Por Marco A. de Araújo Bueno08 agosto 2010
07 agosto 2010
Os 20 Elementos
Vento era esbaforido sussurro feito um murro teu ao pé do muro meu ouvido.
Sol uma pele roçada na minha molhada em suor pela frieza ao empurrar dor.
Água era lágrima de sorriso ensalivado pelo cão com fome ante ser petisco.
Fogo pelo eriçado qual crina de cavalo ante criptonita arremessar pedra de gelo.
Terra planeta de concreto fundido à marretada de neanderthal nas extremidades.
Lama escorregada traiçoeira na calçada após chuva de carros a te sujar na rua.
Fala a mim como se ninguém estivesse escutando a gente pelos cotovelos dor.
Culpa a mim como se fosse tua mãe que abandonava e agora se compromete.
Cospe a cara do prato que te cometeu frio.
Lambe o sapato do palhaço com língua de cobra.
Sobra a tua comida não doada para fome.
Mata a vontade já adormecida pelo coma.
Cama faça depois de acordar perto do sonho.
Ponha a rosa dentro da meia página do livro.
Livre a pomba da gaiola do medo do mesmo.
Voa da janela para o outro apartamento.
Aponte o dedo duro ao pau da cara.
Eu sinto o que não devo prever.
Sucinta a prosa que não haveríamos de tecer.
Porque é mais prova de crime que bala.
Sol uma pele roçada na minha molhada em suor pela frieza ao empurrar dor.
Água era lágrima de sorriso ensalivado pelo cão com fome ante ser petisco.
Fogo pelo eriçado qual crina de cavalo ante criptonita arremessar pedra de gelo.
Terra planeta de concreto fundido à marretada de neanderthal nas extremidades.
Lama escorregada traiçoeira na calçada após chuva de carros a te sujar na rua.
Fala a mim como se ninguém estivesse escutando a gente pelos cotovelos dor.
Culpa a mim como se fosse tua mãe que abandonava e agora se compromete.
Cospe a cara do prato que te cometeu frio.
Lambe o sapato do palhaço com língua de cobra.
Sobra a tua comida não doada para fome.
Mata a vontade já adormecida pelo coma.
Cama faça depois de acordar perto do sonho.
Ponha a rosa dentro da meia página do livro.
Livre a pomba da gaiola do medo do mesmo.
Voa da janela para o outro apartamento.
Aponte o dedo duro ao pau da cara.
Eu sinto o que não devo prever.
Sucinta a prosa que não haveríamos de tecer.
Porque é mais prova de crime que bala.
05 agosto 2010
TROVA CEGA
Por Marcelo Finholdt
Dedicada a quem não vê, portanto inventa!
...mas se um olho tudo vê;
Não tem pálpebra, descanso,
Não precisa mais viver,
Segue cego no remanso!
04 agosto 2010
ERA UMA VEZ LÚCIA MOURA
CIRCULATION
Por Cecília Prada
Era uma vez Lúcia Moura.
Era uma vez no Colégio Notre Dame de Sion, no curso primário. O banheiro não se chamava banheiro. Nem toalete. Nem reservado. O banheiro devia ser chamado em francês, circulation. Tinha uma chave grande com uma medalha pesada, que ficava dependurada em um prego. O ritual desenvolvia-se assim: uma menina levantava-se, só uma de cada vez, nunca mais de uma. Jamais duas meninas juntas no banheiro, aliás circulation, não podia, no Colégio Sion ou em outros colégios de freiras. A menina em precisão se levantava, alcançava na ponta dos pés a chave dependurada no alto, atravessava a classe, abria o circulation que ficava no fundo, dava um tempo, voltava, recolocava a chave no prego.
