09 junho 2010

A CARTILHA DE CECILIA


Ah, as cartilhas da nossa infância. Espelhavam a simplicidade de nossas vidas. Por certo nossas vidas não eram tão simples como as imaginamos agora, mas vistas assim à distância são como água de pote diante da barrela de hoje. Quem me fez lembrar das cartilhas foi João Batista d’Almeida, o dos “arquivos incríveis”, ao me dar a conhecer um desses livrinhos encantadores. É de 1945 e se intitula A cartilha de Cecilia.

Diz a folha de rosto que foi escrita e editada por Egidio e Luiz Prada, irmãos com gráfica e editora na rua Aurora, número 29, São Paulo. São algumas dezenas de lições que vão progredindo suavemente ao correr das páginas, agradavelmente ilustradas, sem que o leitor (sim, o leitor criança) perceba o crescimento das dificuldades. A primeira página me repõe diretamente no quintal de casa, lá em Minas, nas minhas calças curtas de então.

O gato e o pato.
O pato vê o gato.
O pato bica o gato.
O gato pula.

Mais adiante, a lição é um cromo vivo:

Estão tocando o sino.
O badalo bate no sino.
São horas do almoço.
Todos obedecem ao sino.
O sino toca outra vez.
Já é tarde.
O trabalho acabou.

E assim, de folha em folha, dia após dia, vamos sabendo que a menina (Cecilia) calça o sapato. Que o gatinho entrou na bota. Que o pato bicou o dedo do menino. Enquanto isso mamãe costura uma camisa de tricoline. De repente alguém está arrumando a mala. Vai partir. A mala é de couro. Papai tem um relógio. Ele traz o relógio no bolso. Às onze é a hora do almoço. A hora do jantar é às dezoito. Tudo muito certo. Vovô e vovó vêm de visita e trazem um pacote de jabuticabas. Sabia que Tito comprou um automóvel? Pois Serafim ganhou uma linda bicicleta. Alberto comprou um gramofone e não para de ouvir modinhas, marchas e operetas. À noite, sonolenta, Cecília beija sua bonequinha Inês e vai dormir. Está contente e de muito bom humor.

Uma das lições se dedica a descrever um dia na vida de Cecília. Nada mais justo: além da dar título ao livro, Cecilia rima com cartilha. E não só por isso, mas também porque Cecilia era uma menina da vida real e, para dizer tudo, era a filhinha de Luiz Prada, um dos autores da cartilha. Começa assim:

Dia de domingo. Cecilia levantou-se bem cedo. Tomou banho, vestiu-se e foi para a sala de jantar. Lá estava a mamãe esperando a madrugadora com um gostoso chocolate. Já está prontinha para ir à cidade com papai e mamãe. Vão à missa. Tomam o bonde.

Num ambiente assim, era natural que Cecilia se encaminhasse para o mundo das letras. Não aconteceu diferente. Aos onze anos (veja foto) venceu um concurso promovido pela famosa revista Tico-Tico, com o conto “A princesa Dália”. “Todos invejavam a princesa Dália”, assim principiava o conto. “Era bonita, cabelos cor de ouro, olhos azul do céu, tez alva e rosada”. Não demorou que viesse o primeiro livro, Ponto morto, aos 20 anos. A apresentação de Lygia Fagundes Telles dizia que Cecilia era dona de uma “imaginação original e forte, rica e poderosa de sugestões”. Depois vieram outros, muitos outros. O mais recente é de 2009 e traz no título uma expressão de Guimarães Rosa, Faróis estrábicos na noite. E peças de teatro, sete ao todo, uma delas encenada em Nova York. E muito jornalismo nas principais publicações brasileiras. E até um pouco de diplomacia no Itamaraty, que teve de abandonar por ter se casado com um diplomata, e onde foi amiga do mesmo Guimarães Rosa, um luxo intelectual que poucos tiveram.

