07 agosto 2012

ESSE TEMPO INSONDÁVEL...


Esse Tempo Insondável...


Por Marco A. de Araújo Bueno


Despedaçada, invadida pelas entranhas; vísceras expostas como caqui despencado ribanceira abaixo. Quase que jazia sobre superfície lajeada, viscosa, eivada de fibras viscosas vermelhas e globulências esbranquiçadas. Ao redor daquele mosaico destroçado, instrumentos pontiagudos de incisão e sondagem perfurantes e ferramentas percussivas em estado de repouso gritante transpiravam ainda ofegantes. Imersos naquela pulsação sinistra dos atos irreversíveis. A marcha wagneriana de fundo enroscou e emitia guinchos agudos de estourar os ouvidos. Um celular reclamando em sons de urgência.
Bêbado, com seu avental branco entreaberto, a genitália exposta à fresta da persiana que prometia mais calor pelo nublado metálico, ele estava confuso e exausto apoiando-se de costas numa geladeira escancarada ainda, o pulso esquerdo latejando de tanto cortar e mexer e perfurar, distendia-se ao longo do corpo exangue enquanto o direito alcançava o aparelho numa torpeza que se dissolvia – dever cumprido – pelos ladrilhos ensebados, escorregadios. Hora de prestar contas e planejar as ações seguintes, meticulosamente, contra o tempo e as expectativas tão desfavoráveis ao feito, atendeu: Alô! “Tânia, demorou! Operação melindrosa, deu trabalho sim, ufa! Ta feito!”
Cambaleou, tomou mais uma talagada e começou a jogar água naquele cenário que o manteve em tensão ótima até então. Ao passar o rodo lembrou-se que a área externa estava imunda e escorregadia também, mas o sol já ofuscava a vista pela porta de vidro toda embaçada. Pegou o celular, tonto, meio em êxtase. Nem precisava ir pro México, regozijou-se. Tamanha perícia, planejamento e muita fé no seu taco. Riu-se e lembrou-se do perito...Mas concentrou-se em limpar os vestígios todos daquela lambança. Depois arranjaria o resto, telefonaria...Teria esquecido algum detalhe?Franziu a testa, e aquela...:
“Tânia, minha tesuda, quase ia esquecendo, aquela sua bermudinha verde-musgo, bota ela que o almoço vai ser na mesa da piscina. Vou ligar pro meu amigo, aquele perito do churrasco do hospital. Virá com a namorada, ela faz a salada. Não disse que dava um ranguinho tropical hoje? Quer saber, antes de tudo vou me dar um choque térmico! É, um mergulhão de avental e tudo, pra cortar esta narcolepsia, essa aura de lagosta e caldeirada que me descalderou todo”, e gargalhou em disparada em direção à porta da área, sem ouvir o mas o caseiro não vinha pra limpar de manhãzinha?
Vinha.Veio, esvaziou a piscina e limpou toda a sujeira de folhagem do temporal da noite. Foi-se em silêncio. Ficou a foice: uma mancha vernelho-esbranquiçada de um metro e noventa, a três metros da porta de vidro esfumaçada; dois metros e meio da superfície escorregadia. Quase um simulacro do prato exposto sobre a bancada da cozinha, naquele instante em que Tânia entrou, sentou-se em posição de lótus e ficou meditando se fratura de crânio com morte cerebral não podia virar, com o tempo, alguma forma alentadora de...narcolepsia, depois de tudo. Qualquer virada; com tempo. Não irreversível!

04 agosto 2012

RECICLE UM FILME


Recentemente descobri uma nova modalidade de filmes, os fanedits, http://fanedit.org/, reedições de filmes famosos que desapontaram os fâs, ou até dos que não, para aqueles que só queriam ver como ficava de outra maneira. Modalidade popularizada pelo horror e trauma causado pelo prequel de Guerra nas Estrelas, que rendeu dezenas de reedições.

A questão dos fanedits é simples, por que jogar fora o que você mesmo pode consertar. Muitas ótimas idéias podem ser destruidas pelos próprios diretores, ou como é de praxe pelos produtores. Produzimos milhões de horas de material audio-visual que podem ser materia-prima para muitas novas possibilidades.

Do que assisti: uma reedição do filme True Romance, primeiro filme com roteiro do Quentin Tarantino, que foi bagunçado pelo diretor contratado e pelos produtores. Nessa versão, o filme segue minuciosamente o roteiro de Tarantino, e temos um filme muito melhor, como deveria ter sido, um filme que nunca seria lançado de outra forma. Vi duas reedições que combinavam as duas continuações do Matrix - meu trauma pessoal. Uma tira toda trama de Zion, outra reestrutura tudo numa nova versão. Nenhuma conseguiu salvar o que colocar dinheiro demais nas mãos dos irmãos Wachowskis estragou. Porém, também encontrei uma versão de 1 minuto e meio, que é perfeita. http://youtu.be/zXETAXXv7xE

Assisti também uma reedição dos três filmes de X-Men num só de 2 horas. O que também não salvou a falta de tato do Bryan Singer em saber desenvolver mais de 3 personagens numa história de 10, nem o fosso do terceiro.

E, por fim, uma reedição separando o Labirinto do Fauno em dois. Vi esse filme anos atrás no cinema, e sai de lá pensando "Uau, se eles não tivessem enfiado uma história clichê barata de guerra civil espanhola no meio da parte interessante do fauno, esse seria um ótimo filme!" Finalmente há essa versão perfeita.
Não cheguei a assistir, mas também li sobre séries de tv reeditadas como filmes, com todo tipo de trama tapa buraco jogada fora.

Imaginem agora as possibilidades dessas reedições caso a prática fosse mais difundida, caso não fossem as restrições impostas por leis de direitos autorais corruptas impostas por produtoras.

03 agosto 2012

EPITÁFIO


Epitáfio


No dia em que partir
Quero que seja definitivo!

Novas encadernações apenas se forem garantidas as páginas com  ...
As amizades com ;
. apenas no ódio e na desilusão.

No dia em que meu corpo se estilhaçar
Quero um milésimo de silêncio – e  nenhum mais
Seguido de beijos mil
Assim todos saberão - do que provei e o que perdi!
Seria possível que houvesse tantos beijos quanto abraços ternos

Ao anoitecer não me procurem nas estrelas
Não estarei lá!
Estarei trabalhando em favor dos nãos que recebi
Quanto aos sins, foram recíprocos.

Queria poder dizer que disse sim a tod@s.
Infelizmente
não foi possível.

02 agosto 2012

OTTO FINHOLDT #1


Por Marcelo Finholdt


(aos Finholdt)

Após um trago traqueostômico Otto Finholdt disse:
"Prondirá... este penúltimo trago? Prondirá esta chama?
Prondirá esta fumaça que - até nestora - encarrega-se d'Ottiar..."




01 agosto 2012

LIMITES






LIMITES


O poeta é ser de coisas certinhas: linhas.

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Tenho ódio do poeta:
preguiçoso e lascivo,
avarento, ainda por cima -
economiza palavras,
lápis e papel,
arrima versos na parede da esquerda
(como se fosse modesto, low-profile) ,
só para mascarar ambição que o faz projetar-se despudoradamente até o fim da aléia almiscarada do jardim das palavras tortas,
e ir se banqueteando, no escuro, de emoções requintadas
(e roubadas - e roubadas! ).




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