10 julho 2010

It's The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)

Por: Paola Benevides
Quererei o fim do mundo para esta noite. Sim, ele se fará antes de mim. Já vim arrumada em malas e com pele à flor. Há escombros por toda parte, mas a arte se mantém perversa a operar milagres. Espero meu fígado suportar as absorções desmedidas do néctar anti-dor. Transpiro pérfida fedentina alcoólica em movimento de translação sem Terra. Que meu peito já pulsa e pula aos sons que tocam lá fora. Absintonizada com o desmundo novo que virá. Virado ovo. Pois desbunda o infinito.

08 julho 2010

TROVA



Por Marcelo Finholdt



Vi seu cheiro bem aqui,
Pois tecia em dias puros
E, na seda eu escrevi
Mil versinhos mais maduros.

07 julho 2010

DIÁRIO DO NÃO-LIVRO

DIÁRIO DO NÃO-LIVRO

Por Cecília Prada

Que assim se fará, me digo, a mão deslizando no papel antigo reencontrado, diário de liberação do micro, diário de deixar-me ir (vir), ser, não-ser, catar/coçar, mas dizer - da dor da madrugada em que acordo ainda com a coluna massacrada da véspera e vou me perdendo nos túneis da insônia.

O Diário de um Não-Livro é a liberdade. É pegar as pontas esgarça-das do ser, minhas talagarças, fios soltos, capinzal. Uma personagem de Clarice também dizia: “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só : meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias”.

Isto sou eu, meus escritos, a perplexidade. O que é escrever - a per-gunta eterna, que não se responde, só se desfaz: no rabisco. Mas eu amanheci inventando a liberdade, a descoberta do Não-Livro que se faz sempre, obscuro e destravado em nós, se processa. E de repente em um dia, mais uma madru-gada chuvosa, e acordando em dor: que é preciso prestar um ouvido a esse Não-Livro em nós, aquele que, por primo pobre e sombrio, rejeitamos - porque ele é o verdadeiro, é o rascunho do Ser e o Ser é sempre rascunho, pobre, esfarrapado, e glorioso também, mas de glória solitária, o resplendor na noite - o dom das madrugadas. E o resto, é academia de letras. E João Guimarães Rosa dizendo, no seu último discurso, na posse da Academia Brasileira: “Mas o que o homem é‚ depois de tudo, é a soma das vezes em que pôde dominar em si mesmo a natureza. Sobre o incompleto feitio que a existência lhe impôs, a forma que ele tentou dar ao próprio e dorido rascunho” e assim me redescubro, um eu-menina, Cecília com seu caderno, a hoje grisonante estafada senhora, o freio nos dentes, o olhar numa súplica última : o Caderno, nos dentes. Duas pontas.

(O Não-Livro, sim, que é coisa de esconsos e parênteses, está desperto em mim nesta recém-manhã e me traz as coisas pelo menos da véspera, mas que saem do imenso caldo em que estiveram mergulhadas - do fluxo existencial que vem também de outros tempos, de outras vidas?) (Parênteses dentro do parênteses: já repararam como a coisa mais viva e desconcertante num texto é o ponto de interrogação que o escritor às vezes se sente obrigado a colocar ? - é um ponto de autenticidade maior. O ponto da sinceridade. É por ali que pegamos o texto, vulnerável, humano, pequenininho. E nos pegamos).

A “ficção” é sempre a ficção de que o livro se fez de uma vez só - escrito inteirinho , por milagre. Em qualquer livro de ficção, romance ou novela - a ficção é a mentira do escritor escrevendo aquele livro sem continuar vivendo sua contingência diária, seu suor/lágrimas/sangue. Como se levasse os manuscritos sobre as águas, ou sobre o ronco do terremoto - que é o desta realidade em que vivemos. Um livro sem “Nohant” – e explico: que eu sempre me dizia que um dia, quando fosse mais velha, como George Sand me retiraria para uma propriedade chamada Nohant e ficaria ali com meu cachorro, escrevendo e passeando no campo, feliz e sossegada. Mas hoje, sem sossego, sem proprie-dade alguma campestre ou urbana, e nem mesmo um cachorro que me preste um ouvido atento, só tenho em mim este livro que é Não-Livro, porque eter-namente incompleto, desatado, livro da metrópole e dos meus 350 eus, das costuras esgarçadas se mostrando obscenas, rindo um riso muito mau, derri-são - na face do todo-dia.
____________

06 julho 2010

CARTA À AMANTE

CARTA À AMANTE

Por Bia Pupin

Quando penso nisso, acredito ser brutalmente imbecil.

Gostaria de saber se nem por um segundo lhe passou pela cabeça a ideia de que nenhuma mulher teria cedido ao charme de um cara jovem e interessante, e deixado embriagar-se da desigualdade que há entre os dois, a não ser na tentativa de alcançar alguma virilidade perdida. E isso não é apenas uma interrogação.

