07 julho 2013

A TRAIÇÃO DAS METÁFORAS II


Metáforas 


2.    viver é um poema processo me disse moacy cirne no balaio vermelho quando matou chico doido de caicó cinelândia em polvorosa na noite do velório federika nua engarrafava o trânsito na porta do teatro municipal enquanto no presídio federal dos goytacazes macabea ensaiava em vão a estrela que não sobre federico roubava a cena nas escadarias da câmara dos vereadores com baudelaire em sua lira do delírio: entre a pele e a flor no asco com meia sola no sapato meu vapor mais que barato industrial e infonáutico entre a pele de zinco e o cabelo mar de indecifrável plástico por ente os bronzes do teu pelo entre a flor e o vaso de barro na home page ou no carro na camisinha de vênus vírus h corroendo em vita plus ou na sala meu olho gótico TVendo brazilírica lâmpada fala por um fio ou tanto quase cento e dez em cada fase não sendo assim acaba sendo debaixo da saca a escada torta pássaro sem teto acima do delírio coração de porco crava no oco da noite a faca cega punhal de cinco estrelas na constelação do cão maior por onde ursula nua passeia dédala de dandi deusa de dali lua de dadá no coração do pintor sem fronteiras debaixo do pé de abóbora acima do pé de cajá malásia não é aqui espanha não além mar salvador não é dali itamarati itamaracá constelação ursa menor pra dadá meu coração pra dedé não sou cantor quando quero quero mesmo espuma nylor pele tecido isopor


06 julho 2013

EXAME DE VISTA

                                               Por: Paola Benevides
Os olhos ardem com as lentes de contato. Devem ser os resíduos externos querendo se comunicar, os ciscos que adentraram cavidades invisíveis em razão da higienização parca que a pressa deixa passar. Um corpo estranho banhado na ânsia indecisa de querer se adaptar ao novo ambiente e, caso este seja árduo o bastante, começa a querer se extirpar e lacrimeja feito bebê recém-parido, todo vermelho no canto, querendo enrugar. A diferença entre as gelatinosas e o prematuro é que este sente falta do ventre redondo. Aquelas almejam escapar pela beirada palpebral o quanto antes e, se possível, irem ao encontro do escoo da pia, a perderem-se das mãos do dono inábil e de tudo, sem piedade alguma, indo para o ralo. A não ser que, por algum milagre, elas se cansem de chorar, porque o choro lava, então se limpem e adormeçam por fim no globo ocular, vencidas pelo cansaço que o sofrimento tanto causa. Recolocadas, aos poucos deixam de fazer fungar, aquietando os dedos perfeccionistas por encaixes, nesse contínuo apontar e esfregar.

Sem tendências suicidas, a alma descansa em paz, embora o mais reles cochilo requeira a retirada das lentes. O trabalho já havia sido tão brutal anteriormente, que desconfortável seria começar um novo processo. Pior mesmo foi a estreia das lentes, quando os cílios tensos rebatiam qualquer entrada, tal freirinha engajada no fechar de pernas para Cristo. Porém, a benesse do hímen rompido no tiro de meta também fora inesquecível, porque regozijável na acoplagem. Sem incômodos nem miopia, por ora. ABCDEFGHijlmnopqRSTUVXYZ. Um, dois, três. Hora de despertar. O oftalmologista avisou que se ultrapassasse trinta minutos com os olhos fechados, a película de grau ficaria colada à pálpebra. Tantas recomendações provocam saudade dos óculos, que enfeiam, mas não apresentam maiores riscos de irritação. Cegar é preciso? A vida tem nos arregalado tanto do que não é necessário, que se não valesse a pena ler Borges ou Saramago, muita gente cegaria em branco. Tudo para enlarguecer os outros sentidos, ser mais humano, ter mais tato, olfato para dar. Quem não vê de fora, abre-se melhor por dentro.

Serão todos os cegos ateus, daqueles que afirmam só acreditar vendo? O olhar nublou o pensamento, operou as cataratas do Iguaçu jamais vistas. Antes de morrer, todo artista deveria assistir a um médium psicopictografando. Os poetas, para escrever, deveriam pingar colíricos e versejar com o espírito revigorado. A Lei de Talião deveria ser revista por outros vieses e o amor à primeira vista parar de fabricar reis em terra de cego. O ego não enxergado vira precipício. O pressuposto disso é queda. Por isso, vale a pena ajudar a atravessar ruas e sentir-se mais capaz que um cão-guia. A falsa impressão digital se perde quando se aprende a ler o Braille da vida.

05 julho 2013

ANÁTEMA

Anátema


Muitos daqueles morreram
Destes também

Que bom

Minha esperança insiste acesa
De que em breve
Morram daqueles muitos
Também destes


Eu

04 julho 2013

POEMA SUBSTANTIVADO


À lá Manuel Maria Barbosa du Bocage
(Dedicado ao povo mineiro e em especial à família Finholdt)

Por Marcelo Finholdt

Frio, fogos, festas;
Queijos, biscoitos, doces;
Cachaças, vinhos, quentões;
Fazendas, cidades, sítios;
Uai's, gemidos, modas;
Filhos, netos, bisnetos;
Vivências, histórias e vidas!

03 julho 2013

TROVA

TROVA

Por Alvaro Posselt

A toda hora com furor
O meu ser a dor consome
Eu pensava que era amor
O doutor diz que é de fome

02 julho 2013

PARADAS MÍSTICAS


Por Vítor Queiroz

DA POESIA INVOLUNTÁRIA.

1.EMPÉDOCLES
DE ACRAGAS (c.495 - c.430 a.C.)

Já fui macho, já fui uma moça.
Fui um arbusto espinhoso e um caco de louça,
um chinelo velho esquecido,
um passarinho, um bisão da Califórnia
abatido, uma sopa de ervilhas,
cianureto, um batuque africano.
Já fui um peixe, um peixe fresco fora d´água
vivo e cego. Surdo e mudo.













2.GIAMBATTISTA
VICO (1668-1744)

Seres humanos ou fatos famosos
materializados
em sonhos, no pé direito
dos seus pensamentos novos. Determinados
em certos tempos ou lugares

(e todos esses seres humanos
ou fatos famosos talvez
não tenham existido realmente).


Homens insignes e fatos importantes,
pelos quais e com os quais
ocorreram muitos momentos da existência humana,
surgiram, impensáveis, do interior,
da memória, do tutano dos seus próprios ossos,
das longas e densas selvas, em que jaziam sepultados.

Tudo isso ficará demonstrado
na medula destes versos.

Para fazer entender  o quanto a humanidade das nações
tem os seus princípios incertos e indecorosos,
defeituosos ou vãos.






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