30 setembro 2010
SONETO DO INDULTO
Por Marcelo Finholdt
Garantiram que a vida seria divina,
Convenceram a massa a seguir seus preceitos,
Logo a massa gerou os mais vis preconceitos,
Por pensar igualmente ao odor das latrinas.
Conquistaram no verbo através das doutrinas:
Inocentes febris com espinhos no peito,
Mais velhacos da fé e demais insuspeitos
Elegeram Jesus e puseram batina.
Coroinhas também vestem roupas de santo,
Das batinas somente usufruem adultos.
Pobre Cristo a viver enrolado em seu manto...
Das batinas exala um fedor mal oculto
Coroinhas sem manto ecoando em seus cantos
E, com roupa de santo alguém ganha outro indulto!
29 setembro 2010
MULHER E PEIXE
Por Cecília Prada
A coisa afinal é bastante comum. Que velhas senhoras fiquem afantasmadas pelas casas, conversando com gatos, ou com algum cachorro míope, acontece. Ou acontecia, antes da descoberta da televisão. Mas esta senhora, de quem falarei, andou desenvolvendo nos últimos anos uma estranha mania, a de conversar com um peixe, vivo, enorme, metro e meio, bege com pintas marrom, peixe de boca sempre aberta e olho lateralizado a olhando, maroto e cúmplice.
Um peixe que se chama Zé.
•
Manhã cedinho ela acorda se sacudindo, esticando as barbatanas douradas na cama-aquário, essa mulher aquática de manhãs paulistanas de neblina, degustadas por tão raras - agora que as levas e levas de severinos seqüestraram a Cidade primeira, antiga, a Cidade que tinha vagar e espera : o cheiro do café com leite e broinha de fubá, a voz da mãe na cozinha, venha tomar antes que esfrie, e depois seria o colégio, as vozes agudas , gorrinhos vermelhos das meninas no pátio, pequenas deliciosas expectativas, nas aulas de Português a sua composição sempre elogiada. Era a menina que escrevia tão bem.
E a mulher de 60 anos agora passando pela sala apressadinha, lá estava o seu peixe grandão, dorso luzidio, e aquele olho a seguindo - às vezes o achava mesmo antipático, lembrava aquele Olho sempre olhando que é o de Deus que tudo vê, o deus judaico das caixas de fósforo marca Olho, deixa de me olhar assim, Zé! E depois, veja bem, afinal estou fazendo tudo o que é possível fazer , consideradas as circunstâncias todas que tais, etc. É verdade que tem aquela conta indecente do condomínio que eu fui jogando debaixo do tapete, tem, e que criou mofo e formiguinhas e correções, sei lá como todas as contas crescem menos a minha conta bancária, que foi minguando minguando que virou mingau de minguadinha, o gerente do banco me mandou aquela outra carta malcriada, queira por favor comparecer urgentemente,etc. -- o que eles querem que eu faça, Zé?
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Havia também o porteiro do edifício, que tinha a mania de transmitir recados indelicados por baixo das portas, do Credicard, da Eletropaulo, da companhia de gás, até de uma butique em que há um ano comprara em suaves prestações uma blusa e um vestido de uma decência tardia e permitida - que o filho classificara como vaidade. O desvão da porta, Zé - assim que se diz, desvão? -- é uma imensa ameaça. Estamos aqui nós dois, meio eu te dizendo umas verdades, que você também me olha de jeito antipático às vezes, como se eu não trocasse a água do teu aquário ou te deixasse sem ração.
Um olho só, ha!ha! como você quer rir de mim, ou me julgar, se tem um olho só?
Mulher conversando com um peixe dourado chamado Zé, enorme, metro e meio - e que tem um olho só.
•
Mas então, Zé, o desvão da porta e suas ameaças. Às vezes estamos aqui tão tranqüilos na tarde, não é, nós dois...Acho que nos amamos um pouco. Pelo menos eu te amo, um pouco. E o que foi feito do amor, do grande amor/amores da minha vida, amor em pedaços, epa! virou/viraram nome de uma franquia, ha!ha!...Já trocamos muitas risadas cúmplices, não é Zé? E então, slip, alguém - a mão invisível do outro lado, ah! a terrível mão do destino? ou do porteiro Severino? - escorregou três envelopes no carpete (manchado). E eu sei, nós sabemos, não é, que são mais cobranças. Nós até nos enganamos, ou eu pelo menos quero me enganar, nada disso não. Ah! vai ver, nada disso. Condomínio em cobrança, luz, gás, telefone, cartão de crédito, a carta malcriada do gerente do banco...Impossível, por que alguém perseguiria tanto nós dois, não é Zé?
