24 novembro 2011

ANDARES

Andares


Um dia desses sem mais, indo buscar pão e mortadela na padaria do Seu Peixoto, percebeu que a lua crescente, fortuitamente, lhe sorria. O semáforo fazia um barulho esquisito, quase como se estivesse fora do ar. O ipê roxo estava completamente florido, repleto de pompons rosas, lilases e arroxeados. O cachorro latia e rodopiava a cada passagem de transeunte. Um moço vestido numa roupa de ursinho lhe sorriu com desejo. Entre tantos detalhes, inadmissíveis anteriormente, perdeu-se, os passos falharam e as palavras lhe faltaram...
Ao invés do desespero da perdição, pelos excessos que deterioram a pele, sentiu alívio, afinal, se os pés resolveram falsear seus passos e o que lhe falta não é a direção, mas letras enfileiradas, então poderá, quem sabe, trair os significados das palavras como tropeços nos obstáculos das calçadas.
Trair a ortografia, sem o intuito de escrever erradamente. Querência em questionar o próprio erro, fazê-lo mais do que meramente o oposto do correto. Se para construir casas erradas é preciso torná-las inabitáveis e impenetráveis, então, o que ela queria era poder construir uma casa e uma escrita que coubessem nela mesma.

22 novembro 2011

BO, UM FOLHETIM DE PRETO - 3



Capítulo II
A Midnight Saturday Prayer

Pau torto – um violão velho, um violão ferido, arranhado, o polegar do negão. A blind bruder, eh? O tio cego bate palmas. Oh! go down, Moses! Assovia, a boca num trejeito, um violão qualquer.
Fardo pesado, irmão? Wath? Nuttin´, preacher, a semana já passou. Ainda tá cedo. Noite de sábado, o feitor não tá nem aqui mais, eh? e Moses foi pastor dos rebanhos de Jetro, que é sogro de Moses.. Num chão de poeira batida, noite de sábado. As tias sentadinhas num toco, num canto do terreirão. As tia não vai mais pro eito. Família de branco qué mais é acabar com nóis tudo. Pau torto. Os branco não vem cá.
Moses tava levando o rebanho assim, pra banda de lá. Moses foi bem mais longe que Gilmer, pra banda de lá do ermo. Noite de sábado. Ainda tá cedo pra função, br´er. Aí Moses chegou num monte, o monte do verdadeiro Deus, Horebe, é o nome do monte.
Piche, breu – a pele escura, a pele estragada, arranhões – estrelas no frio da noite da Geórgia – mãos feridas, o espinho do algodão num canto de cada osso. O pastor cativo tenta esconder a barra das calças, o rasgão. Aí Moses tava lá no monte Horebe e sabe o que aconteceu? A função vai começar, já chegou a folga dos preto, oh preacher, já chegou o sábo, eh?
Cada crânio, cada omoplata, cada vão da semana, eh... daqui a pouco, a midnight Saturday prayer, daqui a pouco vai estralar – noites do Congo, noites do Congo – gritar, bater na poeira e cair. O baque seco no terreiro. Palmas, é noite, bruder, já é noite e os branco não vem cá.
– Já acabou, irmã! Não tem mais carrego nos ombro, ninguém precisa pegar algodão pro sinhô, que nem as noite do Congo, irmão, eh? Moses foi lá tirar os irmão do cativeiro, não foi?


Batida de palmas, o pastor já arranha a glote. Oh, preacher! Moses foi lá pro monte Horebe e voltou pro Egito tirar os irmão do cativeiro, não foi? A fogueira tá acesa pro ring shout. Não foi? O verbo ali, na merda na fome na moléstia no cativeiro na miséria no terreirão empoeirado, se fazendo carne. Nos pés da assembléia, hallelujah! Moses aparece de novo. Go dow, Moses! uma família só de branco, bem umas vinte pessoa. No fervor da congregação, yeah you is a nice parcel of christians, Moses também pegava algodão de sol a sol. As noites do Congo,


