11 junho 2013

AO LEITOR PÓS HIPÓCRITA



AO LEITOR PÓS HIPÓCRITA*

Por Marco A. de Araújo Bueno


Caso você vingue, vinda duma tronco,
(doutra via qualquer que não a darwinista)
Então terei passado, eu, que a alcanço em cheio
(nas suas próteses neurais, no seu exoesqueleto)

(Como terei sido a seus olhos, holográficos?)
Alguém que fugiu da linguagem binária e se deu!
(Alguém provindo das profundas sinapses e glias)
De que forma, mãos robóticas, apalparia meus gânglios?

Se ainda não a penso e farei rir a toda sua geração
(Sem distinção de credo, de cor d’olhos ou  genoma)
É porque teremos sido seres entristecidos –

Você, duma tronco, entretecida à base de divisão,
(Eu, ainda assujeitado, porém -  incompleto)
E nós dois decompostos em nome duma soma.


* Poema selecionado para a antologia HIPERCONEXÕES, de poesias pós humanísniscas.

08 junho 2013

DIA




Abre-se o horizonte dos cílios
Pupilas em ninho, dentro das pálpebras
Vislumbrando a erva que vai do solo ao bico
Plantada árvore que voa às matas
Em caudalosa água boiando troncos
Pernas de sândalo decepadas
Choram a seiva do que se foi à foice
No ar, um cheiro de natureza morta 
Mas vê: a camada ozônica nos supre
Assopra em ventos alísios as boas novas
O seio de Gaiamazônica nutre nossa orbe
Enquanto acordas dissonante no enleio das horas

07 junho 2013

TEMPO E CONTRATEMPO(1949)

TEMPO E CONTRATEMPO(1949),:


P0r João Antônio Bühres de Almeida





N' O Cruzeiro,  primeiro livro de humor de Millôr Fernandes.

Em 1949 Millôr reuniu suas páginas soltas, em que assinava como Vão Gôgo, publicadas nas revistas do 

Assis Chateubriend, como O Cruzeiro e A Cigarra. Enfeixou tudo num belo livro chamado Tempo e 

contratempo, muitos anos depois, revisitado criticamente (agora pelo Millôr),  em 1998. O livro se 

inspirava no formato dos livros de Saul Steinberg, que tinham capa dura e uma sobrecapa. Por falar 

nisso, o nosso Vão Gôgo se inspirava também nos desenhos de Steinberg, o maravilhoso Millôr só iria 

ter um desenho mais próprio em fins dos anos 1950 e começo dos 1960. Mas mesmo se inspirando no 

mestre romeno, mesmo assim já era genial genial. Original é quem plagia primeiro, como diria Glauco 

Mattoso. Mostro-lhe apenas algumas páginas deste álbum que é um dos mais belos livros de humor  já 

publicados no Brasil. Por esta época sua página dupla em O Cruzeiro, a seção O Pif-Paf, era ilustrada 

pelo Péricles, só anos depois é que Millôr assumiria também as ilustrações desta que foi uma das mais 

importantes seções de humor da história de nossa imprensa.

04 junho 2013

DOIS FRAGMENTOS NEOCLÁSSICOS

Por Vítor Queiroz 

I
IDÍLIO VIRGILIANO

Veja só, 
Aristeu, as cabras não trotam
Em paz? Beira d´água 
O arrozal não assoreou trevoso o leito tranquilo 
Do riacho firme?

Dorme, Aristeu, dorme logo 
Enquanto Amor não vem cá. 
Ele te roubará, Aristeu, 
Vinte cabeças do teu gado manso, 
Admirável.



II

ODE GRECO-SERTANEJA

Fiamos, a velha caduca
a femme fatale a psicanalista
e a puta na ponta do fuso,
na agulha da roca, nonada,
no gorgulho do feijão, debaixo
da escada o nó

escabroso, o caroço bruto
que imaginou um dia
a via láctea, a carreira de Tróia
e o polegar

opositor de todos
os mocinhos bonitos das fitas de faroeste,
do fino carpaccio das fábulas.

Fiamos, casamos
e descansamos tirando leite
de pedra, fazendo da mó e dos martelos
corações.



02 junho 2013

NATURAL DE CAMPINAS


cadê teus poetas?
teus suicidas?
teu desapego à família?
tua sujeira?

será que eles se tocam
nas encruzilhadas febris que descrevem tuas ruas?
será que eles se notam
entre as estátuas feitas às pressas de tua débil história?
será que eles sabem
o quanto te trocaram por menos e mais
do que de ti receberam?

de ti emerge uma pergunta
tal qual a água podre que me envolve
mansa
naquele abraço que senti quando criança
sem reclamar
com o mutismo amável de um corpo atávico
e uma boca de tímidos dentinhos.

cadê tua fome?
teu silêncio?
teu infanticídio?
teu adultério?

quando traíste minha mãe?
quando mataste meu pai?
quando me ungiste com teu escárnio
e me legaste teus erres
e tua morosidade?

no gorjeio dos teus carros
e auto-falantes
há só uma caricatura mesquinha
desse passado deletério

e ela é rude
abrupta
provinciana
paroquial

é uma contradição dos termos
descolonização dos ermos
é redutível de seus pioneiros
são meus avós em mangas de camisa

cadê teus velhos?
tuas putas?
tuas travestis?
tua escória?
invisíveis que estão pela higiene míope
e caduca
da tua ambígua municipalidade

cadê a fuligem?
o cheiro de esperma na saia da filha?
a paga no sinaleiro?
o acidente na rodovia?
a parada cardíaca na casa dos pais?
o desatino na madrugada?

porque no intrafegável do teu cotidiano
há só o reflexo sem espelhos
da homogeneidade que teus filhos
limpos
lindos
mesmos
ostentam por dentro.
  




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