25 agosto 2010

RESSUREIÇÃO


Por Eustáquio Gomes

{À esquerda, poema da postagem anterior (vide referências); à direita, o poema de hoje. Ao centro, três dos cinco dedos da mão esquerda do nosso lítero-arqueólogo João Antônio Bürher de Almeida, habituados a interagir carinhosamente com os seus modelos n'OS ARQUIVOS INCRÍVEIS}. Para visualizar num tamanho maior, clique na imagem.

24 agosto 2010

MEA CULPA




ILUSTRAÇÃO: Alan Carline



MEA CULPA

Por Marco A. de Araújo Bueno


Pequena multidão, eclética;
Congraçamento cúmplice,
Acolhedor, homogêneo.

De fronte à Matriz, ascética,
Jovem estirado num banco
Recobra-se (temporal crise epilética).

Ergue-se do caos; constrangimento;
Disfarça a cicatriz da baba, ao lado
De gente alheia a seu momento.

Meus olhos acompanham; acaba
Ali, empático, nosso sofrimento sumido
No meu distanciamento, antiético, assim?

Pois ajeitando cabelo em face pálida,
Por fresta entre vultos e ruído em volta,
Volta e crava os olhos justo em mim.




23 agosto 2010

ESTELA

.


O céu tem mais espaço

que estrelas.

O céu tem mais espaço

para estrelas.

O céu tem mais espaço

sem estrelas.

O céu não é seu,

Estela.

.

21 agosto 2010

Má invasão




Anoiteceu na hora marcada. Um dia de semana, a família toda em casa. Ficamos na varanda para o papo antes de irmos deitar. Meu pai é sempre o primeiro a se recolher, contaminado pela rotina de trabalho cedo a cumprir. O irmão, conectado a outros mundos via laptop, jogava até o sono lhe calhar. Fomos entrando, deixando o relento para a próxima noite. Minha mãe, já quase fechando o portão que dava para o jardim, lembrou-me de minha xícara com chá esquecida sobre a mesa de palhinha lá fora. Peguei-a, então, pela base do pires quando senti a louça tremendo em minhas mãos. De repente, um clarão refletiu no piso e ergui a vista para o alto. Céu sem nuvem. Estrelas miúdas começaram a se mover muito rápido, aumentando de tamanho feito fogos de artifício.

Vizinhos em fala alta, aos sustos, eu de longe ouvia. Mamãe gritou para que eu entrasse logo, mas todos os meus músculos inerteceram ante o brilho do cosmos tão aproximado. Convenci-me quando começou a chover mais forte. As gotas grossas, meio pastosas. Um desespero me moveu a suspender uma cadeira para cobrir a cabeça. Parecia neve. Nunca havia nem geado perto da gente, pensei comigo em flashes tresloucados. Corri para abrigar-me. Senti que no breve trajeto de onde eu estava até a porta, aquela neve me crispava algumas partes do corpo. Bem pudesse ser a queimação friorenta das pedras de gelo sobre minha fina pele, porém aquilo me incomodava feito respingos de ácido. O medo adormecia qualquer ferimento provável.

Dentro, tudo apagado. Sem energia, acendíamos velas e tentávamos acionar os aparelhos eletrônicos que ainda funcionavam à bateria. Então, nós nos fechamos em um dos quartos, o maior, quarto dos meus pais. Rezávamos. Mesmo o meu ateu irmão orou à sua maneira para qualquer entidade superior àquela situação que nos fugia do esperado. Meu pobre pai não se movia apavorado, permaneceu em um canto. Tentei espionar pelas gretas da janela se o universo já tinha cessado fogo contra nós. Parou de nevar. Por minutos deu para aproveitar o alívio do silêncio, a não ser pelos choros e gritos que se ouvia vindos de todos os arredores da cidade. Último relâmpago, seguido por um trovão prolongado. O barulho era mais forte, entretanto. Algo de muito peso e tamanho havia atravessado o telhado da casa vizinha, onde guardávamos ferramentas, tinta, objetos sem uso. Não tive coragem de olhar. Desta vez, adentrava com toda força em nossa parede uma espécie de rolo compressor. Esmagava o concreto. Era tão feroz que, se tinha vida naquilo era movido pelo ódio. Queria nos destruir o caminho. Procuramos móveis altos, locais do recinto em que pudéssemos nos dependurar. Passou rápido. Em seguida, um rolete bem menor, lembrando um carretel desgovernado. Deste não tive receio, parei-o nos braços. Isto grudou em mim com uma gosma, de mesma ácida sensação que a da nevasca. Retorci feito lata de refrigerante, eu já com as mãos trucidadas. Derretia-me. Mas terminou.

