08 maio 2012

TERÇA RIMA



A TEOFANIA
parte 3




Balidos, a estrela da manhã 
um vento bravo, as máquinas do êrmo.
Seu sogro, sacerdote em Madiã

nos vestígios duma trilha gemia, enfêrmo,
outeiros e penhascos. Ardia agudo
o espinheiro, enquanto, noutro têrmo,

doutros sóis, mil entranhas de lanudos
carneiros, apascentando Moisés
o rebanho de Jetro, viu em tudo

do Egito o espelho invertido, viu os pés
de Faraó nas pontas da omoplata
e debaixo da língua de Manassés. 







06 maio 2012

DiaDORim

brassaï

Era a múltipla face de monólitos esquecidos na caverna de ossos, que se mexia vibrante entre as veredas. Transbordava um vazio negro, tão profundamente indivisível, como se qualquer um que ali navegasse e encontrasse na madrugada sem luar, a junção do céu e do mar. Porque o mar às vezes é negro quando calmo, não sabia disso? É como estar navegando no espaço sem estrelas.

O sorriso que comportava essa explicação ocultava a dor da ausência de ser inteiro fazia-se vagar entre o chá servido, naquele pequeno espaço oriental, onde a dança lenta das xícaras e olhares fugidios temperavam o ar com perfumes, simplesmente para saber o que vai dar. Mas não era impregnado pelas cores vibrantes necessárias em diversos corpos feitos de tinta, No entanto não são apenas os caracteres frios de uma folha branca e a ponta de uma bic, acredita-se que era nesse meio que os corpos suspensos queriam estar.

Afastava meu pensamento do que desenrolava ali, naquele colchão, via de longe a mecânica se canibalizar pela vontade de preenchimento, mas ambos sabiam que seus vazios abissais o afastavam e os comprometiam a uma amizade, e não a uma possível paixão. Ele começara a querer o corpo dela, ela não queria corpos, ela queria não contemplar os abismos dela, estando com ele dentro, mas ele estava tão envolto em suas feridas maciças que ela contemplava seu negro escorrer assim como escorria seu gozo nas pernas abertas. Assim como chegava ao orgasmo, porque queria chegar ao orgasmo, mas sem amar o outro que ali dividia aquele momento. Não conseguira amar, não conseguiria mais. Pela primeira vez em anos, ela abria as pernas sem o peso das sentimentalidades, mesmo querendo abrir as pernas para um preenchimento sem amor, ela queria não observar as feridas, e não sair de lá mais puta que entrou, não transformando aquele outro em mais uma galáxia que era engolira.

Era inevitável, ela era a puta que foi ali gratuitamente abrir as pernas, ele era uma galáxia cheia de cor a ser dragada. Ela dragou, e caiu no seu abismo.


Mas todo o momento da queda, ela procurava brumas, o nevoeiro gelado que invadia as rachaduras, deixando seus espaços esquartejados preenchido de nuvens plúmbeas. No caminhar seguia-se o peso do retumbar das palavras de outros tantos corpos tatuados invisivelmente em sua pele, que cheirava a sexo, pele que não era a dela essencial, pele fragmentada e friccionada em amores expressos. Só, sua fuga era concreta, era inteira em seus pedaços e buscava mostrar-se assim, partidos para alguém que não tivesse o medo de olhar para o vazio. Ela foi, foi vazia de encontro às nuvens que permeiam desfiladeiros, ela caia e caia dentro de si, sabendo que o vento passava por entre as veredas, causando a sensação de enchente.

05 maio 2012

CHEIA

                                                                          Por: Paola Benevides


Ó, Lua! Pesa sobre mim tua redondeza como se eu fosse rua.
Deixa eu ser teu asfalto de mar iluminado por teu farol imenso.
Quero o ar suspenso, mitigar o fôlego num beijo entre-nuvem.
Seremos cúmplices do que for eclipsado.

Ó, Lua! Faz de meu espírito o teu sol de reflexos multicolores.
Prisma de maré a alternar mulher em seus ciclos com lobisomem.
Somem contigo aqueles pássaros que carregam meu peito no bico.
Dá tua cor a meu leite pasárgado.

Ó, Lua! Saia para jantar com a noite à luz de estrelas, velas de barco.
Navegue pelo vinho da saudade e me saúde com alguns versos.
Submersos no equilíbrio, tu e eu tão próximos, satélites aos saltos.
Serei tua Krakatoa nesse perigeu lunático!


