30 junho 2010

EXPLICAÇÃO


Por Eustáquio Gomes

Deixo a palavra
como atestado
de que vivi
desatado.

Deixo-a apascento
o nada, porquanto
nada, nem deus,
me move o espanto.
Porque da ampla
explosão ou Obra,
pouco me incita,
nada me sobra.

Sobra-me o logos?
O ter vivido
cosmicamenteaborrecido.

O que, de resto,
tampouco impede
que atue a palavra,
a que fede.


{O poema acima foi publicado no livro coletivo Cara a Cara. Raridade. Encontrada graças aos Arquivos Incríveis de João Antonio Büher de Almeida, com estreia de coluna neste blogue}


29 junho 2010

ARQUIVO TRUNCADO


ARQUIVO TRUNCADO

Por Marco A. de Araújo Bueno

I

Perdi a conta da minha idade-Terra; um tempo cuja dimensão objetiva deslizou pelos meus dedos-prótese. Para efeitos censitários, a propósito, nunca souberam onde me encaixar, em que categoria neo-etária, funcional (‘pesquisador arqueólogo’, cogitavam; mas – o quê exatamente faz?) ou econômica. Um emblema dessa minha resistência é cultivar abertamente um vocabulário extemporâneo, nada funcional neste pós-reforma que substituiu a retórica pela criptografia globalizada Minhas experiências com linguagem não utilitária andam expondo-me a riscos. E em meus sonhos da noite voltam estes com meu deslizar sobre paralelepípedos.
O divisor de águas, uma de minhas diletas expressões, foi a digitalização que fizeram de minha tese “Nidra”, a partir dos arquivos que restaram do departamento de línguas mortas, num desses feudos institucionais que sobreviveram à fúria devastadora das novíssimas normativizações. Sânscrito? Davam de ombros e me davam sossego para trabalhar com certa autonomia, seja porque não gozava de reputação alguma, ou demandava verbas, subsídios, muito menos - visibilidade. E se esta condição punha-me a salvo dos eflúvios de vaidade intelectual (palavra banida desde 2073), não me protegia de toda discriminação social embutida em minha ‘triste figura’. Um invisível deslizante.

II

Por ladeira de paralelepípedos escoa o fluxo dessa aventura. Mas, vocábulo infenso, refratário à fluência poética, exige um freio igualmente duro, como um ‘que’. Então - e deitando meu peito sem camisa numa esteira imaginária de rolimã, deslizo pela rua calçada de paralelepípedos que, ensaboados pelo sol a pino liquefazem minha vertiginosa onipotência onírica.
A mil e duzentos metros de altitude a roxa é macia como travesseiros-da-nasa. Com o peito quase resvalando o calçamento, nas baixuras, não é diferente a coisa táctil, amaciada pelo sonho induzido. Mesclando um pós-sonho com o caminho-das-pedras, narrativo, eis o que faço – colher, com uma tarrafa remendada todo o nado dos peixes de um sonho, sonho da noite. Recorro, descaradamente, aos textos literários de toda uma civilização proscrita da nova ordem. Se, pelo conto de Borges, me é dado acordar para escapar da morte, também me soa imperativo não truncar o fluxo, subterrâneo ou panorâmico, em nome do cumprimento de um devir metabólico - o de não despertar. O sonho foi um acordo, sempre o é; devo honrá-lo; gosto de me saber sonhado. O Sonho é um paralelo epíteto, somado a um que de não sei o quê.

III

Não me cadastrei no programa de ‘recall’ genético nem sou beneficiário do SAT – o sistema, de inspiração totalitária (outro vocábulo banido), que prescreve atenção terciária aos genomas de meus concidadãos. Até porque, mesmo estes, desconhecem o que seja cidadania e o máximo que sabem sobre compartilhar, concerne à passividade com que se iludem com expropriações em seus corpos e almas. Sou uma alma penada em corpo rebelde e, repito – estou correndo riscos. Em minha mais recente excursão à Área Sete, tive meus dois caixilhos confiscados mais os auriculares desabilitados, pelo trauma resultante de uma ação miliciana, truculenta e à luz das três horas do terceiro período, outrora chamado ‘madrugada’. Tratava de acertar a publicação, por demanda, do texto que narra minha aventura com superfícies de paralelepípedos. Meus contratantes desapareceram, física e judicialmente. Trago brotoejas na nuca (indícios de implante remoto de sensores de movimento) e me sinto seguido em cada quadrante, apesar de minhas credenciais antiquadas. Ah, sim – faço conjecturas sobre minha idade sim, porque mantive os marcadores de referência temporal que colhi por inferência. Sou um humano de idade avançada; avancei o quadrante da pós-humanidade.Repito - es...