Oh! go down, Moses,
Away down to Egypt's land, eh!
And tell King Pharaoh
To let my people go

um batuque surdo, sem tambores toma a noite do sábado, uma família de branco e as senzala cheia de preto do Congo, nóis tudo. Nóis african. No terreirão Moses apascenta as ovelhas de Jetro, seu sogro, outra vez. Hallelujah! Os isrealitas carregando os fardos de algodão na cacunda. O jeito do Egito batia na mão, nos irmão tudo de Moses. Let my people go. Na noite do sábado, na noite de folga dos . Moses vai até faraó amanhã, Moses prende e arrebenta, palmas no terreiro. O polegar no violão. A fogueira acesa, as brasas estralando. Away down to Egypt's land.
Numa roda do terreiro, os cativos batem ferramentas e calcanhares no chão, são ancinhos, são enxadas, são vassouras. Oh! go down, Moses! O baque dos ossos no chão, noites do Congo, noites do Congo, noites da Geórgia. O baque dos ferros do cativeiro.
When Israel was in Egypt´s land. O pastor grita. Let my people go, a assembléia vai responder chorando. Oppres´d so hard they could not a-stand. Let my people go. Noite de sábado. A midnight Saturday prayer.
– Aí Moses tava lá no monte Horebe e sabe o que aconteceu?

... E AÍ? O QUE ACONTECEU, IRMÃO? QUER SABER? QUER SABER MESMO? NO DURO. ENTÃO...
NÃO PERCA!NA TERÇA-FEIRA, DIA 06 DE DEZEMBRO, A APARIÇÃO DE JEOVÁ EM TODA A SUA GLÓRIA, NUM BAZAR DO CAIRO OU NUM TRISTE SENZALA SULISTA.
VOCÊ NÃO PERDE POR ESPERAR...



20 novembro 2011

O COLETIVO E O BOM FERIADO - ZUMBI DOS PALARES E OUTROS ZUMBIS

                                            VIDA ES SUE¨NO (Calderon de La Chalera)

Arriscamos supor: Quem nos visita, além de nós e nossas egóicas extensões, seja também autor; um olho nos textos, outro na carpintaria voltada à blogosfera literária.

Pois bem, escrevemos para o seu insuspeitável terceiro olho. Pouco ocidental, nada acidental. Arriscamos entretecer nossas reputações, nossos inéditos; nossas ilusões estéticas. Sobretudo – arriscamos.

Partimos de uma base consolidada em experiências de produção literária (rodas de leitura, oficinas, curadorias articuladas) que cravou vínculos fortes entre escritores, artistas plásticos, fotógrafos e ferventamos uma matriz de publicação; nada acidental!

Eis aqui a Chaleira virtual, em suporte já testado e querendo vapores de tinta, produzindo peças inspiradas pela aura advinda de nossa matriz comum. Voltada à sua leitura, escritor hipócrita, - nosso semelhante, - nosso irmão.

Por Marco A.de Araújo Bueno

É.

19 novembro 2011

SUICIDA



- Anonimatou-se o rapaz.
- Quem?
- Aquele varrido lá da rua... Lembras não?
- Veja você... Mas morreu de quê mesmo?
- Tomou um golpe de cerveja, ficou a esmo, mas se dizia morto de feliz.
- Espere aí, então... Onde estamos agora?
- Porta afora da vida.


17 novembro 2011

SONETO XXXVII





Cheira a chuva na terra aspirando mais vida

Dedicado à Karina da Cruz D'Antonio.


Por Marcelo Finholdt


Cafezinho, manhã, vida nova, romã,
Eucalipto, você, outra vida... por quê?
Ouça quem vem dizer, só dizer de você,
Com carinho, romãs, boas taças, manhãs.

Livro novo, violão com madeira de ipê,
Flores novas do mato exalando o amanhã...
Obsessões, ou talvez, uma febre terçã,
Das visões, do olho só, procurando... cadê?

Cheira a chuva na terra aspirando mais vida,
Outra vida renasce esperando o desnudo,
Terra, chuva, outro cheiro, outro cheiro e a ferida...

Logo é reconhecida... estremece em veludo.
Nu, desnudo, alguém tece uns versinhos na lida,
Vê com olhos, com boca, e uns ouvidos de mudo.

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