nunca tomou um raio de sol, o cabelo cortado rente feito recruta americano, as frontes estreitas, a testa alta, os olhos apertadinhos, um traço. Russos, talvez. Sem nenhuma expressão. Ali estavam, alguém mostrava para que eu pudesse vê-los bem, e à sua região.

E até me explicavam como as coisas aconteciam de repente, por exemplo isso, você vai entrar num trem, num vagão do metrô – vazio, estranho, como barrancos suas portas, barrancos de terra, barreiras de pedra, então você ia entrar não entrava porque estranhava mas depois voltava achando que era por ali mesmo mas a troca quase imperceptível havia acontecido, troca de entrada ou de fundo de cenário, isso, e pronto, você havia entrado definitivamente na região dos homens de gelo.

Que era no meio do país, e da qual nunca se voltava. Mas eu ainda não estava congelada, eles precisavam me atingir para que isto acontecesse, mas ainda não havia acontecido, e eu poderia escapar – parece – se em vez de tomar direções que me conduzissem ao interior do país eu conseguisse dobrar uma rua (por trás da Joaquim Eugênio de Lima) e me dirigir para a praia, para o mar – mesmo estranhando que houvesse mar em São Paulo, e principalmente por trás da Joaquim Eugênio de Lima.

Então eu ia tomar por um atalho e pensava depois virarei à direita e caminharei para o mar e estarei salva, mas olhei antes de entrar na ruela e vi que ela era interrompida no meio por uma porta (o mapa estava errado de propósito) e pensei que era uma cilada, era assim que as coisas aconteciam, as pessoas se perdiam e desapareciam e eram tragadas por aquele misterioso País dos Homens de Gelo, onde eu ficaria paralisada para sempre, e então pensei que eu evitaria a cilada e desceria mais a rua em que me encontrava (a Joaquim Eugênio) e depois sim, viraria à direita e caminharia decididamente para o mar.

Sim, as crianças desaparecidas.

(E isto sonhou, antes de docemente morrer ao amanhecer, a doce senhora no dia seguinte ao do seu 67º aniversário, que fora completamente esquecido pelos três filhos homens, brancos fortes altos e de olhos amendoados, que há muito não a visitavam.

E coisa que só se soube porque, antes da hora derradeira, ela tivera tempo – e lágrimas – para escrever o sonho no caderno de capa de xadrezinho.)

­­­­­­­­­­­­­

Do livro de contos “Faróis estrábicos na noite” (Bertrand-Brasil, 2009)


11 outubro 2011

Joseph Hart Vaudeville - FINAL

Por Vitor Queiroz



Epílogo


1


Bla bla bla [ ............. 13pt. ] senhoras e senhores. Rufem os tambores, meu povo e minha pova. O pessoal todo lá do bairro. Beijomeliga, Guilherme de Salla.

Pode aplaudir, borocochô. Chô soy o epílogo. Pra que gastar o lero na s apresentação? Chô no soy, o prólogo, chô soy o epílogo. Batequebate o histrião no bumbo. Na vitrola umas várias vozes martela, martelam, martelo e a peruca da Hebe ainda tá de pé. Viva!


½


Prontofalei, Maria Amélia. Bora? Arruma os traste, cabocla que o picadeiro vai abaixo.

Ajunta os troço,

vamo embora pro Bangu.

Buraco quente, adeus pra sempre meu buraco. Bora se acabar é no buraco do tatu. Quéde o folhetim? Já se acabou, Bia Pupin. Joseph Hart é uma nódoa na página atordoada.

O anão tomou um tiro na nuca.


¾


No verão australiano um peixe de aquário

perde água

no ar atmosférico

dum tapete felpudo. O pianista negro? Foi preso. Porra, aí a merda arrebentou, Valtinho. Maria Amélia, a favela foi abaixo. O respeitável público exigiu de volta a grana o tosco a graça o troco. Marmelada, palhaçada, bufonaria, a traça o toco [ . 1pt. ] um leão de tinta, um elefante de papel, uma mosca enxerida no pé da pagina tão aí no assoalho, ó: rasgados.

O negro encarcerado. Palhaços atarraxando cordas e lonas. A caixa? Foi escancarada. Niente. Pouca merda. No oco da tampa aberta apenas um verso tímido palpitava.

Ai, esposas bicéfalas! Ai, trupe de vasta sensaboria! Ai, platéia esfaimada! Acabou o espetáculo [ . 1pt. ] e agora? e apois? e pá? e hum?

e a chave de vidro?

e o talo do agave?

e a verossimilhança? e o crime? e o revólver?

e o ódio?

e as frestas? e as ripas da arquibancada? e o papel?

e a tarimba?


2


Prontofalei, Valtinho, tá na hora de trocar de enredo. Pular fora, ver a carroça se desconjuntar toda lá na verve do barranco. Salamadunga, mexe com a bunda, blífite, blófite, boom.

Mandinga, mandinga, mandiga. Ai, Maria Amélia, daqui pra frente tudo vai ser diferente [ ............................ 28pt. ] e?


e chave de vidro?............................................................. quebrou-se

e a verossimilhança?........................................................ foi pro brejo

e o papel? .................................................................. molhou-se


apaga o abajur, Believe it or note. Blífite, blófote, boom. Maria Amélia, fecha a porta do barraco. Acende o braseiro, bota aquele vestido justo de chita, louraça Belzebu, louraça, Satanás. Pra gente fazer l´amour.


3


Pode aplaudir, vaquinha bucólica de Vírgilio, o úbere pejado, uma lua na testa. Pode aplaudir, Sr. Análise da Cultura em Sociedades Complexas.

Pode aplaudir, vedete decadente da República Velha. Chegou o epílogo, senhoras e senhores. Pode aplaudir, feiticeiro. Pica a mula, almocreve. Cantarola, Marco Antônio, à bocca chiusa:


Se você disser

que eu desafino amor.


Vai tomar no cu,

por que eu não sou cantor.


3 e ¾


Pronto, os palhaços de seus próprios crimes esquecidos, Israelitas no desterro, vão pintar a cara de novo. Roda a roda na estrada e pronto vai começar tudo de novo. Bora, entonces, abrir os papiros do Nilo, Rafa Noris? Bora?

Profanar túmulo de José,

bafejar a múmia de Jacó?

Chegou o epílogo, triste calle do arrabal. Na vidraça, uma chuva redinha. Friamorna. O rádio transtornado afina a voz. Bota outro disco na agulha. Bora apagar a luz. Bora fazer l´amour:


L´amour toujours.


4


Assim José e a família de seu pai permaneceram no Egito e José viveu cento e dez anos. José viu os filhos de Efraim até a terceira geração e também os filhos de Maquir filho de Manasses nascidos sobre os joelhos de José.

Enfim José disse a seus irmãos, eu vou morrer mas Deus vos visitará e vos fará subir deste país para a terra que ele prometeu com juramento a Abraão Issac e Jacó, e José fez os filhos de Israel jurarem, quando deus vos visitar levareis os meus ossos daqui.

José morreu com a idade de cento e dez anos embalsamaram-no e foi posto num sarcófago no Egito.


5


L´amour toujours.




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