Que mal fazemos ao mundo? Estou eu aqui sentadinha no meu sofá, lendo meus livrinhos, meus proustezinhos, senhoras de uma certa idade lêem eternamente Proust. Hoje. Minha avó lia a Imitação de Cristo, ensebada, lia de cór, à noitinha ficava lendo perto da janela para aproveitar a luz escassa vinda de fora, para economizar a luz elétrica.
E você aí, na sua parede, grandão, de um olho só me olhando matreiro. Matreiro melancólico e um tanto crítico, Zé.
Você de um metro e meio e pintas marrom, dorso luzidio, você ai dentro do seu aquário, um aquário chato e comprido, com uma moldura de mogno, ai onde te enquadrei, companheiro, você último quadro na parede que já foi despojada até de uma gravura de Dali - que me encheu a geladeira por vários meses.
Você, peixe-imortal, remanescente, peixe-símbolo, fé, esperança, caridade?
(Crescem virtudes cardiais nas frinchas do desespero).
•
Abro a geladeira, suas prateleiras vazias me olham com assombro desdobrado. Mas pode ficar tranqüilo aí me olhando, Peixe Amigo, Zé - há um certo terror no teu olho espantado? Fica sossegado, amigo. Eu não vou te comer.
Você - último quadro na parede deslavada, você presente de um pintor, meu amigo Domingos Seno.
Do livro Faróis estrábicos à noite -2009
28 setembro 2010
AQUELE CUJA FOME ESPERA

AQUELE CUJA FOME ESPERA
Por Marco A. de Araújo Bueno
Aquele cuja fome espera
A fome que estará saciada
No outro, enquanto este, quimera,
Padece de fome engaiolada...
E, se o que sacia a fome está, sempre
Apenas onde nós a pomos,
Pra que enraizar felina fome
Entre patas caninas e alpiste sem nome!?
E se, então, surgir a liberdade
Que desmoronasse a espera em cadeia
E desencadeasse uma fome dual ?!
Libertos estariam, um para o outro,
E, ambos, para a saciedade
Ou para a liberdade de esfomear-se da falta.
Por Marco A. de Araújo Bueno
Aquele cuja fome espera
A fome que estará saciada
No outro, enquanto este, quimera,
Padece de fome engaiolada...
E, se o que sacia a fome está, sempre
Apenas onde nós a pomos,
Pra que enraizar felina fome
Entre patas caninas e alpiste sem nome!?
E se, então, surgir a liberdade
Que desmoronasse a espera em cadeia
E desencadeasse uma fome dual ?!
Libertos estariam, um para o outro,
E, ambos, para a saciedade
Ou para a liberdade de esfomear-se da falta.
{Soneto produzido contra o relógio [15'] em face do cartoom acima como mote, em oficina semestral do ficcionista e editor Nelson de Oliveira. Oportuno aqui, por homenagear o trabalho dele, melhor contextualizado no mais recente programa Letra Livre, TV Cultura. Venceu concurso, mas isto é outra história}
27 setembro 2010
Primeiro haicai desta primavera
O meu chá só pôde ser servido a noite, motivo pelo qual peço desculpas a todos os leitores daqui. A culpa é do tempo, claro. Por isso, um haicai (ou uma crônica em três versos):
primavera alegre -
a papinha colore
a roupa do bebê.
26 setembro 2010
GUIMARÃES ROSA II
GUIMARÃES ROSA II:
Um sonâmbulo de Deus
Por Cecilia Prada
A profunda religiosidade de Guimarães Rosa impregnava todos os atos de sua vida e está presente em toda a sua obra, na sua correspondência, nas conversas com amigos. Ao escritor moçambicano Joaquim de Montezuma Carvalho dizia, em carta transcrita por sua filha Vilma no livro Relembramentos: “Quanto mais leio e vivo e medito,mais perplexo a vida,a leitura e a meditação me põem. Tudo é mistério. A vida é só mistério. Tudo é e não é.Ou às vezes é,às vezes não é.(Todos os meus livros só dizem isso) [...] Rezo,escrevo,amo, cumpro,suporto,vivo - mas só me interessando pela eternidade. [...] Quando faço arte, é para que se transforme algo em mim, para que o espírito cresça; e desejando ser um sonâmbulo de Deus".
