14 março 2010

FRAGMENTÁLIA VI -


FRAGMENTO TEÓRICO VI

Aqui, e antes de prosseguir arrolando pontualmente elementos propostos por um ou outro teórico, a partir da idéia do conto como arranjo cuja eficácia dependa de sua intensidade como acontecimento puro, ou seja – autônomo, proponho, abstraída de seu datado contexto estruturalista, uma definição para a narrativa breve ou brevíssima (como a de tipo monofrásico) que, de todas quantas vicejaram em complexidade e extensão no auge do estruturalismo, sempre me pareceu a mais econômica e funcional, até pela sua impermeabilidade às concepções ideológicas mais dogmáticas, a noção de estrutura tomada ao lingüista dinamarquês Louis Hjeumzlev, brevíssima, para definir operacionalmente o microconto, acrescendo a ela apenas dois elementos fundamentais. Já recorri a esta definição quando se tratava de esclarecer (em cursos, congressos, etc.), o parentesco da teoria lacaniana (do inconsciente estruturado como linguagem) com a de Lévi-Strauss na antropologia (mitos), Saussure na lingüística (sistema da langue) e Barthes na semiologia. Daí minha escolha conceitual, informada tanto pela questão epistemológica quanto empírica recair sobre o atual objeto de estudo nestes termos: microconto é uma entidade autônoma de interdependências internas [até aqui, a estrutura de Hjeumzlev] investida de narratividade e literariedade, cuja eficácia funcional é inversamente proporcional à extensão de seu enunciado sintagmático. Em que pese a arrogância de aparência notadamente cientificista, tal definição parece-me apropriada a um entorno de natureza aurática (o efeito epifânico que produziria no leitor) e à atmosfera metalingüística em que se insere o desafio da tessitura do objeto que tento definir. Resulta tão provocadora e quase tão polimorfa como a própria definição de conto. De fato, quando José Castello (2007) recorre à etimologia da palavra (do latim, “computus ”, também no sentido de cálculo) ressalta na competência lingüística (no mínimo) em que consiste este esforço rigoroso, atento e preciso do autor de contos, sua perícia, no desafio da luta contra o que seja excessivo, supérfluo. Esta última idéia é controversa (vide o Barthes de S/Z), mas definir microconto sob a égide canônica da definição do conto como uma narrativa breve e concisa, que apresenta unidade dramática [recordemos Aristóteles] e tem a ação concentrada em um único ponto de interesse, significaria recair na vagueza, na superstição (vide Poe e suas obsessões) ou pior, num pseudo antidogmatismo dispersivo ou tautológico, como a clássica definição de Mário de Andrade (e outros...) segundo a qual, ”conto é tudo aquilo que chamamos de conto” que viria a estender-se para a crônica, etc, etc. Castello sustenta que cada escritor deve criar e fixar sua própria definição de conto e Giardinelle, escritor argentino que publicou o conhecido Assim se escreve um conto, sustenta que o conto é “indefinível”. Tal herança certamente chega a impregnar a noção de microconto, precisamente naquilo que tange às incontáveis prescrições hodiernas sobre o número de letras, de caracteres, de linhas, páginas.O ponto de estrangulamento é atinente a extensão. Mas, se assentarmos alguns termos da definição que proponho aqui, (até para que seja superada) de forma mais ou menos inequívoca, dentro de contornos conceituais que recobrem a noção de narratividade, não terá sido em vão que a tenha estabelecido da forma como o fiz.Assim, a propósito, no “mosaico” com que lança algumas bases para o estudo narratológico dos microtextos, Spalding Perez, retomando como essencial o elemento ação no texto narrativo e a afirmação de Barthes, segundo a qual, não existiria uma só narrativa desprovida de personagens, tomando C. Bremond (1973), acrescenta a sucessão e integração como elementos essenciais à narratividade: onde não há sucessão não há narrativa (e sim deduções e descrições estanques) e: onde não há integração não há narrativa (e sim cronologia e arrolamento de fatos não relacionados entre si). Acrescentará a essas quatro condições à narratividade, um quinto elemento, tomado a Greimas: a totalidade da ação. E, se entendermos por literariedade a propriedade que distingue o discurso literário dos demais, teremos fechado o círculo no qual inscrevi os termos da definição de microconto que aqui propus. Quanto à circularidade, a questão do título dos, doravante, abreviados como Mcs e um ou outro elemento periférico à teorização principal, serão retomados no desenvolvimento melhor escandido deste meu condensado de fragmentos da tese de doutorado (UNICAMP/2008).Dentre eles, a questão do movimento, quando equacionado junto à rapidez (I.Calvino) e o deslocamento (tal como o descreve Freud (Die Traumdeutung/1900), ligado ás metonímias, essenciais á brevidade.

“Ao Céu, no mar”.

Padre subiu, alçado por mil bexigas. Glória? Adeus, nas alturas...

[Mc monofrásico de dez palavras, do corpus de trinta micros que ilustram a tese “Brevidade e Epifania na Micronarrativa Contemporânea”/2008]

***


Na ponta dos pés: sonha que é bailarina, rindo bêbado ao entrar em casa.

4 comentários:

Tsu disse...

Não podia deixar de comentar a foto. Ótima montagem no photoshop! Criativo e bem feito

Bruno Cobbi disse...

Atrasado, mas visitado e fragmentado!

Rafael Noris disse...

Gostei muito de tudo, claro, sempre há ótimos referenciais de estudo por aqui.

Uma sugestão (talvez uma experimentação para o próximo): que tal as teorias como flashes? Acentuaria o caráter de drops teóricos e seria um exercício para "microcontizar" as teorias.

Sobre o micro seu, de fato epifânica a ironia que mistura o simbolismo de um Alphonsus de Guimaraens aos delírios áereos de um padre que não entendeu bem o Hosana [Glória] nas alturas.

Marco A.de Araújo Bueno disse...

O ciclo Fragmentos Teóricos está completo (do painel sobre o gênero a esta definição operacional aqui)de forma que prosseguirei pinçando achados aqui e acolá (a literatura é acanhada)e publicando a Biblioteca compilada pelo Gorj.Fechou um antigo anseio de fazer frente à resistência acadêmica ao objeto Microconto, evidente nas dificuldade (eufemismo, aqui)peitada pelo Spalding na UFRGS (Mestrado)e por mim, na Unicamp; ambas em 2008.Dou por encerrada a lacuna que o único site internacional a respeito (www.minguante.com) revelou ao estagnar espaço semelhante e deixo aberto o espaço permanente, na Fragmentália,à pesquisa e metabolização do que foi publicado e - certamente - estará a salvo em futuro formato não editável.Grato pelo comentário.

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