TROVA
Por Alvaro Posselt
A toda hora com furor
O meu ser a dor consome
Eu pensava que era amor
O doutor diz que é de fome
03 julho 2013
02 julho 2013
PARADAS MÍSTICAS
Por Vítor Queiroz
DA POESIA INVOLUNTÁRIA.
DE ACRAGAS (c.495 - c.430 a.C.)
Já fui macho, já fui uma moça.
Fui um arbusto espinhoso e um caco de louça,
um chinelo velho esquecido,
um passarinho, um bisão da Califórnia
abatido, uma sopa de ervilhas,
cianureto, um batuque africano.
Já fui um peixe, um peixe fresco fora d´água
vivo e cego. Surdo e mudo.

2.GIAMBATTISTA
VICO (1668-1744)
Seres humanos ou fatos famosos
materializados
em sonhos, no pé direito
dos seus pensamentos novos. Determinados
em certos tempos ou lugares
(e todos esses seres humanos
ou fatos famosos talvez
não tenham existido realmente).
Homens insignes e fatos importantes,
pelos quais e com os quais
ocorreram muitos momentos da existência humana,
surgiram, impensáveis, do interior,
da memória, do tutano dos seus próprios ossos,
das longas e densas selvas, em que jaziam sepultados.
Tudo isso ficará demonstrado
na medula destes versos.
Para fazer entender o quanto a humanidade das nações
tem os seus princípios incertos e indecorosos,
defeituosos ou vãos.
30 junho 2013
ALFARROBA
não
provei o gosto das coisas.
consumi-lhes
apenas a ideia
de
um possível gosto
que
não era paladar:
era
só a pressa de fazê-las desaparecer.
e
depois de satisfeito
o
corpo não retinha nem o doce,
nem
o sal
nem
o mel do nódulo que há pouco
cintilava
em minha língua
minha
memória era de estar só
contemplando
um vazio que vibrava
nas
extremidades das minhas extremidades
e
então veio o seu gosto
e
seu inconsumível desconforto
que
era um chamado da ânsia
de
engolir-lhe os olhos
a
pele
os
pêlos
para
somente então se fazer apelo
e
pedir que viesse manso
com
a disciplina que conduz seu dia
com
a ambigüidade que a faz mentir
e
a habilidade de tornar o difícil fácil
e
o fácil elegante.
para
enfim envolvê-la num abraço cândido
e
nutri-la com a ternura
desse
arremedo que chamamos desejo.
29 junho 2013
28 junho 2013
FORTUNA CONTISTA
Fortuna, O homem que sabia português.
{Conto publicado em numero especial-humor Revista da Semana}
Fortuna foi um dos mais importantes artistas gráficos do país, mais chargista que caricaturista (no sentido de portrait-charge). Seu traço foi um dos mais originais que este Brasil já viu, seus colegas inclusive invejavam-no. Mas há uma faceta que é pouco conhecida, que é o lado escritor, infelizmente não valorizada o suficiente. Este conto é um belo exemplo. No correr de sua importante carreira adotou o heterônimo de Prof. Reginaldo, com os quais criava seus textos de humor. Nome com o qual até assinou um de seus livros, que reuniu parte destes escritos.
27 junho 2013
UM POUCO MENOS
Um
pouco menos
Por
Vivian Marina
Nem tanto
para direita, nem tanto para esquerda. Há algo no meio disso que destoa. O corpo
pede um pouco menos na bagunça de seus movimentos. Na iminência do errar o
caminho, no instante do desvio, no titubear do salto, no improviso do gesto, no
piscar de olhos – o espetáculo não pode parar para que o corpo se ajeite. A janela
que dá para o lado de lá flerta com as linhas, mistura a luz que por ela entra
com as luzes dos holofotes. Linha e luz que adentram corpo e jogam com a cena.
Lá fora,
nem as tintas, nem as borrachas fazem com que o corpo pare. As câmeras
desfocadas querem captar paixões. Lá dentro, as cortinas, ainda fechadas,
encerram o momento, esperam que o corpo lhe peça abrigo, mas não sabem que há
muito o corpo despiu-se.
As nudezes
do grito e do giro se atracam e enroscam no meio fio. E por que ele se chama
assim? Meio fio? Onde está o fio todo? Talvez esteja perdido no meio dos fios
do público e da multidão que, dentro e fora, querem ver o corpo mostrar seus
ensaios. Mas o corpo cansou de ensaiar, ele quer mais que o diabo o carregue
para bem longe de tanto ordenamento.
Já cansados
os olhos, então, avistaram a parede, pela janela. Nela estava escrito: “Sou aos
poucos”.
26 junho 2013
A TRAIÇÃO DAS METÁFORAS
A Traição das Metáforas
Por Artur Gomes
1. enquanto as palavras gritam seu silêncio no fundo do poço eu digo que não calo falo que dois mil e treze já chegou como cachorro louco mesmo não sendo ainda agosto a fera vosifera entre quatro paredes suas bestialidades querendo o aplauso que não tem federika está de rosa trazendo na bandeira a velha sigla: não sou da lapa e não me peçam enredo novo nas escolas para o próximo carnaval
Por Artur Gomes
1. enquanto as palavras gritam seu silêncio no fundo do poço eu digo que não calo falo que dois mil e treze já chegou como cachorro louco mesmo não sendo ainda agosto a fera vosifera entre quatro paredes suas bestialidades querendo o aplauso que não tem federika está de rosa trazendo na bandeira a velha sigla: não sou da lapa e não me peçam enredo novo nas escolas para o próximo carnaval
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