A própria Vilma lembra: “Procurava os nexos entre o visível e o invisível, o sensorial e o ultra-sensorial”. E diz que ele a ensinara “em aprendizagem de infinito, a sobrevivência e a vida perfeita à nossa espera.”
Uma religiosidade, porém, que não lhe estreitava os horizontes e não lhe impunha nada – a liberdade de pensamento mais ampla, que nunca limitou, permitia-lhe mesclar à fé católica da infância os mais bizarros aportes de outras filosofias e crenças. Inclusive no campo esotérico – respeitava o kardecismo, a cabala, a umbanda, a quimbanda, e até as várias práticas da feitiçaria. Era supersticioso ao extremo - basta lembrar suas objeções a tomar posse na Academia. Dizia que não resistiria à emoção e morreria. O que realmente aconteceu: morreu de um ataque cardíaco, no dia 19 de novembro de 1967, três dias após ter sido empossado. No próprio discurso de posse não hesitou em recorrer à astrologia e discorrer sobre o signo de Escorpião para justificar traços de caráter de seu predecessor na cadeira, João Neves da Fontoura. E louva o seu vezo supersticioso: “Supersticioso,sim;e claro. Superstição não preconceito, o ilusório: antes quase poesia. Percepção e arejo, defensivo psíquico automatismo, uma respiração cutânea do espírito, talvez. Soubesse que poesia é remédio contra sufocação.”
Suzi Frankl Sperber, professora-titular de Teoria Literária da UNICAMP, especialista na obra de Guimarães Rosa, dela ressalta justamente a experiência de ascese espiritual do escritor, simultânea à maturação literária. Em seu livro-tese Guimarães Rosa – signo e sentimento, ela demonstra como Rosa já moldava seus contos no livro de estréia, Sagarana, em uma estrutura baseada em exercícios espirituais, seguindo um padrão de parábola, que é o temário da força e do destino –“provocação-conflito-reação”. A partir desse livro, diz Suzi, “a liberdade de criação lhe abre os caminhos, praticamente em uma medida paralela ao crescente espaço espiritual que se constrói e amplia com a quotidiana prática de valorização do humano”. Em entrevista que me concedeu em 2008 sobre o tema, a professora acena para a possibilidade do escritor ter sido influenciado, no tempo em que viveu em Paris, pelo místico George Ivanovitch Gurdjieff – uma informação que lhe foi passada pelo filósofo Vilém Flusser, amigo de Rosa. Uma das frases mais conhecidas de Gurdjieff é : "Um homem pode continuar a ser um homem, ainda que trabalhe com máquinas. Há outro tipo de mecanização muitíssimo mais perigoso - ser ele próprio uma máquina". E ,como diz Suzi, “Guimarães Rosa cuidou de não cair em mecanizações, engessamentos, quer na vida espiritual, quer na linguagem”. Razão que explica porque o leitor que se abandona ao fluxo discursivo rosiano não somente se deleita com a beleza do texto mas passa a descobrir que muitos trechos carregam filosofia, lições de vida, reflexões fundamentais.
A preciosa primeira edição de Grande Sertão:Veredas (José Olympio, 1956) é toda ilustrada com misteriosos desenhos encomendados ao ilustrador Poty, e que, como o próprio Rosa esclareceu mais tarde aos tradutores francês e italiano, Villard e Bizzarri, seriam verdadeiros “hieróglifos”, destinados a integrar sentidos mais sutis, e secretos, do seu texto.
Decifração essa que ainda está por ser feita, como diz Marcelo Marinho em tese de doutorado de 1999, defendida na Sorbonne, sobre a presença do enigma na meta-literatura de Guimarães Rosa. A interpretação dos signos-hieróglifos do autor mineiro, diz Marinho, “poderia orientar uma série de novas perspectivas de leitura para este romance plurissignificante e enigmático”, as quais, por sua vez, desvelariam “novas camadas palimpsêsticas do romance[...] em detrimento de mortas veredas regionalistas”, e, segundo recomendação expressa do próprio romancista, dirigidas à descoberta de suas “altas veredas metapoéticas”.
