11 maio 2011

A MÃE

A MÃE

Por Cecilia Prada

Dessa avó, posso dizer que a sinto tronco e nó. Que nos meus cabelos encontro suas raízes. Quando me penteio, lembro dos dela, grisalhos e que nunca foram cortados, caindo-lhe pelos joelhos, para espanto da meninazinha de seis anos que assim, numa revelação, via uma avó diferente, quase moça – antes que a cabeleira voltasse inexoravelmente a amarrar-se no coque do alto da cabeça.

Dessa avó, nasceu-me uma curiosidade, pelo meio da vida. Nos meus inquietos membros, nas noites insones, na vontade de fuga, minha avó – achei-a em mim. Uma vez ela me contou: “Depois de casada, uma vez passou um circo em Ribeirão das Velas, eu perguntei para o Jorge porque a gente não ia embora com eles”.

Mas a lembrança que me parece mais forte é uma que nunca pude ter, que se formou de um retrato esmaecido, um riso, um olhar. A lembrança que me veio de contada ao pé do braseiro, numa noite fria, a de uma Ana de 1897, com seu cabelo solto e lindo, trepada na mangueira – o gosto da fruta, a casca arrancada com o dente. A da caçula mimada, Ana, Aninha, permitiam-lhe tudo que quisesse, montar em pelo como os irmãos, ir tocar o gado com eles, tourear vacas mansas até que ficassem bravas. Ou banhar-se no riacho de águas claras no frio da manhã, abrindo bem os olhos para ver como era lá embaixo.

E a ordem paterna que selara seu destino, repercutindo no céu claro daquela manhã de abril de 1897, ecoando numa despedida, na água fria, no pasto, na mangueira onde Ana se balançava, Ana de dezesseis anos:

– Ana, desce já dai. Está na hora do casamento.

Mas o marido fora escolha dela, fazia questão de contar: “Quando eu tinha treze anos meu pai me disse que eu ia casar com um conhecido dele, um velho. Eu disse que não, que nunca. Que fugia de casa. Que me matava. Só me casei com Jorge porque quis”.

Na missa de domingo na Matriz, os homens de um lado, as mulheres de outro, Ana olhava para Jorge – bem posto, vinte e seis anos, bigode louro retorcido. Ela ria, mostrando os dentinhos. Desse riso, do deslumbramento de Jorge, um casamento. Uma vida.

– Aninha, desce já daí sua peste. Não vê que tá na hora?

Passou os lábios com vagar e gozo no caroço da fruta. Se lançou no espaço, com a última perdida liberdade de menina, a saia aberta em balão no vento. Entrou na casa da fazenda, a irmã mais velha empurrou-a, anda. No terreiro Chico, o irmão que mais tarde, depois da morte do pai, com direitos de primogenitura venderia a fazenda a retalho prejudicando os irmãos, abriu riso largo:

– Ota noiva demorada, parece que nem tá querendo...

A porta fechada, a cômoda escura abrindo lenta os seus mistérios – a mortalha branca esperando-a. Mãos de tias impingiram-lhe bem forte um espartilho, para que bem contida se sentisse, nunca mais a menina de corpo livre na cachoeira. Os seios miúdos levantados como se enrijecidos devessem se apresentar ao mundo, num atestado de múltiplas maternidades futuras.

Os cabelos levantados e presos, no penteado que se afofava do lado mas que lhes escondia a beleza indisciplinada. Seria de agora em diante: uma mulher casada. Uma senhora. Numa facada espetaram-lhe no cimo do coque um pente espanhol de tartaruga, presente do pai – símbolo de um domínio nunca perdido. Pronto o rígido manequim, as mãos femininas da família derramaram sobre o corpo de Ana o dom supremo, o véu da tradição, amarelado. Que lhe caiu da cabeça aos pés.

– Foi da sua avó.

Naquela clara manhã de abril, sentindo o peso da renda francesa sobre o corpo de menina, Ana estremeceu. Parecia o peso daquele varal de roupas que – diziam – caíra sobre o corpo da avó Mariana, quando estava no resguardo do décimo filho: “Chovia, recolheram as fraldas da criança, estenderam todas no quarto. O varal caiu bem em cima da barriga dela quando estava dormindo. Ela deu um grito e ficou louca. Resguardo é coisa de muito cuidado”.