{Conto sci-fi inédito, um 'posimetrum', que sai no livro V do Projeto Portal -Portal 2001-jul/10}

27 junho 2010

INSCREVER O POEMA

Por C.Guilherme Alves Salla *



É preciso ser

disciplinador,

domar os poemas

no cercado

de um livro,

não sou.




* Que escreve a coluna Poemas de Segunda, às segundas, mas este caiu num domingo devido ao efeito Jabulani. Sustento que poetas devam 'professar' suas poesias independente do calendário e do credo. Credo. Talvez a Cassia Janeiro retorne de Abdijan, onde teve contusões (mas quem não as teve) e faça, numa segunda, poema de primeira. E viva a metafísica da Copa; vivam os colunistas do De Cahaleira! Muito.

26 junho 2010

69 -> 96 e a má intencionada sexogenária



Texto e ilustração por: Paola Benevides


A moça ronronou perto da mamadeira do marido. O pelo mais arame ergueu-se de prontificado. Ela o foi enlabiar entre línguas e dentes antes do espetado, deu sem mordida. Terminada a fome, morreu seis minutos para um lado. Ele, nove para o outro. Quem fechou os olhos primeiro, já não via mais o quarto. O que dirá do quadro deixado vetusto à sua frente. Ninguém é perito e todo mundo já pintou obras primas com cola de orgasmo nas paredes. Se o jorro de um pincel Dali era parecido, ponderava sobre a brocha, enquanto praticava os finalmentes do que fora um sexogésimo nono. Cabelos sempre atrapalhavam na hora, porém deixá-los soltos acima e depilados água abaixo, comunicavam melhor ao pressuposto. Carequescências correspondiam ao seu deslizado. Então, era isso. Qualquer deslize, maior o agrado.

- Vou ensinar agora o passo a passo na base da dentadura mesmo. Uma generosa senhora, camareira daquele motel bem disse aos safados. A imoralidade de uma gengiva exposta indica um asco estético, porém prazer garante. Sem essa de vaidade se o nu começou santo. Toda essa gente nascendo de roupa curta é que ofende, se bem que fede é quem sua nas vestes do homem quadrado. Em pelo se tem as maiores frestas dançantes. Bebem-se mil líquidos através delas. Álcool transpirado, sêmen com chocolate quentíssimo e saliva derramada ao chá também. É, porque a enlouquecida confundiu o ereto do amado com o bico da chaleira esfumegante que a velhinha trouxe de café da manhã. Pôs a boca onde não devia, brincou com fogo alto e então reacordou toda urinada na cama. Pensou que ejaculavava lençóis.

Mal sabia que a sexagenária tinha o costume de cuspir tarjas pretas e suas drogas eficazes contra hipertensão no café dos mais poderosos hóspedes, prolongando o prazer que julgava falido em seu corpo nos corpos dos jovens e se satisfazendo com os acréscimos salariais, pelas horas triplicadas das diárias.


24 junho 2010

SONETO XXX

Dedicado ao bom povo mineiro.
Por Marcelo Finholdt

Vou contigo a Ouro Preto onde existe a saudade...
Sei que Minas Gerais é uma terra querida,
Bem pra lá me dirijo e curando as feridas,
Volto mais animado e retomo a vaidade.

Tenho tempo pra tudo e me esqueço da idade,
Não me importo com tempo e a vaidade é esquecida,
Trago um belo sorriso é assim que eu vivo a vida,
Dividindo e brindando a total mocidade.

Pães de queijo e café na manhã que anuncia
Uma tarde de frio, umas pilhas de lenha,
Fumaceira no fogo o fogão já fazia.

O calor aumentava, acessei logo a senha,
Resolvi te servir esquecendo a poesia,
Pra depois escrever só de ti... a resenha!