Nos últimos anos, Cecilia Prada escolheu Campinas para morar. É escritora de nome firmado. Apesar disso, eu a conheço há bem pouco tempo. É um privilégio. Leva vida ativíssima e traz a aura das grandes experiências. Como acréscimo, traz também a mística rara de haver sido personagem de cartilha, cantada aos berros nas escolas, o que faz dela uma menina eterna, e atrás dela o pato, o gato, o sino, a bicicleta, o gramofone, modinhas, marchas e operetas.

E, agora, também o Chaleira. Seja bem-vinda, Cecília. Vá entrando, que a casa é sua.

08 junho 2010

MARIA-MOLE

MARIA-MOLE

Por Bia Pupin

Seu doce favorito. Enquanto batia o creme se lembrava. Refletia que poderia abrir mão de tudo, mas essa certeza só a fez segurar com mais força alguma esperança.

Enquanto batia o creme se lembrava que foi fácil tirar a foda do velho. Havia sido mais fácil do que acertar o ponto da maria-mole. Teve que abrir outra caixa, pois o creme desandou, começou bater novamente prestando mais atenção dessa vez.

Renata não estava confortável. Ele era um homem velho, ela racionalizava seus motivos. Lamentava sua própria fraqueza. Incrédula analisava suas motivações. O espelho refletia seu olho estourado. Podia sentir a lacuna que não se preencheu.

07 junho 2010

RENCU - Encadeamento Fecal

por Rafael Noris



Renku é um estilo de poesia originado no Japão, consiste em encadear tercetos e dísticos. Ele é cooperativo e deve ser composto, no mínimo, com duas ou mais pessoas, cada uma compondo uma estrofe.

O terceto tradicional costuma possuir 5-7-5 unidades de som nos versos e, o dístico, 7-7 unidades de som.

No Brasil, é costume traduzir as unidades de som em sílabas métricas, conceitos bem diferentes mas que servem ao propósito de manter o rigor formal.

A partir da leitura que fiz dos Haicais Fecais de Glauco Mattoso, escolhi alguns deles e compus um dístico, adaptando a forma japonesa de Renku para Rencu, mais adequado a proposta escatológica de Glauco e seu fã, eu. Mantive a forma de 7-7 sílabas métricas e usei, como Glauco, das rimas. É isso. Vamos aos poemas:

1.
Quebrei um tabu:
já consigo cagar nu
sem olhar o cu.
[GM]

Agora o mijo eu desejo
pra fazer meu gargarejo.
[RN]


2.
Tive grande idéia.
Aí, me deu diarréia
e babau - caguei-a!
[GM]

Ao limpar a minha bunda
surge uma ainda mais imunda.
[RN]


3.
Sai menos fedor
se a merda for arejada
no ventilador?
[GM]

Experimento jogar:
Voa bosta em todo o lugar.
[RN]


4.
Ouvindo já sei
quem peidou na multidão:
alguém que enrabei.
[GM]

O cheiro do cu provoca
novo vigor na piroca.
[RN]


5.
Fora da privada
fica mais politizada,
mas não muda nada.
[GM]

Quando desce merda grossa
Nem parece que ela é nossa.
[RN]

06 junho 2010

FRAGMENTÁLIA PARA H.HILST: UM MC ERÓTICO,OUTRO-METAFÍSICO

'Eu sento, se você deitar"

Por Andréa del Fuego

***

'Sussurrou-lhe: São tuas perdas; fora o adicional, e coisas somadas'

Por Marco A. de Araújo Bueno

{A obra histiana oscila entre o sacro e o obsceno; nada se pulveriza, no entanto}

05 junho 2010

PONTAS DOS DEDOS SANGRANDO

Por Daniel Matos

35mm, 16mm, grãos halóides de prata suspensos numa substância gelatinosa colóide sobre uma base de celulose. Quadros a girar, 24 por segundo. Projetor, tela; uma luz a atravessar, uma imagem a se compor. Uma história, uma seqüência de ações a se seguirem. Milhares de rolos a se amontoarem numa cinemateca com todos os filmes já feitos, todos a serem feitos e todos os sonhados. Emanuel, um homem negro de 1,50m, cabelo grisalho, usando um terno vermelho e uma gravata verde limão, se esconde atrás de uma mesa de atendimento. John Lennon, 16 anos, à sua esquerda, sentado numa cadeira, com um violão no colo, tocando “I cant help falling in Love with you” de Elvis Presley. 