Contemplada com a cascata de renda envelhecida sobre a cabeça, Ana pensou na figura daquela avó louca, andando suja pela fazenda, não reconhecendo nem os filhos. Estremeceu e se olhou no espelho. Quem era aquela estranha e rija senhora de cabelo alto, cintura tão fina e seios assim empinados?

Levaram-na.

·

Quando a deitaram na cama, já as dores a abriam pelo meio, espantosas. O filho entalado nas entranhas sem querer sair, no corpo de menina que não se alargava. Que se recusava. Jorge olhou-a, tão linda, e Jorge chorava – porque Ana ia morrer. O rosto lívido que se contraía no grito, os olhos baços, olhando longe – via Mariana vagando louca pelo casarão da fazenda, a cabeça batendo no travesseiro. Na fronha essa presença constante de rendas, ainda uma vez, como se as rendas cobrissem o seu sofrimento, como se rendas pudessem ajudar o menino enorme retido no seu ventre.

Amarraram suas mãos na cabeceira da cama, o corpo aberto em cruz, as pernas afastadas, a parteira gorda apoiada sobre sua barriga, apertando. Foram buscar o chapéu do marido. Ajudava. Jogaram o chapéu, grotesco, sobre a cabeleira dispersa de Ana, Aninha que ia morrer, Ana-menina, estreita demais para parir.

Chegaram o padre e o médico que vinha da cidade maior. O padre ia rezando De profundis clamavi ad te Domine, esses óleos da morte sobre o corpo em flor de Ana. O médico de mangas arregaçadas, mergulhando as mãos fundas na pélvis, quase desanimado: “Não tenho recursos”. A cidadezinha não permitia uma cesariana. Não havia mais tempo para removê-la.

– Mas essa criança passa, disse ele de repente surpreso. Ela não é tão estreita.

E olhou sem compreender aquela menina que parecia se fechar. Se recusando a dar vida ao pequeno ser que lhe haviam imposto no ventre. O médico sacudia-a pelo ombro, tentando paralisar o seu rouco grito de animal estripado:

– Dona Ana, faça força. Depende da senhora, deixe a criança vir, Dona Ana. Dona Ana!

Levaram Jorge para fora do quarto, e ele soluçava, como se fosse culpado. A mãe, chorava: “Minha filhinha, Aninha,coitadinha, ela é tão criança”.

O fórceps agora mergulhava fundo, uma sonda de aço, impiedosa, ferindo-a, o médico suava, pedindo: “Mais um pouquinho, Dona Ana, faça força. Não grite, Dona Ana, faça força para baixo”.

A parteira trazia uma garrafa. Ergueram Ana semi-cadáver de óleos ungida, faziam-na soprar dentro de uma garrafa. De repente ela abriu os olhos, soprou com uma força que parecia um ódio ( mas disso ninguém nunca soube, nem ela). Soprou sua alma. Aos poucos a cabeça da criança começou a surgir da pélvis violentada, veio vindo num alívio. Algo que se desligava dela para sempre. Algo que nunca mais seria dela. Mas que agora não a fazia sofrer mais. A cabeça de cabelos lindos e soltos caiu no travesseiro, o menino chorou forte e Jorge entrou no quarto, “Aninha, minha querida!”. Mas os olhos de Ana permaneciam fixos.

Deixou pender a cabeça para trás. O médico disse: “É um menino, Dona Ana”. Ela só disse: “Me deixem dormir”.

Jorge chamou o filho de Júlio, em homenagem a seu pai.

·

Alargada à força, sem resistências, como se fosse uma abdicação, a fecunda pélvis de Dona Ana pariu mais nove filhos, entre natimortos, prematuros, alguns quantos mortos na tenra infância, de diarréia, de febre, de pneumonia. Sobreviveram seis. Aos oitenta anos, ela chorava quando falava da morte de Mariquinhas, a segunda filha, aquela tão linda que parecia um anjo, e que começava a falar quando morrera de gastroenterite. Contava: “Eu já estava até prenhe de novo (do terceiro filho, João) mas quando a criança nasceu nem olhei para ela”.