Lúcia Moura – a blusa engomada, os pulsos juntos sobre a carteira, a pose de cachorrinho em atenção permanente. Sentada como se devia sentar à mesa, as madres ensinavam os três mots da educação, toujours (sempre as mãos apoiadas no tampo), parfois (às vezes o antebraço), jamais (nunca o cotovelo). Os cabelos louros em duas tranças grossas e bem feitas. A cara branca. Muito branca. A menina lavada. A menina de branco lavada. A menina que as mães das outras meninas apontavam: “Veja aquela menina, o seu uniforme, que engomado, que limpeza”. Menina-modelo.
Lúcia Moura tirava boas notas. Seus cadernos todos encapados de azul. E quando ela se levantava para ir ao banheiro, pardon, circulation, sua presença passava de leve entre as outras, passos delicados que nem roçavam o assoalho, parecia. O próprio fato dela ir ao circulation tornando-se transparente. Porque todo cheio de graça e doçura.
Às vezes notava-se apenas quando ela não estava lá. Não se percebia como passara entre as carteiras, não se fazendo notar – branca, graciosa, loura, impecável. O circulation começou a ficar ocupado demais. Quem? Lúcia. Lúcia Moura. Voltava, mais branca, mais limpa, mais etérea, entre as carteiras circulava, circulando mais e mais, Lúcia Moura, circulação. As outras já em risinhos. Que a ela não chegavam, parecia. Tudo o que nela batia, voltava. Refrangia. De tão branca e limpa, Lúcia, Lúcia Moura, refrangia a luz, a brancura, a beleza, a pureza. As meninas estranhavam, o que faria tanto no banheiro, pardon, circulation? Os risinhos e comentários não a atingiam. Passava ao largo. Uma rainha. Às vezes levava um livro, um caderno, demorava. As mãos muito lavadas. O cheiro do sabonete. Lúcia Moura circulava.
Um dia Lúcia Moura levantou-se, pegou os cadernos, os livros todos, como quem ia embora. Foi até o cabide onde ficava a chave grande com medalha. Tirou-a do prego. Tomou a ala central da classe, passou (os cabelos louros, as tranças, a tranqüilidade), caminhou até o fundo, empurrou com lentidão a porta do circulation perante a classe atenta, desperta. Madre Marie-Jésus ficou parada, com o apontador na mão. Um silêncio. Lúcia, Lúcia Moura encostou a porta sem trancar. Pelo vão viam-se pedaços de gestos, a água correndo, seu barulhinho. A madre caminhou também pela ala central, as meninas se levantando nas carteiras, a freira escancarou subitamente a porta: Lúcia Moura parada, muito branca diante da pia, lavava cuidadosamente com água e sabão todos os livros, todos os cadernos cuidadosamente encapados de azul.
No dia seguinte Lúcia Moura não veio à aula. Nem nunca mais.
__________________
( Do livro de contos Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão – 2004)
Por Cecília Prada
Era uma vez Lúcia Moura.
Era uma vez no Colégio Notre Dame de Sion, no curso primário. O banheiro não se chamava banheiro. Nem toalete. Nem reservado. O banheiro devia ser chamado em francês, circulation. Tinha uma chave grande com uma medalha pesada, que ficava dependurada em um prego. O ritual desenvolvia-se assim: uma menina levantava-se, só uma de cada vez, nunca mais de uma. Jamais duas meninas juntas no banheiro, aliás circulation, não podia, no Colégio Sion ou em outros colégios de freiras. A menina em precisão se levantava, alcançava na ponta dos pés a chave dependurada no alto, atravessava a classe, abria o circulation que ficava no fundo, dava um tempo, voltava, recolocava a chave no prego.
Lúcia Moura – a blusa engomada, os pulsos juntos sobre a carteira, a pose de cachorrinho em atenção permanente. Sentada como se devia sentar à mesa, as madres ensinavam os três mots da educação, toujours (sempre as mãos apoiadas no tampo), parfois (às vezes o antebraço), jamais (nunca o cotovelo). Os cabelos louros em duas tranças grossas e bem feitas. A cara branca. Muito branca. A menina lavada. A menina de branco lavada. A menina que as mães das outras meninas apontavam: “Veja aquela menina, o seu uniforme, que engomado, que limpeza”. Menina-modelo.