03 maio 2012

NO VENTRE DA TERRA






Por Marcelo Finholdt  

Sempre imagens vão... quando a vista cerra,
Sempre foram, sempre assim, sempre, sempre.
Sentimentos: nascem, morrem no ventre...
Sentimentos vão... pois a Terra enterra.

Sempre enterra a Terra... com ou sem sol,
Sempre assim, sempre sem mácula alguma.
Sentimentos: correm, voam são plumas... 
Sentimentos são... o sol no arrebol. 

Sempre o fim gera à Terra outro ser adubado,
Sentimentos não são transportados no vento,
Sempre assim vejo mesmo o final deste lado. 

Sentimentos são bons, mas são só de um momento,
Sempre assim... mas se vão a outro canto estrelado 
Sentimentos se vão, mas aqui sim: cinzento...

02 maio 2012

01 maio 2012

BUTÃO E LULLISMO




Butão e lullismo


                                                           Em atenção à auspiciosa entrevista recente do ministro Singer.


                                            DESENHO POR - Felipe Stefani



Pensava no Butão, no Reino do Butão a sete mil metros de altitude, lá nos Himalaias do oriente, entre a China e a Índia, sem mar algum. Você pensou num montão de homofonias, é razoável. Inda mais assim, aproximado de um “ismo” tão recorrente presidindo correntes de idéias, associações de pensamentos e atitudes, essas coisas todas. Mas o “butão” aqui não é de se apertar como num controle remoto e implodir o eixo da Economia, tal como se imaginava com a “bomba”, nos tempos da guerra fria.
Mas vamos indo com calma, uma calma quase tibetana para lembrar que houve um mestre de capela, um compositor, nos tempos de Luis XIV e sua corte e as danças instrumentais de então, até porque, em nossa macroeconomia, não se dançou conforme a música, tenha sido qual for no tempo recente. O nome dele – Lully –, seus seguidores – “lullistas”. Eis o que torna razoável alguma confusão, esta que já vai parando por aqui. Mesmo tendo em conta que as danças que Lully “inventou” para a abertura de suas óperas, aí sim, eram tão populares como as cantigas de rua do século dezoito.
E daí? Daí que, durante toda a Idade Média e até mais adiante, já no período renascentista, as danças eram a única forma de música instrumental e os instrumentistas que acompanhavam os dançarinos eram “classificados” como músicos do povo, meio “desincluídos” da categoria de “grandes” músicos. Então, se era em inclusão que pensava (e, convenhamos, só pode haver inclusão se houver inclusão na Economia, com toda essa conversinha de “respeito às diferenças, etc.), então voltamos ao Butão e pronto.
No Reino do Dragão, como é chamado, instituiu-se, a exemplo do “IDH” (Índice de Desenvolvimento Humano) enquanto baliza da saúde econômica de um povo, pois lá se inventou o “Índice de Felicidade”. E nem por isso deixaram de incorporar a ele o carcomido “PIB” e outros indicadores econômicos. Soa como música, pois não?
Agora veja você, aliás, esqueça o “veja” – ouça você no que deu toda a movimentação fervorosa dos alunos e seguidores de Lully: deu nesse gênero a que se chama “suíte para orquestra”, o mais livre e mais aberto da música barroca; coisa sofisticada, difundida pelos franceses em toda a Europa até chegar à matemática musical de um J.S.Bach! À harmoniosa depuração da alegria dos sentidos e não há neurocientista honesto que o possa refutar.
Claro que as pessoas do século dezoito não dançavam ao som das suítes instrumentais, mas o gênero suíte para orquestra conservou a medieval função recreativa da música de dança e, curioso: de tão utilizada como música de fundo em suntuosos banquetes, passa a se chamar, na Alemanha, Tafelmusik que quer dizer, saberia você? Quer dizer exatamente “música de mesa”.
Mais do que há dez ou quinze anos atrás, se nos impõe agora uma pergunta; mais que isso, - um questionamento - aquele que se tornou, a nós, bem pertinente, e justo pela via musical: - “Você tem fome de que?”.
A propósito, a ceia no seio da sua família...Que ceia?
E isso de “inclusão”...Que seio?
E “que família?”, perguntaria. Não.
Não perguntaria
Que algo de Butão “seja aqui”, antes que aquele deserto enorme alcance a China. Se é que você acompanhou o raciocínio sobre o “lullismo” e não andou comendo algum “L” por distração...Ou pelo hábito, anti-lullista, de “ligar o botão do f...-se” para tudo que não lhe invada a soleira da porta ou lhe ameace de morrer de sede.

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