Confessava Rosa à revista Manchete em 1963 que não sabia bem o que era, se “cristão de confissão sertanista” ou “taoísta à maneira de Cordisburgo” ou ainda “um pagão crente à la Tolstoi”. Definição que para ele não tinha a menor importância, porque no fundo “a religião é um assunto poético”. O que valia, sim, e está presente de maneira coerente e incessante em toda a sua obra, é a inquietação metafísica, seu diálogo permanente com “o diabo” que exista, não exista, como diz seu personagem Riobaldo, parece reger o mundo. E com Deus, porque “com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra.”
25 setembro 2010
UM FESTIVAL É UM FESTIVAL, QUE É UM FESTIVAL
Por Daniel Matos
Estação Ipanema, o cinema, saio corrido, pois o nome dava a impressão que haveria uma estação do lado, mas naquele tempo ainda não havia metrô. Corrido pelo trânsito para chegar na estação Paissandu, quando este ainda existia. Garota fica atrás na área de fumantes. Embrenho-me pelas cadeiras no meio. Filme ainda não começa, casal de garotas discutem a programação à direita, falamos de filmes coreanos. Luz apaga, vinheta do festival aparece, começa o filme: Dália Negra. Segundo festival, talvez terceiro, não tenho certeza, os anos se passaram.
O Festival do Rio de cinema não é um evento para se ver filmes, é um evento para se entrar em quatro salas escuras, uma atrás da outra, de forma compulsiva, e ver imagens de lugares distantes se embaralharem enquanto seus olhos pedem por socorro. Ver um beduíno enfiando a mão na garganta de um camelo para lhe arrancar a água, uma menina alemã dançando numa boate de queixas em Tókio, um pequeno intelectual francês dialetando consigo mesmo por duas horas, um homem sorridente tacando de um navio um anão sem braços e pernas. Até hoje, um máximo de 36 dos cerca de 300 geralmente apresentados no cardápio sempre muito amassado em minha mochila. Dias e dias, comendo pizza em um pote, ou conversando em filas com uma versão mais alta da Scarlet Johanson. Quero ver uma Copolla e um Mahkmalbaf!
22 setembro 2010
GUIMARÃES ROSA I
GUIMARÃES ROSA I :
TARDES NO ITAMARATY
Por Cecilia Prada
A memória de João Guimarães Rosa permanece como encantamento maior de nossa literatura, 43 anos após sua morte. Sua obra é um legado de riqueza inextinguível em que as gerações sucessivas continuarão a se inspirar. Mas não foi seu único legado.Para todos que tiveram o privilégio de conviver com ele – como eu própria - também nos ficou a memória de um ser humano acima da média, caminhando alto na trilha da espiritualidade, da bondade,do saber.
•
Conheci Guimarães Rosa na década de 1950, justamente nos anos em que lançou suas grandes obras. Explico: fui eu própria diplomata de carreira, de 1955, ano em que prestei o vestibular para nossa academia diplomática, o Instituto Rio-Branco do Ministério das Relações Exteriores, até o final do ano de 1958. Então, quando, formada e atuante na qualidade de Cônsul de Terceira Classe, ou Terceiro Secretário ( no masculino mesmo), casei com colega de carreira, fui forçada, por ato inteiramente anticonstitucional do MRE, a demitir-me. Depois, casada, permaneci no Itamaraty até 1973, ano do meu desquite – o que resulta em 18 anos passados na ilustre (e machista) Casa de Rio-Branco.
Meu primeiro encontro com o escritor deu-se no próprio vestibular , ao tê-lo como examinador na prova oral de Cultura Geral. Ele era então Ministro de 2ª classe. Tenho uma vaga lembrança de ter sido argüida sobre literatura grega antiga e moderna arquitetura brasileira. Passei. Nos anos seguintes participei muitas vezes de descompromissadas conversas com ele, na hora do lanche da tarde, no Bife de Zinco – o modesto restaurante do Itamaraty que tinha essse apelido pela sua cobertura de zinco e em oposição ao mais refinado restaurante do Rio na época, o Bife de Ouro.