Lúcia Moura tirava boas notas. Seus cadernos todos encapados de azul. E quando ela se levantava para ir ao banheiro, pardon, circulation, sua presença passava de leve entre as outras, passos delicados que nem roçavam o assoalho, parecia. O próprio fato dela ir ao circulation tornando-se transparente. Porque todo cheio de graça e doçura.
Às vezes notava-se apenas quando ela não estava lá. Não se percebia como passara entre as carteiras, não se fazendo notar – branca, graciosa, loura, impecável. O circulation começou a ficar ocupado demais. Quem? Lúcia. Lúcia Moura. Voltava, mais branca, mais limpa, mais etérea, entre as carteiras circulava, circulando mais e mais, Lúcia Moura, circulação. As outras já em risinhos. Que a ela não chegavam, parecia. Tudo o que nela batia, voltava. Refrangia. De tão branca e limpa, Lúcia, Lúcia Moura, refrangia a luz, a brancura, a beleza, a pureza. As meninas estranhavam, o que faria tanto no banheiro, pardon, circulation? Os risinhos e comentários não a atingiam. Passava ao largo. Uma rainha. Às vezes levava um livro, um caderno, demorava. As mãos muito lavadas. O cheiro do sabonete. Lúcia Moura circulava.
Um dia Lúcia Moura levantou-se, pegou os cadernos, os livros todos, como quem ia embora. Foi até o cabide onde ficava a chave grande com medalha. Tirou-a do prego. Tomou a ala central da classe, passou (os cabelos louros, as tranças, a tranqüilidade), caminhou até o fundo, empurrou com lentidão a porta do circulation perante a classe atenta, desperta. Madre Marie-Jésus ficou parada, com o apontador na mão. Um silêncio. Lúcia, Lúcia Moura encostou a porta sem trancar. Pelo vão viam-se pedaços de gestos, a água correndo, seu barulhinho. A madre caminhou também pela ala central, as meninas se levantando nas carteiras, a freira escancarou subitamente a porta: Lúcia Moura parada, muito branca diante da pia, lavava cuidadosamente com água e sabão todos os livros, todos os cadernos cuidadosamente encapados de azul.
No dia seguinte Lúcia Moura não veio à aula. Nem nunca mais.
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( Do livro de contos Estudos de Interiores para uma Arquitetura da Solidão – 2004)
03 agosto 2010
Confusões de terça-feira
Por Bia Pupin
Renata acorda 15h00, ainda sob o efeito do “miosã” ( MIOSAN 5 MG) , tomou 1 comprimido, 2 horas antes de dormir. A dentista lhe orientou para não sair sozinha, não dirigir e não beber enquanto estivesse sobre o efeito do remédio, pois é um forte relaxante e causa sonolência. Os remédios são prescritos, as recomendações dificilmente seguidas.
Ela observa ainda entorpecida a paisagem mostrada pela sua janela. É um dia chuvoso.
Pensa alto, suas confusões:
- Mentira! Eu não estou pronta, disse que estava, mas digo tanta coisa. (Sorri estranhamente, estiramento causado pela sua ATM.)
O que é uma mentira a mais ou a menos? Isso não é o problema, a sinceridade só me
alucina. Contesta.
Devido a dor física causada pela ATM, Renata procurou um neurologista, um psiquiatra, um fisioterapeuta, e por fim, foi parar no consultório de um dentista. Mas seu stress constante fez aumentar a inflamação no nervo. Laser, placa de oclusão, injeção na face, aplicação de botox, tudo parecia inútil-e mordia o canto da boca de forma inconsciente - reflexo nervoso.
Renata acorda 15h00, ainda sob o efeito do “miosã” ( MIOSAN 5 MG) , tomou 1 comprimido, 2 horas antes de dormir. A dentista lhe orientou para não sair sozinha, não dirigir e não beber enquanto estivesse sobre o efeito do remédio, pois é um forte relaxante e causa sonolência. Os remédios são prescritos, as recomendações dificilmente seguidas.