Um homem chega na mesa de atendimento e olha para Emanuel, que perdido na leitura da entrevista de François Truffaut com Alfred Hitchcock, não o nota. Ele toca a campainha e é notado. “Boa noite, em que posso ajudá-lo?” pergunta Emanuel. “Procuro por um filme, mas que nunca foi feito, nem será, nem foi sonhado.” “Hum… e como este pode ser um filme então, se nem sonhado foi?” “É um filme diferente, é o filme de duas pessoas assistindo um filme num cinema.” “Hum… e quem é o diretor?” “Os dois assistindo o filme. Olhe aqui está o nome deles, você pode me ajudar?” Dá a Emanuel um pedaço de papel. “Hum… é… é um caso excêntrico, tem certeza que não quer o filme que os dois estavam assistindo?” “Não, não, esse filme não importa, eles viram duas vezes, mas nem sabem o que se passa.” “Hum… é… John!” John Lennon pára de tocar e olha para os dois. “Ei cara, por que as suas mãos estão sangrando?” pergunta John ao homem. “Ah, não é nada, ignore.” “É, muito excêntrico.” diz Emanuel notando pela primeira vez as mãos do homem sangrando. Todas as pontas dos dedos estão feridas. “Então, John, temos um caso estranho aqui, este homem quer o filme de duas pessoas assistindo um filme no cinema.” “Você quer o filme que os dois estavam vendo?” “Não, ele quer o filme dos dois!” “Ah, entendi, então teremos de ir para o porão.” O homem acompanha John Lennon por um gigantesco corredor com milhares de latas de filmes empilhadas até o infinito, viram à direita, andam um pouco mais, depois descem uma escada e seguem por uma porta. Lá, John acende uma lanterna, não há luz. Duas grandes portas corridas de metal se revelam na frente dos dois. “Sabe, poucas pessoas se interessam por rever esses filmes, mas é nossa segunda maior coleção de rolos.” “E qual é a primeira?” “O de pessoas sozinhas assistindo um filme no cinema.” John abre uma das portas. Sua lanterna passa por várias fileiras infinitas de rolos no novo salão cujas dimensões não podem ser distinguidas. Uma neblina púrpura parece pairar pelo lugar. “Isso é recente, não?” “Relativamente, recente.” “Ah, então, espere um momento aqui, acho que sei onde encontrar esse rolo.” John desaparece com a lanterna por entre os rolos. 20 minutos se passam. “Qual?” vem um grito da escuridão. “Como assim?” grita em retorno o homem. “Com esses dois nomes existem dezenas de filmes, eles viram vários juntos!” “O único que eles viram duas vezes!” Logo, John reaparece com os dois rolos na mão. “Então, suponho que queira assistir agora?” “Sim”. Os dois sobem as escadas e retornam ao salão original, depois seguem para uma nova porta, que esconde por trás de si uma grande sala de cinema. O homem senta na cadeira do meio, na fileira do meio. John coloca o filme para rodar. Sozinho, o homem assiste o filme de um casal em um cinema se amando. Ele reconhece a sua face sorrindo em um deles, uma face que não mais está presente em si, lágrimas caem de seus olhos. Filmes não são feitos do que exibem, mas do que fazem aqueles que os assistem, ou fingem assistir.

02 junho 2010

POESIA, DIGAMOS - VERSO E REVERSO

POESIA, DIGAMOS – VERSO E REVERSO

Por Cecília Prada

Quanto a mim, sou escriba, apenas.
Vou mastigando, nesta idade,
memórias de sombras várias
- umas, nítidas, imponentes,
outras vagas, entrevistas
- no espelho de um Tempo
que, sem ter sido meu,
em mim (ossos-cartilagens-anseios e suspiros)
- persiste.

