07 março 2012

HAICAI DE VERÃO

Por Alvaro Posselt

                                            Foto por - Ricardo Pozzo

Ganha um novo brilho
o portão enferrujado –
Lua de verão

06 março 2012

GAGUEIRA FUNDAMENTAL - MACROCRÔNICA/MANIFESTO

                                                         R.Magritte

   Ga.guei.ra funda.mental

   Por Marco A. de Araújo Bueno


A expressão não é minha, pertence ao G. Deleuze, filósofo contemporâneo que bate duro contra os conformismos conceituais e fustiga as bizarrices desta nossa hipermodernidade tão tagarela, tão exuberante em respostas pra tudo e tão... lacunar. Lacunas abissais de sentido, no jeito de consumir e expressar idéias e afetos. Gagueira, aqui, não é coisa de fono nem de generalismos psicológicos. É atitude! Forma de resistência contra a fluência domesticada. E foi outro filósofo de prenome abreviado “G”, outro Gilles, o Lipovetsky, quem cunhou “hipermodernidade” bem a propósito de uma analogia com hipermercado...
Não é minha, mas me pertence por dois motivos. Primeiro, eu a adotei, e só não a tenho praticado pra fazer compra básica, ir ao banco ou abastecer o carro, coisas que não me tomam muito tempo. Segundo motivo: estou ficando gago, cada vez mais gago, e de propósito!
O pano de fundo da resistência proposta por G.Deleuze é a obra de arte, e ele vai fundo na postura de transgressão, que constitui a potência que a demarca, na linha direta de Nietzsche. Pega o “ponto G”, pra não perder nem o trocadilho nem a alusão a uma espécie de orgasmo do sentido, embutida em seus “agenciamentos” filosóficos. Para o que me interessa aqui, o contexto é a comunicação, e a postura (esqueçam “atitude”, palavrinha já reabsorvida e estéril) é a de emancipação. De quê? Do tédio, no mínimo. Ou, pra ficar mais elegante, da colonização dos meus atos de fala, por uma espécie de eloqüência pré-editada, essa que me obriga a dizer conforme. Tirante as saudações (Alô! Bom dia!, Belê?) e a burocracia dos formulários verbais, considero um delito grave preencher silêncios com a verborragia prescrita pela cartilha do papo-jacaré, contra a fobia do não ter o que dizer. Pois é prescrição mesmo, com poderes de regulamentação do ritmo, da velocidade, da adequação às circunstâncias e, pior...do que deixa de ser falado pelo fluxo da própria falação.
Falar pra manter-se incomunicável, já que, tamanha é a excessividade de tudo, que a própria ameaça de silêncio... conspira. A gente passa um rodo nos fragmentos de informação do dia, retira-lhes qualquer contexto, separa tudo em bloquinhos e gruda neles alguns adesivos ou ícones, como rótulos bem práticos. Agora é só esperar uma sinalização, uma ameaça de conversa e pronto, o “kit blábláblá” estará operante. Contemplamos pouco, refletimos menos ainda. E falamos pelos cotovelos. Incomunicabilidade - palavrão, pois sim, hiperpalavra pra palavra pouca.
Estamos vivendo rente ao fantasma dos fatos; os fatos perdendo sua carga de significação para as imagens e estas, pulverizando-se, substituindo-se umas às outras, viram borrões isolados. Para nos orientarmos, apontamos para borrões e emitimos ruídos. Quando decodificados, temos a ilusão do diálogo, da troca simbólica. Na verdade, permanecemos mudos.
Pois estou me desobrigando de responder a esse padrão de mutismo ruidoso. E apresento-lhes esse meu “des-falar”, sob a forma de uma gagueira subversiva. Como funciona?
Bem, de cara é necessário uma não aceitação fundamental: a de submeter o que há de singular em mim (dimensão estética) e de outrem (dimensão ética) ao idêntico. Não se trata apenas de “respeitar” a diferença, é preciso trazê-la à visibilidade escancarada, cutucá-la com a vara curta do silêncio, das pausas longas, da recusa ao tatibitate marmanjo habitual. Isto é gagueira.
Ao contrário do que se pensa, os vacilos verbais recheados de gíria e outras embreagens coloquiais (dos muito jovens, por exemplo), a titubeante falsa modéstia dos “operários-padrão” da linguagem dominante (das celebridades sob holofotes, por exemplo) e outros estereótipos da má fluência ensaiada (do pseudodiscurso acadêmico dos economistas, da pseudo-religiosidade dos vigaristas do ramo da fé, da indignada “moralidade” de políticos golpistas-o “exemplo”, por excelência...), nada disso é, aqui, o que chamo de gagueira. É tudo jogo de cena ou malvadeza retórica. Comparados às esquisitices de linguagem que brotam nas salas de bate-papo, estas lhes superam em riqueza pura, verdadeiros diamantes do tesouro da Língua, e ponto.
Só pra ilustrar a idéia dessa gagueira, imaginem o Pivô, o competente entrevistador da TV francesa (separando bem o Jô... do trigo), todo hiperbólico e loquaz entrevistando uma conhecida escritora. Ele esperneia palavras, pergunta o imperguntável, abusa do lugar-comum, vertiginosamente palavroso. Ela (incomum, singular, reflexiva) subverte o tempo televisivo, comete longas pausas, pensa longo e responde curto, reticente. Questiona-se vagarosa e docemente, repete finais de frases, incorpora e sustenta a fragilidade do dizer, silenciando a platéia. E Pivô? Pouco riso e muito siso.
Responder questionando-se a si próprio no outro, eis uma nobre estratégia de gagueira. Uma “nanoprofilaxia” contra os microtraumatismos de todo falar esvaziado. Gagueira.
Dizem que é coisa de analista. Concordam com isto? Faz mal bater um papo assim aflito com alguém? Aflita, Hilda Hilst confidenciou-me certa vez (se é que faz sentido juntar confidência com Hilda Hilst...) que um escritor não deveria dar entrevista: “(...) é muito difícil pra mim... falar, falar das coisas que não se esgotaram no escrito (...) falar de mim, que escreve...”.
Inventaram um guarda-chuva que avisa quando vai chover! E se não chover? Você o carrega fechado, claro, até ele avisar. Então você o abre até que pare de chover e depois o fecha quando a chuva parar, embora ele não avise que a chuva parou. “Será que vai chover?” Já dizia Herbert Viana - o compositor, e emendava: - “Eu acho que vai chover”.A música falava da mulher que “despistava” o tempo todo, diante de um cara carente de atenção. E a gente anda carente de inventividade. Gaguejar é resistir, deixar pistas de si pelos cotovelos e descobrir toda a carência sob guarda-chuvas que não avisam nada, e vivem esquecidos pelos cantos.