Rosa ia levando aqueles anos longe de qualquer agitação social, empenhado no trabalho literário.Gostava da rotina sem sobressaltos, do tempo que lhe sobejava para dedicar-se a seus escritos. Sua filha Vilma nos revela no livro Relembramentos detalhes pitorescos no cotidiano do gênio, as meninices retidas no homem maduro que tinha sempre uma reserva de jarrinhas de mocotó e doce de leite de Minas no cofre de sua Divisão – em meio a uma multidão de contos inéditos.
Alto e corpulento, com cabeça e pés que pareciam pequenos em comparação com o resto do corpo, caminhava de maneira muito característica, como se escorregasse, silenciosamente. Como se pairasse acima da mesquinhez cotidiana, de um modo sutil, como quem não quer se fazer notar. A anacrônica gravata-borboleta que usava sempre era uma espécie de signo característico, sublinhando o rosto afável. Diria dela Carlos Drummond de Andrade em um poema-necrológio que lhe dedicou: “Projetava na gravatinha/ a quinta face das coisas/ inenarrável narrada?”
Havia na sua discrição uma espreita, parece, da vida, das peculiaridades da linguagem, dos gestos e expressões de futuros personagens. Uma curiosidade benévola, uma ingênua curiosidade de rapazinho - melhor, de artista. A identificação com o personagem Miguilim, de um de seus contos, ocorria. Gostava de sentar-se com as datilógrafas, com os funcionários menores, com os diplomatas iniciantes, como eu – simplicidade ímpar em uma instituição que sempre primou pelo elitismo, pelo racismo, pelo mais feroz machismo. E em um tempo de rígidos protocolos, quando alguns chefes chegavam a censurar os colegas mais jovens pelo desgostoso hábito de cumprimentarem as datilógrafas.
“João” (queria ser chamado assim) cumprimentava com a mesma afabilidade risonha contínuos, faxineiras,datilógrafas, embaixadores. À sua mesa a conversa se desenrolava mansa, levada pela sua mineirice.Parecia passar ao largo da carreira diplomática. Mas isso não era verdade. Amava a carreira que lhe dera viagens, o tempo vivido no exterior que lhe permitira especializar-se em línguas (conhecia mais de 20), em culturas exóticas – das quais extrairia os elementos que permeiam toda sua obra. Pela sua notável atuação na chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, o Governo brasileiro deu seu nome, em 1969, a um pico de 2.150 metros descoberto na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.
Sua atuação como Cônsul em Hamburgo durante a Segunda Guerra Mundial confirma a excepcionalidade do seu caráter. Apesar da política de simpatia mantida até 1942 pelo Governo Vargas pelo Eixo, e dos obstáculos oficialmente impostos à entrada de judeus em nosso país, Guimarães Rosa manteve sempre uma orientação inabalável de favorecimento à concessão de vistos para os fugitivos. Tarefa perigosa, na qual foi ajudado por sua mulher, Aracy - dizem que na realidade teria sido ela, quando era ainda uma simples funcionária do Consulado, que sugerira ao Cônsul o que ele confessaria mais tarde ter sido “um estratagema diplomático” – emitia o visto omitindo a religião do portador. Em 1985 o Estado de Israel, reconhecido, deu o nome do casal Guimarães Rosa a um bosque nas encostas de Jerusalém, e no Museu do Holocausto encontram-se depoimentos das pessoas salvas por eles. Ainda durante a guerra, Rosa demonstrou heroísmo ao entrar, após um bombardeio, no prédio que abrigava o Consulado do Brasil, para salvar arquivos sigilosos. Assim que saiu, o prédio desabou totalmente.
Durante os anos que passei no Itamaraty, tive ocasião de testemunhar sua timidez, sua modéstia. Ao cumprimentá-lo, em 1958, pela sua promoção a Embaixador, confessou-me sua inquietação por ter de escolher um posto no exterior, quando só queria ficar sossegado, escrevendo. Foi mantido no cargo, e nele permaneceu tranqüilo, comendo seus docinhos, fumando muito (era um tabagista inveterado, o que certamente lhe apressou a morte) e escrevendo muito.