A exaustão pairou sobre minha família, sentamos de um lado sem precisarmos mais lutar. Tentei telefonar para um amigo. Aos poucos, as coisas voltaram a funcionar, só que eu sempre esperava acontecer o algo mais, sempre o pior. O celular chamou, calmo ele atendeu. Às vezes, mudo ficava e a ligação era preenchida por choramingos de criança do outro lado. Eu dizia que o nosso fim havia chegado, belzebu à solta. Ele me tirou os demônios da boca e disse que era outra coisa. Era outra coisa? Meu choro entrecortado lhe disse que me aliviava falar e que se algo de muito ruim me acontecesse, que ele, meu melhor amigo, ouvisse o último adeus engolido em seco por um “eu te amo”. Nada escutei da sua fala ao final e explodi em pranto. Abracei os meus pai-mãe-irmão mesmo no chão. Se eu adormeci em seguida não lembro. Amanheceu. Olhei para o lado, minha mãe segurando uma vassoura, em defesa. Meu pai como que desmaiado em preces, amarrado em terços, como proteção. Meu irmão havia sumido. O coração com seus disparos rápidos novamente. Preparei-me...

Abrimos a porta. Uma sombra na parede. Silhueta de corpo pequeno, ombros estreitos, cabeça em largo formato. Minha mãe correu na direção oposta à sombra com a vassoura ainda em punho. Ela gritou horrorizadamente. Um homem loiro e forte, com mais de dois metros e meio de altura de sombra enganosa a imobilizou instantaneamente. Andei pela casa em busca de uma arma, algo pontiagudo, uma faca grande na cozinha, quando no corredor, no alto de uma parede estava o meu irmão morto com uma estaca enfiada. Urrei de desespero e corri para cima daquele ser que tentava se apossar também do corpo de minha mãe. Consegui derrubá-lo ao chão, agarrada às suas costas, dando socos em seu peito. Dentre os escombros pela casa, vislumbrei um par de hashis, aqueles pauzinhos de se comer comida chinesa e os meti no pescoço daquele bicho, que jorrava um sangue preto da jugular e se debatia.
           
Pesadelo: pesado elo com o imaginado. Abri os olhos e no susto da sonolência avistei uma morena tão alta quanto aquele extraterrestre do sonho em meu quarto. Cocei as pálpebras míopes, pude ver melhor. Por sorte, era apenas o cabide de roupas. O medo me deixou paralisada na cama por pelo menos dez minutos. Pensei em pegar o celular ao meu lado e telefonar para a minha própria casa, ao fixo. Mas resolvi enfrentar o traumatismo. Dobrei-me no colchão, fiquei sentada. Pôr os pés no chão eu não podia, pois achava que debaixo da cama um novo monstro havia se escondido, carregando lâminas na intenção de decepar meus calcanhares. Concentrei-me no possível do real e desci correndo até a porta. Abri. Só que a sensação de tragédia me dominou o restante de todo aquele dia.

19 agosto 2010

Trovas Etílicas


Por Marcelo Finholdt
 À família Finholdt

Bom é bem viver em Minas!
De alambique em alambique,
Nos botecos das esquinas,
Minha mente quer que eu fique.


Tento sempre em outro estado
Restaurar as tais enzimas,
Volto sempre para o fado,
Nos botecos das esquinas.

De alambique em alambique
Perfumado bebo, caio,
Elegante, fino e chique...
Neste pique então desmaio.

