Por
Daniel Matos
Nossos sonhos são um efeito de nossa mente organizando nossas memórias do dia. Nossas memórias são apreensões de momentos construidas sobre significados de associações passadas. O presente interpreta o passado, o passado dá o conteúdo, ao conteúdo se adiciona o instante.
Um momento de tristeza é associado ao cheiro de camomila, pois quem o causou estava usando esse perfume. Em outra época o cheiro de camomila é associado a um chaveiro de palhaço, tocado ao mesmo tempo que um chá afluía seu vapor. O instante presente trás a tristeza, e na noite vem a visita do palhaço, a lembrar de momentos tristes aos quais nunca participou.
O cinema, o templo do sonho, trás toda uma nova galeria de associações para aquele que sente enquanto o visita. Dele afluem novas imagens, novas associações, para enfim vazar por nossas memórias ao campo dos sonhos. Pode-se sofrer a perda de alguém não entre as paredes frias de uma lanchonete onde se foi deixado com lágrimas a vazar, mas em vez disso dentro de um trem no ano 2046, assombrado por amores perdidos entre o neon. Pode-se ter reencontros, beijos, apertos, nunca mais a ser tidos no concreto, agora dentro de um carro dos anos 40, fugindo de mafiosos com suas metralhadoras. Pode-se se perder infinitamente num ciclo de novas lembranças que nunca deveriam ser tidas.