14 março 2013

SEMENTES



Por Marcelo Finholdt

Era um dia nublado e o passado passava
Entre o hoje e invadia o futuro dos dias
Mesmo assim poesia insistia, queria
Mais do dia, da Lua e do Sol que dourava.

Era um dia insistente, um passado presente
Entre os dias assim: já sem cores, sem tom
Mesmo estranho e sem cor, sem sabor e sem som
Mais do antigo, do velho e do arcaico insistente.

Esse ranço, essa nódoa abraçava a poesia
Mesmo assim pegajosa agradava, enjoava,
Revirava, azedava, espumava, era azia.

Esse nojo, essa caca explodia e rimava
Mesmo assim melecava e lustrava; fedia,
Ressecava, sumia e outro mundo gerava.   

11 março 2013

VOCARE






Vocare







Por Marco A. de Araújo Bueno /Desenho por Felipe Stefani



A bunda murcha,

A calça caída;

O cinza estampado

O tecido esgarçado

No despojamento vigia.

Um celular rolha

Pende do bolso

(Trinado eletroacústico).

Alguém chama:

“Onde você está?”

A questão é pertinente

Mas já não pertence a ninguém.




09 março 2013

Tatá - NOSSO COLUNISTA EMERÍTO!

                                                                            Tatá

D"Os Arquivos Incríveis de João Antônio", via Rafael Noris


 O jornalista e escritor Eustáquio Gomes, ex-coordenador da Assessoria de Comunicação e Imprensa (Ascom) da Unicamp, recebeu em 14 de dezembro o título de Servidor Emérito da Universidade. A cerimônia, presidida pelo reitor Fernando Ferreira Costa, foi realizada na residência do homenageado, em Campinas, na presença de familiares e amigos. Durante a solenidade, Fernando Costa destacou a valiosa contribuição dada por Eustáquio Gomes ao longo da sua trajetória profissional na Unicamp, iniciada em 1982. “É uma justa e merecida homenagem a um dos servidores mais dedicados e comprometidos com a Unicamp”, afirmou o reitor.

A proposta de concessão do título de Servidor Emérito a Eustáquio Gomes foi apresentada pelo próprio Fernando Costa ao Conselho Universitário (Consu), órgão máximo deliberativo da Unicamp, que a aprovou por unanimidade no dia 29 de novembro de 2011. Na oportunidade, diversos conselheiros manifestaram verbalmente apoio à iniciativa. Antes do ex-coordenador da Ascom, somente outros dois funcionários foram contemplados com a mesma láurea: a ex-secretária geral da Universidade, Arlinda Rocha Camargo, e o coordenador da Diretoria Acadêmica (DAC), Antonio Faggiani.

De acordo com Fernando Costa, Eustáquio Gomes sempre soube aliar, no exercício de suas atividades, uma admirável capacidade intelectual ao espírito de serviço, com plena fidelidade à instituição. “Bastariam estas qualidades para credenciá-lo à homenagem, mas destaco, ainda, a integridade, a dedicação e a honestidade como características marcantes de sua personalidade, que extrapolaram, em muito, as tarefas a que estava diretamente ligado na área de comunicação”, completou o reitor.

Segundo Leandro Gomes, filho de Eustáquio, a oportunidade de ter contribuído para o engrandecimento da Unicamp, na condição de coordenador de imprensa, é motivo de muito orgulho e satisfação pessoal para seu pai. “É notória sua admiração pela Unicamp e pelas pessoas que a integram. Ele sempre ressalta o quanto aprendeu com a diversidade de ideias e conhecimentos que circulam no meio universitário e com os quais teve contato ao longo dos anos. Este reconhecimento por parte da instituição à qual consagrou parte significativa da sua vida é uma grande honra para meu pai e nossa família, coroando uma carreira dedicada à divulgação da Universidade e do conhecimento nela produzido”, declarou.

Eustáquio Gomes, que atualmente se recupera de um problema de saúde, implantou e organizou a Ascom na gestão do então reitor José Aristodemo Pinotti. O órgão, comandado por ele de março de 1982 a setembro deste ano, é responsável pela interface entre a Unicamp e a mídia externa. Também responde pela publicação do Jornal da Unicamp  e pela produção de conteúdo noticioso para o Portal da Unicamp. O jornalista e escritor nasceu no povoado de Campo Alegre, no oeste de Minas Gerais, em 1952. Filho de lavradores, contou com a ajuda de amigos para realizar seus primeiros estudos, inicialmente na cidade de Luz (MG) e depois em Assis (SP).

