15 maio 2012

DECA EM DUAS PARTES - DESERTOR NO DESERTO



                                                     Desenho por Felipe Stefani

 Desertor no Deserto*

Por Marco A. de Araújo Bueno


PARTE I


Doze anos, palestino fronteiriço, dois de treino. Paramentou-se: explosivos, celular...


“Desertor no Deserto” – PARTE II

Ao toque, sacou dispositivo junto. Sucumbiu; deserto. Tel-Aviv/paraíso - Doze km!

*Título: "Desertor no Deserto" (inspirado no filme "Paradise Now", de Any Abu-Assad-2005")
Autor: Marco Antônio de Araújo Bueno

[Comentários de Marco Antônio de Araújo Bueno:

Para a minha Coluna - BREVIDADES - - Microconto de dez palavras dividido em duas partes. Cabe ao leitor, diante das circunstâncias históricas recentes, planejar seu próprio modo de recepção da peça. Para tal, deve programar o distanciamento ideal entre as leituras das respectivas partes (I e II) do microconto e não se deixar iludir, seja pela extensão, seja pelo teor da matéria narrada. Conjecturas avizinhadas são oportunas. ]

13 maio 2012

SORVETE DE CREME

Sorvete de creme

Bacharelado em Direito: cinco anos. Exame fudido da OAB para exercer a função de advogada. Quatro anos de experiência na advocacia para provar habilitação. Concurso Público pra Magistratura Estadual. Experiência mínima de três anos no exercício da advocacia.

Após aprovação em Concurso Público para o cargo de Juiz Substituto, um período na escola de magistratura para aperfeiçoamento. Substituiu o juiz titular da Comarca ou Vara federal onde havia muita demanda judicial. Assumiu a titularidade da Comarca, conforme sua habilitação criminal.

Meritíssima. Classe. Poder. Status. Respeito.

Para exercer sua função no fórum, passava por três andares. Não cumprimentava ninguém que encontrasse pelo caminho que não tivesse o mínimo de classe, estudo e uma situação financeira razoável, mesmo assim o fazia com absoluta frieza e cordialidade.

Por baixo da toga preta algumas coisas que as pessoas não vêem e nem imaginam, mas existem. Sexta-feira era o dia da calcinha fio dental de oncinha que ostentava pequeno laço na bunda, combinando com o sutiã (nunca repetia as cores, sempre uma pra cada dia). Na coxa o fio dourado, para destoar da toga. Sempre de sapatos de salto fino fechados, pra esconder o vermelho do esmalte que provocavam em seus pés uma aparência semelhante a pequenos cachos de pimenta.

O louro do cabelo se destacava sobre a toga.

Respeito.

Ela julgava. Ela decidia.

Em casa um marido do casamento bem sucedido de 15 anos. Médico Ginecologista. Sua vagina estava sempre em ordem, ele prezava muito por ela, afinal era a vagina da sua mulher, tinha que ser limpinha. Comia de vez em nunca, mas prezava pela saúde da danada. Na verdade apreciava mais examiná-la que comê-la.

Respeito.

No fórum, ela preferia a pica rançosa e fedida daquele faxineiro que não tinha nenhuma noção de higiene. Ele já sabia... Sempre muito atento aos intervalos, logo que a via sair mexendo a bunda solta por baixo da toga, dava uma leve coçada no saco, ajeitava o pinto dentro da calça do uniforme e seguia para o banheiro masculino. Ela entrava depois, mandava ele para o reservado de deficientes e socava a língua na boca banguela dele. Era a primeira coisa que fazia. Passar a língua naquela gengiva desdentada a melava no mesmo instante. Ajoelhava no chão mijado e enfiava o cacete rançoso na boca até a garganta. Chupava com gosto, estalando os beiços, como se aquele pau sebento fosse um sorvete de creme. Chupava até vê-lo brilhante, vermelho e bem duro, só então levantava, empinava a bunda e oferecia a buceta saudável pra pica podre. Valorizava a profissão do marido. Ambos sorriam. Ela com dentes, ele sem. Ela fechava os olhos e abria a bunda, ele abria os olhos, afastava o fio da calcinha e enfiava de uma vez só, sem dó e socava com força. Ficava olhando o pau entrar e sair enfeitado pelo lacinho de cetim da calcinha. Aquilo dava um tesão fudido nele. Aquela vadia estudada e arreganhada mandando ele gozar logo para voltar ao trabalho... Puta. Gozava em três jatos e respingava três pingos sobre a bunda.

Ritual.

Respeito.

Ela julgava. Ela decidia.

Ele a fodia do jeito que queria.

Ela não julgava, nem decidia.

O ginecologista era limpinho e cheiroso...

Ela julgava e decidia.

Respeito.... À profissão do marido...

Os três pingos de porra secavam no decorrer do julgamento e faziam a toga grudar na bunda sentada.

Após bater o martelo saía rebolando o rabo, agora colado na toga. Ele fazia de propósito, ela sabia e gostava.

Ela não decidia, nem julgava.

Respeito.... Ao instinto.

11 maio 2012

A O OA


A o Oa


A espera
As horas

O infinito
O caos

Ser
Essência

O encontro
O toque

As almas
A unicidade

Segura!

09 maio 2012

UMA PERSONAGEM CHAMADA PALAVRA


UMA PERSONAGEM CHAMADA PALAVRA



Linguagem, é consciência das coisas.
Estranhamento do mundo, rabisco fino de esferográfica
pinçando a bruma da realidade.
Extraindo a alma da palavra – o espelho do discurso.

É caderno aberto em cima da mesa, permanente
                              – na madrugada.
É poder de penetração.
É desejo de ver o fundo.

Agreste, no descampado, a palavra.
Dissimulada atrás das cortinas do Tempo.
     Sobrepesante no que se exige, em demasia.
     A palavra: é a liberação.

     Palavra: esta é a minha personagem.

     É a única personagem que importa.
     Deve ser levada, destravada, dentro do escritor,
                             - pronta para o disparo,
     mais pronta ainda para a pescagem
     - é arpão, é persistente, insidioso instrumento de
                                             pesca ou caça.  

     As pessoas que não sabem, dizem:escreva, escreva sempre.     
     Não dizem o essencial: pense, sempre.
     É o pensamento que arma a palavra.

     Eu preciso de silêncio.
     É no silêncio que as palavras acontecem.
     Desovam, céleres, animadas. 
                              



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