Naquele mesmo ano, Reynaldo Jardim, meu ex-colega da Cásper Líbero e editor do Suplemento Literário do Jornal do Brasil, pediu-me para entrevistá-lo. O embaixador me recebeu com a maior gentileza e a mais simpática recusa, usando a terceira pessoa para falar de si próprio: "Filhinha, o Guimarães Rosa não dá entrevistas. Mas não se preocupe, o Guimarães Rosa vai lhe indicar pessoas que falarão sobre ele, para você realizar o seu trabalho". Indicou dois de seus grandes críticos, Manuel Cavalcanti Proença e Oswaldino Marques, a cujos depoimentos juntei o do poeta Alberto da Costa e Silva, que era meu colega de turma do Instituto Rio-Branco, e consegui fazer matéria de folha dupla para o Suplemento.
Nesse encontro, a maior surpresa me esperava no fim. Quando me despedia, ele me reteve um momento mais, meio encabulado: "Escute, o seu jornal às vezes publica contos. Até faz uns concursos.Você acha que publicariam um conto meu? Penso às vezes em mandar algum, mas não sei...". Aquilo parecia até uma brincadeira, uma ironia de Rosa. Mas era tão sincero aquele grande homem à minha frente, que só consegui balbuciar: "Mas, Embaixador...o senhor...ora, imagine!", e coisas que tais.
Dei o recado ao Reynaldo, que publicou alguns de seus contos mais “difíceis” – de Tutaméia, creio.
Por Cecilia Prada
A memória de João Guimarães Rosa permanece como encantamento maior de nossa literatura, 43 anos após sua morte. Sua obra é um legado de riqueza inextinguível em que as gerações sucessivas continuarão a se inspirar. Mas não foi seu único legado.Para todos que tiveram o privilégio de conviver com ele – como eu própria - também nos ficou a memória de um ser humano acima da média, caminhando alto na trilha da espiritualidade, da bondade,do saber.
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Conheci Guimarães Rosa na década de 1950, justamente nos anos em que lançou suas grandes obras. Explico: fui eu própria diplomata de carreira, de 1955, ano em que prestei o vestibular para nossa academia diplomática, o Instituto Rio-Branco do Ministério das Relações Exteriores, até o final do ano de 1958. Então, quando, formada e atuante na qualidade de Cônsul de Terceira Classe, ou Terceiro Secretário ( no masculino mesmo), casei com colega de carreira, fui forçada, por ato inteiramente anticonstitucional do MRE, a demitir-me. Depois, casada, permaneci no Itamaraty até 1973, ano do meu desquite – o que resulta em 18 anos passados na ilustre (e machista) Casa de Rio-Branco.
Meu primeiro encontro com o escritor deu-se no próprio vestibular , ao tê-lo como examinador na prova oral de Cultura Geral. Ele era então Ministro de 2ª classe. Tenho uma vaga lembrança de ter sido argüida sobre literatura grega antiga e moderna arquitetura brasileira. Passei. Nos anos seguintes participei muitas vezes de descompromissadas conversas com ele, na hora do lanche da tarde, no Bife de Zinco – o modesto restaurante do Itamaraty que tinha essse apelido pela sua cobertura de zinco e em oposição ao mais refinado restaurante do Rio na época, o Bife de Ouro.
Rosa ia levando aqueles anos longe de qualquer agitação social, empenhado no trabalho literário.Gostava da rotina sem sobressaltos, do tempo que lhe sobejava para dedicar-se a seus escritos. Sua filha Vilma nos revela no livro Relembramentos detalhes pitorescos no cotidiano do gênio, as meninices retidas no homem maduro que tinha sempre uma reserva de jarrinhas de mocotó e doce de leite de Minas no cofre de sua Divisão – em meio a uma multidão de contos inéditos.
Alto e corpulento, com cabeça e pés que pareciam pequenos em comparação com o resto do corpo, caminhava de maneira muito característica, como se escorregasse, silenciosamente. Como se pairasse acima da mesquinhez cotidiana, de um modo sutil, como quem não quer se fazer notar. A anacrônica gravata-borboleta que usava sempre era uma espécie de signo característico, sublinhando o rosto afável. Diria dela Carlos Drummond de Andrade em um poema-necrológio que lhe dedicou: “Projetava na gravatinha/ a quinta face das coisas/ inenarrável narrada?”
