31 maio 2010

IDÉIO MENTIRAS

Por Guilherme Salla




Nem tudo o que a lembrança quer


Que de mim eu faça


É o que eu agora idéio


E nem tudo que hoje odeio


Faz parte dos meus amores de criança.


É da natureza da ficção a vida relatada


E a memória, artista solitária,


Contenta-se com palmas unitárias


Neste ato em que foi vaiada.

.
.

Viva a mentira!


Arte das artes,


Mãe da mais íntima alegria.


Salve a madrasta da razão!

.

30 maio 2010

Resultado do 1º Concurso de Microcontos

E o 1º Concurso de Microcontos De Chaleira chega ao fim, com uma semana de atraso e mudanças.

Desde o começo a coisa não tinha intenção de ser burocrática mesmo.

Não há um vencedor. Com o apoio de Wilson Gorj, conseguimos abrir a possibilidade de três vencedores, são eles: Alcir Pereira, Isabel Furini e Israel Teles.

Leia abaixo os microcontos dos vencedores, seguidos de um breve comentário d'algum colunista:

***

ALCIR PEREIRA

Rejeitado

Saia, diziam os pais, trancando a porta. Retire-se, falava a professora. Afaste-se, proferia a namorada. Desapareça, gritava a esposa.
Agora sumi mesmo! Contentes?
Na plúmbea mão, o bilhete e a faca.

Rafael Noris - a escrita telegráfica cria um clima rápido e, pela rejeição de todos em volta do personagem, surge uma expectativa muito grande quanto ao final. satisfaz quem lê, adorei, lembra os micros do Dalton.

***

ISABEL FURINI

Olhar

Os olhos de Maria contemplam as borboletas coloridas do quadro de Dalí, enquanto as borboletas coloridas do quadro de Dalí invadem os olhos de Maria.

Marco Araújo Bueno - Espelhamento; nada original. Mas o abuso de caracteres / palavras, num Mc, confere-lhe intensidade. Reificação radical.

***

ISRAEL TELES

Inferno

Achei que haveria fogo ou enxofre. Gritos. Súplicas. Sangue. Morte.
Mas não há nada daquilo que tanto nos fizeram acreditar durante toda a vida.
Nada.
Só há um imenso vazio, um horizonte tão infinito quanto o silêncio que o preenche.
E a eternidade, para relembrar todos os meus pecados nesse inferno.

Luciano Garcez - Poema em prosa, ambos enumerativos no começo, “Gritos. Sangue” e ecos “vida/nada”, de “horizonte tão infinito quanto o silêncio”, boa e bela imagem, central no conto. O tema dantesco poderia ser mais “condensado”, no sentido poundiano, como, por exemplo, “o silêncio que o preenche de eternidade para relembrar etc.”

Parabéns a todos os envolvidos por nos mandarem suas obras, todas elas serão apagadas de nossos arquivos e poderão ser usadas por vocês com o mesmo ineditismo que possuíam quando nos mandaram.

Abraços e até a próxima!

27 maio 2010

O POETA AFOGADIÇO


Por Marcelo Finholdt


Mote


Baça é a vista na cachaça
D'um artista num enguiço,
Convocado ao compromisso,
Tece versos da cabaça.



Glosa


Bela moça em sua graça,
Muito viu e assim foi vista,
Instigou na face o artista,
Baça é a vista na cachaça.


Um omisso afogadiço
Ouve sempre, bebe e vê,
Acostuma-se sem ser
Convocado ao compromisso.


Tenta a moça, faz pirraça,
Bebe, vê, reflete e sente,
Que o artista incoerente,
Tece versos da cabaça.


Encharcado e insubmisso,
Segue o artista seu trajeto,
Segue a moça sem o afeto,
D'um artista num enguiço.


