31 maio 2012

FAMÍLIA VIRTUAL



Hoje é tudo banal, é sem cor, é sem sal:
As pessoas são vãs, não se importam com nada,
Até mesmo se o Cão se traveste de “Prada”,
Se o Cordeiro é ateu, se o pensar é mortal.

Hoje tudo é tão vil, é sem dó, sem limite:
As pessoas são vis, individualistas,
Até mesmo se são mal taxadas de autistas
Não se importam: - Só vale é ficar nas elites.

Hoje tudo é brutal, é dinheiro, é novela:
As pessoas são “Bis”, sempre iguais, são bovinas,
Até mesmo por que: são modelos, são belas.

Hoje gente é boçal, é notícia, é balela:
As pessoas são sós, cheiram mais cocaína,
Até mesmo no espelho há... heróis só na tela.

30 maio 2012

HAICAI



Ilustração por - Luiza Maciel Nogueira


Por Alvaro Posselt

Todo iluminado
dorme o bêbado na praça –
Lua de outono


29 maio 2012

TEJO



                                                        (Para a Minguante, publicação lisboeta voltada à micronarrativa, este 'deca', fora copidescado ?)


Tejo

Podia nadar, fazer regata. Hoje posso não jogar lixo nene...

Por Marco A. de Araújo Bueno

{O microconto original tinha, como título "Tietê" e terminava com a palavra "nele". Como o mote desta edição era "Fado" achei simpático substituí-lo pelo tão pessoano nome do rio Tejo, "que não passa pela minha aldeia".Mas o que não passou pelo revisor foi "nene"...Também não publicaram na falecida sessão "MICROTEORIAS", congelada há muito, o fragmento teórico da minha tese de doutorado ("Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea") enviado já para edição anterior, e não publicado. Esse lugar de produção teórica da internacional e única revista de micronarrativas, tão prolífico que o desejamos -será que não apostavam mais "nene"? Todavia, confira-se o Fado (sem lapsus aqui; aqui não!) no :www.minguante.com

27 maio 2012

VÍCIO


Vício




Fumava com prazer e culpa. Baforava contra a vidraça da janela para ver e não se esquecer da beleza disforme da fumaça do cigarro. "Mea bela culpa".
Que meu pai me perdoe pelo desgosto do filho fumante e fedido. O prazer do cigarro ainda me preenche vazios e ilumina as noites escuras e silentes. Sinto que será assim por um bom tempo, quem sabe por todo o tempo em que eu ainda estiver por aqui vegetando da forma como escolhi, cercado por vidraças sujas de poluição e portas trancadas, longe do mundo lá fora, cárcere voluntário interrompido raramente e somente por visitas sexuais.
Abano o ar com a mão após apagar a bituca. Me remete a adolescência rebelde de fumante oculto. Mais um vício além do fumo, intimamente ligado a ele. Sou um homem de vícios.
Meu cabelo cheira fumo, assim como minhas roupas, meu hálito, meus pelos. A maioria das mulheres não gosta. Reclama na hora do sexo, me fazem tomar banho e escovar os dentes antes de cravar o pênis em seus orifícios melados. Eles fedem tanto quanto eu e isso, somado ao tempo perdido no chuveiro e na pia fazem meu pau cair. 
Agradeço sempre que posso a proteção que me é oferecida pelo odor do fumo nos lençóis, toalhas e cortinas, que encurta o tempo das visitas íntimas. Mulher depois que goza é um saco, despenca a falar da vida como se a gente quisesse mesmo saber da merda do cotidiano fútil delas, como se isso fosse provocar uma maior aproximação e intimidade e quem sabe, reservar um próximo encontro.
Contra isso, nada melhor e mais providencial que uma bela baforada de cigarro, companheiro este que substitui rapidamente e com extrema elegância a lastimável presença feminina após o sexo.
Desta forma permito-me novamente afundar o corpo entre meus lençóis nicotinados, sempre com os olhos voltados para a vidraça da janela fechada que contra a luz natural do amanhecer transforma minhas baforadas em poesia.

25 maio 2012

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