Havia na sua discrição uma espreita, parece, da vida, das peculiaridades da linguagem, dos gestos e expressões de futuros personagens. Uma curiosidade benévola, uma ingênua curiosidade de rapazinho - melhor, de artista. A identificação com o personagem Miguilim, de um de seus contos, ocorria. Gostava de sentar-se com as datilógrafas, com os funcionários menores, com os diplomatas iniciantes, como eu – simplicidade ímpar em uma instituição que sempre primou pelo elitismo, pelo racismo, pelo mais feroz machismo. E em um tempo de rígidos protocolos, quando alguns chefes chegavam a censurar os colegas mais jovens pelo desgostoso hábito de cumprimentarem as datilógrafas.
“João” (queria ser chamado assim) cumprimentava com a mesma afabilidade risonha contínuos, faxineiras,datilógrafas, embaixadores. À sua mesa a conversa se desenrolava mansa, levada pela sua mineirice.Parecia passar ao largo da carreira diplomática. Mas isso não era verdade. Amava a carreira que lhe dera viagens, o tempo vivido no exterior que lhe permitira especializar-se em línguas (conhecia mais de 20), em culturas exóticas – das quais extrairia os elementos que permeiam toda sua obra. Pela sua notável atuação na chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, o Governo brasileiro deu seu nome, em 1969, a um pico de 2.150 metros descoberto na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.
Sua atuação como Cônsul em Hamburgo durante a Segunda Guerra Mundial confirma a excepcionalidade do seu caráter. Apesar da política de simpatia mantida até 1942 pelo Governo Vargas pelo Eixo, e dos obstáculos oficialmente impostos à entrada de judeus em nosso país, Guimarães Rosa manteve sempre uma orientação inabalável de favorecimento à concessão de vistos para os fugitivos. Tarefa perigosa, na qual foi ajudado por sua mulher, Aracy - dizem que na realidade teria sido ela, quando era ainda uma simples funcionária do Consulado, que sugerira ao Cônsul o que ele confessaria mais tarde ter sido “um estratagema diplomático” – emitia o visto omitindo a religião do portador. Em 1985 o Estado de Israel, reconhecido, deu o nome do casal Guimarães Rosa a um bosque nas encostas de Jerusalém, e no Museu do Holocausto encontram-se depoimentos das pessoas salvas por eles. Ainda durante a guerra, Rosa demonstrou heroísmo ao entrar, após um bombardeio, no prédio que abrigava o Consulado do Brasil, para salvar arquivos sigilosos. Assim que saiu, o prédio desabou totalmente.
Durante os anos que passei no Itamaraty, tive ocasião de testemunhar sua timidez, sua modéstia. Ao cumprimentá-lo, em 1958, pela sua promoção a Embaixador, confessou-me sua inquietação por ter de escolher um posto no exterior, quando só queria ficar sossegado, escrevendo. Foi mantido no cargo, e nele permaneceu tranqüilo, comendo seus docinhos, fumando muito (era um tabagista inveterado, o que certamente lhe apressou a morte) e escrevendo muito.
Naquele mesmo ano, Reynaldo Jardim, meu ex-colega da Cásper Líbero e editor do Suplemento Literário do Jornal do Brasil, pediu-me para entrevistá-lo. O embaixador me recebeu com a maior gentileza e a mais simpática recusa, usando a terceira pessoa para falar de si próprio: "Filhinha, o Guimarães Rosa não dá entrevistas. Mas não se preocupe, o Guimarães Rosa vai lhe indicar pessoas que falarão sobre ele, para você realizar o seu trabalho". Indicou dois de seus grandes críticos, Manuel Cavalcanti Proença e Oswaldino Marques, a cujos depoimentos juntei o do poeta Alberto da Costa e Silva, que era meu colega de turma do Instituto Rio-Branco, e consegui fazer matéria de folha dupla para o Suplemento.
Nesse encontro, a maior surpresa me esperava no fim. Quando me despedia, ele me reteve um momento mais, meio encabulado: "Escute, o seu jornal às vezes publica contos. Até faz uns concursos.Você acha que publicariam um conto meu? Penso às vezes em mandar algum, mas não sei...". Aquilo parecia até uma brincadeira, uma ironia de Rosa. Mas era tão sincero aquele grande homem à minha frente, que só consegui balbuciar: "Mas, Embaixador...o senhor...ora, imagine!", e coisas que tais.
Dei o recado ao Reynaldo, que publicou alguns de seus contos mais “difíceis” – de Tutaméia, creio.
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