08 setembro 2012

TERCEIRA-PELE


Nossa vida tão tênue tal um tecido aos rasgos de precipício. Qualquer quedinha parece despencar das montanhas mais rochosas. Homens parecem crianças saídas daquela propaganda de sabão em pó. As mulheres, bem, nosso desejo virou um sutiã pendido à ponta do iceberg. Bicos de seio enregelados perfuram transparências. O destino perdido no triângulo das bermudas gera preguiça de preparar a bagagem. Revê todos os filmes e seriados, de Titanic a Lost. Da janela da nave, uma limpa camisa estampa poeira cósmica. O navegador acena para as nuvens querendo trajá-las por conforto quase divinal. 

Deu chuva, a lavadeira corre para arrancar os panos do varal. Nas lavanderias públicas centrifugamos tempo, alvejando o colarinho sujo de batom da amante, assistindo a novela rodar nas máquinas cheias de calcinha alheia. Assim, vamos aos tanques e barrancos. Passar ferro na calça com vinco saiu de moda, a sua mãe já sabe, mas não custa avisar mais algumas vezes quando for fazer a visitinha ingrata de todos os meses. Mora sozinho, porém aluga a velha para serviços domésticos de vez em quando. O casal mudou há pouco, ela fofoqueira espreitou tudo da varanda. Vincularam guarda-roupas desde a primeira transa, constatou respingando suor da testa. Compartilharam gavetas, seringas, molhos de chave entre meias, brincos, pistola, canivete, colírio e drágeas, muitas drágeas. Teceram juntos réquiems para um sonho.


(...)

Risca de giz a professora um mapa-múndi sonhando com uma viagem à Itália, enquanto seu mais destro pupilo, o próprio sobrinho, grifa Dolce & Gabbana com caneta em seu vestido azulado, conferindo grife ao amarrotado da tristeza dela. Esboçou um sorriso e preparou-lhe macarronada no almoço com bastante tomate, só que logo desfez felicidade ao perceber o garoto melar no molho a manga comprida recém-engomada. De tanto medo, mordeu o guardanapo. Lá vinha a tia solteirona descontar suas frustrações de novo, com os olhos arregalados, fumegando mais que a panela cheia pela boca:  

- Me dá que eu lavo, pirralho escroto!

E o menino tentava imitar timidamente Caravaggio, desenhando, a lá Vik Muniz, uma Medusa com o garfo mergulhado na bolonhesa. Farto.



2 comentários:

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Paola, minha doce, onde se le - por uma necessidade quase divinal -, eu li - por uma necessidade quase individual!É porque já queria o texto todo pra mim (saudade das mônadas mais extensas)mal o pegasse. Que coisa!Gosto sempre, deste - mais.

Paola Benevides disse...

Querido Marco, bom te ler em mim por aqui sempre, estou de volta com a tela mental plana mais "widescreen". Acho que isso se deve ao fato de eu estar me revisitando as entranhas em estranhamento no presente momento, amadurecendo algo...

Quando sou parca com as palavras é por estar desbravando a rua, amando, só guardando tramas e tempo. Mas já voltei para casa, vim fazer uma faxina existencial e a escrita tem me ajudado a expor o experimentado com dedicação interior maior. Obrigada pela injeção de ânimo!

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