31 janeiro 2011

Rascunhos de mim mesmo #4

Por Rafael Noris

no espelho
meu rosto retrata o seu
no espelho
você se retrata

no espelho
no espelho
alguém não te esquece

no espelho
você reaparece...

com olhos murchos e sem nada a dizer...

30 janeiro 2011

Carlos Olhos Opacos


Chegou à porta de casa. Tirou do bolso seu chaveiro cheio de chaves. Nenhuma delas afetava seu cadeado mais difícil. Passou por portões, travas, trancas, correntes, fechaduras; e porta. Entrou. Tinha fome. Algo fácil e rápido de fazer. Macarrão. Suas opções de molho eram: seu molho de chaves imprestáveis, ou um molho de tomate congelado que mantinha na geladeira. Havia também o molho de suas memórias, dores e confusões remoídas, mas, por lhe causar náuseas, essa não era uma boa idéia.

Tomate. Jantou na companhia da TV, mas ignorou o “boa noite” da mocinha do jornal da madrugada. Comeu o de sempre. Tragédias, futebol, chuva no dia seguinte e aquele crítico tonto, que odeia. O programa de entrevistas, às vezes, lhe trazia algum prazer. Seu lado criança sonhava em ser entrevistado um dia. Seu lado adulto já temia o escuro de outra noite não dormida.

Lembrou de dar veneno aos pernilongos e, por uma hora e meia inteira, tentou pregar os olhos durante o filme que passava pela trigésima quarta vez naquele horário. Em vão. Os créditos subiam, quando se rendeu à insônia, levantou, lavou o rosto e foi esperar o Sol nascer.

26 janeiro 2011

CONFRONTO: ÔLHO E SERPENTE - III



A RUA – é o lugar-comum , geográfico e literário, da condição humana – a síntese melhor do que é esta Cidade, a megalópole dita desumana. Ou não: é esta absoluta condensação de humanidade, de vida, fluindo incontrolada dentro de uma artéria , com carga explosiva contínua, ferida enorme aberta , rua que ficou louca, tomou o freio nos dentes , rua que nos olha, de baixo para cima, covarde e nua, rua que olha para este ponto que sou, a observadora do sétimo andar, e cospe sua repelência em mim.
(E no entanto, verifico num espanto – eu a amo).
Eu estou aqui, atenta , interessada, e exausta. É o absoluto silêncio estabelecido – são cinco horas da manhã – que me faz estranhar. Vou até a janela, verifico que as duas boates aí em frente foram fechadas, o luminoso apagado – só a perua do cachorro-quente persiste, foco amortecido de luz, sob a barraca vermelha. De olho espichado, alerta, vertical na calçada o homem pontua a madrugada. Ele lá embaixo , eu aqui. Ele prestes a encerrar seu trabalho, eu prestes a encetar o meu, contraponto/contrapeso somos, do novo ciclo.


No ciclo que se repete, a barulheira infernal, borbotão, veio me despertar novamente do meu sono, perfurando vidraças e cobertas, e as camadas do cerebelo. É como um desespero, uma aflição, a gritaria do prazer lá em baixo, na Augusta - o grito na madrugada, como incomoda, é um estertor da condição humana ensebada de gozo barato - como devem feder a esperma esses antros. De manhã, na realidade crua das dez horas, uma faxineira usa baldes de pinho-sol nas escadas que descem para o salão entrevisto, de cadeiras empilhadas e espelhos de olhar baço. Nas calçadas, exércitos de camisinhas - como vermes pastosos. É preciso olhar para não escorregar. Na esquina da Dona Antonia de Queirós a montanha permanente de sacos negros de lixo - estripados pelos cães que rondam, lambendo calçadas repulsivas.

Condição humana - a minha, nesta idade, e meu olho desperto, ainda, registrando a vida, deste 7º andar de vigília insone.

...e eu, 50 anos mais tarde, ponto condensado que me arrebento, trago comigo estes seres, estes pedaços, estes cheiros sons ruídos, sonhos.... E os sonhos, sim, que fizeram com os sonhos?
Meu sonho era a gravidez desta Cidade – verifico espantada. Desta gente, destas ruas, deste pedaço de vida e de mundo, e de Tempo, que me foi dado viver. Repositório, sou. Fiel depositante, de tanta grandeza, e tanta pequenez, e os miúdos fatos do “nada acontecer’ que se sucediam velozes, tão velozes, eu que impaciente me dizia, no meu verdor, que nada acontecia – este ponto que consigo, por trás de todas estas camadas,sim, detectar ainda, eles lá imobilizados, surpresos ficariam, ficaram, não ficaram?
Ficaram, com a mocinha que foi embora, assombrada, assustada – e que agora voltou para sempre, para catar suas pedrinhas, armar seu cirquinho da memória, arejar velhos trapos e rendas francesas, sacudir o pó das lamparinas extintas - e contar, sim, contar contá-los, contar-nos, paulistana sou, me pertenço. Ainda.