O Tempo não tem só ossos
- tem cartilagens (doridas) também.
Poeta é o que extrai o suco:
da palavra, das coisas, da vida.

O bom prosador, também. É preciso escoimar - palavras, coisas, personagens, espinhos e vivências - do seu bagaço, para se poder escrever bem. Mas que nos seja permitido preservar rascunhos – prova de nossa imperfeição. Guardá-los como frutas cristalizadas que daremos aos netos bisnetos sobrinhos-tortos que porventura queiram continuar um dia a tradição literária. Para que os desembrulhem encantados em dia de Páscoa, na véspera do Natal, no primeiro ano da faculdade – ou simplesmente em algum domingo de chuva. E se consolem, ou mesmo se deliciem, com os tropeços desta avó que queria escrever. E que aprendam, com tal legado, a aceitar a incompletude, o efêmero – e o Tempo sem pressa.

O Tempo sem pressa.
Só o tempo possível.
E com essa pauta escrevam
- o avesso da vida e das pessoas.

Aceitação do avesso – sem ele, não há bordado. Mas da fragilidade da menininha impúbere exigiam mães e mestras de cara enfarruscada que ele, o avesso do bordado e da vida, fosse tão perfeito e bonito de se ver como o direito – perversão feminina.

O passado é meu material
- uma história que se conta, é sempre passada.
A inquietação é o meu estímulo,
O descontentamento, minha ferramenta
- com a qual vou retorcendo
os rebites dos personagens.

“Eu sou uma pergunta”, dizia Clarice. O filósofo também sempre se disse assim, votado à dúvida metódica. Que, se for expressa, como a inquietação do escritor, em um pacato almoço de domingo com a família, incomoda. Porque desligada do contexto permitido pelas convenções: a mesa de trabalho, o livro, o artigo na revista acadêmica – escrito ou por escrever - e despejada, essa inquietação mal comportada, pouco lavada, míope e serelepe, na mesa da comunhão tribal.

01 junho 2010

BAIACU MEU

'BAIACU MEU

Por Marco A.de Araújo Bueno

Digo que é meu porque, enquanto tema, quem tem Baiacu tem medo, e temo que já tenham visto o baita Baiacu do João Ubaldo escancarado na Internet. Muita coisa a respeito do peixe por lá: tem o Verde, o da Amazônia, tudo descrito, classificado e com os nomes oficiais.

O meu é bizarro. É aquele que tem cara de diabo com dois chifrezinhos e tudo.

Meio quadrado e acinzentado, tem uma nadadeira pífia, curtinha demais, o que o torna vulnerável demais à correnteza, à força das águas agitadas. Se tal condição o favorece, se é coisa de sobrevivência, já é assunto de biólogo. Se lhe crava um certo “devir”, se é um capricho desleixado da natureza, já vira coisa da minha praia aqui. É certo também que possui os quatro dentinhos afiados do Baiacu do grande escritor, por isto o chamei (não ao Ubaldo...) de baita Baiacu, bem entendido! Pois bem, quatro serrilhas, ávidas para corroer cabos, redes de pescaria e até anzóis. Não obstante, bem entendido, o meu bizarro animal, eu o denomino Baiacu-estorvo. E vamos deixar de lado os Chicos, o poeta e o rio, que o escrotinho aqui estorva em água salgada, oceânica mesmo. Razão singela: jogou a tarrafa, pegou Baiacu bojudo, cinzento, dois olhões esbugalhados...pode desistir da pescaria. Resta o espetáculo patético de vê-lo inflando-se todo e expondo uma manta de cílios molengas à guisa de espinhos assustadores Seriam mesmo? Haveria veneno neles ou, onde o veneno espreita?

Bem, embora se alimente de algas, crustáceos e demais frugalidades marinhas, é certa a ocorrência de muitos dejetos e dejetos pelas quebradas por onde balanga seu estúpido rabicó, digamos...em vão. Pois, desengonçado, desproporcional e desnorteado, vive à mercê da vontade aleatória das águas. Quando termina na areia, nem por isso morre; tem uma sobrevida e tanto no seco. Fica se inchando, ridículo, frente à ameaça de uma pisadela a esmo, que nem quando bem aplicada o fará sucumbir de vez.