O destino o jogou nos braços de uma ninfomaníaca que vê nele a ocasião de reencontrar sua juventude perdida? Para ele tudo não passa de uma entrega maternal. Ele a comove provoca-lhe uma espécie de pena? Que tola paixão a sua! Quanta inadequação e frustração.

Seu nome, nome de mãe, de pronúncia leve, macia, a mim indizível, tem tons de azul, rosa, mas tudo nele é pastel. Acredita que uma paixão violenta lhes abateu? A tentativa de um milagre...

O que deseja dele? Um rompimento, uma fuga, a busca do “amor verdadeiro”, ora só não deixe que ele perceba que suas conquistas são objeto de ornamento para seu hedonismo, consolo, de uma mulher frustrada e não uma paixão. Não deixe que ele saiba quem é. Que seus cuidados em doses magistrais querem um prêmio de consolação (ele- quanto romance!), afinal ficará bem mais fácil, com tudo aquilo que já sabe com seus 25 anos a mais de bagagem em sua eminente e necessária investida.

Não quero nenhuma resposta sua. Quero seu silêncio em absoluto.

Renata

05 julho 2010

Vídeo sobre Paulo Leminski: Clipping

Eu perdi o poema que ia colocar aqui hoje, ficou num arquivo .txt em alguns dos computadores que uso e, na hora de atualizar o blog: cadê?

Como estou preguiçoso pra daná e não quero compor agora, nem pegar um poema antigo, resolvi compartilhar um curta-metragem que descobri faz teeempo, chamado Polaco Loco Paca, dirigido por João Knijinik.
O vídeo é sobre Paulo Leminski, mais exatamente sobre sua passagem em Porto Alegre na década de 80. Imperdível. Veja:




04 julho 2010

PROLEGÔMENOS - Fim de Copa, não da cópula


Texto e ilustração por: Paola Benevides
Meu patriotismo esporádico
um esporão para incitar cavalos
Potros milhões correndo nos campos
Bola pisada, trocada, chute no saco
De futebol não saco nada
Hasteio bandeira feito saia
Finjo a torcer que dou o braço
Pretexto para beber feriado
Dunga vira zangado, mestre e mito
Falta cometida, o índio quer apito
Vestindo verde-amarelo a floresta
De calção adidas, com rosto de pelé
"Cala boca Galvão" pia o Twitter
Censura às avessas, sou aversa a qualquer
Mas vamos sem o ditame dessa Jabulani
Será infame se o gol d'Alemanha vencer
Terceiro Reich de volta à África do Sul
Isso se o Brasil não perder
Para as vuvuzelas dos louros
Muitos a colher

(Composto em 1° de Julho, 2010)

***


Texto e frustração por Marco A. de Araújo Bueno

SONETO IMPATROCINADO

"A bola não é inimiga, como o touro numa corrida"
João Cabral de Melo () Neto, in 'Museu de Tudo'


Contrariando o João Cabral
Jabulani é inimiga!
(Vida própria, essa boçal?)
Qual um touro na corrida;

Nesta Copa surreal,
Vuvuzela faz babel-
Ensurdece o ‘keeper-goal’;
Jabulânico escarcéu.

Oito gomos, muita franja,
Voa a esmo, sobe a mil !
(Não à toa deu ‘laranja...)

Jabunela-vuvulanja,
Que só mela e entorna a canja:
- Fique à puta* que a pariu!


{*- Empresa sob cujo patrocínio nasceu a bola Jabulani}

***

Revanche lúdicoprolegômeno
por Luiz Contro

Lá na casa da vizinha
o Finholdt pede bola
mas na copa ou na cozinha
ela dribla e só enrola

***
por Luiz Contro

no seu campo e nesta lida
futebol tem sua beleza
mesmo com bola perdida
quando provoca tristeza

03 julho 2010

COMO PAREI DE ME PREOCUPAR E APRENDI QUE UMA FICÇÃO É UMA FICÇÃO QUE É UM DOCUMENTÁRIO

Terra. Los Angeles. Novembro, 2018. Zona do passado, de ruas cheias, sujas, pintadas em néon, dominadas pelos exilados do presente, imigrantes, indigentes, doentes, empilhados entre gigantescos arranha-céus abandonados, vazios.

Que venha o super-homem! Mais forte, mais ágil, com seus olhos reluzentes, filho do homem. Que venha cegar seu pai, Édipo, que dormiu com a própria mãe, a natureza, mas só lhe deu quatro anos de vida, para serem vividos ao máximo, porém a desaparecerem como lágrimas na chuva. Que venha e veja a cidade com seu céu em chamas!

Quando a humanidade foge para o novo oeste, para o novo presente, deixa para trás seus filhos a nadarem na nostalgia de fotos em preto e branco, num passado inexistente, a gritar por um futuro que nunca virá. O super-homem nasce, mas nas mãos do homem, vira um produto, vira seu soldado, seu assassino, seu operário, sua prostituta. “Enjoy… Enjoy Coca-cola!”