Ponto contingente. Somos um rio e um ponto - eu e a rua. O ponto que sou eu - um olho. O rio de lava acesa lá embaixo é o rio de Heráclito - eu sou o observador, meu destino esse, agora. Porque no final da vida, se não descobrirmos o desenho, morreremos desesperados. As circunstâncias que me trouxeram até aqui - tenho poucos minutos, uma hora, alguns anos de vida, no más. Antagonistas eternos e desiguais. A rua tem vantagem. Ela não pensa, ela só é. Ou eu tenho vantagem - posso pensar e ser? Um ser em manifesta desintegração como eu? Pode ser alguma coisa como “a última luz da estrela moribunda” - posso permitir-me o clichê, a pieguice, neste final.

E descubro - não, não são dois elementos assim, a rua, o olho. Há um terceiro elemento. Descubro. Alguém que nos olha também – o ser do super-olho, terrível, das caixinhas de fósforos marca Olho. Sorrateiro. À espreita. Que sempre esteve e está presente, e estará, depois que eu e tu, e todos nós, e a rua e a cidade, e tudo, tudo o mais, desaparecer.


Vaudeville



Joseph Hart Vaudeville

Joseph Hart Vaudeville – um maridão? sobrancelha torta. Anão sem umbigo. Mulatas. Semi-nuas. Gêmeas xipófagas. Você quer ver?
Renata O´Brien faleceu., Maria Amélia. Bora varrer o chão. Você quer ver? Foi um crime passional? erisipela? o tráfego aéreo? um aneurisma?
Você quer ver mesmo? de verdade? no duro? Vire a página, entonces, Maria Amélia.


Quer? Quer ver o que, Maria Amélia? Sexo explícito? Beleza. Que mais? um romance. Quer é? um romanção bonitão, todo em versiporsa, cheio de anáguas e calçolas.
Só pra você, Maria Amélia.
Banda de cabaré? é evidente. Que mais? Palavras cruzadas. Ação. Chistes Enigmas. Renata O´Brien? Renata Havel? Renata Zuppern? Perversões secretas. Joseph Hart Vaudeville, Joseph Hart Vaudeville, Joseph Hart Vaudeville. Secreções perversas.
Renata hoje, terça, é toda unha e cabelos na sepultura. Quer ver?Quer?
Balas de estalo ai, bandolins de serenata, e ainda a-ten-ção. Abre-te, Sésamo. ui

RECLAME

JOSEPH HART VAUDEVILLE, esposas ai quebra-bengalas. ui. Vergões na bunda dos maridos!


Na terça-feira, dia 08/02/2011 não vá ficar de fora da ficção, do crime, do folhetim e da sem-vergonhice, parceiro.



25 janeiro 2011

Obituário

Por: Bia Pupin

Renata Zuppern, 35 anos, será sepultada nesta terça, 16 horas, no cemitério das Andorinhas. Ela morreu na madrugada deste domingo, no Hospital São Paulo. Deixa uma filha e marido.

24 janeiro 2011

ESTETOSCÓPIO

Por Guilherme Salla


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Oculto,
em mim ausculto
um culto secreto
em meu peito.


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Ps: peço perdão aos diletos leitores, assim como aos meus colegas de Chaleira, pelo atraso na postagem.

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23 janeiro 2011

RINHA - TROVOADAS

FOTO: Por Ale Toresan
Sob a rubrica RINHA, colunistas que, eventualmente abordados por um "bate fio"do colega escritor Antônio Gustavo Filho e que, instados (apetecidos ou esculhambados) a responderem, que o façam. O MARCADOR será RINHA - TROVOADAS, de vez que o exasperado alvo da cantiga de maldizer do Marcelo Finholdt o desafia para um duelo cujo sítio é este mesmo e a data - Domingo, 23 de Janeiro. Vai ser cabo de alta tensão em campo encharcado, neste encharcado Janeiro; granizo chumbo-grosso, numa saraivada de trovas heptassílabas e rimas A-C/B-D como convém à liturgia da coisa. Aviso que não me serei mediador pois hei de cair pra dentro. Degladiemonos ou nos locupletamos todos, que o fervo, aqui - é devir. Às armas, chaleiras, a palavra está na arena!

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