E tudo se seguiu no igual de todas as vidas, de todas as histórias. Na vida pobre, nos invernos duros, na comida parca, na economia, na mão rachada, nos empregos vários de Jorge – até que arranjasse uma segurança mísera como escriturário de um cartório. No parto dos gêmeos, natimortos, ela quase morrera também. “Cheguei a ficar de unha roxa e mestre Marcelino veio me ver, ele olhou para mim de cima a baixo e eu sabia porque, era para medir o tamanho do caixão. Porque iam me enterrar logo, eu estava quase podre”.

Milagre de São Benedito salvara Ana. Que quando se levantou amarrou um pano branco na cabeça, ficou sentada na rede balançando, um ano, sem falar com ninguém. Enquanto a filha Lourdes, de oito anos, tomava conta dos irmãos, pondo um caixote para alcançar o fogão de lenha, queimando-se com óleo fervente. Se iniciando.

Depois de um ano, Ana desamarrou o pano da cabeça, retomou a vida. Teve mais três partos, todos dolorosos, um bem sucedido. Aos trinta e oito anos não tinha mais um dente. “Cada filho um dente”. Mas nunca deixou que lhe cortassem o cabelo. Para surpresa da neta, que um dia o veria todo grisalho, e tão comprido que lhe chegava aos joelhos.

Levantava bem cedinho e antes das lides da casa lia o jornal, soletrando alto. “Quando eu era menina foi um alemão lá na fazenda, me ensinou a ler. E disse para o meu pai que era uma pena, que eu devia estudar. Mas naquele tempo só homem estudava. Meu pai mandou o alemão embora porque punha idéia na minha cabeça. Nunca aprendi a escrever. Só sei assinar o nome”.

O segundo ano do casamento, contava aos netos, tinha sido o ano da passagem do circo pela cidadezinha. Deslumbrada com as moças de vestido brilhante, corpos flexíveis se dependurando do trapézio, Ana tinha perguntado a Jorge se eles não podiam ir embora com o pessoal do circo. Na velhice, Jorge, rodeado da família, caçoava: “Aninha, você lembra de quando queria fugir com o circo?”

A filha Helena, que sempre fora a mais sensata, dizia: “Ainda bem que o senhor não concordou, Pai. Senão nós todos estaríamos hoje pulando do trapézio lá no circo”.

Jorge tinha muito orgulho da família que ia crescendo sempre sem parar. Olhava para os netos: “Não é para falar, mas que meus netos são todos muito bonitos, são. Puxaram pela avó”. Se gostavam ainda, ele, Ana. Vieram as bodas múltiplas, de prata, de ouro. Dois anos antes das de diamante Jorge morreu, numa noite, de repente.

Ana nunca mais falou no marido morto. Começou a ficar de olhar vago, a falar das coisas da fazenda, do fundo claro do ribeirão, uma beleza quando a gente mergulhava com os olhos abertos, via todos aqueles peixes. E falava da vaca malhada, que era tão mansa, e ela brincando de tourada com ela, virara uma fera . Ria olhando para coisas que só ela via.

Os filhos e netos ficaram tristes. “A mãe começou a caducar”.

Num dia de festa, o batizado da primeira bisneta, notaram que Ana misturava os nomes e as pessoas, tratava as netas trintonas como se fossem meninas.

Um dia lhe apontaram o filho mais velho, Júlio, de cabelos brancos, apoiado numa bengala – esse que quase a matara, esse que lhe disputara a vida nas entranhas que se fechavam.

– E esse aí, Mãe, quem é?

Ana olhou com olhos vagos, do alto da mangueira, riu alto:

– Esse velho aí? Sei lá.

{Do livro "Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão"-DBA-SP-2004}


10 maio 2011

Joseph Hart Vaudeville - 8


... chove, ainda. Pero, nesse meio tempo...



Capítulo XI


A MERDA

ou

O FIM DO PRINCÍPIO


Ó, abre-alas... antes de mais nada, Maria Amélia, antes dos bufos no posto chegarem, ha ha ha...

Bora ver aí qué que hai na porta do banheiro masculino? Bombas de gasolina, tremei. Chorai, falasfalto cheio de brita, chorai na minha.


ESTE

É UM RETRATO FIEL

DA PORTA DE BANHEIRO QUE ALGUNS

DOS HISTRIÕES

DO VAUDEVILLE ENCONTRARÃO, EM SUA FRENTE,

NA TERÇA-FEIRA, DIA 24

DE MAIO:



Bora na fé, ordinária.