Blade Runner é um  documentário do diretor Ridley Scott, baseado na obra Do Androids Dream of Eletric Sheep? do escritor Philip K. Dick. Um documentário? Sim, pois narra uma história de forma realista a partir de um certo ponto de vista. Um filme que tem como único objetivo documentar uma narração ficcional. Documentando-nos alguns dias na vida de um caçador de andróides no ano 2018, a partir, é claro, do ponto de vista do escritor Philip K. Dick e do diretor Ridley Scott.

Segunda Guerra Mundial. Entrevistemos um soldado alemão, ou um soldado americano, ou um sobrevivente de um campo de concentração, o que teremos? A realidade? Não, pois o real não é composto meramente de uma narração de eventos sob um específico ponto de vista. Todo o narrado, não importa o quê, será meramente uma ficção, um produto de um certo ponto de vista do seu narrador, construído a partir de uma específica linguagem, sua memória, que nunca pode chegar a domar totalmente a realidade, nem sequer ser depois traduzida para outros meios definitivos, que a tenham tentado documentar. Mas, e um vídeo, uma gravação original dos campos de batalha, pode registrar o real? Não, pode registrar uma imagem, uma imagem a vinte e quatro quadros por segundo, um mera sombra do real, um documentário a ser ficcionalizado por seus espectadores, que a interpretarão de formas múltiplas, nunca entrando em contato com a realidade da situação.

Nunca poderá a realidade ser registrada, sua aura sempre nos será uma ficção distante, inatingível, uma nostalgia a nunca nos recompensar com a verdade, a viver unicamente nos sonhos eletrônicos de Proust. Pode mais um Spielberg com seu Saving Private Ryan chegar a guerra, as naves em chamas na constelação de Orion, que qualquer documentarista que se diz capturar o real, pois ele limita ao máximo seu âmbito de captura, registra uma missão, certos homens, por certos dias, por certos caminhos, por certos motivos, registrando ações e não narrações. Quem sabe, chegando até mais longe com Schindler’s List, em que tenta capturar não fatos, mas suas próprias emoções, sentimentos, sobre a guerra, podendo, assim, muito bem capturar uma parcela diminuta do real, sua própria, traduzindo-a com absoluto sucesso ao espectador, com sua menininha de vermelho dançando para o idoso de vinte e cinco anos.

Viver com medo é viver como um escravo, é viver sabendo que o presente logo deixará de ser, é viver unicamente com o constante suporte do passado, de fotos fabricadas que nunca guardarão a realidade, a esperar eternamente o galopante unicórnio de papel. O passado é a prisão dos sem presente, o refugo dos sem futuro. Registramos o que temos medo de perder. Assim, registramos a vida de um caçador de andróides no ano 2018, porque temos medo de perdê-lo, o super-homem de vida curta que se acredita homem, que faz o trabalho dos homens, e caça seus próprios irmãos, estes que não conseguem se cegar a verdade e, mais que tudo, querem viver, querem muito mais que só o passado.

Queremos um super-homem preso a imagens sem vida, se acreditando homem e friamente executando àqueles que gritam por um presente. À nós é vendida a prisão, e somos nós que a aceitamos sem um sequer questionar, é um triunfo da total falta de vontade, com belas coreografias em massa dirigidas por Leni Riefensthal. Enquanto a barba do judeu de Veit Harlan cresce na prisão, os dentes brancos de Kennedy fazem contraste ao suor transbordante de Nixon, o operário sem dedo chega a presidência, e nós, questionados pelo general, dizemos nossas procedências: Berlin, Nova York, Tókio, Rio de Janeiro, … “Enjoy… Enjoy Coca-cola!”

Somos acordados pela manhã por dois replicantes, a nos acusarem de culpados, fingimos não saber o porquê, consideramos-nos presos num absurdo que não criamos, e sem coragem para encarar a verdade, a realidade, acabamos por cometer suicídio na fronteira franco-espanhola, murmurando num último suspiro “Rosebud, Rosebud, …”.

Nunca entendemos o porquê do constantemente subir da ponte, sempre a voltar, a reiniciar no mesmo ponto do passado, carregando consigo, nossa última grande esperança, nosso pobre unicórnio de papel, reduzido então a uma carcaça morta.

O fascismo do passado impera, encontrando seu máximo afluente na mídia audiovisual. Somos agredidos diariamente por um eterno repetir, uma eterna nostalgia pelo que foi, e nunca pelo vir-a-ser. Resta-nos esperar a aposentadoria, beijar nossos pais, esmagar seus olhos, fingindo que destruindo um produtor de imagens, destruiremos todos. Por fim, resta-nos salvar o homem, contar-lhe nossos feitos completamente inimagináveis, para morrermos enquanto nossas lágrimas somem na eterna chuva. Enjoy…

Enjoy Coca-cola!

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