Escolhi meu Baiacu pateta bem antes de trombar com o olhaço do João, e sei dessas coisas pelo Fabrício, o piscicultor iletrado que teimou em não vender seu peixe:

- Só estrova, num assusta nem minino porque já feio, mas feio feito o diabo, nem carecia se estufar, o besta. E isso aqui tudo ó, pode por a mão...é espinho? Escovinha de dente, tem veneno nada, num espanta, só estrova.

- Mas, Fabrício, nenhum bicho se defende em vão, quer dizer, fica fazendo coisa que não dê certo pra ele se manter. Pode não assustar gente, mas, sei lá, deve ter função no ecossistema dele, pra pássaros que vêm bicar na areia...

- Essas miudeza de mei ambiente eu num digo nada, vá lá, tem sina pra tudo, bem entendido. O que me inrrita é que o bicho se acha...

- Como? Se acha o quê?

- Um ouriço, tem base? Só que espinho de ouriço dá febre. Esse aqui nem se pisá nele, nem morre. Que nem piranha, só que num assusta nem minino.

- Dá pra comer?

- Nada, num presta. Aproveita nada dele. Num tem serventia.

- Comparado com...

- Ô, com Pirarucu, que aproveita até a cabeça pra fazer pirão. De água doce, bem entendido! Se salgá vira bacalhau de baiano...Deste tamanho, o bicho! Vivente sozinho num dá conta de carregá. Pra pegá, lanceta o bichão quando sobe.

- Bom, não vou levar mesmo. Aquário de água salgada é um trabalhão. Tinha achado ele meio exótico, bem monstrinho...

- É, mas nem pra monstrengo o mostrengo serve. Leva o Palhaço! Péra aí, alô! Não senhor...sim senhor, não, não senhor, não to interessado. Não senhor, to ocupado...não quero, não, obrigado e vô desligá essa merda agora!

- Telemarqueteiro, cara?

- Baiacu de telefone fixo! Oferece tudo, até túmulo. Túmulo.

E até tu, mula da psicanálise, desmontador compulsivo de peixes-palavra, cada idéia! Tu, que “se acha”, a ponto de pretender dar conta, sozinho, do teu baiacu literário, justo agora tem que te ocorrer a infâmia! A infame anedota, agora...”aquela” do homem que procura uma podóloga e ao escutar desta que ele tem olho-de-peixe esbraveja: “E a senhora tem cara de piranha!” Ora, nunca tive pena alguma de telemarqueteiros, ao contrário, supunha neles alguma vocação atávica ao estorvo, e os estorvava, com requintes...cada idéia! Empatava-lhes o tempo que me surrupiavam com requintes, com técnica. Fingia estar ditando textos a alguém, pedia-lhes “um minutinho”, “aguarde um instante, por obséquio”, e sapecava-lhes trechos do mais barroco “lacanês” (“... a palavra é a presença da ausência da coisa”), “um minutinho...” Ou então, as “Torturas Suplementares”, caudalosas, d “Os 120 Dias de Sodoma”, do Marquês. Retribuía a fealdade existencial dos telebaiacus com os “atrativos sexuais da fealdade”, escorado na Simone do Sartre e, quer saber, até que me achava generoso demais. Imaginava-os meio sadomasoquistas trancafiados em meio/ambientes com um PC e telefone, monitorados por vídeo e áudio, engolindo dejetos e dejetos verbais, e vendendo o peixe dos outros. Confinados nas “baias” (assim as batizaram), com cara de palhaço e, ao fim do dia, com toda força de trabalho deles à deriva, o que foi feito de suas almas? Baia “cumeu”, diria Fabrício, pouco afeito ao “Homo Fabris”; e que não vendia o próprio peixe. Mas eu, não. Generosidade - sinalizo aos baiacus como um farol. Mas, convenhamos, escrever um diário deste farol, seria luxúria. Ainda que pífia, se comparada a dos libertinos de Sade...

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