Ela observa ainda entorpecida a paisagem mostrada pela sua janela. É um dia chuvoso.
Pensa alto, suas confusões:
- Mentira! Eu não estou pronta, disse que estava, mas digo tanta coisa. (Sorri estranhamente, estiramento causado pela sua ATM.)
O que é uma mentira a mais ou a menos? Isso não é o problema, a sinceridade só me
alucina. Contesta.
Devido a dor física causada pela ATM, Renata procurou um neurologista, um psiquiatra, um fisioterapeuta, e por fim, foi parar no consultório de um dentista. Mas seu stress constante fez aumentar a inflamação no nervo. Laser, placa de oclusão, injeção na face, aplicação de botox, tudo parecia inútil-e mordia o canto da boca de forma inconsciente - reflexo nervoso.
02 agosto 2010
Ontologia Prática
Por Rafael Noris
Não vou pensar em teorias
enquanto tiver um peito
que bate no ritmo alegre
das cantigas infantis.
Não vou pensar em teorias,
passatempo dos que hesitam;
quero a voz de quem recita
versos e rimas de amor.
Não vou pensar em teorias,
longe de mim pensar algo:
hoje sou pura emoção,
prece de uma seita bárbara.
Não vou pensar em teorias,
ao menos não por enquanto,
não neste colo quentinho,
cujo carinho me embala...
Não vou pensar em teorias
enquanto tiver um peito
que bate no ritmo alegre
das cantigas infantis.
Não vou pensar em teorias,
passatempo dos que hesitam;
quero a voz de quem recita
versos e rimas de amor.
Não vou pensar em teorias,
longe de mim pensar algo:
hoje sou pura emoção,
prece de uma seita bárbara.
Não vou pensar em teorias,
ao menos não por enquanto,
não neste colo quentinho,
cujo carinho me embala...
01 agosto 2010
PROLEGÔMENOS: UMA RESENHA E UM SINAL-PROFUNDO DE CHALEIRA
PALAVRAS EM JOGO (*)
Crítica, ironia e sutileza em narrativas construídas com muito talento.
Por Milu Leite
Há muitas maneiras de descrever a prosa de Cecília Prada, mas talvez a menos restrita seja: trata-se de uma escrita que se constrói com palavras que dialogam de um estranho lugar com outras palavras até extrair delas, e de um jogo cambiante, um sentido poético único que a autora coloca a serviço de seus personagens.
As pequenas surpresas que nos reservam os enredos dos contos de Faróis estrábicos na noite (editora Bertrand Brasil, quinto livro de ficção dessa jornalista já premiada com o Prêmio Esso em 1980) imbrincam-se de maneira tão ajustada às variações de estilo narrativo que é praticamente impossível ao leitor não se perguntar por que a escritora não escreveu um livro maior, buscando ainda outras e outras experimentações.
Indo do registro autobiográfico (em “Tambores do Juízo Final”, o tema é a crise dos mísseis em Cuba) aos contos que homenageiam dois grandes escritores brasileiros (“Mané Fulô” baseia-se em conto de Guimarães Rosa e “Noite de Almirante”, em Machado de Assis), Cecília perpassa épocas, costumes e comportamentos, cutucando com o dedo de sua escrita culta e ágil as feridas sociais, as imposições estranguladoras da família, das escolhas erradas, das covardias inconfessáveis, do medo, do desespero diante da solidão, das armadilhas do acaso.
Para tanto, serve-se sobretudo de personagens femininas, mulheres que vivem até o limite, até o ponto onde tudo se rompe. É em “Leda Ledo Engano” que se expõe de modo mais agudo essa ruptura. Ao narrar a história de uma dona de casa exemplarmente imbecil e apartada de seus sentimentos verdadeiros, a autora talvez realize na ficção a transformação que anseia para as mulheres na realidade, a grande virada.