Posteriormente, bacharelou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Mais tarde, tornou-se mestre em Letras pela Unicamp. Sua dissertação teve como tema os modernistas de província. Como jornalista, trabalhou em jornais do interior, principalmente nos diários de Campinas. Atuou, ainda, nas áreas de comunicação das empresas Bosch do Brasil e White Martins. Como colaborador regular do campineiro Correio Popular, publicou cerca de 800 crônicas, além de reportagens especiais, entrevistas culturais e outros textos.
Apesar da importante produção jornalística, Eustáquio Gomes escreveu certa vez em uma crônica, intitulada A harpa e o beijo: “Apesar de tudo nunca fui um grande repórter, talvez nem mesmo um bom repórter. Era dado a divagações e contemplações, esquecia o principal e preferia os temas leves”. Via-se muito mais como escritor, e não por acaso.
Seus primeiros escritos, no formato de crônicas, datam ainda da infância. E foi na condição de escritor que produziu obras de destaque, como o romance A Febre Amorosa, de 1994, possivelmente o seu livro mais conhecido, adaptado posteriormente para o teatro em 1996 e traduzido para o russo em 2005. Ao todo, Eustáquio Gomes produziu 16 livros. Entre eles estão: Cavalo Inundado (poemas, 1975), Mulher que Virou Canoa (contos, 1978), Os Jogos de Junho (novela, 1982), Hemingway: sete encontros com o leão (ensaio biográfico, 1984), Jonas Blau (romance, 1986), Ensaios Mínimos (ensaios, 1988) e Os Rapazes d’a Onda e Outros Rapazes (ensaio, 1992).


06 março 2013

O GOSTO MAIS AMARGO

Por: Gerson Boaventura


confesso meus pecados a taxistas
no fim da madrugada
os poemas de amor mais bonitos que escrevi
acabaram esquecidos
no balcão do bar
escritos em guardanapos
com letras e rimas borradas
pela cachaça
derramada sobre a mesa
embriago-me
até que minha fala se perca
fique mais confusa
do que se possa compreender
afogo minha dignidade
mergulho meu coração em aguardente
para que ele chegue ao torpor
para que seja torpe e me traia
e só então ligo pra você
pra que assim você possa me perder
entre petiscos
eu imagino
como você mastigou meu coração
como eu prostituí minha poesia
como eu sabotei a mim mesmo
por ti
por ti
como uma declaração demente
em troca de um afago
e meia dose de mentiras
misturo paixões
como misturo bebidas
sem me importar com a ressaca
com o outro dia
com o que os outros pensam
ao inferno com tudo
o inferno do meu peito
onde as chamas do rancor
insistem em se levantar
das cinzas da solidão
queimando tudo
que a ele tenta alcançar
destruindo tudo que é bonito
violando tudo que é puro
escandalizando toda inocência
profanando tudo que for decente
sodomizando tudo que for verdadeiro
porque não basta o inferno
sem o inferno dos outros
se não basta o amor
que também não baste o ódio
e que não seja de momento
que seja eterno
enquanto dure
convido todos para minha mesa
bêbados, mendigos, putas, vagabundos
proponho um brinde à mediocridade
jogo cantadas cretinas pro ar
tiros cegos
sem esperar acertar
aceitando a sorte ou o azar
do que vier
tanto faz
se não for você
ou
contanto que não seja você
qualquer meia pessoa serve
meia alma, meia foda, meia vida
qualquer coisa que me complete
mais uma dose ou me acompanhe
no próximo brinde, na noite seguinte
na rua escura, nos becos da minha loucura
em copos de lágrimas diluídas em rum
eu quero que você se sirva
me beba, me trague, me engula
sem tira gosto e sem desculpas
me bebendo de um só gole
e cuspindo apenas verdades
puras e fortes e secas
piores que zinebra
quero ver aguentar meu enjôo e meu engasgo
quero ver você se embriagar de mim
se envenenar de mim até não suportar
até você morrer
ou o bar fechar

28 fevereiro 2013

MONÓLOGO DO LOBO



Por Marcelo Finholdt





Entre Marco e Antônio está o Lobo;
O Lobo: ora está em Marco, ora em Antônio.

Entre Paula e Patricia está o Lobo;
O Lobo: ora está em Paula, ora em Patricia.

Entre Bob e Dylan está o Lobo;
O Lobo: ora está em Bob, ora em Dylan.

Entre Mahatma e Gandhi está o Lobo;
O Lobo: ora está em Mahatma, ora em Gandhi.

Entre Patrick e White está o Lobo;
O Lobo: ora está em Patrick, ora em White.

Entre Nadime e Ignez está o Lobo;
O Lobo: ora está em Nadime, ora em Ignez.

Entre Nelson e Mandela está o Lobo;
O Lobo: ora está em Nelson, ora em Mandela.

Entre Fidel e Castro está o Lobo;
O Lobo: ora está em Fidel, ora em Castro.

Entre Madre e Teresa está o Lobo;
O Lobo: ora está em Madre, ora em Teresa.

Entre António e Antunes está o Lobo;
O Lobo: ora está em António, ora em Antunes.
............................................................................
Não existe o monólogo do Lobo,
O Lobo está em toda parte,
Pois ele está no meio de nós:
Alimente-o, caso quiser.





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