06 abril 2013

ESPLÊNDIDA



Daisy era feliz porque a porta se abriu dentro do sorriso dela, amarela margarida cultivada em vasinho de verniz, comprado no supermercado à esquina de casa. Tem durado o suficiente, pois recebe adubo, banhos solares e de água corrente todos os dias. De vez em quando, pega umas chuvascas noturnas também, choros de lua, serenos que funcionam como lustradores das reentrâncias petalares a acumularem poeira, asfalto, olho grande... Frágil, porém hábil e eterna em sua circunstância fugaz. Fazia a fotossíntese das experiências.

Percebeu que a planta era extensão do cuidado de seu corpo. Se a saúde ia mal, a flor murchava na janela, virava o talo para longe da rua, abaixava a cabeça, antissocial. Na tristeza, era proibida de tocar nas folhas, que logo se punham adoecidas, de cor marrom-escura. Assim como absorvia o calor das manhãs, captava a energia das pessoas. Os adultos eram seres muito carregados, notava através das áureas índigo quando próxima das crianças a brincar na praça. Vindos do trabalho, saídos da frente dos aparelhos televisivos, celulares, computadores, acabavam se mecanizando, perdendo fluidos - eram parte seiva, parte óleo. Todos os ciborgues deveriam tirar um dia na semana para um passeio ao mar ou à cachoeira sem temer a ferrugem; ir às montanhas, aos parques, a fim de se reconectarem com a natureza, que é consigo no signo próprio do ser e com o próximo: abrigar o interior no equilíbrio.

Houve uma tarde em que se arrancou os mal-me-queres feito ervas daninhas e bem se quis sozinha. Foi quando um colibri a beijou e saiu a flutuar quase sem asas, pelo movimento veloz de se fazer sumir em pleno voo à ilusão de ótica dos humanóides. Daisy foi polinizada, então abraçou suas sementes como quem põe seus rebentos no colo. Depois que germinou, passou a ser povoada. Transformou seu redor em jardim.

Daisy (do inglês) traduz-se por: margarida; bem-me-quer; coisa esplêndida.

2 comentários:

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Eis o primeiro texto ficcional sci-fi, elegantemente sci-fi, diga-se, que não de minha safra! Belíssimo!

Paola Benevides disse...

Saudades daqui, de tu, tudo e todo mundo. Gratidão...

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