04 março 2012

BRECHÓ DE CARNE



Brechó de Carne

 Por Paula Miasato


Não era uma puta o que ele queria, mas era uma puta o que lhe restava depois da madrugada de tentativas frustradas. As cinco na manhã depois da mesa forrada de garrafas vazias além da cadeira também vazia a sua frente, a mulatinha parou e perguntou: moço me dá um cigarro?
Devia ter uns 14 anos. Cabelo mafuá curtinho, mini saia encardida curtinha (padrão da moça), chinelos de borracha gasta protegiam um par de pés rachados e feios. Sustentava lábios carnudos e ressequidos, sem batom. Nessa hora já devia estar cheia de porra seca pelo corpo. Era puta. Uma putinha nova encardida viciada de merda e que não usava batom. Fez programa a noite inteira e não tinha grana pra comprar cigarros. Vagabunda.
Enfiou o cigarro na boca dela. Tinha dentes grandes e amarelados. Acendeu. Deu o primeiro trago estendendo um olhar de convite. Mordeu o lábio inferior. A língua branca umedeceu os lábios. Um cheiro que coisa usada, de brechó. Brechó de carne.
Pediu pra pendurar a conta e a puxou pelo braço. Ela veio sem questionar. Na outra mão o cigarro pela metade ainda aceso. Andava estralando os chinelos de borracha. Aquilo o irritava, dava ódio. Ficou feliz. Precisava disso pra fodê-la.
Entre as ruas Caieiras e Assis havia um beco escuro bem apropriado. Não levaria aquela putinha fedida pro quarto dele, mesmo que ele cheirasse a bolor.
Grudou no cabelo mafuá dela pelas costas e colou aquela cara esporrada no muro enquanto erguia a sainha encardida. Com a boca meio espremida pelo muro ela disse: Dez reais moço.
É pra fumar?
Não. É pra cheirar.
A saia erguida liberou o cheiro de merda. A bunda dura, as coxas grossas. A pele grossa. Empinou o rabo.
Fode moço. Fode meu cu.
O pescoço exposto pelo cabelo mafuá curtinho e os calcanhares brancos e rachados. O cheiro de merda. As baratas passeando pelo beco na noite de verão. Resto de comida azeda pelo chão. Alumínio de marmitex. Cachimbos.
Enfiou... Enfiou a mão no bolso, sacou uma nota de vinte reais. Encaixou entre as bandas da “bunda PF”, colou a boca alcoólica no ouvido brilhante de cera e disse: Vai cheirar seu lixo, e me faz um favor, morre.
Largou a mulatinha sem nome ali mesmo no beco e voltou pro boteco.
Não olhou pra trás.
Ah! A loira gelada e fresca... Ela não custava dez reais, nem cheirava a merda.



03 março 2012

FILME HOLLYWOODIANO É TUDO A MESMA COISA! O ARTISTA E O OSCAR


O Artista, grande ganhador do oscar, o mesmo filme já filmado milhares de vezes, seja mudo, falado, preto-branco, a cores e agora também em 3D. Esse é o tema do Orgasmo Audiovisual.


02 março 2012

BANDEIRADAS

Bandeiradas


A vida me disse:
- Não, Não, Não, Não, Não, Não...
Olhei pra ela – reverenciei –  e respondi:
Sim!

01 março 2012

VONTADE

Vontade

Por Vivian Marina


Num certo dia errado, as folhas se mexiam como se quisessem permanecer paradas, as gotas de água pingavam da torneira almejando cair num recipiente qualquer para novamente enclausurarem-se, o sol brilhava simplesmente porque do céu nunca havia saído e o vento soprava quase como se fosse obrigado a tal. A inércia era a palavra da vez, sem impedições e interdições, mas com um movimento que lograva-se contínuo.


Não sabendo direito a razão, o pássaro observou aquele balbucio tedioso. Nem a chuva do final da tarde escapou, de tanto relampejar e do vento obrigar-se a ventar, as nuvens afastaram-se para que nada fosse precipitado.


O pássaro, então, com sua perspicácia, ao invés de imaginar aquele cenário como um vazio de vontade, incitou seu pensamento a torná-lo uma vontade de permanência, desmanchando continuar e parar, fazendo funcionar a espera e a possibilidade do acaso.


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