23 junho 2010

NA TARDE PÁLIDA DE CHUVA



NA TARDE PÁLIDA DE CHUVA

Por Cecília Prada



Auspiciosa esta terça-feira de chuva, envolta em brumas literárias, para realizar coisa quase nunca por mim empreendida em carreira profissional que já vai sendo bem longa: escrever uma crônica. Se, aos trancos e barrancos e em intermitências cujas causas não me apetece aprofundar e expor neste momento, tenho sido ficcionista, contista principalmente, a crônica, a vontade de me entregar a esse gênero breve, conversa descompromissada ao pé do fogo tribal ou de lareira cúmplice... bem, essa ainda anda insatisfeita dentro de mim, agitando mil cabecinhas espevitadas – uma réstia de fervor juvenil no que deveria ser a grisonância uniforme dos dias acumulados?
A acolhida simpática, interessada, que tive neste blog por parte de Marco e de todos os que já me conhecem, teve sua expressão inexcedivelmente bela na crônica de Eustáquio, A cartilha da Cecilia – aquela que foi buscar na minha infância uma menina de laçarote de tafetá na cabeça, curiosa já (há tanto tempo e até hoje) do mistério das letras, da magia da criação literária, uma menina transposta há quatro anos de São Paulo para Campinas, para esta cidade em que ainda há tempo, sim, para a gentileza, a conversa saboreada, a crônica - enfim.
A ele, pois, a esse amigo Eustáquio – cronista maior, consagrado – agradeço o ter tocado em mim a corda essencial da emoção, elemento fundamental de toda literatura, e me dado coragem para lançar-me também pela sua trilha, recém-chegada e meio aturdida embora, equilibrando-me para dizer “aí, ô, você!” – e buscando assim a companhia, o ouvido atento, de algum leitor solitário.
A crônica, é o crochê literário que faço. O jogado, o mesclado, o quero-ver. O deixar-ser. Quando ficamos mais velhos, é só ligar a memória nas coisas e deixar que ela vá indo, mula velha em estrada conhecida, rumo de casa - a infância, a mocidade. Da bruma desta tarde, que já trouxe de longe uma menina de laço na cabeça e cartilha na mão, surge agora nova figura : a mocinha aluna da Cásper Líbero que começava a ver o mundo – e, como todos os adolescentes, a escrever furiosamente sobre ele no jornalzinho da faculdade. Em um coquetel – petulante criatura! – virou-se para o editor da Folha da Manhã, Edmar Morel, um dos grandes jornalistas deste país, e lançou: “Eu quero escrever crônicas!” (assim mesmo, com ponto de exclamação – ele nem ouviu).
Então, o desejo insatisfeito perdura, na carreira bem vivida – mas sem crônicas permitidas. Estarei madura, finalmente, agora compreendo, para escrever “o mais fácil”, para deixar-me ser (ver). A crônica, o suelto - o nome já diz - é gostosa e se derramando. É meio se permitindo. O cronista, é o cara que se permite. Sim. Não tem que denunciar coisas, consertá-las, elocubrar , despertar multidões. Crônica não é coisa de multidão. E muito menos de acadêmicos, ou de ideólogos de lábios finos e não-imaginativos. É coisa de escolha, de venha tomar um café comigo, de papo gostoso. Não de pensamento muito. Só de algumas pensamentações esparsas, leves.
É coisa de avó, de velho amigo, de nós todos com nossas gostosuras, num momento de cansaço em que não precisamos mais salvar o mundo. Mesmo porque de duas uma: ou ele já foi salvo, ou não tem salvação

22 junho 2010

BANHO A BANHO

BANHO A BANHO
Por Bia Pupin

Como é estranho dar se conta de que a realidade é uma invenção.
Dia-a-dia o mundo cobre-se de sujeira para depois retirá-la em um banho.
“Os detalhes, detalhes”* parte da diferença, são eles que nos levam de um banho pra outro. O resultado de cada detalhe quantifica e qualifica uma vida, um filme, uma novela, uma história...
Qual a história?
Renata notara certa vez , que enquanto seu ônibus deslizava pela via expressa as luzes dos postes se ascenderam , acompanhando seu trajeto, poste a poste.
Quantos já notaram isso? Por que justamente enquanto seu ônibus cruzou a via as luzes se ascenderam? Quem já notou isso? Quantos significados a serem interpretados para que um dia integrem o todo, parte do roteiro de uma vida.

* Detalhes: Particularidade, por menor;
Para os interessados nos detalhes explico o que tento fazer. Experimento um estilo thriller que enumera, isola, observa os detalhes - inclusive os mais sórdidos- espetáculo narrado, analisado, vivido pela quase heroína, a personagem Renata. Em última análise uma história contada em seus pormenores.

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