por Eustáquio Gomes
Ah, as cartilhas da nossa infância. Espelhavam a simplicidade de nossas vidas. Por certo nossas vidas não eram tão simples como as imaginamos agora, mas vistas assim à distância são como água de pote diante da barrela de hoje. Quem me fez lembrar das cartilhas foi João Batista d’Almeida, o dos “arquivos incríveis”, ao me dar a conhecer um desses livrinhos encantadores. É de 1945 e se intitula A cartilha de Cecilia.
Diz a folha de rosto que foi escrita e editada por Egidio e Luiz Prada, irmãos com gráfica e editora na rua Aurora, número 29, São Paulo. São algumas dezenas de lições que vão progredindo suavemente ao correr das páginas, agradavelmente ilustradas, sem que o leitor (sim, o leitor criança) perceba o crescimento das dificuldades. A primeira página me repõe diretamente no quintal de casa, lá em Minas, nas minhas calças curtas de então.
O gato e o pato.
O pato vê o gato.
O pato bica o gato.
O gato pula.
O pato vê o gato.
O pato bica o gato.
O gato pula.
Mais adiante, a lição é um cromo vivo:
Estão tocando o sino.
O badalo bate no sino.
São horas do almoço.
Todos obedecem ao sino.
O sino toca outra vez.
Já é tarde.
O trabalho acabou.
O badalo bate no sino.
São horas do almoço.
Todos obedecem ao sino.
O sino toca outra vez.
Já é tarde.
O trabalho acabou.
E assim, de folha em folha, dia após dia, vamos sabendo que a menina (Cecilia) calça o sapato. Que o gatinho entrou na bota. Que o pato bicou o dedo do menino. Enquanto isso mamãe costura uma camisa de tricoline. De repente alguém está arrumando a mala. Vai partir. A mala é de couro. Papai tem um relógio. Ele traz o relógio no bolso. Às onze é a hora do almoço. A hora do jantar é às dezoito. Tudo muito certo. Vovô e vovó vêm de visita e trazem um pacote de jabuticabas. Sabia que Tito comprou um automóvel? Pois Serafim ganhou uma linda bicicleta. Alberto comprou um gramofone e não para de ouvir modinhas, marchas e operetas. À noite, sonolenta, Cecília beija sua bonequinha Inês e vai dormir. Está contente e de muito bom humor.
Uma das lições se dedica a descrever um dia na vida de Cecília. Nada mais justo: além da dar título ao livro, Cecilia rima com cartilha. E não só por isso, mas também porque Cecilia era uma menina da vida real e, para dizer tudo, era a filhinha de Luiz Prada, um dos autores da cartilha. Começa assim:
Dia de domingo. Cecilia levantou-se bem cedo. Tomou banho, vestiu-se e foi para a sala de jantar. Lá estava a mamãe esperando a madrugadora com um gostoso chocolate. Já está prontinha para ir à cidade com papai e mamãe. Vão à missa. Tomam o bonde.
Num ambiente assim, era natural que Cecilia se encaminhasse para o mundo das letras. Não aconteceu diferente. Aos onze anos (veja foto) venceu um concurso promovido pela famosa revista Tico-Tico, com o conto “A princesa Dália”. “Todos invejavam a princesa Dália”, assim principiava o conto. “Era bonita, cabelos cor de ouro, olhos azul do céu, tez alva e rosada”. Não demorou que viesse o primeiro livro, Ponto morto, aos 20 anos. A apresentação de Lygia Fagundes Telles dizia que Cecilia era dona de uma “imaginação original e forte, rica e poderosa de sugestões”. Depois vieram outros, muitos outros. O mais recente é de 2009 e traz no título uma expressão de Guimarães Rosa, Faróis estrábicos na noite. E peças de teatro, sete ao todo, uma delas encenada em Nova York. E muito jornalismo nas principais publicações brasileiras. E até um pouco de diplomacia no Itamaraty, que teve de abandonar por ter se casado com um diplomata, e onde foi amiga do mesmo Guimarães Rosa, um luxo intelectual que poucos tiveram.
Nos últimos anos, Cecilia Prada escolheu Campinas para morar. É escritora de nome firmado. Apesar disso, eu a conheço há bem pouco tempo. É um privilégio. Leva vida ativíssima e traz a aura das grandes experiências. Como acréscimo, traz também a mística rara de haver sido personagem de cartilha, cantada aos berros nas escolas, o que faz dela uma menina eterna, e atrás dela o pato, o gato, o sino, a bicicleta, o gramofone, modinhas, marchas e operetas.
E, agora, também o Chaleira. Seja bem-vinda, Cecília. Vá entrando, que a casa é sua.
