11 abril 2010

FRAGMENTÁLIA DE ANIVERSÁRIO TRIMESTRAL

ENSAIO E REFERÊNCIAS SOBRE MICRONARRATIVA –PARTE I

Márcio Almeida*
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Em Portugal, a Coleção O bairro, projeto minimalista muito original criado por Gonçalo Tavares, faz o maior sucesso. No Brasil, o pioneiro do miniconto Elias José (Prêmio Jabuti em 1974) publicou, entre outros, Fantasia do olhar, inspirado nas obras plásticas de Aldemir Martins; os jovens Max Machado, Kaluã e Ian Leite criaram um espaço virtual, no twitter e nos muros para provocar estranhamento com microcontos em sticker colados nas esquinas paulistanas, metrô, placas de ruas e orelhões; veículo de comunicação e cultura da maior importância como a Folha de São Paulo publica matérias sobre antologias dedicadas à micronarrativa produzida no Brasil, além de fazer recente homenagem especial no “Mais” ao artista multimídia Nuno Ramos. A cada dia, novas editoras põem no mercado novos autores, que também se lançam em edições independentes responsáveis pela amplitude do leitorado. Com uma variedade considerável de nomes, o miniconto já é ,hoje, considerado academicamente como gênero. Além da El cuento, por décadas editada por Edmundo Valadés, a cada ano novas revistas especializadas aparecem, impressas e eletrônicas, dentre as quais The Atlantic, Talk of the town (da The New Yorker) El cuento en red (talvez a principal referência em espanhol), Ekuóreo (colombiana, a primeira da América Latina dedicada exclusivamente à minificção) The Rose Metal Press Field Guide to Flash Fiction (considerada uma das melhores em inglês), Flash y Súbita, New Sudden Fiction e, no Brasil, a ex Phuraphroidy, de Jardinópolis, SP. O movimento da minificção já chegou ao rádio e ao teatro universitário. Universidade como a de Austin, no Texas, já oferece curso de pós-graduação sobre escritura minificcional e as classes de graduação mostram-se cada vez mais abertas à experimentação através de oficinas. Ganhadora do Prêmio Nobel, Nadine Gordimer afirmou que a consciência moderna, com seus ”clarões de terríveis revelações”, se vê melhor representada pela ficção breve. Pesquisa atualíssima produzida pelo National Endowment for the Arts para apurar sobre a diminuição da leitura nos Estados Unidos concluiu que o público que assiste a eventos desportivos lê mais literatura, o que vem justificando haver uma inundação de intentos literários via internet e, por conseguinte, de novos leitores. O minicontista Leonardo Brasiliense ganhou, em 2006, o Prêmio Jabuti. No Brasil, a microficção tem sido amplamente utilizada nos cursos de criação literária. Já são comuns, em diversas partes do mundo, eventos como simpósios, seminários, encontros internacionais e similares realizados com um sempre crescente número de participantes heterogêneos contribuindo para a discussão de questões do multiculturalismo. A minificção é analisada por um dos mais proeminentes especialistas do assunto, Lauro Zavala, como “o gênero mais didático, lúdico, irônico e fronteiriço da literatura”, cujo aparecimento, embora ocorrido nos princípios do século XX, coincide em sua expansão mundial com a prática da escrita digital, como forma de releitura dos demais gêneros. Segundo também Zavala, a minificção é “o antivírus da literatura”, e apresenta muitas razões para tal afirmação: “incita as crianças e outros leitores aprendizes a tornarem-se viciados em literatura; corrige os problemas daqueles que estão agarrados a um único gênero; permite a aproximação a obras monumentais a partir da acessibilidade do fragmento; facilita o reconhecimento da dimensão literária em diversas formas de narrativa, como o cinema, as séries audiovisuais e a narrativa gráfica; cria a possibilidade de reconhecer de maneira didática as formas mais complexas da escrita, ou seja, humor, ironia, paródia, alusão, alegoria e indeterminação; dissolve a distinção entre leitores de textos e criadores de interpretações; propicia que um estudante/leitor descubra a vocação do seu projeto de leitura; estimula o leitor mais sistemático a orientar sua investigação para terrenos inexplorados, não necessariamente associados à minificção, ajudando, enfim, a resolver problemas crônicos dos hábitos de leitura, agilizando as vias críticas e facilitando a livre circulação de convenções genéricas e da possível reformulação lúdica em cada releitura.”

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"Tietê"

Podia nadar, fazer regata. Hoje posso não jogar lixo nele.


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{ Publicado na Minguante [“Fado”] com o título “Tejo” – enviado em 14/Out./08 com remissão ao fragmento teórico da minha tese de doutorado, não publicado na seção “Microteorias” em edição anterior}

3 comentários:

Pedro B. M. Serrano disse...

o "posso não" (que é diferente de "não posso") expressa, em duas palavras, qual foi a consequência da mudança do rio Tietê. Muito bom.

Rafael Noris disse...

A minificção é para a literatura o que o punk é para a música.

Paola Benevides disse...

10! E para o frouxo fluxo da consciência: jazz.

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