“Leda Ledo Engano” é a mãe-esposa que, inicialmente, vive como se não vivesse, depois vive como uma morta-viva para depois, de fato, nascer. O jogo metalingüístico desse conto corrobora a ideia de que a metalinguagem não é puro artifício, ela é o pilar que permite a uma história crescer, por embutir em seu enredo tudo aquilo que não caberia nele de outra forma que não esta. Ou seja, no caso específico desse conto dramático, a ironia, a crítica e um quê de leveza chegam ao leitor pelos apartes do narrador, por suas considerações a respeito da história.
Em “Manchas em um Tapete Persa”, a autora lança mão da narrativa em forma de carta para expor as entranhas da relação entre duas irmãs, a partir do ponto de vista de uma delas, uma mulher cindida pelo rancor e pela incapacidade de adequar-se ao mundo. Mas talvez não seja delirante demais dizer que se trata de uma única mulher, que as irmãs sejam de fato uma e seu avesso, e que o final anunciado mas ainda assim surpreendente seja apenas uma invenção, não apenas da autora, mas da personagem.
O jogo entre o que é real e o que é ficção, o gosto pelo deslocamento do limite entre verdades e mentiras, o esgarçamento do limite do ficcional são caros à autora e ela desliza por esse rio com a segurança que a sua poética lhe permite. Ao dizer as coisas à sua maneira e não da maneira que todos dizem (por exemplo, “Trilhas da Madrugada” começa assim: “Três horas da madrugada era coisa que nem existia, de tão linda.”), Cecilia já avisa ao leitor que não há verdade nas palavras, exceto aquela que ela cria. Por conseguinte, não há verdade na literatura, tampouco a vida se faz com verdades, como insistem em nos mostrar seus personagens.
Por esse prima, mesmo as incursões autobiográficas poderiam (deveriam?) ser questionadas. Lembranças de infância, da vida de estudante, de viagens feitas quando ainda era funcionária do Itamaraty, tudo se funde em uma bela prosa, que, em seus melhores momentos, cria um ruído, uma estranha inadequação entre conteúdo e forma, como no caso de “Aprendizado”, em que ela aborda o tema da ditadura militar como se falasse de poesia.
É interessante também a maneira como Cecília vai ligando um conto ao outro. Histórias tão distantes no tempo, nos extratos sociais enfocados, são mencionadas dentro umas das outras apenas pela inclusão de uma palavra-chave. É assim que a caixa de fósforos de um conto ganha outro significado em outro, é assim que uma personagem de uma história infiltra-se nas bordas da narrativa de outra.
Trata-se, enfim, todo o livro de um bom jogo de se jogar com a autora, porque ela o monta de maneira sutil, como se presenteasse o leitor com sua habilidade, sem prepotência, mas totalmente ciente de sua competência.
(*) Publicada na revista “Problemas Brasileiros” no.400, julho/agosto 2010
ALERTA: O LIVRO V DO PROJETO PORTAL ESTÁ VIGINDO:
Crítica, ironia e sutileza em narrativas construídas com muito talento.
Por Milu Leite
Há muitas maneiras de descrever a prosa de Cecília Prada, mas talvez a menos restrita seja: trata-se de uma escrita que se constrói com palavras que dialogam de um estranho lugar com outras palavras até extrair delas, e de um jogo cambiante, um sentido poético único que a autora coloca a serviço de seus personagens.
As pequenas surpresas que nos reservam os enredos dos contos de Faróis estrábicos na noite (editora Bertrand Brasil, quinto livro de ficção dessa jornalista já premiada com o Prêmio Esso em 1980) imbrincam-se de maneira tão ajustada às variações de estilo narrativo que é praticamente impossível ao leitor não se perguntar por que a escritora não escreveu um livro maior, buscando ainda outras e outras experimentações.