NO.BEICO.DO.CHARUTO.NA.LATRINA

BARREADA

TODA.VAIDADE.SE.ACABA


A.VELHA.FOGE.DA.GRUTA.O.COVARDE.

SE.ESFORCA

FAZ.MERDA.O.GALA.CHEIROSO

E.O.MAIS.VALENTE.SE.CAGA



Charles Anjo 45


JÔ SOARES DA GLOBO DÁ O CU E CHUPA PIROCA.

Caguei-te

ó verso sujismundo

vi boiarem na louça turva teus pronomes pessoais

do caso reto.


Cagar até o cu fazer bico pode não ser uma boa chave para um soneto, mas que poderei fazer, se foi assim, obstipado, que fiz de um toroço formidável este oloroso revertério?


QUEM MATOU MARIA HELENA? marque com um “x”:



Psiu... cala a boca, mulher. Cala a boca. Antes de toda apnéia vêm um ponto e vírgula, mas o papel higiênico suspira dobrado enquanto o enredo desse folhetim de merda não vem sentar-se... à mesa. [ .............................. 31pt. ] rá, te peguei, Maria Amélia!

Nevertheless.




07 maio 2011

MERA COINCIDÊNCIA

Mera Coincidência, ou Wag the dog no original, é um filme do diretor Barry Levinson, com a participação de Dustin Hoffman e Robert DeNiro. Na história, o presidente americano às vésperas de eleição se vê frente a um escândalo de abuso sexual na Casa Branca, e sua equipe contrata um produtor de Hollywood para forjar uma guerra no leste europeu para distânciar a atenção do público. O povo não precisa da verdade, só de um espetáculo apropriado. Dado um vilão, e algumas cenas dramáticas na tv, todas filmadas em estúdio, o povo obediente acredita. Mais algumas cenas dramáticas, mortes falsificadas, bombas atômicas que nunca existiram, declara-se a vitória, o presidente vira um herói. O herói salvou-os da guerra, daquele povo estranho que queria destruir seu modo de viva, a guerra que os fez esquecer de uma crise econômica também falsificada, na verdade só uma lavagem de dinheiro para os mais ricos - o grupo que contratou o herói em primeiro lugar.

A verdade pode ser simples mas não é bonita, as pessoas preferem ver o mundo em preto e branco que qualquer outra coisa, e aqueles que querem controlar a maioria sabem que falar a verdade é deixar o povo confuso e contrariado, é preferível uma narrativa com heróis e vilões facilmente identificáveis. Assim, se há um problema, todos podem odiar um personagem ficcional que só foi criado para ser odiado e fazer todos esquecerem de todo resto. Se há necessidade de um herói, mata-se o vilão, tarefa fácil já que ele nunca existiu, só é necessário um pronunciamento público e quem sabe alguns vídeos de um ator de perfil fazendo o que era esperado do vilão. Quem sabe, também se coloque uma coca-cola lá, para mostrar como o vilão se contradizia nos seus próprios princípios. E lá vai o povo idiota na rua comemorando a morte de alguém que nunca existiu, vendendo camisetas que marcam ainda mais a sua estupidez. Não sabem eles que a morte de um vilão é o anúncio que logo um outro será criado para tomar o seu lugar na fantasia.


03 maio 2011

DESERTOR NO DESERTO - PARTES I e II




Marco Antônio de Araújo Bueno recomenda a leitura do seguinte texto:


Título: "Desertor no Deserto" (inspirado no filme "Paradise Now", de Any Abu-Assad-2005")
Autor: Marco Antônio de Araújo Bueno

[Comentários de Marco Antônio de Araújo Bueno:
Para a minha Coluna - BREVIDADES - de 03/Maio/ 2011 - Microconto de dez palavras dividido em duas partes. Cabe ao leitor, diante das circunstâncias históricas recentes, planejar seu próprio modo de recepção da peça. Para tal, deve programar o distanciamento ideal entre as leituras das respectivas partes (I e II) do microconto e não se deixar iludir, seja pela extensão, seja pelo teor da matéria narrada. Conjecturas avizinhadas são oportunas. ]





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