26 maio 2010

MOTES PARA POEMAS E ESTRÉIAS DE COLUNISTAS

"Uma última noite contigo e as palavras se foram todas.
As tuas mãos sempre atuaram como um narcótico porque deixei diversas vezes o mundo passar frente a meus olhos.
O que fazemos são anotações de um incerto fogo que nos guia.
Guardo teu nome e com ele me movimento de uma sala a outra de um labirinto que ainda não sei ao certo se compreende sua razão de ser.
Toco a tua pele quase invisível e me deixo invadir pelos rumores de sua inquietude.
Gosto de começar a viver pelo teu nome.
Um dia imaginei um bosque em que os teus lábios traduzissem toda a folhagem.
Não somos uma fábula, somos?
Sempre penso em ti como uma infância perdida.
Difícil aceitar que seja a minha.
Eu te amo como um plano de fuga ou foste exatamente a primeira mulher em minha vida?
Ler é o que toca aos olhos e tudo o que vemos se transforma em nova miragem.
Talvez as palavras se gastem menos que a realidade de seus temas.
Porém não fazemos idéia se o que tocamos não é senão a palavra.
O mundo sempre se desfez por um excesso de bíblias. "

{AS MÃOS DE CLARICE LISPECTOR, por Floriano Martins}


***







INCIDENTE

Por Marco A. de Araújo Bueno


{Um 'esquenta' para a poetagem que virá na coluna de Cássia Janeiro}

O disco era novo,
Chang, não – era de casa,
Plantado no chão da casa.

Ouvia o meu disco, voava,
E Chang, plantado nas patas,
Parecia que voava também.

E nem notei o ruído, além,
Que levou Chang em disparada
Atropelando o fio do aparelho no chão.

O fio que me ligava a Chang
Rompeu-se. Nesse dia viu-se:
Pequinês voando por sobre um portão.





* Poema produzido, em dez minutos, na vivência-oficina com o poeta Fabrício Carpinejar (de excelentes recursos metodológico-teatrais),
questionado em seus méritos de verossimilhança e antecedentes objetivos da ação proposta pelo mote - violência contra bichinho doméstico.
{SESC- Campinas, em 26/05/07}. Parabenizo a iniciativa e questiono o histrionismo que se prevaleça de “a priores” subjetivos e provoque constrangimentos estéreis. E 'abraxos' ao escritor, crítico, fotógrafo e ensaísta, o amigo Floriano Martins.

25 maio 2010

DANDO TEMPO

Pode narrar-se o tempo, o tempo em si mesmo, como tal e em si? Não, na verdade seria uma empresa louca. Uma narração onde se dissesse: «O tempo passava, fluía, o tempo seguia o seu curso», e assim por diante, nunca um homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria mais ou menos como se alguém tivesse a ideia barroca de manter durante uma hora uma e a mesma nota, ou um só acorde e quisesse que isso fosse considerado música. Porque a narração parece-se com a música no sentido de que ela «realiza» o tempo, «enche-o convenientemente», «divide-o» e faz que «se passe qualquer coisa nele», para citarmos, com a melancólica piedade que se devota às palavras dos defuntos, algumas expressões habituais do saudoso Joachim, palavras que foram proferidas há muito; nem sabemos se o leitor dá claramente conta de quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narração, assim como é o elemento da vida: está-lhe inseparavelmente ligado, como aos corpos no espaço. O tempo é também o elemento da música, a qual mede e divide o tempo, tornando-o, simultaneamente, interessante e precioso, no que, como já foi dito, se assemelha à narração que, ela também (e de maneira muito diferente da presença imediata e brilhante da obra plástica, que só está ligada ao tempo como corpo), não é mais do que uma sucessão, é incapaz de apresentar-se senão como uma fluência, e tem necessidade de recorrer ao tempo ainda que tente ser inteiramente presente num dado momento.

Thomas Mann, in Montanha Mágica
{A propósito de duas novas colunistas no De Chaleira, uma na prosa - Cecília Prada, outra na poesia - Cássia Janeiro; da maturação que essas respectivas temporalidades requerem...}

24 maio 2010

Dois Tercetos Guilherminos

BUCÓLICA

Estrada da roça:
correu pra dentro do breu
o rapaz. E a moça.


ps: Agradeço o post anterior, feito pelo Marco. Tentei compor de tudo para homenagear o meu bichinho, mas quase tudo saía tosco ou piegas. É foda, ser pai, pegá-lo pela primeira vez, é indescritível. Por isso hoje postei um haikai guilhermino sem nada a ver com minha situação, como alternativa racional. E outro sobre El Miguelito, que segue abaixo.
Abraço!

Uma tentativa de terceto guilhermino para o pequenino:

MIGUEL

na tarde d'outono
trilho uma nova via, um filho
a tirar meu sono.
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