Indo do registro autobiográfico (em “Tambores do Juízo Final”, o tema é a crise dos mísseis em Cuba) aos contos que homenageiam dois grandes escritores brasileiros (“Mané Fulô” baseia-se em conto de Guimarães Rosa e “Noite de Almirante”, em Machado de Assis), Cecília perpassa épocas, costumes e comportamentos, cutucando com o dedo de sua escrita culta e ágil as feridas sociais, as imposições estranguladoras da família, das escolhas erradas, das covardias inconfessáveis, do medo, do desespero diante da solidão, das armadilhas do acaso.
Para tanto, serve-se sobretudo de personagens femininas, mulheres que vivem até o limite, até o ponto onde tudo se rompe. É em “Leda Ledo Engano” que se expõe de modo mais agudo essa ruptura. Ao narrar a história de uma dona de casa exemplarmente imbecil e apartada de seus sentimentos verdadeiros, a autora talvez realize na ficção a transformação que anseia para as mulheres na realidade, a grande virada.
“Leda Ledo Engano” é a mãe-esposa que, inicialmente, vive como se não vivesse, depois vive como uma morta-viva para depois, de fato, nascer. O jogo metalingüístico desse conto corrobora a ideia de que a metalinguagem não é puro artifício, ela é o pilar que permite a uma história crescer, por embutir em seu enredo tudo aquilo que não caberia nele de outra forma que não esta. Ou seja, no caso específico desse conto dramático, a ironia, a crítica e um quê de leveza chegam ao leitor pelos apartes do narrador, por suas considerações a respeito da história.
Em “Manchas em um Tapete Persa”, a autora lança mão da narrativa em forma de carta para expor as entranhas da relação entre duas irmãs, a partir do ponto de vista de uma delas, uma mulher cindida pelo rancor e pela incapacidade de adequar-se ao mundo. Mas talvez não seja delirante demais dizer que se trata de uma única mulher, que as irmãs sejam de fato uma e seu avesso, e que o final anunciado mas ainda assim surpreendente seja apenas uma invenção, não apenas da autora, mas da personagem.
O jogo entre o que é real e o que é ficção, o gosto pelo deslocamento do limite entre verdades e mentiras, o esgarçamento do limite do ficcional são caros à autora e ela desliza por esse rio com a segurança que a sua poética lhe permite. Ao dizer as coisas à sua maneira e não da maneira que todos dizem (por exemplo, “Trilhas da Madrugada” começa assim: “Três horas da madrugada era coisa que nem existia, de tão linda.”), Cecilia já avisa ao leitor que não há verdade nas palavras, exceto aquela que ela cria. Por conseguinte, não há verdade na literatura, tampouco a vida se faz com verdades, como insistem em nos mostrar seus personagens.
Por esse prima, mesmo as incursões autobiográficas poderiam (deveriam?) ser questionadas. Lembranças de infância, da vida de estudante, de viagens feitas quando ainda era funcionária do Itamaraty, tudo se funde em uma bela prosa, que, em seus melhores momentos, cria um ruído, uma estranha inadequação entre conteúdo e forma, como no caso de “Aprendizado”, em que ela aborda o tema da ditadura militar como se falasse de poesia.
É interessante também a maneira como Cecília vai ligando um conto ao outro. Histórias tão distantes no tempo, nos extratos sociais enfocados, são mencionadas dentro umas das outras apenas pela inclusão de uma palavra-chave. É assim que a caixa de fósforos de um conto ganha outro significado em outro, é assim que uma personagem de uma história infiltra-se nas bordas da narrativa de outra.
Trata-se, enfim, todo o livro de um bom jogo de se jogar com a autora, porque ela o monta de maneira sutil, como se presenteasse o leitor com sua habilidade, sem prepotência, mas totalmente ciente de sua competência.
(*) Publicada na revista “Problemas Brasileiros” no.400, julho/agosto 2010
ALERTA: O LIVRO V DO PROJETO PORTAL ESTÁ VIGINDO:
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