Minha mente quer que eu fique
Neste pique então curtido,
Exalando, neste dique
O meu fígado cozido.

Logo destilado fico
Sem o efeito de endorfinas,
Sem enzimas, sem penico...
Bom é bem viver em Minas!

18 agosto 2010

PALAVRAS DENTRO DE PALAVRAS

Por Cecília Prada

TALVEZ - ela se disse, de repente maravilhada com sua descoberta.
A única palavra possível e necessária: TALVEZ. Possível até mesmo antes do café da manhã. Palavra-tudo: armário, cabide, travessão e travessia. Palavra guarda-chuva. Palavra evocativa, mediúnica, trazendo todas as possibilidades, se balançando pra lá e pra cá, bonachona, permissiva - uma palavra que ia buscar os fios perdidos de suas histórias. Minha avó que se balançava na mangueira quando lhe gritaram: “Nhãna, desce já daí que tá na hora do casamento!”

TALVEZ - seus grandes braços. Também palavra-árvore, gênese, cheia de portas e janelas e sinos bimbalhando.
A única palavra necessária e possível, por onde, talvez, poderia repescar seus medos e hesitações e ir buscar tudo, sua infância, sua vida, sua galeria pessoal, aventuras, trambolhões, encontros, desencontros – enfim. Trazer seus cacarecos todos - pedindo desculpas por estar tudo em cacos, seus “fragmentos”, suas “descontinuidades”, diria, se seu nome fosse Walter Benjamin.

TALVEZ - colocando-a, bússola, na direção do possível. Sem a preocupação de achar o norte, bússola doida, descumpridora de funções, sem ter de achar isso, o rumo, a palavra certa-certinha, o ponto de vista — essa coisa sisuda, exigente e de óculos.
(Palavra que se acompanha de um ponto de interrogação, intrínseco. E seco. Mesmo que ele não esteja ali, palpável, retorcido como pescoço de frango depenado.)
Talvez – contar um episódio da infância? Qual?
Ou histórias prometidas, encantadas ou não tanto, amores? alguns pelos anos perdidos, preservados. Outros, tentativas e esboços, entre palavras perdidas. Ou nunca ditas – as essenciais.

Parou de escrever, levantou a caneta no ar como se a retirasse de um caldeirão e a sacudisse, tão molhada de emoção/espanto estava. Deixá-la à espera de fisgar o ar, palavras no ar, no corredor do Tempo, enquanto os dedos ficavam difíceis, amortecidos, e o braço estalava nas juntas.
E se não pudesse mais escrever? Esse, era o terror. Talvez....Talvez se...Talvez então devesse...

(E foi juntando cada vez mais palavras, palavras, palavras, foi produzindo ininterruptos bilhetes,cartas, e-mails, relatórios, contos, poesia, romances, e uma grande confusão – uma obra, enfim. Assim são os escritores. Seres que - talvez - tenham feito das palavras todas do mundo apenas envoltórios toscos, se não rebuscados até, onde procuram esconder sua devorante inexprimível irremediável solidão).


17 agosto 2010

Vitrine da lembrança, reinvenção recorrente

Por Bia Pupin

Se o mundo fosse um espetáculo de circo. Essa metáfora poderia certamente distinguir as diferenças entre as pessoas, há aqueles que assistem e aqueles que protagonizam.

O espectador se diverte com o palhaço, assiste as acrobacias, se assusta com o picadeiro. Os protagonistas encantam serpentes, criam atmosferas performáticas, domam leões e ursos. Os lugares não são estáticos é um passe de mágica, e pronto, tudo está fora do lugar. É como se imaginar no carrossel subindo e descendo, se entristece, se alegra, se entristece, se alegra...E na vida não há mestre de cerimônia que seja suficiente.

Nada melhor que pão e circo, que trás lembranças tristes de infância, triste porque ficou só na lembrança, com gosto de maça do amor, com cores caiadas em bege e rosa.

A equilibrista, soturna e angustiada, extravasa o medo humano do precipício, mas linda bem lá no alto.


Renata abriu uma velha caixinha de música e sonhou.
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