16 agosto 2010

Haicais de inverno




barulho na porta
me apresso pra receber
a visita do vento

azaleia em flor -
por um momento hesito
seguir meu caminho

amanheceu -
descubro em meu casaco
mais um buraco.

jardim de casa -
do monte de folhas secas
sai uma borboleta

frente fria -
a moça traça um coração
na janela do quarto.

mosca de inverno
pousa no papel em branco -
espero mais um pouco...


Publicados originalmente no blog Hai-kais.

14 agosto 2010

GALERIA DE SONHOS

Por Daniel Matos

Nossos sonhos são um efeito de nossa mente organizando nossas memórias do dia. Nossas memórias são apreensões de momentos construidas sobre significados de associações passadas. O presente interpreta o passado, o passado dá o conteúdo, ao conteúdo se adiciona o instante. 

Um momento de tristeza é associado ao cheiro de camomila, pois quem o causou estava usando esse perfume. Em outra época o cheiro de camomila é associado a um chaveiro de palhaço, tocado ao mesmo tempo que um chá afluía seu vapor. O instante presente trás a tristeza, e na noite vem a visita do palhaço, a lembrar de momentos tristes aos quais nunca participou.

O cinema, o templo do sonho, trás toda uma nova galeria de associações para aquele que sente enquanto o visita. Dele afluem novas imagens, novas associações, para enfim vazar por nossas memórias ao campo dos sonhos. Pode-se sofrer a perda de alguém não entre as paredes frias de uma lanchonete onde se foi deixado com lágrimas a vazar, mas em vez disso dentro de um trem no ano 2046, assombrado por amores perdidos entre o neon. Pode-se ter reencontros, beijos, apertos, nunca mais a ser tidos no concreto, agora dentro de um carro dos anos 40, fugindo de mafiosos com suas metralhadoras. Pode-se se perder infinitamente num ciclo de novas lembranças que nunca deveriam ser tidas.

13 agosto 2010

Portrait

Portrait


Por Wagner de Souza




Ao meu Irmão

Daniel Welbert.








Estagnação de ar estival
Toldando a estrídula intestinação dos arruamentos;
Surdo tatalar d´archaboiços entrechocados
Na deambulação vadia dos Boulevards;
Calhaus de antonomásias epitásticas
Atiradas à camaradagem pulha,
Na coprolalia das Brasseries;
Recatos ruborizantes de pudicícia susceptibilizada
P´la corrimaça frascária
Da puerícia excitada;


- 247




Maria, tua seda voz de querubim,
Colgando o ar d´harmonias celestiais,
É um panapaná de falenas eterais...
Tenuíssima música dessorando sobre mim!...


Na urbe, a sarapieira promíscua das defecações comercias,
Alcatifando a gorla estreita das cales,
À visualidade da retina senciente põe ilusionismos de “Crossword”...

11 agosto 2010

CONFRONTO

Por Eustáquio Gomes

Olho a palavra,
sua nervura
como se morte,
loucura.

Olho a palavra
fora de mim.
Não a tenho.
Não a quis.

Me olha a palavra
sua aspereza
detrítica, areia
de após a cheia.

Olho-a e me fere
sua raiz:
rasgo profundo
de operatriz.



{O poema acima foi publicado no livro coletivo Cara a Cara. Raridade. Encontrada graças aos Arquivos Incríveis de João Antonio Büher de Almeida}



10 agosto 2010

SONETO CÔNCAVO - Para Hilda Hilst


ILUSTRAÇÃO: Por Alan Carline

SONETO CÔNCAVO

Para Hilda Hilst

Por Marco A. de Araújo Bueno


Mesmo nesse recanto de nada e pressionado por silêncios – sintomia. Já nem me aflijo, já me acostumo aos poucos. Ao passarem por mim presumem que tenha me acostumado mesmo e esse olhar de soslaio – e como pode ser potente, taquitoscópico – chega a ser redentor, tal é a sua benevolência, presumida.
Mesmo inscrito nos códigos todos, nesse recanto, o nada – sintomia – resulta da confusão que faço com eles. São tantos que me lembram a fusão das cores no branco do Disco de Newton, sempre digo isso. E aponto para certa desertificação.
Mesmo neste momento, em que apalpo os tentáculos de um ciclópico mal-estar, em que me parece assim viscosa a sensação – sintomia – me vem uma vontade nervosa de rir. Não o riso nervoso – vontade ancorada no riso, premente.
Mesmo esgotado, mesmo desaflito e mesmo enojado do mesmo, decido que este sucumbir não me basta, que a vertigem ainda é débil e que o pior está por vir. Essa coisa arenosa vai ocupando muito espaço aqui no recanto; partículas invisíveis na brancura seca que habita cada um dos momentos que –sintomia – são o mesmo e são já!





09 agosto 2010

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