06 julho 2012

DO QUE VÊS


Do que vês



Pergunto
Com quantas mentiras somos capazes de viver
De quantas somos capazes de sobrevier

Diga!
O embuste mais grave...
O que fazemos a nós mesmos
O que entregamos aos outros

Pense...
De todos os engodos
Algum nos tornou o que somos
Outros nos travestiram
o que vêem em nós

Somos o que

No real tem algo de fidedigno
Tornamo-nos apócrifos de nós mesmos
Escrito por outros!
Lidos por desconhecidos!
Tramados por enganos!

Engodos no existir...
Somam ou subtraem nossa existência
Qual o espólio que interessa?
A verdade que nos torna o que somos?
a vida como ela é: teatro de circuncisões?








05 julho 2012

O CHÁ


O chá



A água fervia feito um turbilhão e xícara, pires, saquinho de infusão esperavam ansiosos pela quentura que lhes sobem vertiginosamente a temperatura. Ela caia vagarosa carregando borbulhas que explodiam a cada toque com a porcelana. O saquinho cheio de ervas deixava-se desprender sabor e cor na água que lhe inundava. O pires escondia uma colher minúscula que serviria para misturar o chá. Dois torrões de açúcar adentraram na xícara logo depois que o saquinho fizera sua parte. O açúcar dissolvera rapidamente, sem ter nenhuma chance de manter-se torrão naquela liquidez aconchegantemente quente. A colher agora remexia água, sabor, cor e doçura não distinguindo nenhum deles e todos ao mesmo tempo.

O chá estava pronto e a xícara feliz sabia que iria transferir tudo aquilo que sentira à boca que lhe esperava. A quentura da água, o sabor e cor das ervas do saquinho de infusão e a doçura dos torrões de açúcar, tudo devidamente misturado pela colherinha. Mal sabia o que estava por vir.

A boca não podia distinguir todas essas sensações tão ritualisticamente sentidas por aquela xícara de porcelana. As lágrimas que caiam dos olhos que lhe avizinhava confundiam-se com quente, salgado-doce e dissolviam a cor que fora minuciosamente desprendida das ervas do saquinho. Lágrimas que invadiam a boca, tal como o chá e nada permanecia o mesmo.

Nem xícara, nem boca, nenhuma estava satisfeita. A xícara por querer fazer sentir chá e a boca por não sentir ou sentir demasiadamente o sabor da lagrima-chá. As expectativas de que as sensações aflorassem, fazendo sentir quente-cor-doce não foram atendidas, tampouco o acalento do chá para o choro dos olhos marejados.

No dia seguinte os olhos já não estavam mais marejados e sim doloridos pelo ressecamento e a xícara vazia e fria sem ter como proporcionar nada àquela boca. E se você espera que eu lhe dê um final feliz ou alguma explicação, caro leitor, engana-se, não o farei hoje. E isso nada tem que ver com lágrima, chá ou comigo – mas sim com sua expectativa que não poderá ser atendida, não nesse pequeno texto de hoje.

04 julho 2012

EU E JACK KEROUAC

Por Cecilia Prada

Não. Nunca encontrei pessoalmente Kerouac, apesar de ter vivido quase seis anos nos States e ter me apaixonado pelos seus livros. Vivi grudada na Costa Leste (Washington D.C e depois Nova York) de 1959 ao finalzinho de 1964, enquanto ele vivia lá na Costa Oeste, bebendo até morrer, sem aproveitar a fama e o dinheiro que ganhara escrevendo. Um rapaz que vivia com a mãe, e cuja única ambição era poder ganhar com o que escrevia dinheiro para comprar uma nova geladeira para ela. Eu, engessada no protocolo diplomático, good girl, casada, tendo filhos –foram três em cinco anos e meio, em um período incrivel de criatividade em todos os sentidos. Escrevi meu primeiro livro importante de ficção, o Caos na Sala de Jantar, também comecei a escrever para teatro, pertenci a um grupo profissional que ficou na história teatral americana, The Open Theater, tive peça produzida em Nova York. E convivi , morando no Greenwich Village, com outros beatiniks...Belos tempos – que o golpe militar brasileiro de 1964 estraçalhou – como já contei em artigos publicados, mas que voltarei a esmiuçar mais tarde.

Mas o que eu queria mesmo era fugir com Kerouac, ir viver com os beatniks, renegando o meio diplomático de pastoso tédio. Eu dizia para Sergio Paulo, meu marido: “ E se a gente largasse tudo e fosse viver como eles? “ Foi quando devorei The Subterraneans, depois do sagrado impacto recebido de On The Road, The Dharma Bums.... Repetia , sem saber – só depois me contaram- uma cena que se passara há um meio século ou mais, entre minha avó Ana Thereza Pinheiro do Amaral e meu avô Marciano Jorge do Amaral, na escala modestíssima de Piracaia, interior do Estado de São Paulo, onde meu avô era tabelião: um circo passara por lá e Nhãna (que se casara aos 16 anos), insistia com o marido: “Por que a gente não deixa tudo e foge com esse pessoal do circo?”

Kerouac, Faulkner, Henry James – só depois de conhecer essa trindade, de ter a graça de poder lê-los na língua original, de estudar sua obra, é que senti vir se formando dentro de mim a “voz literária” que hoje ainda dialoga comigo.

03 julho 2012

Palavra de DEUS


A TEOFANIA
parte 6

"Fizeste bem, meu filho. Agora o falso asceta que vivia aí, dentro das suas costelas às voltas com os seus desejos ardentes, jaz estrangulado no deserto, no êrmo. Na cabeça do tempo, no início das Eras, criei a doçura dos teus olhos, uma porção de mim mesmo, e a amarga prisão da tua língua a fim de destruir os demônios que haviam encarnado no antigo Egito, nas agruras do cativeiro. Hoje criei novamente os teus pés e as tuas mãos, profeta, a fim de dominar os malfeitores e o medo desenfreado do teu povo. Assim que tiveres submetido à tua vontade a terra, depois de subir os Sinais, vencer os domínios do Inferno e atravessar o areal, ficarás enfadado e renunciarás a glória voluntariamente. No fim, serás unido a Mim, tem a certeza. Recebe de minha parte esse cajado, uma víbora afiada, graças ao qual obterás tudo o que te disse." 

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